Destinados
22 A lenda
Notas iniciais

– Jasper, eu nem sei por onde começar... – Carlisle sentenciou, e eu não fui capaz de esconder meu choque em consequência às suas palavras.
Ele era o mais velho de nós, não só teoricamente, já que ele havia sido transformado em torno de seus incompletos vinte e sete anos, mas na prática, com trezentos e mais de sessenta anos de ingresso nessa utópica forma de vida... Sua experiência sobre quase tudo sobrepujava o que qualquer um de nós poderia sequer imaginar, e hesitação era uma característica que ele nunca havia demonstrado, ao menos não nos mais de cinquenta anos que eu convivia com ele.
– Quando Edward me pediu para que partíssemos... – ele falou com sua calma inabalável, sentando-se em sua poltrona atrás da mesa grande de mogno onde costumava passar horas e horas estudando os mais diversos assuntos – Eu pensei apenas na segurança de Bella, e na dor que ele estava sentindo... – ele me olhou com olhos de um verdadeiro pai, remorso e mágoa fluindo dele em direção a mim, atestados em seu olhar intenso – Eu ignorei a confusão a qual você deveria estar enfrentando... Eu alienei a mim mesmo de sua dor e por isso... Eu sinto muito, filho...
Edward e Alice estavam ao meu lado, prostrados em suas imóveis figuras, enquanto eu respirava fundo e me sentava na cadeira diretamente em frente ao líder de nosso clã.
– Eu imaginei que você seguiría conosco... – ele continuou com os olhos sobre mim – E que eu teria tempo para me desculpar por minha omissão, por minha falha, assim que chegássemos a Denali, mas... Quando Alice desceu do carro sozinha... – ele direcionou um olhar terno e preocupado para ela – Eu soube que tinha errado mais do que poderia ter calculado....
– Carlisle, eu não... – tentei.
– Por favor, Jasper. – ele pediu, me interrompendo com sua compassibilidade – Não provenha justificativas para o que é injustificável. – suspirou – Eu sou, eu assumi, do começo, a figura paterna desta família. Eu sei que você sempre se sentiu um intruso, e acredite que eu tentei de todas as formas possíveis, lhe assegurar que essa não era, nunca foi, a realidade, mas eu quis respeitar seu tempo, eu acreditei que você enxergaria tudo como realmente era com o passar dos anos, não quis apressar, atravessar seus limites, porque eu sempre vi o quanto sua alma era ferida, frágil, e nós todos tinhamos que ser cuidadosos quanto a lhe provar que você era, e é um Cullen. – Ele passou os dedos pelos cabelos num gesto quase nervoso, e suas emoções me provaram o quanto ele se culpava – Mas eu falhei. Eu falhei por ter acreditado que te dar espaço era o melhor a se fazer, quando na realidade... Era o oposto. Eu deveria ter forçado um pouco mais, me feito mais presente, demonstrado a você o quanto você é como todo o resto dessa família... – Carlisle estendeu a mão por sobre a mesa, tomando minha mão num aperto seguro – Essencial. – seus olhos ressecados me disseram mais que seus sentimentos, e eu suspirei alto, aninhando o amor sincero que ele projetava pra mim – Você é meu filho, tanto quanto Edward e Emmet, Rosalie e Alice. E eu deveria ter estado ao seu lado... Eu sinto muito...
Foi só então que eu identifiquei as emoções de Edward e Alice, que se mantiveram em silêncio todo o tempo em que Carlisle falava.
Eles estavam muito mais que emocionados, e compartilhavam dos sentimentos de nosso pressuposto pai mais do que eu poderia ter acreditado.
– Eu não guardo qualquer rancor sobre o que aconteceu depois do aniversário de Bella. – assegurei – Eu fui o único culpado pela quase ruína dessa família, sou eu quem deveria estar me desculpando.
– Não Jasper. – Carlisle sentenciou com firmeza – O que aconteceu aqui naquela noite não foi culpa sua, e eu, mesmo antes da última conversa que tive com Alice – eu a fitei rapidamente com um olhar questionador, mas ela apenas moveu a cabeça num assentimento mudo – soube que você estava movido por algo fora de seu controle.
– Como assim? – perguntei, verdadeiramente confuso.
Ele suspirou antes de falar.
– Você capta, absorve pra ser mais exato, todas as emoções ao seu redor... – seu tom era lementoso – Somente depois que parei para realmente analisar o ocorrido, quando já estávamos no Alaska, foi que entendi que sua sede estava multiplicada por seis...
– Por cinco, você quer dizer... – o corrigi.
– Não. – negou com a cabeça, um sorriso triste nos lábios – Eu posso ser o mais velho e controlado de nós, mas eu ainda sinto a ânsia em mim, por menor e mais contida que ela seja... – eu senti meus olhos aumentarem um pouco com o choque – Sim, Jasper, eu sou um vampiro como todos vocês e o fato de meu controle ser excelente, não me impede de querer o que é de nossa natureza desejar. – expirou alto – Enfim, além disso, a sede de Edward, que é intensa e praticamente agonizante em relação ao sangue de Bella, teria elevado esse número... Você não estava sozinho quando agiu em favor de seu impulso, porque o impulso não era apenas seu.
– Bella soube disso no instante em que tudo aconteceu... – falei mais pra mim mesmo, me lembrando da conversa que tivemos quando ela me descobriu em seu quarto.
– Ela soube? – ele indagou com um sorriso mais sincero, e pulsando uma emoção estranha de contentamento que me deixou inquieto.
Eu suspirei. Essa era minha deixa pra começar a abordar o que realmente era importante.
– Existe algo que eu quero muito conversar com você... – falei, ansioso para começar a tratar de minhas questões relacionadas a Bella.
– Alice já me adiantou um pouco o assunto... – eu olhei pra ela novamente, que deu de ombros como se pedisse desculpas – Ela não me revelou tudo, Japsper, e o que me revelou foi apenas por eu ter insistido. – Se adiantou a explicar, percebendo meu movimento e acreditando que eu talvez estivesse aborrecido.
Mas eu não estava aborrecido com Alice por ter se antecipado. Na verdade eu estava até agradecido, mas eu precisava saber até que ponto ela tinha deixado Carlisle ciente do que estava acontecendo.
– O que você disse a ele? – falei num tom sereno.
Ela sorriu, reconhecendo minha tranquilidade.
– Que você e Bella compartilham de uma estranha conexão... Que o sentimento entre vocês é mais forte do que algo que já tivéssemos visto ou experienciado, e que você estava confuso quanto à natureza de tudo isso...
– Eu também comentei algumas coisas... – Edward se pronunciou, e eu o olhei com estranhamento.
O que ele poderia ter para comentar?
Lendo a pergunta em meus pensamentos, ele sorriu fracamente.
– Eu sou um bom observador, Jasper... – respondeu minha indagação muda – Além do mais, eu posso ver o que vai em sua mente a maior parte do tempo...
Eu devería ter considerado isso é claro, não era como se fosse uma surpresa, mas eu havia sido extremamente cuidadoso quanto ao que pensar em torno da situação quando ele estava por perto...
Então algo em sua sentença capturou minha atenção.
A maior parte do tempo?
Compreendendo minha dúvida, ele suspirou.
– Eu tenho tido alguma dificuldade em acessar seus pensamentos... Principalmente quando Bella está por perto. – eu o olhei em choque – Eu ainda posso ouvir, mas é como se você estivesse a quilômetros de distância... Eu preciso me concentrar para compreender o que você está pensando.
– O que isso significa? – indaguei em voz alta.
– Uma coisa de cada vez. – foi Carlisle quem falou, e eu voltei minha atenção a ele – Vamos partir do começo. – eu assenti, e ao meu lado Alice se sentou em uma das pontas da mesa – Quando Alice me contou, ainda em Denali, sobre as visões que teve sobre você e Bella, tudo começou a fazer certo sentido... – ele falou num tom baixo e pensativo – Ao longo do tempo em que convivemos com Bella, eu havia notado algumas coisas... Hoje eu penso que eram os sinais... Ainda muito sutis... Mas na época eu não dei atenção...
– Que sinais? Sobre o quê? – questionei quietamente.
– Desde a primeira vez em que ela pôs os pés nessa casa, e dai em diante, sua feição, sua postura, mudava... – eu suspirei em perplexidade. Eu não tinha notado aquilo, mas ele tinha – Era como se essa eterna aura de cansaço e melancolia que você carregava, dissipasse. – ele inspirou forte, e eu o imitei, nervoso – Eu acreditei que tinha haver com o fato de Bella ser tão inocente e jovem, leve, e com o seu dom, você fosse contagiado por ela, pelas emoções dela, e isso fosse o fator que alterava sua postura sempre que ela estava presente. Depois teve o incidente com James, e a maneira como você se tornou tão protetor dela... – Edward expirou ao meu lado, um tanto incomodado, e eu acreditei que ele devia estar se perguntando porque não havia percebido tudo isso antes. – Veja, eu não analisei tudo isso, não parei para pensar em tudo isso na época, mas eu assimilei essas informações ainda que de forma inconsciente, e tudo voltou a mim aos poucos depois que Alice me contou que havia visto você, apaixonado por Bella, e ela correspondendo ao sentimento... Ainda considerei que vocês se voltarem um para o outro fosse apenas natural... Dada a convivência que vocês estavam tendo, que nós soubemos estar acontecendo através das muitas visões de Alice... E eu acreditei que talvez fosse apenas isso até alguns dias atrás...
– Mas... – incitei.
– Mas o pouco que Alice e Edward me falaram... – ele pausou, parecendo pensar sobre como me dizer aquilo – Eu conheço a lenda... Eu reconheço os sinais...
– Que lenda? – meu tom era baixo e extremamente ansioso.
Me virei para Edward identificando a alteração súbita e sutil em suas emoções.
Ele se colocou ao meu lado, uma de suas mãos pousando em meu ombro, enquanto Carlisle retomava.
– Você alguma vez ouviu falar sobre... A lenda dos... Destinados? – me indagou, e essa certeza que reinava em seu âmago me inquietou estranhamente, e eu me remexi sobre a cadeira em que estava acomodado.
– Não... – foi tudo que consegui responder, atordoado com a gama de sentimentos que inundaram tudo ao meu redor.
– Carlisle, – Edward falou num tom solene – me deixe falar algo antes, por favor.
Nosso “pai” assentiu para ele, e eu me voltei para Edward com olhos e ouvidos atentos.
– Quando eu estava com Bella, e questionei o fato de, mesmo o sangue dela sendo irresistível pra mim... – ele suspirou – Mesmo sabendo que a essência dela era o néctar perfeito pra mim, que eu nunca havia provado e queria provar como nunca quis nada mais na vida... Eu não conseguia evitar os sentimentos, as emoções que ela me provocava... – ele fechou brevemente os olhos, saudade e mágoa vibrando dele, depois me olhou com firmeza – Eu considerei que éramos destinados... Afinal eu era o predador designado a ela... Ela era a presa designada a mim e ainda assim... Eu não conseguia evitar essa... Atração... – eu engoli o ciúme com alguma dificuldade, eu não tinha direito de me irritar com as memórias dele em relação à Bella – Eu conhecia as histórias, porque eu havia ouvido nos pensamentos de Carlise quando ele considerou essa possibilidade, e me deixei iludir... – negou brevemente – Eu queria tanto que fosse verdade que ignorei, como ele, os sinais...
Impaciente, confuso e atordoado, eu pisquei os olhos com força antes de demandar.
– Do que vocês estão falando? – meu tom soou duro, mas eu não me importei – Que sinais?
– Essa lenda existe em nossa escrituras mais antigas... – Carlisle assumiu o fardo da revelação – Ela afirma haver um tipo de ligação trascedental entre duas almas... Almas gêmeas, se assim lhe aprazer... Impossível de ser quebrada, mesmo quando uma dessas almas é presa à eterna vida, como em nosso caso. – ele respirou fundo – O fato de uma das almas estar livre para desapegar-se do corpo, após a morte, não a isenta da ânsia de buscar por seu par, ainda que este esteja preso ao... “Limbo” – ele fez as aspas com os dedos no ar – de uma vida eterna. Em palavras simplificadas... Uma alma presa a um corpo de vampiro, se for a metade de uma alma liberta, chama a outra até que ambas se encontrem, até que estejam juntas, até que possam se unir não importa de que forma...
– Eu acho que não estou entendendo... – murmurei.
– A lenda diz que que almas destinadas se buscam pela eternidade. – Edward continuou por Carlisle – Que se atraem, demonstrando sinais, para que sua outra metade a reconheça, e elas possam se fundir uma vez mais...
– Você estão me dizendo que...
– Bella compartilhar de seu dom é um sinal mais que eloquente. – Edward sentenciou com tristeza borbulhando em seus olhos e em seu interior – Almas destinadas compartilham tudo, porque são parte uma da outra. Quanto maior a proximidade entre elas, mais intenso é o compartilhamento de suas capacidades... – ele suspirou alto e passou as mãos pelos cabelos antes de continuar – Quando você me permitiu ver suas memórias, logo que voltei... Eu entendi, mas não quis acreditar... – negou com um sorriso melancólico nos lábios – Não era só o fato de você poder senti-la a longas distâncias, mas o fato dela poder sentir o que você sente sem que você esteja projetando pra ela, e mais... Ter a capacidade de se comunicar com você através das emoções de ambos... É como... Se vocês fossem... Uma única alma em dois corpos diferentes...
– Você nem mesmo acredita que temos alma... – argumentei ainda preso à perplexidade de estar considerando o quanto aquilo fazia sentido.
– Não acreditava... Até considerar que eu e Bella éramos destinados... E depois de ver suas memórias... – ele negou, a voz esvanecendo com a tristeza que ele sentia.
Eu olhei para Carlisle, tentando não me deixar levar pelo desejo intenso de que essa fosse a explicação para tudo que estava acontecendo entre eu e Bella, porque eu precisava ponderar, ser racional, eu precisava de mais evidências.
Ele suspirou e olhou pra Edward por um breve segundo, antes de me fitar com veemência.
– Quando você atacou Bella no aniversário... Você não estava intencionando drena-la... – não foi uma pergunta, e ele permitiu que as palavras pairassem no ar por um instante.
Afastando a perplexidade por ele parecer entender que eu não havia querido machucar Bella, eu respirei fundo, determinado a ser completamente honesto.
– Existia a ânsia de provar o sangue dela, mas o desejo mais forte... – eu hesitei, notando Edward prender a respiração e tentar conter a inveja e a mágoa que sentia – Era de fazer com que a essência dela... Se misturasse à minha.
Eu baixei meu olhar, constrangido ao extremo por minha confissão.
– Você queria transformá-la... – novamente não havia sido uma pergunta – Seu impulso era fazer dela uma igual, mas não qualquer igual... Uma vampira marcada com o seu veneno. Você queria marca-la como sua, clama-la.
Eu o olhei contendo o choque por ele ter conseguido colocar em palavras, num mísero minuto, o que eu havia demorado um longo tempo pra compreender, aceitar e definir em mim mesmo...
– Sim. – assumi – Era esse o impulso. E ele era impossível de ser controlado, eu ainda não faço a menor ideia de como consegui evitar no último segundo.
– Vocês se fitaram intensamente até que Emmet e Alice reagissem e agarrassem você... – foi Edward quem falou, baixo, tristonho – Eu estava bem na sua frente, protegendo Bella, mas seu olhar parecia ser capaz de perfurar meu corpo e enxerga-la através de mim... E ela te olhava da mesma forma e... – ele expirou forte – Como eu pude não ter notado...? – perguntou a si mesmo – A expressão de medo nos olhos dela era clara... E eu acredito que foi...
– Foi isso que me impediu. – confirmei olhando pra ele – É a coisa mais clara em minha memória sobre aquela noite... Os olhos dela, refletindo o quão animalesco eu parecia... – baixei minha cabeça mais uma vez, negando fracamente.
– Eu considerei que havia sido exatamente isso que tinha acontecido... – a voz de Carlisle me pareceu segura – E esse é mais um sinal.
Eu o fitei com dúvida expressa em meu semblante.
– Ainda que o objetivo das duas almas, segundo a lenda, seja se fundir em uma só, e isso signifique que uma delas tem de passar por um processo de transição, nenhuma delas age sem o consentimento da outra... Mais uma vez simplificando... Se você e Bella são mesmo almas destinadas, como eu já não tenho mais dúvidas de que são, você só seria capaz de transforma-la quando ela lhe desse permissão para isso.
Eu passei um longo minuto em silêncio, assimilando todas aquelas informações e digerindo o quanto elas eram, sem sombra de dúvida, coerentes... Fazia completo sentido... Ainda mais considerando minha descoberta no Texas...
– Existe um outro sinal... – eu murmurei, e notei Alice sorrir enquanto uma onda de realização e entendimento a tomava – Quando estávamos no em meu rancho... – Carlisle sabia da viagem, Alice havia mantido ele informado sobre o que acontecia enquanto ele aguardava por uma resposta quanto a ser conveniente retornar – Alice descobriu essa carta... E uma foto... De alguém do meu passado humano... – Os olhos de Carlisle aumentaram um pouco, e interesse era tudo que emanava dele.
A menção do fato trouxe a imagem à minha memória, e eu ouvi o arquejar baixo de Edward antes de identificar a surpresa dominando suas emoções.
– Eu não me lembro dela... – continuei – De absolutamente nada que aconteceu relacionado a ela mas... Mas eu... Tinha uma noiva... O nome dela era Isabell... E ela... Ela...
– É Bella. – Edward determinou com a voz grave e saturada de perplexidade.
Carlisle olhou pra ele, depois pra Alice e então se voltou pra mim.
– A foto que Alice encontrou nessa carta, através da qual eu descobri que havia sido noivo antes de partir para a guerra, fala mais que qualquer palavra...
Ele entendeu o que eu sugeri, e então assentiu.
Eu trovejei do cômodo ao meu quarto, peguei o que precisava, e retornei em dois segundos, estendendo a ele o envelope desgastado assim que parei novamente em sua frente.
Carlisle retirou a carta e a imagem com cuidado, se concentrando rapidamente nas palavras escritas e só então tomando a pequena fotografia em seus dedos.
Sua expiração alta e o choque que ele projetou me asseguraram que ele compreendia meu ponto.
– É Bella. – ele murmurou com contentamento dançando em sua voz, e Edward, que podia ver exatamento o que ele via sem ter de se aproximar, suspirou ao meu lado, mais tristeza o inundando – Não há como argumentar, isso prova que a lenda é real...
– Tem mais... – eu suspirei, contendo a satisfação por finalmente estar encontrando uma explicação para tudo aquilo.
Todos voltaram seus olhares pra mim, e eu expirei pesadamente antes de explicar.
– Bella teve um sonho essa noite... E pelo que ela me descreveu, parecia mais uma memória da época em que... Eu era humano... – eles estavam prendendo a respiração e emitindo curiosidade e surpresa – Ela inclusive descobriu... Lembrou... – Eu me corrigi – Do meu nome do meio, que até pouco tempo nem eu mesmo me recordava...
– Isso é incrível... – Alice murmurou.
– E hoje mais cedo nós estávamos aqui, e eu mostrei as cartas a ela... E por um momento, depois de lê-las... – eu hesitei um pouco – Ela falou comigo como se... Como se falasse... Por ela. – apontei para a carta nas mãos de Carlisle – Como se falasse por Isabell.
Ele me encarou com intensa perplexidade por um longo instante, acreditei que ponderando as novas informações que eu havia acabado de lhe passar.
– Jasper, você notou algo incomum nas elipses? – ele indagou com tranquilidade mas muita, muita curiosidade e interesse.
Carlisle sabia como meu dom funcionava. Logo quando eu e Alice nos unimos a eles, nós explicamos em detalhes como nossos “poderes” se davam, como funcionavam, qual era a dinâmica deles e ao quê reagiam. Sua pergunta era mais que pertinente, e eu me apressei a revelar minhas impressões, que vinham me surpreendendo mais e mais a cada momento que eu passava com Bella.
– Quando eu e Bella estamos juntos elas se comportam de uma forma que eu nunca havia experienciado. – ele uniu as sobrancelhas – É como se estivessem inquietas, ansiando por algo...
– Como assim? – ele perguntou.
Edward, lendo minha mente e vendo minhas recordações, arfou baixo e tentou controlar mais uma vez a dor que lhe assomava.
Eu tentei ser sucinto ao responder, para não espezinhar sua mágoa.
– Quando nos beijamos... – meu tom soou constrangido e hesitante – Elas giram mais intensamente... Se chocam... Como se estivéssem buscando uma brecha pra se conectarem.
Ele suspirou alto e se recostou na poltrona onde estava sentado, e eu considerei contar a ele sobre os últimos acontecimentos em meu relacionamento com Bella, como as elipses estavam reagindo nesses momentos, e qual era minha teoria quanto a isso, que só havia se solidificado depois de Carlisle me falar sobre o objetivo das “almas destinadas”. Mas a presença de Edward me conteve. Talvez em uma outra ocasião...
– Eu gostaria de conversar com Bella também... – ele disse em seu tom pensativo – Se você achar conveniente, é claro. – eu assenti – E vou entrar em contato com um amigo de longa data... Ele tem acesso às escrituras, e eu precisarei analisa-las com mais cuidado para ter certeza sobre o que exatamente tudo isso significa e acarreta... Mas uma coisa é certa... – ele me olhou com segurança – Vocês são a prova viva da lenda... Eu não tenho dúvidas.
– Você acredita que eu e Bella somos... – eu murmurei maravilhado com a ideia.
– Destinados... – Edward completou com a voz melancólica – Eu... Preciso de um minuto... Me desculpem.
E como fumaça ele desapareceu no ar.
Eu abaixei minha cabeça, tomado por remorso.
Eu não estava envergonhado por ser o homem a quem Bella sempre esteve designada, por considerar que Edward havia sido um meio para que nós nos encontrássemos... Mas estava definitivamente magoado por estar ferindo a ele, mesmo que involuntariamente.
– Não se preocupe com ele, Jasper... – Alice murmurou, pousando uma mão sobre meu ombro – Ele vai encontrar a felicidade também... Algum dia...
– Eu preciso falar com ele... – disse me levantando – Podemos conversar depois? – indaguei fitando Carlisle, que projetava compaixão e certo remorso, acreditei que por conta do que aquilo representava para Edward.
– Claro. – ele afirmou – Veja quando podemos conversar com Bella presente, e eu vou contactar a pessoa adequada para nos ajudar.
Eu assenti enquanto ele retirava o celular do bolso e discava, e Alice se retirava do gabinete com graça.
– Ele está no córrego... – ela me informou – Tudo vai ficar bem, Jazz...
Eu sorri pra ela antes de seguir até Edward, e parei há alguns metros dele, absorvendo a dor gigantesca que ele tentava, em vão, conter.
– Eu sinto muito... – falei baixo.
– Eu sei. – ele devolveu no mesmo tom, sem se virar de frente pra mim – Não se preocupe comigo...
Eu me aproximei e arrisquei pousar uma mão em seu ombro. Ele não se afastou.
– Bella ama você, Edward... – afirmei com a segurança de quem conhecia bem o que existia dentro dela – É só que...
Ele se virou pra mim e sorriu, mas o sorriso era frágil e não alcançava seu olhar, nem alterava a tristeza que ele vibrava com tanta intensidade.
– Você é o destino dela... – completou minha frase – Eu só quero vê-la feliz... Me perdôe por ter sido um canalha com você, expondo e manipulando o que aconteceu antes para convencê-la, mas eu estava desesperado...
– Eu entendo. – expirei – Será que algum dia você vai me perdoar por ter me colocado entre vocês?
Ele riu sem humor.
– Se tudo o que a lenda diz for verdade, Jasper... Mesmo que você não fizesse parte dessa família, em algum momento eu perderia ela pra você... Eu não tenho do que lhe perdoar, só... Só não cometa o mesmo erro que eu... Não a machuque...
– Eu nunca faria isso...
– Agora eu sei disso... – ele replicou – Eu preciso ficar sozinho.
Compreendendo o momento dele, eu assenti em silêncio e me virei de volta pra casa, direcionando vibrações de calma e alento pra ele enquanto seguia.
– Obrigado. – ouvi seu sussurro antes de subir ao meu quarto.
Eu me sentia em débito com ele de uma maneira estranha... E não era pelo fato de ter lhe tirado a namorada, o amor... Mas por ele tê-la encontrado e trazido para nossa vida...
Se não fosse ele, eu nunca teria conhecido Bella... E talvez estivesse condenado a passar o resto da eternidade sem compreender o vazio que sempre havia me assombrado, mesmo quando eu estava feliz com Alice... E talvez nunca fosse me sentir como me sentia naquele exato momento...Completo e seguro... Tendo mais uma vez a certeza de que eu havia encontrado o que me faltava...
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