Destinados à Payre
34 Confiança
Notas iniciais
— Estamos ferrados.
— Quanto otimismo.
Com voz mais animada:
— Estamos positivamente ferrados!
— É. Estamos.
Angel suspirou diante da resposta franca de Alexis. Pelo menos eles iriam ter a chance de, quem sabe, talvez, com sorte, acertar a cara pedante do Rei. E isso já seria um bônus e tanto por fazer parte daquela loucura toda.
Aproximando-se mais do centro do salão, no qual Erak os aguardava, mediu seu adversário. Ele era alto. Ok, já tinha derrubado sujeitos desse porte antes. Ele era formado por uma massa de músculos sólidos. Sem problemas, os vários atletas que tinha feito comer terra também eram. Ele tinha garras afiadas e presas. Ora, ela vencera alguns bichos igualmente esquisitos no simulador. Ele era o Rei do lugar. Bem, desde quando ela ligava para detalhes de hierarquias? Mas, inferno, ele era a porra de um descendente direto das duas raças mais poderosas daquele mundo! Filho dos soberanos mais fodões do lugar! Como poderia ter qualquer pensamento positivo quanto ao resultado daquela luta?
— Se tiver algum plano brilhante, sou toda ouvidos, docinho.
— Deve estar realmente nervosa para me chamar dessa forma, mas tenho um, sim. E é bem simples.
— Ótimo, esses são os melhores.
Ainda em inglês, para Erak não se inteirar sobre o que eles falavam, Alexis declarou:
— Enquanto você tenta escapar dessa ligação com o Rei, eu o distrairei. Depois acabamos com ele.
— Sabe que essa sua ideia tem tantos furos quanto um queijo suíço, certo? Exemplo: eu posso não conseguir; ele pode te derrubar; nós podemos acordar feito dois idiotas daqui a uma semana no Centro de Cura, sem nem lembrar o que aconteceu. Tipo o Choi. Ai que droga, por que eu tirei tanto com a cara dele antes, hein?
Alexis arqueou uma sobrancelha negra.
— Alguma sugestão melhor? Não vejo como tentar acertá-lo fará com que tenha chance de escapar do efeito dessas Alianças. Se eu conseguir, você vai sentir o golpe e provavelmente terá ainda mais dificuldade para se concentrar no que deve. Além disso, para que eu tenha alguma vantagem precisaria usar o poder do sangue, como da última vez. E sabe o resultado disso.
Ele tinha razão. A melhor chance deles seria se ela conseguisse ficar livre de Erak o quanto antes. Ou que Alexis ignorasse a dor dela e partisse para cima do Rei, já que depois de três golpes ele venceria. Só que, depois de três golpes como ela estaria? Angel não teria a menor condição de vitória. Alexis sabia disso, e ele jamais a abandonaria a própria sorte.
— Comecem!
Assim que a Rainha deu sua ordem, Angel viu apenas um borrão escuro ir na direção deles. Antes de sequer piscar, Alexis já estava do outro lado do salão, amassado contra uma parede destruída. Erak, a apenas alguns passos de distância dele ecom os braços cruzados sobre o peito, ria desdenhosamente. Cara, como ela detestava aquele sujeito.
Desesperadamente ergueu o braço e olhou para a pulseira que Noor havia colocado ali, sem qualquer gentileza, aliás. Apesar da aparência de gelo da tal Aliança de Arihak, ela era muito quente. Reparou apenas superficialmente que Alexis, após soltar-se dos destroços, começou a se afastar do Rei, pois sua atenção estava na peça maldita que a ligava àquele Rei Zangão. Como iria soltá-la?!
Para sua surpresa, não percebia nada de diferente em si mesma, tinha imaginado que passaria pela desagradável experiência de ter Erak em sua cabeça, e vice-versa. Mas não. Nada indicava a ligação entre eles, então era difícil focar-se na tarefa de se livrar de algo que não estava lhe provocando qualquer reação.
Frustrada, ergueu a cabeça a tempo de observar Alexis com aespada em punho defendendo-se das garras do Rei. Erak tinha investido contra ele, que usava a arma quase como um escudo, mas ainda que fossem praticamente da mesma altura, o físico avantajado do adversário parecia, pelo menos superficialmente, deixar Alexis em desvantagem. O Príncipe curvava o corpo para trás, sendo praticamente arrastado pela força do outro.
Para horror da garota, ela viu o Rei recuar um passo e então, com uma velocidade espantosa, cravar suas longas garras no braço de Alexis, que foi ágil o bastante para evitar danos maiores, caso contrário poderia ter perdido o membro. O resultado foram cortes do ombro ao cotovelo e muito sangue.
Seus olhos pousaram sobre os azuis dele. Viu a dor em meio a determinação e aquilo doeu nela mesma, de forma clara e profunda. Não precisava de uma joia mística para sentir o que Alexis sentia. Seu coração pulsava em agonia, em revolta pela própria incapacidade de ajudá-lo. E sabia que ele sentia o mesmo com relação a tarefa dada a ela. Mas não era ela quem estava sangrando e sendo fatiada como a porra de um presunto!
Sem misericórdia, Erak praticamente pulou sobre Alexis, as garras diretamente apontadas para o pescoço dele. Alexis desviou com a ajuda de sua espada, mas, como antes, não pôde evitar ser ferido. O ombro, do mesmo lado do braço lesionado, passou a também sangrar profusamente. Ele estava forte o suficiente para não ser tão afetado por seus ferimentos, como aconteceria se ainda fosse o Alexis que vivia na Terra, mas não era capaz de evitar totalmente a dor provocada por golpes tão severos. Embora Alexis não exibisse qualquer outra reação que não a mesma frieza de sempre, além de uma concentração inabalável, Angel podia ler cada detalhe do seu rosto moreno. A tensão no queixo, a ponta da sobrancelha direita levemente caída, as pequenas linhas nos cantos dos olhos, os lábios comprimidos, com o inferior sendo suprimido pelo superior constantemente, tudo indicava o que ela mais temia. Ele estava sofrendo. Por ela. Por culpa dela. Novamente.
Sentindo-se miserável e impotente, agitou a pulseira, tentou tirá-la com as próprias mãos, arranhando o pulso delicado até que esse começasse a sangrar. Nada comparado ao sangue que Alexis derramava naquele momento para que ela não se ferisse. Ele apenas tentava se defender, não iria atacar o Rei enquanto houvesse a possibilidade de que isso poderia feri-la. Tinha que remover aquele maldito objeto antes que isso o fizesse ser ainda mais massacrado pelo adversário, que sem sombra de dúvida, estava apreciando brincar com a sua presa fácil.
A Rainha tinha dito que a Essência era controlada, não só pela força física, comotambém pela mental. Isso foi possível de observar através das armas usadas pelos outros nas lutas passadas. Quanto maior a concentração deles, mais potentes eram seus golpes. Erak tinha dito que a ligação com ele só seria quebrada através da força que ela fosse capaz de projetar com a sua mente, e que ela não parecia ter desenvolvido isso muito bem em seus treinamentos. Além da situação ímpar pela qual passara ao acordar, tão bem lembrada pelo maldito Rei.
Angel tentou forçar-se a abrir a pulseira. Imaginou ela se quebrando e libertando-a, mas foi inútil, nada aconteceu. Então tentou novamente puxar o objeto com a outra mão, enquanto se concentrava em quebrá-la, dissolvê-la ou em pulverizar a Aliança dos Infernos, mas mais uma vez não obteve qualquer resultado além de aprofundar seus ferimentos. Inferno! Inferno maldito!
Repentinamente, um chiado estranho a fez voltar a atenção para a luta. O Rei erguia as braços para o alto e algo que parecia eletricidade crepitava por toda sua extensão. Sorrindo, ele acompanhou seu poder jorrar do chão sob Alexis, que não teve como escapar daquilo. Com horror, Angel acompanhou ele ser eletrocutado tão violentamente, que seu corpo pairou a alguns metros do solo. Raios brancos e azuis castigavam o rapaz que se contorcia em agonia extrema. Então, sentindo seu coração se rasgar, Angel ouviu seus gritos. Seu orgulhoso Príncipe estava gritando.
O som que a dilacerava mais do qualquer espada, ecoou por todo seu pequeno corpo, movimentando-a quase sem que ela notasse. Indiferente ao resultado dos seus atos, com o único objetivo de libertar Alexis, ela sacou as As Penas de Dragão presas às suas costas e, mais veloz do que foi capaz de fazer alguma vez nos simuladores, correu na direção do Rei. Erak, sem esperar por esse ataque, e menos ainda com tamanha agilidade, voltou sua atenção apenas no último instante para a adversária. Angel, que tinha saltado a alguns metros dele, pulou sobre Erak com uma espada em cada mão, exibindo nada além de fúria. Ele foi capaz de bloquear uma das espadas, deslizando-a por seu braço, causando apenas um mero corte sem danos significativos, mas a outra cravou fundo no seu antebraço, a ponto de ter que cessar o poder que prendia Alexis.
Parecendo impressionado, Erak olhou para o sangue que correu pelo corte. Ele, na verdade, não estava tão surpreso com o golpe em si, mas sim com a atitude da garota, pois se aquilo estava lhe causando aquela dor excruciante, ela provavelmente estaria sentindo mais, afinal, além de ser mais frágil, não tinha passado por centenas de anos de treinamento e batalhas como ele.
E estava. Angel não tinha dimensão da dor que ter um membro decepado poderia causar, mas o que sentia não podia ser menos doloroso. Rangendo os dentes a ponto de sentir como se eles fossem quebrar, largou uma das espadas no chão e tocou o braço que parecia estar em chamas, embora se mostrasse completamente normal. Ali estava a maldição daquela pulseira.
Mas parte do seu sofrimento foi amenizado quando viu Alexis se erguer do chão parecendo bem, ainda que meio zonzo. Os olhos dele logo se focaram nela ficando cada vez mais claros conforme entendia o que tinha acontecido. Como ainda estavam com os olhos um no outro, não perceberam a intenção de Erak, por isso foi com um misto de surpresa e choque que Angel sentiu sua perna direita se dilacerando e falhando em mantê-la em pé. Ao cair no chão, seus olhos ficaram marejados, agarrou a perna com força, enquanto uma terrível confusão a tomava, pois não tinha qualquer ciência de onde vinha aquela agonia. Mas um pensamento se infiltrou por sua mente. Erak.
Procurou por ele e viu o que já esperava. Com expressão fechada, sem os característicos sorrisos perversos que lançava a Alexis, ele estava com as suas garras cravadas na própria coxa, parecendo nem um pouco afetado pela dor imposta a si mesmo. Vendo que era observado por ela, Erak aprofundou ainda mais as garras em sua carne e enquanto Angel passava a suar e gemer, ele girou a mão em um único movimento. Ela gritou e se jogou sobre a própria perna, lágrimas escorriam por sua face e o sangue manchava seus lábios cortados com os dentes, no esforço que havia feito para não gritar. Para não mostrar fraqueza.
Então um som alto de corpos se chocando atravessou a sua névoa de dor, com esforço, ergueu a cabeça. Acompanhou precariamente Alexis, que tinha se jogado contra Erak, praticamente voar pelo salão, com os braços em torno do Rei, prendendo-o contra si. Eles seriam esmagados contra a parede, pois o impacto seria realmente forte, dada a velocidade com que era feito o trajeto. Já antecipando o que viria a sentir quando a pedra sólida tocasse as costas de Erak, que estava na posição mais vulnerável, Angel prendeu a respiração. Mas a soltou logo, quase engasgando, quando Alexis, em um movimento repentino, girou o corpo em pleno deslocamento, tornando-se ele o mais prejudicado com o golpe. Seu corpo absorveu a maior parte do impacto e ficou ainda mais abalado com o peso do Rei sobre ele.
Erak logo se soltou e ficou olhando assustado para o Príncipe. Alexis saiu um tanto trôpego do meio dos destroços, parecendo muito ferido, com sangue escorrendo da sua boca e nariz, além de estar todo sujo e com as vestes com rasgos em várias partes, exibindo feios cortes em seu corpo.
—Vocês são mesmo dois Humanos ridículos! – Erak vociferou, enquanto segurava Alexis pelo pescoço, suas garras cortando qualquer carne que encontrasse pelo caminho. – Você seria capaz de me acertar os três malditos golpes, não é mesmo? Onde está seu poder?! Por que não o usa?!
Quando os olhos de Alexis se abriram e encararam os cinzas de Erak, antes de desviarem para Angel que permanecia sentada no chão, o Rei praticamente rugiu e sacudiu o corpo que segurava, com violência suficiente para fazer com que Alexis cerrasse os dentes com força.
Angel viu a si mesma através dos olhos de Alexis. Caída no chão, sem nenhum arranhão, apenas levemente suja e suada. Bem. Em segurança. Fechando os punhos, lágrimas de raiva transbordaram dos seus olhos. Alexis não estava ferido por culpa de Erak. Não, era por culpa dela. O Rei detestável tinha razão, ele seria capaz de vencê-lo caso usasse a força que possuía, mas ele não ia fazer aquilo. Não a deixaria sozinha para ser derrotada.
Então ela só tinha duas escolhas. Destruir aquela ligação com o Rei. Ou deixar que Alexis tivesse a chance de vencer, saindo da jogada. Rangeu os dentes. Já bastava de vê-lo sofrer por esperar algo que não iria acontecer. A decisão estava tomada.
Quando encarou Alexis novamente, notou que ele compreendeu. Viu o Príncipe lançar sua atenção sobre o Rei, que voltou a sacudi-lo, além de, com a mão livre, cravar suas garras na perna do adversário, como se ele fosse um mero boneco de trapos. A falta de reação de outro, deixou Erak completamente fora de si.
— Por quê?! Você não quer vencer? Acha que isso tudo é apenas uma grande bobagem indigna da sua preciosa atenção?! Lute!! – o Rei jogou Alexis contra um pilar, e enquanto o socava ferozmente com as garras recolhidas, ordenou – Vamos, lute!! Acha mesmo que vou esperar eternamente para que a sua namorada resolva usar seus poderes? Ela não será capaz disso, Não notou?! Então lute, me vença!
Angel se ergueu, a dor da perna quase superada, provavelmente era o poder de cura do Rei fazendo seu efeito. Novamente, com as espadas em punho, foi na direção de Erak, mas parou subitamente quando ouviu a voz de Alexis, baixa e entrecortada. Mas decidida.
— Ela consegue.
—Como? – Erak indagou, surpreso por finalmente Alexis se manifestar.
—Angel... Ela consegue, sim.
Angel sentiu seus membros ficarem rígidos e seu coração disparou. Ela finalmente entendeu. O plano de Alexis tinha sido planejado com base na confiança entre eles. Em nenhum momento ela tinha sequer pensado na hipótese de Alexis lutar para valer com Erak enquanto ela ainda permanecesse com o vínculo. Mas não tinha imaginado que ele também não pensava em nada além da certeza de que ela iria conseguir se livrar da Aliança de Arihak. Assim como ela tinha decidido dar um jeito de sair do caminho de Alexis, pois ele não faria nada se ela não tomasse essa atitude. Ele não tinha tentado reagir, e decidirá até mesmo se tornar um mero brinquedo nas mãos do Rei, porque ele sabia que ela seria capaz. Confiança. Simples assim.
Apertando as mãos com força nos cabos das suas espadas, Angel não reparou no brilho azulado emitido pela joia em seu pulso, pois sua atenção estava voltada para o Rei que socava ainda mais enlouquecidamente um Alexis que mal parava em pé. Parecendo, além de zangado, quase enojado, Erak ergueu Alexis no ar e o lançou contra o chão, a alguns passos dele. Fazendo surgir as letais garras novamente, disparou com zombaria:
— Então aproveite bem essa confiança toda.
Ela viu a garra ir na direção de Alexis. Não viu quando correu, poderia jurar que não sentiu o chão sob seus pés e apenas se deu conta de que tinha transformado em pó a pulseira quando segurou o punho de Erak com as duas mãos e viu, distraidamente, que ela já não estava mais lá, havia apenas uma leve poeira de vidro brilhante.
Então veio a dor. Achou até mesmo estranho que ela não tinha sido a primeira coisa que sentiu. A primeira tinha sido o calor. Tentou falar, mas engasgou-se, quando tossiu, seu sangue manchou a roupa do Rei e respingou no rosto pálido e severo do soberano que a observava completamente em choque. Apesar de sua situação, Angel sentiu-se um pouco satisfeita por sujá-lo daquela forma. Pena que tinha sido o seu próprio sangue e não com o dele. Mas logo sua mente ficou em branco.
Putaquepariu, aquilo era a dor mais infernal que ela já tinha experimentado. E olha que não era exatamente uma novata na área. Seu histórico de tentativas de suicídio e as suas muitas horas no simulador eram a prova disso. Mas era significativamente um outro nível quando cinco garras longas e muito afiadas estavam profundamente cravadas em seu estomago.
— Angel!!
Era Alexis. Bem, agora sim ele tinha um bom motivo para pirar com ela. Ah, droga, ia ser um saco se ela sobrevivesse e tivesse que escutar durante horas sobre suas ideias loucas e arriscadas.
— O que você fez?! – Alexis logo estava do seu lado, pálido, com olhos arregalados.
Se sentindo zonza, percebendo alguns pontos escuros a sua frente, Angel usou toda a força que ainda lhe restava para adverti-lo:
— Nada de chiliques agora, por favor! – respirou fundo, se engasgou novamente, mas evitou tossir, afinal o Príncipe já parecia assustado o suficiente sem que ela começasse a jorrar sangue pela boca como uma personagem do Exorcista. Mantendo a mão do Rei firmemente presa com as suas, com os olhos violetas cravados nos de Erak, embora suas palavras fossem ainda para Alexis, continuou – Eu quebrei aquela bugiganga maldita, então é hora de cumprir a sua parte. Acabe logo com esse Rei filhodaputa! – percebendo que Alexis não se mexeu do seu lado, gritou: — Agora, Alexis! Eu estou sangrando aqui, porra!
Foi um misto estranho de alivio e dor ampliada quando as garras deslizaram para fora do seu corpo, antes que caísse, braços fortes a sustentaram.
— Descanse.- Alexis sussurrou, parecendo trêmulo.
Foi colocada com delicadeza no chão e em segundos estava sendo atendida pela Mestra da Lali, Zaffy, que também era uma Curadora, a melhor aliás. O que era bom, pois sua situação estava realmente chata, com todo aquele sangue saindo do seu corpo e tal.
Ela sentiu um leve calor na nuca e logo todo seu corpo passou a não mais existir, até deu uma olhada para ter certeza que isso não tinha acontecido literalmente. Mas, ainda bem, estava tudo no lugar. Era apenas o efeito da poderosa anestesia, assim ela não sentiria dor, nem os membros, mas poderia escolher ficar acordada. Só não seria capaz de falar, e dependendo da sua resistência no momento, nem mesmo piscar. O que era bem esquisito.
Antes que alguém tivesse a boa ideia de levá-la dali sem que a luta tivesse terminado, tocou o braço da Eiff com a ponta dos dedos e apontou para Alexis e Erak. A ruiva sorriu e balançou a cabeça, e como era uma pessoa muito legal, que subiu bastante no conceito de Angel naquele momento, apoiou a cabeça da garota em seu braço, de modo que ela pudesse acompanhar o que acontecia. E, cara, estava interessante!
Erak e Alexis, agora fazendo uso dos seus poderes com direito a garras, presas e orelhas pontudas, se engalfinhavam pelo salão. Se socavam, chutavam, quebravam paredes e até mesmo o teto. E para satisfação de Angel, dava para reparar na surra que o Rei estava tomando. Ela podia jurar que os três golpes já tinham sido dados, mas quem ligava? Ela é que não estava contanto. Embora, assim, por cima, estivesse em doze...
Com nojo, Angel acompanhou uma mão deslizar pelo chão liso, mas não tão limpo de antes. Por ser pálida como a de um fantasma, logo supôs que fosse de Erak. Ela agradeceu imensamente por ter conseguido quebrar o vínculo antes, por que aquilo ali certamente iria ter lhe causado uma baita dor. Era uma pena, que sendo um Alicano, o Rei teria seu membro de volta dentro de algumas horas, pior, sendo o sujeito poderoso que era, provavelmente em alguns minutos. Mas era só o que Alexis precisava para terminar a brincadeira.
Erak, com fúria estampada em seu rosto, agora bastante machucado, ergueu o braço, fazendo surgir os raios de antes. Eles logo apareceram sob os pés de Alexis, mas o Príncipe em um golpe certeiro, cravou a espada no chão e ergueu a cabeça. Seus olhos azul acinzentados, efeito do uso de seus poderes, ficaram quase brancos e a corrente elétrica percorreu Erak, desde os braços que o formavam até seus pés, arremessando-o longe com o impacto da descarga súbita.
Antes que o Rei pudesse se erguer, Alexis quase se teletransportou pelo salão, Angel só viu ele em um ponto e logo no outro, prendendo Erak pelo pescoço com um dos seus braços, enquanto o ameaçava com a espada, a lâmina brilhante perigosamente próxima da pele pálida e sensível do pescoço do monarca.
Com a boca quase colada a orelha do Rei, Alexis disse friamente:
— Eu sei que essa espada que escolhi foi usada pelo seu pai. A “Morte Cinzenta”, porque transforma em cinzas tudo o que corta, impedindo qualquer regeneração, além de ser excelente para bloquear magia elementar. Como os seus raios.
Angel sorriu. Seu Príncipeera a porra de um CDF mesmo.
— Não vou matá-lo, ainda. – a lâmina tocou a pele do Rei, fazendo escorrer um filete de sangue, mas a ferida não ficou vermelha, toda e extensão do corte tornou-se cinza. – Contudo, se voltar a usar ela para me provocar, lembre-se, Erak: você precisa de mim para sua maldita Profecia. Eu não preciso de você.
Largando o Rei, Alexis se afastou. Ao sentir a Eiff que a segurava respirar fundo, notou que todos tinham ficado completamente paralisados durante a luta e notavelmente tensos ao verem a espada de Alexis ameaçar a vida do Rei de forma tão gritante.
Sendo ainda capaz de mexer os olhos, piscou para Alexis quando ele parou ao seu lado. O rapaz a pegou no colo e, acompanhando por Zaffy e por uma preocupada Lali, saiu do salão.
Angel finalmente fechou os olhos. Agora, sim, poderia descansar, pensou aconchegada àquele que. para ela, sempre tinha o cheiro e o calor do sol.
***
— Então os Reis se encontraram?
— Sim, Majestade.
— Foi possível interceptar a conversa?
— Partes dela. Sabemos que eles estão pressionando os Reis de Sylesth para serem apresentados a algumas pessoas importantes, mas não conseguiram seu intento. Farão uma nova reunião daqui a alguns dias, mas apenas com a presença dos Duques, como de hábito. E eles estão cientes da nossa espionagem.
Khor sorriu.
— Ótimo. Não esperava menos já que eles têm aliança com os Eiffs, tão eficientes com suas tecnologias. Mas tão fracos.
O Deiroon, que estava passando as informações para o seu Rei, zombou:
— Tão fracos que precisam que meras criaturas de metal lutem por eles.
A Duquesa de Rinka riu, enquanto passava suas longas unhas pelo braço musculoso do Rei, em movimentos sugestivos, nem um pouco preocupada em ser sutil:
— Digam isso para os Darkanos, eles não devem achá-los assim tão ridículos, já que mesmo seus Dragões de Fogo não são páreo para suas “meras criaturas de metal”.
Khor olhou para a mulher ao seu lado, uma sobrancelha loira levemente arqueada.
— Está sugerindo que deveríamos ter alguns desses brinquedos também, Duquesa?
Ela sorriu de forma sedutora.
— Um Deus deveria ter todo e qualquer poder a sua disposição, meu Rei. E poder é poder, não importa a sua forma.
— Os robôs só podem ser controlados pelos próprios Eiffs. – o espião Deiroon lembrou-os.
Khor deu uma leve mordida no ombro da Duquesa, após colocá-la sentada em seu colo. Seus olhos dourados lançaram-se por sobre a pele macia dela, diretamente na direção do outro ocupante da sala. Era Hock, seu mais poderoso guerreiro, o seu Primeiro em comando.
— Então, meus caros, acho que estou farto do sangue dos Oberohs, dos Meiruus e dos Darkanos. Gostaria de algo mais... Amargo. Chamem Kaill.
A Duquesa sorriu, feliz. Se Khor fosse variar seu paladar, ela também teria essa oportunidade. Ele sempre dividia seus petiscos com ela. Fazia algum tempo que não provava o sangue e a carne dos Eiffs. Lembrava vagamente do sabor amargo, mas deliciosamente forte. Os Meiruus eram salgados, os Oberohs refrescantes e os Darkanos muito picantes. Ah, mas os melhores eram os Alicanos e os Nerinis. Os Alicanos eram ácidos e os Nerinis tão doces que era quase impossível parar de sugá-los.
Era uma pena que fosse tão difícil de conseguir os mais deliciosos, mas como Khor dizia, por serem difíceis é que eram os mais apetitosos.
— Vejo que já está com um olhar guloso, Duquesa.
Para provocar, ela passou a língua pelos lábios cheios e formosos.
— Estou excitada pela ideia de provar alguns Eiffs. Além disso, — ela ajeitou-se no colo do Rei Deiroon, sentindo o membro firme sob seus quadris, e comprimindo os seios fartos no peito amplo e nu dele. – As mulheres são tão coloridas e vibrantes. Adoro aqueles cabelos vermelhos na minha pele dourada. – mordiscando a orelha do Rei, acrescentou em tom ligeiramente rouco – assim como os seus sobre a minha pele nua, meu amado Khor.
— Sua Filha de Deow! – Khor gargalhou – está sempre me tentando!
Indiferente aos dois outros homens na sala, Khor colocou a fogosa Duquesa sobre a mesa, arrancando suas parcas roupas, enquanto apertava e mordiscava a pele lisa e tenra. Estava enjoado do gosto dela, da textura dela, até mesmo dos sons que ela fazia quando penetrava seu corpo quente e ansioso, como naquele momento. Mas gostava da paixão dela e, principalmente, da sua alma que era quase tão negra quanto a dele. Se um dia viesse a matá-la, poderia até chegar a sentir algum tipo de... bem, algo, ou que quer que as pessoas sentissem quando acabavam com a vida de um animalzinho com o qual já estivessem acostumados, mas às vezes se tornavam tediosamente irritantes. Como a Duquesa e suas demonstrações de afeto. Essa era a única falha que via nela e que estragava definitivamente seu sabor. Ela o amava. Não como a um Deus, mas como homem.
Ele riu alto com a ideia, e seu corpo se sacudiu ainda mais sobre a mulher em que arremetia com força e, até certo ponto, com fúria. Quando percebeu que estava no limite entre lhe provocar prazer ou a morte, desacelerou, saiu de dentro do corpo feminino, privando-a de chegar ao ápice do prazer.
Após lamber um dos seios que já tinha achado insuperáveis, beijou-a nos lábios, com os olhos fitando os verdes nebulosos e ligeiramente raivosos, ele segurou de forma rude o pescoço fino. Com naturalidade quase amorosa, disse:
— Cada vez que me lembra de suas tolices, mais perto de encontrar Deow você se coloca, minha Duquesa.
Sem perder mais tempo com ela, Khor saiu da sala, seguido pelos dois homens para ir ao encontro do maior pirata Meiruu, Kaill.
Fale com o autor