Destinados
3 A inesperada conexão
Notas iniciais
Vamos ao que interessa?
Pela primeira vez em minha longa existência eu estava sem palavras.
Eu ainda não entendia como ela tinha conseguido alcançar a janela antes de mim, ou o porquê de eu estar paralisado sem reação diante de uma situação tão fácil de ser resolvida. Mas eram as emoções que ela emanava pra mim naquele momento que me surpreendiam.
Bella me olhava, ainda surpresa, mas com uma expressão de reconhecimento e alívio que eu não conseguia compreender. Como ela podía não estar assustada com minha presença? Porque ela não estava gritando e correndo pra longe de mim, com medo de que eu repetisse o mesmo ato irracional de seu aniversário?
Ao invés disso ela subitamente me encarou com o mais profundo olhar de determinação e levantou a mão esquerda em direção a mim, o mais lentamente que eu já havia visto um humano ser capaz.
Seus sentimentos tinham mudado junto com sua expressão, e eu não podería ficar mais confuso do que já estava quando uma vibração de felicidade atravessou todo meu corpo, assim que os dedos frágeis e incrivelmente quentes de Bella tocaram minha face.
– Você está mesmo aqui... – Ela sussurrou, e seu hálito doce quase me fez sentir tontura.
Eu me perguntei se ela não estaria num estranho estado de sonambulismo, e me confundia com meu irmão, porque não era possível que ela estivesse feliz em me ver. Então, mais uma vez naquela noite, Bella me surpreendeu.
– Eu sabia que não estava louca... – Ela disse enquanto eu me mantinha imóvel, implorando internamente que ela não afastasse a mão de meu rosto – Eu sabia que você estava por perto, eu senti que você estava cuidando de mim, Jasper...
– Você... Sabia? – Eu me vi perguntando a ela.
Ela assentiu.
– Minhas emoções mudavam sempre que eu estava à beira de um colapso... Eu vinha me sentindo estranhamente confortável com o rompimento, apesar de saber, dentro de mim, que o desespero estava borbulhando, pronto pra me partir em mil pedaços, mas nunca aconteceu... – Ela falava baixo, os olhos nunca desviando dos meus, a mão ainda pousada em minha bochecha – Então essa estranha sensação de familiaridade começou a me intrigar, e eu vasculhei minha memória... E me lembrei de Phoenix, e a maneira como você me fazia sentir quando manipulava minhas emoções... Eu imaginei que estava ficando louca, mas isso não deixou minha mente até... – Ela suspirou e afagou meu rosto de pedra – Até eu ver você.
– Você não está com medo... – Afirmei, confuso – Muito menos com raiva...
– Porque eu tería raiva de você, Jasper? – Ela perguntou e eu senti sua confusão.
– Porque eu sou o motivo pra Edward ter te deixado. É minha culpa se ele foi embora.
Para meu completo desgosto, Bella afastou a mão de minha pele, que ficou latejando com o calor que ainda corria por ela, e se sentou na beira da cama, dando um suspiro desolado.
Naquele momento ela se sentia triste, solitária e magoada, e a saudade inundou o quarto num mar de melancolia.
– Ele me deixou porque eu não era o suficiente para ele... – Ela murmurou sem me olhar – Não é sua culpa... Nunca foi.
Eu coloquei a mão sobre o local que ela tinha tocado, ainda sentindo a temperatura agradável que sua pele tinha transmitido para a minha, e caminhei até ela hesitante. Me ajoelhei em sua frente, guardando uma distância segura.
Bella me olhou e sorriu discretamente, e uma faísca de diversão emanou dela.
– Eu não tenho medo de você... – Ela disse sincera – Você pode se aproximar.
Eu fiz como ela pediu como se aquilo houvesse sido um comando.
– O que quer que ele tenha dito pra que você acreditasse nessa bobagem, era mentira Bella. – eu afirmei – Eu posso sentir o que os outros sentem, Lembra? E eu nunca percebi alguém sentir um amor tão profundo quanto o que Edward sente por você.
Além de mim mesmo... Completei em meu pensamento.
Ela me olhou com incredulidade.
– Se isso fosse verdade, porque então ele mentiría pra mim? Porque rompería comigo e partiría prometendo nunca mais voltar?
Eu suspirei.
– Por minha causa. – Falei sentindo um remorso absurdo, enquanto Bella se sentia ainda mais confusa – Por causa de todo o perigo a que você estava exposta vivendo tão próxima de seres como nós... Edward só quería te manter segura, e longe do perigo.
– Isso é ridículo. – Ela resmungou – Você ou qualquer um dos outros nunca me faríam mal.
Eu sorri irônicamente e levantei uma sobrancelha pra ela.
– Eu quase te machuquei no seu aniversário, Bella...
– Você não estava em um bom momento... E eu provoquei aquilo...
– Você provocou aquilo? – perguntei sarcasticamente – Bella, você só cortou o dedo... Uma única gota de sangue foi o suficiente para me fazer perder o controle...
– Você sente o que os outros sentem, se lembra? – Ela devolveu minha pergunta com um tom de obviedade – Como se já não fosse difícil lidar com sua própria sede e luta interna para se adaptar à dieta de Carlisle, você ainda foi envolvido com a sede de todos os outros vampiros que estavam na sala, sendo que para um deles meu sangue é extremamente atraente. Eu não consigo imaginar como pode ter sido, mas sei que, se você absorve as emoções dos outros, sua ânsia estava potencializada, no mínimo, por cinco...
Eu a fitei chocado.
Analisando por esta ângulo, obviamente ela tinha razão, considerando ainda que o meu real desejo, que eu descobri ha poucos centímetros de realizar, não se limitava a provar sua essência e matar minha sede.
Bella era mesmo uma humana muito intrigante e sagaz.
– Nunca havia pensado nisso, não é? – Ela perguntou me desligando de minhas divagações.
Eu neguei com um movimento de cabeça, ainda em silêncio.
– Ainda que você tenha razão, o que eu fiz desencadeou todo o processo... Edward não conseguiu lidar com o risco que você estava sempre correndo com a proximidade... E ele não viu outra alternativa para lhe manter segura, além de impedir que você permanecesse em nosso mundo... Ele acreditou que com nossa partida você estaria protegida.
Ela expirou e suspirou pesadamente, olhando além de mim.
– Eu não sei o que pensar sobre isso... – Ela falou hesitante – Mas uma coisa ainda me intriga...
Ela me olhou e eu pude sentir sua curiosidade.
– Eu iría embora também... Mas eu... – Me interrompi, não sabendo como explicar a ela que havia sentido seu desespero e voltado para ajuda-la – Eu encontrei você na floresta... – falei parte da verdade – E te trouxe para casa. Minha intenção era manter suas emoções sob controle e partir, mas... Você estava tão frágil, eu... Eu...
– Você decidiu ficar pra cuidar de mim...? – Ela perguntou com um misto de satisfação, confusão e incredulidade – Alice pediu que fizesse isso?
Alice... Se Bella soubesse de tudo...
– Não. – Eu respondi – Alice não sabe que estou aqui... Ninguém sabe, na verdade.
A surpresa de Bella vibrou forte em mim, e logo ela estava completamente confusa.
– Eu posso explicar melhor depois, Bella, mas agora não é o momento. Você precisa dormir, posso sentir o quanto está cansada.
– Não estou. – Ela mentiu.
Eu podia perceber, além de sua exaustão, sua relutância e seu receio, e imaginei que ela havia, finalmente, se dado conta do perigo que eu representava.
– Eu prometo que não vou esperar que durma para te atacar, Bella... Eu estou sob controle, garanto. Posso partir agora mesmo, se você quiser.
– Não estou com medo de você...
– Posso sentir seu receio, não precisa se envergonhar por estar com medo de mim, eu entendo.
– Não eu... – Ela respirou fundo – Eu não quero que você vá embora, eu... Estou com medo de acordar e não ver você de novo...
Seu contrangimento me atingiu potente, e então eu entendi que sua relutância era direcionada à possibilidade de minha partida, não de um ataque meu.
Eu sorri e me levantei, e ela me acompanhou com o olhar.
– Posso ficar e te ajudar a dormir se você permitir.
Ela sorriu.
– Você tem estado por aqui todo esse tempo, não é mesmo?
Eu assenti um pouco constrangido.
– Você pode sentar aqui? – ela indagou batendo levemente na beira do pé da cama – Ou o cheiro é demais pra você nesse proximidade?
Eu quase ri. Se ela soubesse que ha poucos minutos eu estava ainda mais próximo do que naquele momento, sentado ao seu lado inalando seu perfume...
– Não, não é demais pra mim... – Respondi contendo a satisfação em minha voz.
Bella escorregou para dentro dos lençóis enquanto eu me sentava proximo aos seus pés. Ela se acomodou e fechou os olhos com um sorriso singelo no rosto, enquanto eu me sentia deslumbrado pela maneira como sua pele brilhava suavemente na luz fraca da lua, que entrava pela janela aberta.
Enviei vibrações de letargia em sua direção, sentindo a tranquilidade tomar conta de suas emoções, ouvindo seu coração assumir um ritmo constante.
– Jasper... – Ela chamou com a voz fraca.
– Hum?
– Obrigada...
E foi tudo que ela conseguiu dizer antes de cair na inconsciência.
Eu fiquei ali, sentindo seu perfume e ouvindo seus batimentos, sorrindo e aliviado por ela finalmente saber que eu estava alí, e ter ficado bem com isso.
Eu saí para caçar quando começou a amanhecer. Passei rapidamente em casa para tomar banho e trocar de roupa, como vinha fazendo na última semana, e cheguei no quarto de Bella no exato momento em que ela começou a despertar.
Ela demorou alguns minutos para abrir os olhos, mesmo depois que eu notei sua consciência ser retomada, e uma onda de apreensão emanou dela e me atingiu com intensidade.
Me sentei com cuidado e em silêncio no exato lugar onde tinha passado a noite, e sorri quando ela buscou meus olhos.
– Você ainda está aqui... – Ela falou num suspiro aliviado.
– Estou... – Confirmei em meio a um sorriso satisfeito – Bom dia, Bella.
– Bom dia... Espero que não tenha sido muito ruim passar a noite aqui...
– Não foi... – Ela nem imaginava o quanto estar perto dela me fazia contente – Você está melhor hoje.
Ela assentiu, ainda que soubesse que eu não estava perguntando.
Nos mantivemos olhando um nos olhos do outro, e o silêncio se fez mais presente do que nunca antes.
Eu conseguia sentir sua confusão, sua ansiedade, sua curiosidade, e só podia imaginar os motivos por trás de cada sentimento. Em mim mesmo, tudo que vibrava era urgência...
Eu quería tocar o rosto dela, e aquecer minha mão gelada no calor de sua pele, afagar o rubor suave que coloria suas bochechas enquanto ela começava a sentir constrangimento por meu olhar insistente...
Bella desviou os olhos para as mãos, e subitamente suas emoções se transformaram. Ela se repreendia por alguma coisa, e eu não conseguia alcançar o porquê dela estar se condenando.
– Eu sei que está monitorando tudo que estou sentindo... – Ela sussurrou, olhando as próprias mãos – Isso é um pouco desconfortável.
Eu expirei, lamentando o incômodo que estava causando nela.
– Me desculpe, Bella.
– Não se desculpe, é só quem você é. – Ela expirou, ainda constrangida – Você vai me explicar agora?
– Explicar? – Perguntei confuso.
– Sobre ninguém saber que você está aqui...
Eu respirei fundo sem necessidade, e senti novamente a curiosidade tomando conta de todos os sentidos dela.
– Alice e eu... Não estamos mais juntos... – Falei com cautela, e sentí o pico de sua perplexidade – Eu estava partindo, sem um rumo definido, quando encontrei você. Os outros foram juntos, exceto Edward, antes que eu tivesse chance de me despedir... Então eles nem imaginam onde estou.
– E-Edward não foi embora com eles? – Ela me perguntou, subitamente ansiosa.
– Não. Até onde sei ele decidiu partir por conta própria, e não informou para onde iría.
– Mas, Jasper... – Ela começou, e eu percebi o quanto ela estava insegura e desconfortável – Porque você e a Alice... Não estão mais juntos...? Desculpe me intrometer assim, mas eu pensei... Que vocês eram... Apaixonados e... Eu amo a Alice, ela deve estar sofrendo muito com isso...
Eu abaixei a cabeça, procurando uma maneira de explicar aquilo sem revelar muito da verdade.
– Ela ficou muito triste sim... – falei culpado – E eu tanto quanto ela, afinal foi ela que me encontrou, que me mostrou essa nova vida sem tantos sofrimentos, me inseriu numa família que eu aprendi a amar como minha, me apoiou e cuidou de mim durante cinquenta anos... – Eu suspirei – Mas as coisas haviam mudado entre nós... Eu acreditava que ela era a minha outra metade, mas... Aconteceu de não ser...
– Como assim, você... Eu achei que quando um... Vampiro encontrava sua companheira era pra eternidade. Não achei que isso pudesse mudar...
– Eu pensava desta forma também... Até que tudo aconteceu...
Senti um choque ao lembrar do momento exato em que me dei conta do que realmente sentia e por quem... Como se meu coração quisesse voltar a bater...
– O-o que aconteceu... Exatamente? – Ela perguntou extremamente curiosa mas embaraçada.
Eu tentei elaborar rapidamente uma resposta coerente mas que não me expusesse. Não sería conveniente ou confortável dizer a ela que havia descoberto que meu interesse por ela extrapolava o racional.
– Eu passei muito tempo concentrado em todas as emoções em volta de mim... Monitorando, controlando, manipulando... Imergi nas emoções deles tão profundamente ao longo dos anos que me desliguei das minhas próprias... E, sem me dar conta, eu já não as percebia. – Pausei analisando sua reação, continuando com cautela – Na noite do seu aniversário... Depois que quase te ataquei... Algo aconteceu... – Suspirei num gesto automático, engolindo a intensidade que a verdade fazia borbulhar em mim – E então todos os meus sentimentos voltaram pra mim, me acordando do estado anestesiado em que eu nem sabia que estava. Foi aí que percebi que o que eu sentía pela Alice havia mudado. Em algum ponto eu perdi a paixão que existia entre nós, e eu não podería engana-la. Ela é especial demais para ser enganada.
Bella me encarava com um misto de incerteza e pena. E eu desejei que fosse possível lhe revelar a verdade.
– Eu sinto muito... – ela disse e eu senti sua sinceridade.
– Está tudo bem...
– Mas você ainda a ama. – Ela afirmou como se pudesse ver através de mim.
– Sim. Acho que sempre irei amar, de certa forma... Mas não é o suficiente para continuar ao lado dela. – Sentí sua compaixão ainda mais forte direcionada a mim – Não se preocupe, Bella. Vou superar. O que me leva de volta a você...
Ela corou e baixou o olhar para as mãos em seu colo.
– Acha que está forte o suficiente para continuar daqui? – Perguntei, sentindo muito medo de que a resposta fosse positiva. Tudo que eu queria era ter mais tempo com ela, mais motivos para me manter por perto – Sei que ainda sente falta dele, mas sabe que pode superar isso, não sabe?
Uma onda de apreensão vibrou dela para mim, e eu, contrariando o que era certo, me senti satisfeito. Se ela ainda se sentia assim talvez precisasse de minha ajuda mais um pouco.
– Você vai embora? – Ela sussurou sem me olhar.
– Apenas quando você quiser isso... – respondi um pouco intenso demais, mas eu sabia que ela não havia notado a diferença.
– Então talvez você fique pra sempre... – Ela afirmou elevando o rosto para me olhar.
Eu me senti como se perdesse o ar, uma felicidade inexplicável correndo por meu corpo, preenchendo meu peito, acalmando minha mente. Me concentrei nela para saber o que estava sentindo, mas só consegui detectar alívio.
– Te ajudarei enquanto precisar de mim. – sorri.
– Não quero que fique pra me ajudar, Jasper... Não vou usar você. – Ela falou agoniada – Não entenda errado. Eu só... Eu só quero que fique. Só isso.
E então eu estava ainda mais contente. Mesmo que ela me quisesse por perto apenas pra me usar, como havia dito, eu não me importaría... Tudo que quería era estar com ela.
As semanas passaram indiscriminadas em minha mente.
Tudo que me segurava no planeta, na vida, se é que eu posso chamar o que tenho de vida, eram os sorrisos, os gestos, a alegria que começava a renascer em Bella. Mantê-la bem e conhecer mais dela, de sua vida, seus gostos, seus pensamentos, suas opiniões, se tornou minha missão, e nós passamos a compartilhar muito tempo juntos.
Estávamos nos tornando amigos, era o que ela dizia.
Eu a acompanhava até a escola, sempre deixando o carro há alguns metros da entrada e usando o período em que ela tinha aulas para caçar. A encontrava na esquina quando ela estava voltando para casa, fazía companhia a ela enquanto estudava e a acompanhava novamente até o trabalho. Esperava por ela em seu quarto até que ela chegasse, a observava preparar o jantar até que ouvisse Charlie virando a última curva da rua, partia para casa enquanto ela dava atenção ao pai, e retornava antes que dormisse, para uma seção de conversas das mais variadas até que ela estivesse exausta e fosse dormir.
Velava seu sono como se fosse o mais espetacular evento de minha vida. E contava os segundos até que ela acordasse, ansioso para receber o sorriso caloroso que ela me direcionava todas as manhãs, se certificando de que eu tinha permanecido.
Eu havia assumido a rotina de Edward.
E apesar disso me causar estranhamento, causava muito mais satisfação e júbilo. E eu já não me importava se Bella nunca superasse a perda de meu irmão e precisasse de mim pelo resto de sua vida.
Eu passaría todos os anos que lhe restavam na terra sendo seu amigo secreto, com extremo prazer.
Naquela noite, quando eu retornei da mansão, Bella estava sentada na cadeira de balanço, olhando pela janela oposta da que eu entrava com uma expressão confusa. Estava tão imersa no que quer que estivesse pensando que imaginei que não notaría minha chegada.
Eu me aproximei com naturalidade. E estaquei quando ela falou sem se virar pra mim, seus sentimentos bruscamente alterados para um misto de alegria e dúvida.
– Boa noite, Jasper... – Sua voz suave saiu por seus lábios enquanto eles formavam um sorriso singelo.
Me sentei aos seus pés quando ela se virou para me olhar, confuso com a mudança súbita de humor, e intrigado, tanto com o que estava fazendo-a se sentir tão confusa minutos antes, como com o fato dela ter me percebido sendo que eu tinha certeza, não havia feito qualquer barulho, ao menos não o suficiente para ouvidos humanos captarem.
– No que estava pensando? – ousei perguntar.
Bella foi tomada por constrangimento numa potência que podería me fazer engasgar, e suas bochechas coraram num tom extremo de vermelho que me compeliram a interromper a respiração.
Ela percebeu minha reação e cobriu o rosto com as mãos, os olhos se tornando maiores.
– M-me desculpe, eu...
Eu me levantei bruscamente e coloquei o máximo de distância entre nós dois, com medo de vacilar. Eu não podía perder o controle, não podía machuca-la.
Mas eu estava há certo tempo em contato constante com Bella, e seu aroma já não me tentava tanto como nos primeiros dias, e eu me encoragei a inspirar rapidamente, testando.
Minha gargata queimou com a sede, mas eu sabía que estava sob controle, o monstro não estava tentado a atacar. O desejo, no entanto, pulsou dentro de mim de outra forma, e eu soube que era seguro.
Bella me encarava alarmada e eu monitorei suas emoções para ter certeza se devería me aproximar ou ir embora. Ela não estava assustada. Estava extremamente preocupada, e eu sabía que era comigo.
– Como pode não estar com medo de mim...? – sussurrei perplexo.
Bella expirou e sorriu, começando a ficar tranquila.
– Você nunca me faría mal, Jasper... Eu sei disso. Me desculpe por tornar dificil pra você, mas eu não pude evitar...
Eu respirei fundo, recebendo de braços abertos a queimação e a urgência, dominando o instinto, surpreendentemente, com certa facilidade.
Me aproximei novamente.
– Me desculpe pela reação exagerada... – Falei baixo retomando meu lugar – Eu tenho muito medo de me descontrolar e machucar você... mesmo quando estou me sentindo seguro de meu controle.
Bella sorriu e eu senti a satisfação pulsar em ondas, preenchendo o espaço entre nós.
– Eu tento, o tempo todo, imaginar o que o faz ser tão protetor comigo... – Ela falou num sussurro pensativo, como se a frase tivesse saído espontâneamente, sem que ela pensasse sobre o que dizia.
Eu evitei fazer um comentário, pois tinha a clara sensação de que ela ficaría constrangida quando caísse em si. Ao invés disso, repeti a pergunta que havia feito antes.
– No que estava pensando quando cheguei?
Bella suspirou e corou novamente, dessa vez com menos intensidade, e eu cortei o fluxo de oxigênio novamente, só por precaução.
A vibração de incerteza e constrangimento crescia enquanto ela parecia vasculhar sua mente em busca de uma resposta, talvez, menos embaraçosa, para me dar, e aquilo me fez sentir um pouco culpado por estar causando desconforto a ela.
– Me desculpe, Bella. Não quería ser intrometido, só estava curioso. Não precisa me falar, se não quiser.
– Não, eu... Eu quero falar... – Ela disse rapidamente, o constrangimento sobrepujando qualquer outra emoção que ela emanava – Só não sei como...
Ela suspirou aflita ao extremo, e eu me remexi no lugar, estranhamente impaciente.
– Bella, você pode me dizer qualquer coisa. Nós somos... Amigos. Não somos?
– Sim, somos... Você é... Meu melhor amigo, Jasper... E eu tenho medo de... Eu tenho medo de afastar você...
Eu suprimi o sorriso e a alegria que me contagiaram com a maneira que Bella me denominou... Melhor amigo... Eu era especial pra ela... E me concentrei no fato dela estar com medo de me afastar. Nada podería provocar isso, a não ser a vontade dela.
– Eu não vou me afastar de você, a não ser que queira isso, Bella... Você é muito especial pra mim. – Eu disse, e me repreendi imediatamente pela intensidade de minhas palavras – Você é minha única amiga. – Justifiquei.
Bella sorriu e uma onda gigantesca de ternura emanou dela pra mim. Eu quase fiquei sem ar. Se realmente ele me fizesse falta.
– E-eu... Era sobre isso que eu pensava... – ela falou ainda envergonhada – Você se tornou tão... Importante... Pra mim nas últimas semanas e... – Eu pude ouvir seu coração acelerar e fiquei confuso com o que isso significava. A vibração de carinho e apego, ainda mais intensa que antes, piorou meu conflito interno – Eu fiquei imaginando como me sentiría quando você partir. Eu... Eu não consigo realmente ver minha... Vida... Sem sua... Presença nela. E isso me deixou um pouco... Confusa...
Bella piscou os olhos com força tentando dispersar algum pensamento que passou por sua cabeça. E eu me vi chocado com a intensidade de seus sentimentos, querendo acreditar que o que parecia estar nascendo dentro dela, viesse a se tornar algo maior, que a traría para mim.
– Eu não vou sair de sua vida. – Afirmei com determinação – Como eu já te disse, a única coisa que pode me afastar de você é sua vontade, Bella. Eu só irei embora se você me disser pra fazer isso.
Nós nos olhamos por um momento interminável, e em cada milésimo de segundo dele, eu controlei o ímpeto de toma-la em meus braços e beija-la. Me concentrei no amor puro e singelo que nos rodeava, desejando em silêncio que, um dia, ele se tornasse maduro e profundo, como o meu por ela.
Nós voltamos a falar sobre qualquer coisa sem importância nos minutos seguintes, ambos tentando afastar o evidente desconforto que cingiu o ambiente depois da troca intensa que houve entre nós. E pelo resto da noite, mesmo depois que Bella dormiu, eu me peguei sonhando acordado, como nunca imaginei ser capaz, com a possibilidade de que ela fosse minha.
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