Destinados à Payre
33 Os próprios desafios
Notas iniciais
Faziam apenas algumas horas que haviam sido chamados para dar continuidade aos desafios, com exceção de Choi, que ainda estava se recuperando. Distraidamente, Alexis observou a sua volta. Era o mesmo salão de antes, mas para sua surpresa, estava totalmente intacto, sem nenhum sinal da destruição que Mona e Choi haviam provocado. A combinação de magia e tecnologia de Payre se revelava, mesmo nos detalhes, assombrosa.
Deixando essas questões de lado, voltou a atenção para a soberana de Sylesth, quando esta tomou a palavra.
— Antes de prosseguirmos, precisamos concluir uma pendência. – A Rainha olhou para Angel, Alexis sentiu garota se remexer desconfortável ao seu lado. – Angel, precisa receber a essência do sangue dos Reis. Como já bebeu o sangue de Alexis, deve tomar o meu e o de Erak. Não seria prudente adiarmos mais, pois ela precisará de algum tempo antes de receber seu desafio.
Assim dizendo, Syka calmamente mordeu o próprio pulso e o estendeu à Angel. Alexis não se surpreendeu quando a namorada quase saltou na direção da Rainha, ansiosa pelo que iria acontecer a ela depois de tal ato, no mínimo, nojento. Embora Lali, Mona e até mesmo Ren, não tenham tido uma reação tão negativa em beber o sangue como acorreu com Choi, nenhum deles se mostrou tão entusiasmado quanto a garota de cabelos platinados.
Assim que Angel afastou a boca da pele de aparência delicada de Syka, a Rainha apontou Erak. Alexis cruzou os braços sobre o peito, enquanto observava Angel aproximar-se do homem extremamente alto e musculoso, todo vestido de preto, como sempre estava, o que causava um contraste intenso com sua pele muito clara, característica dos Alicanos.
Erak, com expressão fechada, observou a garota a sua frente, então um estranho sorriso cínico se formou em seus lábios. Quando ele ergueu a cabeça, seus olhos cruzaram diretamente com os de Alexis, e ele soube que o sujeito iria fazer algo para irritá-lo, por isso tratou de demonstrar o máximo de indiferença possível, sabendo o quanto isso iria ser penoso, pois sua pequena encrenqueira seria usada, seja lá no que o Rei estivesse tramando.
Não demorou muito para descobrir. Erak voltou sua atenção para Angel, abriu a parte de cima da camisa que vestia e, depois de fazer com que uma de suas garras surgisse, cortou com movimentos lentos e precisos, a área entre o pescoço e o ombro. Um filete de sangue vermelho correu pela pele alva. Angel se mostrou indignada, pois a ela pareceu uma óbvia provocação a sua altura, afinal, não conseguiria alcançar o ponto que era indicado pelo Rei. Mas Alexis não era tão ingênuo. Erak estava tornando o gesto, que com os outros tinha sido impessoal e metódico, pois fizera um simples corte no braço, muito mais intimo do que era necessário.
Angel arregalou os olhos, e os demais presentes, quando o Rei, com os olhos fixos na garota, abaixou-se, apoiando um joelho no chão, tornando-se acessível a investida dela em seu pescoço. Alexis fechou os punhos com força ao ver Angel hesitar. Ela tinha finalmente entendido a situação, pois logo os olhos violetas procuraram os seus, sem esconder a revolta.
Alexis ponderou: se agissem com indignação e fizessem uma cena por conta do que acontecia, estariam fazendo exatamente o que Erak esperava. Além disso, sério mesmo que aquele Rei patético achava que uma coisa tão infantil seria motivo para algum desentendimento entre ele e Angel? Ou que ele era inseguro a ponto de ficar preocupado por sua namorada ficar perto do grandalhão musculoso?
Para mostrar a Angel o que pensava sobre aquilo tudo, olhou com desdém para Erak e arqueou as duas sobrancelhas para ela, exibindo uma expressão divertida. A garota sorriu de volta e em seguida voltou-se para o Rei, que aguardava calmamente pelo desenrolar dos acontecimentos. Quando ela se inclinou para frente e cravou os dentes na pele despida de Erak, Alexis não pode conter a dose inesperada de ciúmes que o tomou.
Seus olhos ficaram em tom muito claro de azul, chamando a atenção dos Guardiões, da Rainha e das demais pessoas presentes no salão. Mas ele não notou, pois estava totalmente focado na garota que tinha os lábios sobre o Rei em uma atitude muito intima, mesmo que involuntária.
Angel, para se equilibrar e manter certa distância, tinha apoiado a mão sobre o joelho de Erak. Mas ele fez questão de tornar o momento uma provocação aberta, tanto a ela quanto a Alexis. Como se estivesse ajudando a garota, colocou a mão na cabeça dela, na altura da nuca e, de forma sutil, aproximou-a mais dele. Por sobre os ombros de Angel, os olhos cinzentos e os azuis se encontraram. Os azuis estavam frios e com o ódio brilhando intensamente. Os cinza eram provocativos e zombeteiros, mas então algo mudou.
Angel desequilibrou de leve, e acabou se apoiando nos ombros largos do Rei, esse por sua vez, por puro reflexo, segurou-a firmemente pela cintura, os corpos se aproximaram e Erak já não tinha mais a mesma expressão de antes. Alexis não pode precisar o que viu, pois logo o Rei baixou a cabeça, e para assombro de todos, escondeu o rosto entre os cabelos que Angel mantinha soltos. Rangendo os dentes, Alexis notou que a mão masculina não tinha se afastado da cintura delicada, pelo contrário, ele apertou Angel ainda mais contra si.
Sem dar a mínima para o que suas atitudes poderiam resultar, dirigiu-se decidido na direção dos dois. Mas seu objetivo mudou, quando viu Angel inclinar o corpo para o lado, parecendo prestes a perder os sentidos. Erak tratou de segurá-la, só que Alexis não estava nem um pouco inclinado a suportar por mais tempo as mãos do outro sobre ela. Assim, sem nenhuma sutileza, estendeu a mão e com voz glacial, ordenou:
— Solte ela.
Erak chegou a levar a mão para os cabelos macios, mantendo o rosto da garota perto de si, mas Alexis já tinha esgotado sua paciência com aquela situação. De forma nem um pouco amistosa, se inclinou e tirou a namorada dos braços do irmão. Com Angel ainda meio grogue, efeito normal percebido pelo excesso do sangue poderoso dos Reis, Alexis se afastou, carregando-a em seu colo. Erak ainda ficou alguns segundos parado, antes de se erguer e observar o casal se afastar dele.
Alexis parou ao lado da Rainha e disse:
— Pode continuar, Majestade. Estamos todos muito ansiosos para acabar logo com isso.
Ele viu Syka encarar o Rei, antes de assentir afirmativamente.
— Certo. Zaffar, gostaria de ser o próximo?
***
Lali, preocupada com Angel, apesar de seu temor de Alexis, aproximou-se deles. Embora percebesse o afeto do Príncipe pela garota briguenta, não conseguia se sentir a vontade com ele. Seu jeito distante e muitas vezes sombrio, a deixava nervosa. Era tão diferente da forma gentil e risonha de Choi, com quem conseguia conversar normalmente, que sempre achava curioso o fato dos dois serem amigos. Aliás, a própria relação entre Alexis e Angel era um mistério para ela no começo, até entender que, na verdade, eles eram meio parecidos em alguns aspectos. Determinados, fortes e muito francos. Alexis podia ser fechado, mas não escondia suas opiniões e não hesitava diante das situações que poderiam chocar os demais, como havia feito no Baile na Alpha, e como sempre havia feito em Payre. Já Angel, não escondia nada e nem fazia questão de manter qualquer mistério sobre o que quer que fosse.
— Ela está bem? – perguntou ao Príncipe.
Alexis baixou os olhos para a garota em seus braços. Angel, que mal conseguia manter-se desperta, já tentava escapar dali.
— Claro que estou! – a própria respondeu, com voz pastosa. – Esse exagerado que fica preocupado a toa. Posso descer agora, meu príncipe de armadura brilhante?
Lali sorriu quando Alexis colocou Angel no chão com delicadeza, ainda que a garota se contorcesse toda, parecendo muito incomodada com tamanho cuidado. Vendo que ela era capaz de se firmar sozinha, ele a deixou por conta, mas continuou atento a seus movimentos. Aquela era a versão do Príncipe que Lali conseguia entender e simpatizar.
— Majestade, acho que gostei da ideia da Noor. – a voz macia e risonha de Zaffar chamou a atenção de Lali. – Ren vai lutar contra outro Humano.
Alexis, Angel, Lali e Mona ficaram tensos no mesmo instante. Lali mordeu os lábios apreensiva e empalideceu quando, despreocupadamente, Zaffar apontou o dedo para ela.
— Aquela garota ali.
— Mas que merda é essa?! – Angel se manifestou ao seu lado, parecendo ter se recomposto totalmente diante das novas circunstâncias.
A indiana se viu paralisada, seus olhos procurando ansiosamente sua Mestra. Zaffy prestava atenção no irmão, e para desespero da garota, a ruiva alta soltou uma gargalhada, enquanto dava um leve soco no braço de Zaffar.
— Seu malvado! – Zaffy virou-se para Syka. – Tudo certo, Majestade. Esse também será o desafio da Lali! – sorrindo para a pupila, lançou uma piscadela.
No gesto Lali percebeu a confiança que era depositada nela. Embora tivessem tipo pouquíssimo tempo de treino antes da Mestra ser chamada para a reunião, ela conseguira lhe passar o básico sobre a sua arma, conhecida como “Chicote de Dari”, em homenagem ao guerreiro que a criou e usou por centenas de anos, o pai de Esan, irmão do Rei Melkor. Só então ela soube que Esan e Erak eram primos, talvez por isso fossem tão próximos.
— Sério, se aquele filho da puta acertar um soco sequer em você, eu vou matar ele!
Lali fitou Angel com gratidão, aquelas palavras proferidas com tanta indignação serviram para lhe fortalecer. Ela tinha amigos e ficaria bem.
Para espanto de Lali, Alexis alfinetou a namorada ao comentar, com seu tom neutro, permeado por zombaria.
— Pelo visto não está muito confiante na capacidade da Lali. Que espécie de amiga é você, hein Ange?
Angel fuzilou Alexis com seus olhos violetas.
— Sua criatura irritante! A Lali não é fraca e nem covarde, mas é gentil e boazinha demais para duelar com aquele verme sem noção! – virando-se para Lali, segurou-a pelos braços, continuando – Lembre-se: Ren não merece consideração! Vai lá e acaba com ele!
Não se contendo, Lali abraçou Angel, que pega de surpresa, não reagiu:
— Obrigada.
Sem mais inseguranças ou receios, foi para o meio do salão onde Ren já aguardava. Com confiança, encarou os olhos negros do rapaz. Ele a media de cima a baixo, um sorriso presunçoso fazendo subir um dos cantos dos lábios bem formados. Lali ficou surpresa em notar que ele era muito bonito.
Como desde que havia chegado a Payre, estivera em estado de pânico constante e o único que se aproximara fora Choi, não tinha tido contado com Mona ou com Ren. Quando Alexis e Angel se juntaram a eles, sua distância dos irmãos se tornou maior ainda, por isso nunca tinha parado para analisar o rapaz que era tão detestado pelo resto do grupo, até pela própria irmã, conforme soubera.
E ali estava ele. Alto, loiro, cabelos meio compridos e suavemente ondulados nas pontas, caindo pela lateral do rosto até a altura do queixo esculpido e do maxilar, que exibia uma leve penugem em tom mais escuro que o cabelo da barba por fazer. Os olhos negros eram hipnotizantes, e mesmo com aquela sombra irritante de arrogância, possuíam uma beleza singular, principalmente em contraste com os cabelos dourados. A pele tinha um tom bronzeado, exóticamente latino, provavelmente herdado da mãe italiana. Ele usava uma blusa azul escura que aderia ao peito largo e deixava os braços musculosos de fora, mostrando a tatuagem de um corvo nos bíceps bem desenvolvidos e outra que ia da mão até o cotovelo. O desenho lhe era familiar, mas não lembrava onde o tinha visto antes. As pernas longas eram realçadas pela calça justa e combinavam perfeitamente bem com as botas de cano baixo. Ren parecia mais um modelo do que um homem que estava recebendo treinamento para participar de uma guerra.
— Gatinha, prometo ser gentil com você, afinal seria uma pena estragar um rostinho tão bonitinho. – os olhos negros caíram descaradamente sobre seus seios. – Entre outras coisas igualmente interessantes.
Sentindo que corava, mas ultrajada pelo desaforo dele, conseguiu encontrar voz para revidar, sem nem mesmo gaguejar como temia:
— Eu também tomarei cuidado para não estragar essa sua carinha linda. Mas não garanto quanto ao resto.
Lali sentiu uma satisfação enorme em ver o sorrisinho dele ser substituído por um ar zangado, e controlou-se para não rir quando a gargalhada de Angel foi ouvida pelo salão.
— Comecem!
Assim que a ordem da Rainha foi dada, Lali viu Ren dobrar o braço e exibir a tatuagem que lhe era estranhamente familiar. Então ela percebeu, era a arma que ele tinha escolhido. Assim como a real, parecia uma espécie de arma de fogo, mas muito mais extravagante. Exibia elaborados desenhos em seu cabo preto e levemente curvado para baixo. Tinha dois canos prateados, e em cada um saia um tipo de fumaça, nas cores azul e vermelha.
Assim que Ren percebeu sua surpresa, esticou o braço para ela com o punho firmemente fechado, no mesmo instante uma bola de fogo desprendeu-se do membro e seguiu em uma velocidade alarmante da direção de Lali. Ela só teve tempo de pular para o lado. Conseguiu desviar, mas mesmo assim, sentiu o cheio de cabelo queimado. A ponta da sua grossa trança castanha estava chamuscada.
Mal voltou sua atenção para o oponente e logo outra chama veio, seguida por mais duas, em direções ligeiramente diferentes, o que dificultaria sua fuga. Pensando rápido, a adrenalina que a tomava nos treinamentos surgindo para ajudá-la, Lali abaixou-se, inclinando o corpo para frente, quando o fogo chegou perto o suficiente para sentir seu calor, ela mergulhou para o chão. Viu outro fogo, rolou pelo piso liso, algo frio e molhado acertou-a em cheio e a arremessou longe, fazendo com que ela deslizasse pelo chão até atingir um dos gigantescos pilares do salão. Sentiu sua garganta arder, e cuspiu a água que tinha engolido ao ser atingida tão subitamente e pelo impacto provocado.
Apoiando-se na pedra fria e lisa, se ergueu. Estava completamente molhada, a franja reta grudava-se em sua testa, sua blusa branca e as calças em tom claro de rosa, para sua consternação, delineavam suas curvas exuberantes. Viu o olhar de Ren se deter novamente em seus seios, agora escondidos apenas por uma faixa cor de caramelo, pois a blusa tinha se tornado completamente transparente.
Enquanto pisava nas poças sobre o piso, a fúria a tomava. Ele controlava o fogo e a água com a sua arma, e ao contrario de Choi, não precisava tocar nos elementos para produzi-los. Esse era o significado das duas fumaças da tatuagem. Azul e vermelho. Água e fogo.
Aproveitando que Ren propositadamente deixava que ela se movesse, provavelmente para poder apreciar seu corpo, enquanto a humilhava no processo, Lali levou a mão ao cabelo e da ponta da trança puxou um dos longos fios castanhos-avermelhados. O fio enrolou-se em seu pulso, como uma incrivelmente fina pulseira cor de cobre, sem perder tempo a garota ergueu o braço e o baixou com força em um movimento curvo, fazendo com que uma espécie de chicote cortasse o ar.
Ren estreitou os olhos, procurando entender a situação, mas Lali não estava mais com paciência para lidar com alguém tão cretino quanto ele, por isso lançou seu chicote na direção do adversário, através da magia da arma, associada a sua essência, ela cresceu e o alcançou, mesmo estando a uma distância considerável. Ren tentou desviar, mas o chicote o seguiu e enrolou-se em uma de suas pernas, Lali o puxou com força, arrastando-o até ela.
Apesar da velocidade com que era carregado, Ren conseguiu reagir, arremessando seus fogos contra a garota, mas Lali o surpreendeu. Antes que o fogo a atingisse em cheio, ela saltou para o alto e lançou Ren para o lugar em que ela estivera antes. Ren recebeu o próprio poder sem ter tempo para se defender. Os gritos do rapaz deveriam deixá-la contente, mas como Angel tinha dito antes, ela possuía uma alma gentil demais. Ainda assim, foi capaz de deixar suas convicções de lado e, enquanto Ren tentava se livrar das chamas usando seu poder de água, ela o prendeu pelos pulsos, tornando-o vulnerável. Aproveitando a situação dele, o ergueu para o alto e o girou de forma frenética. O movimento avivou o fogo que estava quase se apagando, e o rapaz voltou a gritar desesperadamente.
Era uma cena horripilante. Uma pessoa em chamas gritava em dor e ela era a responsável por isso. Ela, a doce Lali. Virou-se de costas e enquanto se afastava, puxou a mão. Como se fosse uma macabra pipa humana, Ren parou de girar e seguiu pelo ar em enorme velocidade, até chocar-se contra um dos pilares. O mesmo no qual tinha a jogado antes. Lali estava voltando para perto do grupo, que assistia a tudo completamente absorto, por isso não presenciou quando o rapaz desfalecido e queimado, deslizou para o chão, em inquestionável derrota.
— Curador Falki!
Mediante o chamado da Rainha, o Curador correu para atender Ren. Lali seguiu em frente, até ser agarrada por Angel. A pequena garota a apertou com força em um inusitado abraço, enquanto lhe dizia:
— Você foi ótima, Lali! – em tom menos animado e mais preocupado, indagou. – Como está se sentindo?
— Estou bem. Muito.
Lali exibiu sua costumeira doçura, através do suave brilho de seus olhos intensamente verdes. Ainda era capaz de sorrir, e mais, se sentia forte, preparada para superar as dificuldades que poderiam colocá-la em perigo, e a seus amigos. Vendo a alegria e admiração nos olhos de Angel, pensou em Tanu.
Não se permitia pensar naquela pessoa desde que aprendera a controlar suas crises em Payre. Mas depois do desafio pelo qual passara, isso se tornou inevitável. Tanu era quem sempre a apoiava e fortalecia, com suas palavras, com sua confiança, e até com sua mera presença. Nunca teria se imaginado capaz de tanto sem ela. Estava orgulhosa de si mesma e tinha certeza que Tanu também estaria e isso, por enquanto, teria que bastar.
Ficaria ainda mais poderosa e voltaria para sua amada Tanu. Era uma promessa que se esforçaria ainda mais para cumprir. Afinal, agora sabia que era, sim, plenamente capaz.
***
Enquanto Ren era levado por pelos Curadores, a Rainha Syka, sem perder tempo, voltou-se para o filho.
— Erak, pode lançar seu desafio.
O Rei fitou Alexis com seus olhos cinzentos, da mesma forma que uma fera observaria uma presa muito interessante. Além de desafiadora e irritante.
— Não se preocupe, Alteza, não vou fazê-lo enfrentar um Humano — seu sorriso, apesar de frio, não escondeu sua satisfação ao pronunciar as palavras seguintes – Você enfrentará a mim.
Como sempre, Alexis não exibiu qualquer reação. E isso, por mais estranho que fosse, pareceu deixar Erak ainda mais animado, pois seu sorriso ampliou-se ao declarar:
— Mas, como você não teria a menor chance nessa luta, pois colocar-me em nocaute seria algo fora de suas condições, para vencer bastará me acertar três golpes. Minha vitória será quando você declarar derrota. Fácil, não?
— Isso não é o cúmulo? – Angel não se conteve. – Você é o Mestre dele! E é um Rei! Seja pelo menos honesto e admita que isso tudo é apenas para satisfazer esse ego enorme que tem!
Erak a observou, e com os olhos cravados na garota, após alguns segundos, dirigiu-se a mãe:
— Rainha Syka, me permite desafiar sua pupila em seu nome?
A Rainha pareceu pesar por alguns instantes a ideia, antes de assentir em concordância, para choque de todos, até mesmo dos Guardiões.
— De acordo, Erak. Do que se trata?
Ainda com a atenção voltada para a Humana, o Rei ordenou:
— Noor, traga as Alianças de Arihak.
Sem a menor preocupação por suas palavras, Angel o questionou:
— Que porcaria é essa?
Mas, antes que Erak pudesse responder, Alexis finalmente mostrou que a situação não estava do seu agrado. Sua voz soou controlada, mas ainda mais fria do que a do soberano de Sylesth.
— Não há registro em Payre de algum Mestre que delegou seu desafio a outro. Pelo visto os próprios Reis não respeitam muito as tradições de seu povo, então porque nós Humanos, devemos acatar obedientemente?
Erak finalmente desviou a atenção de Angel e a passou para Alexis. Noor parou ao seu lado, mas ele ergueu a mão, fazendo-a parar e aguardar enquanto ele escarnecia as palavras jogadas em sua cara:
— Tem razão, isso nunca aconteceu. Mas, caro Predestinado, nada relacionado a vocês está dentro da normalidade de Payre. Nós nascemos e crescemos em meio a batalhas. Nos preparamos para viver e sobreviver, ao contrário de vocês, Humanos. Então, realmente espera que sejamos “tradicionais”? Que nos sensibilizemos com suas relações e com seus corpos frágeis? Acredita que será capaz de vencer uma disputa com um Deiroon, ou mesmo contra um Darkano ou Meiruu, que já aprendem a matar antes mesmo de dar os primeiros passos? – com as palavras se tornado ferozes, concluiu: — Não. Vocês vão morrer! E junto milhares de Payreanos, e logo, todos os Terráqueos!
Diante do silêncio que se seguiu, mais calmo, embora seus olhos ainda estivessem flamejantes, Erak questionou Alexis:
— Acha que estou errado? Está disposto a arriscar? A arriscar a sua vida, a dos seus amigos – apontou o dedo em riste para uma Angel surpreendentemente calada – A vida dela?
Para surpresa geral, Alexis suspirou e respondeu um simples:
— Não.
Satisfeito, mas cuidadoso em não demonstrar isso naquele momento, pois era sua primeira vitória sobre o Humano e não queria qualquer reação além daquele semblante resignado, o Rei voltou-se para Noor, estendendo a mão.
A Oberoh, com movimentos lentos, retirou os brincos de argola que mantinha em suas orelhas bem feitas e colocou um deles no pulso do Rei, prendendo como uma pulseira. Era visível que havia aumentado seu tamanho para se adaptar perfeitamente ao novo dono. O acessório era de um material que lembrava gelo e possuía apenas uma simples pedra branca. Tinha como matéria prima básica a lágrima de uma Arihak, colhida ao perder sua gêmea. As Arihaks eram animais voadores que viviam em Nagtar e nasciam sempre em pares, dos quais jamais se separavam, compartilhando suas vidas de todas as formas possíveis. Tudo o que uma sentia a outra também sentia, sentimentos, pensamentos e reações físicas, por isso, quando uma morria, a outra acabava por morrer também alguns segundos depois. Nesse ínfimo tempo, suas lágrimas corriam e podiam ser colhidas. Eram raras, e por isso, muito valorizadas pelos Oberohs que as usavam geralmente na confecção de joias, mas não apenas com fins estéticos. Elas podiam ser muito úteis na manipulação de poderes.
As Alianças de Arihak que Noor possuía, e que lhe haviam sido dadas pelo próprio Rei Oberoh ao se tornar uma Guardiã, por exemplo, eram capazes de fazer com que duas pessoas compartilhassem sentimentos e reações, não com a mesma profundidade que os animais originais, mas o suficiente.
Erak baixou seus olhos para os violetas. Ignorando a reação que lhe causaram, esclareceu sobre o desafio que iria lhe impor.
— Essas joias irão nos fazer compartilhar algumas sensações ao longo da luta. Você vai receber a outra Aliança de Arihak, dessa forma será capaz de sentir as mesmas emoções e... dores que eu.
Os olhos da garota se alargaram ao entender as implicações disso. Mas, como ele já esperava, Alexis se manifestou primeiro. Era cansativo como aquele Príncipe tão pouco expressivo se transformava quando o assunto era sua protegida.
— Basicamente estarei lutando contra a Angel. – a raiva pontuava cada palavra do rapaz.
— Bem, se ela conseguir escapar do poder contido na joia, o problema estará resolvido.
— Então, Alexis terá que acertar três golpes nessa sua cara idiota e eu terei que me livrar de você, infelizmente de forma figurada, para vencermos o desafio?
Erak sempre se surpreendia em quanto esforço tinha que colocar para não sorrir diante daquele temperamento ímpar. Com tranquilidade, concordou:
— Isso mesmo. Então para ajudar seu amado Príncipe, sugiro que seja muito rápida. Você tem se mostrado bem eficiente nos treinamentos, mas como anda o controle de sua mente? É interessando lembrar que, embora tenha tido uma reação notavelmente equilibrada ao chegar em Payre, foi a única que voltou a entrar em coma por alguma desconhecida crise mental – suas palavras saíram cuidadosamente venenosas ao lembrá-la disso.
— Está sugerindo que eu tenho algum tipo de deficiência mental?! – ela quase engasgara com a indignação que a ideia lhe provocara.
Bem, ele não pode evitar. Acabou rindo.
Desviando os olhos dos indignados da garota, encarou os azuis de Alexis. E havia mais do que raiva e frieza neles, um leve toque de desconfiança os sombreava. Aquilo não chegou a surpreendê-lo, pois já tinha reparado no quão possessivo era o Predestinado e se ainda existisse alguma dúvida sobre isso, a provocação feita alguns momentos antes teriam eliminado qualquer pensamento contrário.
Dando às costas aos dois, foi em direção ao centro do salão, para dar inicio a disputa. Tinha vontade de gargalhar. Era tola demais a mera ideia de sentir qualquer atração por uma Humana. Uma criatura fraca, limitada e efêmera.
Ele mostraria aos dois que seu interesse por qualquer fêmea daquela espécie se resumia apenas em torná-la capaz de lutar a batalha na qual estava destinada. A faria sangrar e gritar por clemência, derrubando por terra aquele orgulho inadequado que tinha.
Ao ouvir passos muito leves atrás de si, acompanhados por outros mais sólidos, fechou os punhos com raiva. Sabia que estava fazendo aquilo para treiná-los e prepará-los. Não por algum sentimento egoísta de vingança. Nem contra seu irmão, que parecia fazer questão de se mostrar superior, apesar de sua condição de Humano. Nem contra ela.
Nem contra a simples Humana.
Uma imagem fugaz surgiu em sua mente e logo foi descartada, mas ainda restaram resquícios suficientes para tornar seus olhos cinzentos glaciais ao fitar seus adversários.
Mergulhada na água de Payre estava a criatura mais bela que ele já vira. Tão delicada, tão pequena, tão frágil. E estava morrendo. Sim, como poderia ser diferente?
Por dias ele tinha acompanhado ela definhar e então, milagrosamente, resistir. Por meses tinha observado sua expressão tranquila e o balançar suave de seus cabelos. Por anos tinha até mesmo conversado com ela, sobre suas frustrações, seu desejo de proteger aquele mundo, seus pais, sobre ela.
Então ela viveu. Não para ele.
Sim, como poderia ser diferente?
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