Destinados à Payre
39 O preço da coragem
Notas iniciais
O céu estava com um tom de azul particularmente belo naquele dia, e havia sol. Depois de tantos dias sem aparecer, lá estava ele, brilhante e convidativo. A telha vermelha estava quente e por isso mostrava-se tão confortável em meio aquele frio outonal, assim, Ren estava satisfeito em apenas ficar jogado nela, sentindo o calor agradável do sol sobre o seu rosto.
Mantendo os olhos fechados, pensou em como era bom relaxar. Nada de cobranças, de comparações, de se preocupar com intermináveis coisas necessárias para sua formação, por ser filho de pessoas importantes, figuras admiradas, inspiradoras, que obviamente só teriam sido capazes de gerar alguém ainda mais admirável do que elas próprias. Mas, ali ele era apenas uma pessoa qualquer aproveitando sua tarde da forma como bem queria. Sorrindo, feliz, abriu os olhos.
Distraidamente acompanhou uma borboleta em lindos tons de vermelho e laranja, voar livremente. Costumava invejar todas as criaturas que possuíam asas, pois elas podiam ir para qualquer lugar que quisessem. Isso o tinha feito decidir que jamais teria qualquer ave presa em uma gaiola. Sabia como era viver dentro de uma, e a sua era muito luxuosa, feita de barras de ouro encrustadas com diamantes. E tudo que precisava fazer era cantar as músicas que pediam. Nunca as de sua própria escolha, nesse caso, até mesmo as aves tinham mais vantagens.
Seus olhos continuaram a seguir a borboleta, ergueu a cabeça para acompanhar seu voo tão suave até vê-la pousar no peitoril de uma janela. A cortina alva se ergueu brevemente com o vento e ele vislumbrou sua irmã curvada sobre a mesa, seriamente estudando.
Ren tinha pena dela. Ela era tão linda e doce, como o pai deles não percebia isso? Ele também amava o pai distante e exigente que tinham, mesmo com seu temperamento tão difícil, ainda que tivesse que constantemente fugir como fazia naquele momento, apenas para não enlouquecer com tantas complicações impostas tão autoritariamente. Sempre percebeu Monalisa como a mais forte deles, pois sinceramente não conseguiria aguentar tão pacificamente tanta frieza paterna. Nem conseguiria manter tamanho empenho em busca de afeto, e ela era praticamente incansável nesse sentido.
Ren ficava feliz por ser ele o filho querido, pois se fosse o indesejado como a irmã, já teria se revoltado contra tudo aquilo. Mas Monalisa era paciente e determinada, vibrava com míseras insinuações de elogios e quase brilhava como uma pequena estrela quando o pai se dirigia a ela, mesmo que fosse apenas para solicitar que passasse o sal. Era mesmo muito triste.
Ele já tinha pensado em aproveitar-se da sua condição de favorito para ajudá-la, mas no fundo havia uma espécie de medo egoísta que o impedia. E se, com a ajuda dele, o pai percebesse o quão maravilhosa Monalisa era? Como seria ter que dividir os tão raros momentos que passava com ele? Era feio, era cruel, sabia disso. Mas, bem, Ren tinha consciência de que nunca tinha sido um bom menino. Aliás, sendo honesto consigo mesmo, o maior impedimento era o de acabar atraindo para si o desgosto paterno ao fazer isso. Dessa forma, simplesmente não se envolvia na situação.
Com preguiça de ter que voltar para dentro de casa, e querendo aproveitar um pouco mais seus raros minutos de liberdade, Ren não firmou tão bem o pé quanto deveria ao se erguer sobre as telhas. Sua queda foi tão brusca quanto o término dela. Surpreso reparou que fora o susto e alguns arranhões, estava bem. Tinha caído apenas de um lance muito pequeno de telhado para outro. Agora mais cuidadoso, ergueu o corpo e reparou que sua única forma de sair dali era por uma estreita janela. Bem, paciência, teria que dar um jeito.
Ao levar a mão para abrir o vidro, ouviu um barulho do lado de dentro. Com receio de ser descoberto e nunca mais poder usar os telhados da mansão como esconderijo, ficou espremido ao lado da janela, em um pequeno espaço de parede. Após alguns instantes, espiou para ver se o caminho estava livre. Não reconheceu que sala era aquela, provavelmente era algum dos escritórios do pai que nunca era permitido entrar, então estaria duplamente encrencado se fosse descoberto. Ainda pensava em como abriria aquela janela, quando viu um movimento lá dentro. Tinha duas pessoas e elas estavam se beijando. Provavelmente eram os empregados da casa, já tinha flagrado cenas realmente interessantes entre eles, algumas bem educativas. Embora sua mãe dificilmente concordaria com essa definição.
Quando a mulher ficou de frente para ele, surpreendeu-se pois não era de fato uma mulher. Era Ruby, colega da Monalisa na escola feminina que ela frequentava. Tinha apenas onze anos e estava passando as férias na casa deles.
Então o choque se transformou em desespero quando o homem ergueu a blusa da menina e, ao levar os lábios para os pequenos seios que mal começaram a se formar, seu rosto ficou visível.
Era seu pai.
Seu pai estava com a cara enfiada nos peitos da amiga de Monalisa. Que tinha onze anos.
Seu pai erguia a saia da garota que tremia e chorava em silêncio com olhos firmemente fechados.
Seu pai.
Seu pai.
Não...
Não, não, NÃO!!
***
Naquela época, Ren tinha caído do telhado e perdido a consciência.
Ao acordar, tinha encontrado um monstro.
Passados onze anos, ao acordar, também tinha encontrado um monstro. E não apenas um, mas vários deles. Seres com olhos negros e assassinos. Eles estavam armados e pareciam prontos para matá-lo. Engraçado, ainda assim o monstro de tantos anos atrás ainda era muito mais assustador.
Porque ele era seu pai.
***
Havia uma tensão tão sólida na nave, que poderia até mesmo ser cortada com uma espada. Zaffar, sempre tão displicente, naquele momento estava sério e concentrado enquanto observava o painel de comando. Zafy, ao seu lado, não tirava os olhos dos dados que apareciam, assim como os dois Sentinelas parados do outro lado do Guia. Apenas Vishal estava mais afastada do grupo. A culpa não a deixava se aproximar dos demais.
Como tinha sido tão tola?
Não servia como justificativa a sua falta de conhecimento sobre os Humanos pelo fato dos soberanos de Sylesth manterem tantos segredos sobre eles. Nem mesmo a sua total ignorância quanto à possibilidade de um dos Escolhidos cogitar fugir. Eles não deveriam ser os guerreiros que salvariam Payre?
Como um Escolhido da Deusa Ashy iria querer fugir da missão? Era impensável a ela. Mas tinha acontecido. Ren, o Humano enviado para salvá-los, a tinha enganado e fugido do palácio.
E naquele momento poderia estar morto.
Por culpa dela.
― Acho que encontrei. – Zaffar anunciou, então franziu o cenho deixando-o vincado com marcas profundas de preocupação. – Humano idiota. Agora fiquei com vergonha de ser o Mestre desse boçal.
Ansiosa, Vishal se aproximou da tela, e antes que pudesse se conter, seus lábios exclamaram um chocado “Por Erow!”.
Estava muito claro na imagem. A nave usada para a fuga do pupilo de Zaffar tinha caído exatamente no local invadido pelos Darkanos, a praia que formava a costa do Ducado de Iak. Caso Ren ainda estivesse vivo, não duraria muito, pois se encontrava na parte onde a batalha entre os Eiffs e os Darkanos estava mais feroz. Se fosse pego por qualquer um dos lados, seria imediatamente morto.
― Já sabemos onde ele está. – Zaffar informou aos reis de Cylles e de Sylesth através do comunicador. – Estamos indo até lá. Enviem as outras naves para essas coordenadas que estou passando.
Além das cinco pessoas ali presentes, outras quatro naves com mais de trinta soldados estavam sendo enviadas para resgatar o Humano. Os outros Escolhidos da Deusa e o Predestinado tinham sido escoltados de volta para Sylesth sob a proteção de Esan e Noor. Não poderiam arriscar sofrer mais perdas.
Ansiosa pelo que poderia acontecer, durante o curto trajeto até o Ducado, palco da terrível batalha que acontecia naquele momento, Vishal ficou absolutamente parada, com as mãos nas costas e olhos pregados nas telas. Assim que viu ao longe o destino deles, sinalizou para os outros dois Sentinelas. Eles balançaram a cabeça de forma positiva, então ela informou aos demais:
― Nós vamos usar os Trons para resgatar o Humano. Fiquem atentos ao nosso sinal para realizarmos a remoção dele da área de risco.
Zaffar nem se virou para olhá-la, os demais anuíram com a cabeça antes de tomarem suas posições.
Ainda que tivesse sido a maior responsável pelo que estava acontecendo, Vishal ainda era a Sentinela mais poderosa de Cylles. A líder deles. A única Sentinela que sobrevivera a Segunda Grande Batalha, embora tenha ficado para trás. Por isso era conhecida como “Aquela Que Ficou”.
Há mais de vinte anos, quando todos os soldados fugiram do campo de batalha, pois já não havia esperança de vitória, e correram desesperadamente para as naves que levavam os civis para a segurança do reino de Sylesth, sob as ordens do Rei Melkor, Vishal, além de mais cinquenta outros Sentinelas, foram os únicos soldados Eiffs que ficaram. Eles se sacrificariam para que os outros pudessem escapar. Tinham como missão impedir o avanço do exército de Khor, até que todos estivessem a salvo.
Além dos Sentinelas, haviam permanecido os Reis Eiffs, a Rainha Syka e o Rei Melkor. Quando todos estavam em segurança, Melkor pediu que a Rainha Nerini e os Reis Eiffs também fugissem, pois ele impediria Khor e seus aliados. Os Sentinelas restantes permaneceram lutando. Vishal entre eles.
Ela assistiu os Reis de Sylesth se despedirem. Ela viu os Sentinelas morrerem um a um. Sua mãe, a líder deles na época, perecer e ser devorada por um grupo de Deiroons. Vishal havia tentado salvá-la, mas foi impossível, estavam todos condenados. Já se entregava a morte na luta contra os vários inimigos, seu Tron completamente destruído, quando o Rei Melkor a viu. Ele era poderoso demais para qualquer um daqueles seres, mas eram milhares e Khor logo estaria ali também. Então ele a tirou dos destroços e tocou seu rosto com uma delicadeza que a surpreendeu. Exibindo um gentil sorriso, o Rei Alicano disse: “Você não vai morrer aqui, corajosa guerreira”. Ela viu uma luz intensa, a seguir a escuridão, e nada mais.
O Rei Melkor a salvou antes de explodir todo o seu poder e destruir os inimigos, e junto, o reino de Cylles. Ela estava viva graças a ele. Os Eiffs estavam vivos graças ao Rei Alicano. Payre ainda tinha alguma esperança porque um poderoso ser sacrificou-se por todos. Por isso, ela não entendia o egoísmo de um Humano que fugia quando era seu papel lutar para proteger aquelas mesmas vidas. Mas ela, Vishal, jamais seria tão covarde.
Vendo o ponto ideal para se aproximar, os olhos rosados de Vishal se iluminaram, assim como todas as suas sardas, também rosadas, que cobriam todo seu corpo. Elas se projetaram para fora, como minúsculos pontos de luz, enquanto linhas foram se interligando formando uma extensão de cada parte dela. Era como se suas sardas fizessem uma projeção da Sentinela. Enquanto isso acontecia, as luzes azuis a cobriram fazendo-a sair da nave. Caindo pelo ar, as linhas concluíram a ligação entre os milhares de pontos espalhados em seu entorno. Quando isso aconteceu, os espaços entre elas foram se preenchendo e formando a figura de um Tron, a armadura de quatro metros de altura que os Sentinelas usavam para lutar.
Por fora era uma armadura constituída por sólido metal preto e vermelho. Por dentro, Vishal estava segura em uma espécie de bolha preenchida pela água de Payre. Aquele era o núcleo do Tron, através do qual a Sentinela o comandava. Mas os Trons também eram uma entidade separada, por isso, enquanto ela procurava através dos sistemas a localização exata de cada soldado que acompanhava aquela missão, o Tron reclinou o corpo e pousou no chão com delicadeza, apesar de seu imenso tamanho e peso, e começou a correr sobre a areia e a atirar contra os Darkanos que estavam no caminho.
― O Humano está cercado por pelo menos dez Darkanos e um Dragão de Fogo. Oito Darkanos estão com ele dentro da nave caída. – informou o Tron.
― Avise os outros. Vamos destruir o que estiver no caminho e precisaremos de cobertura contra o Dragão.
― Informações repassadas.
Vishal viu os vários soldados Eiffs saltarem das naves bem no meio dos Darkanos, assim como ela e os outros dois Sentinelas haviam feito. As naves logo começaram a ser atingidas pelos Dragões que estavam por perto. Aquela cena toda a entristeceu. Nenhum daqueles valentes Eiffs sobreviveria àquela missão. Os Trons eram capazes de resistir bem mais a um resgate suicida como aquele, mas os soldados Eiffs, contando apenas com suas próprias forças e armas, mesmo sendo os melhores, não iriam fazer nada além de retardar o avanço dos Darkanos, enquanto eles chegavam ao local onde o Humano idiota estava.
Com uma ira que procurava encobrir sua dor, Vishal esmagou com as próprias mãos um Darkano que saltou sobre ela, e atirou em outros três que vinham em sua direção. Aumentando sua velocidade, passou por mais alguns inimigos, enquanto percebia algumas explosões as suas costas. Eram os malditos Dragões de Fogo entrando em combustão. Eles explodiam feito bombas, matando vários a sua volta e depois simplesmente se regeneravam das chamas. Mesmo os Trons poderiam ser avariados pelas explosões caso estivessem muito próximos quando isso acontecesse, e não fossem rápidos em ativar seus escudos.
Os Darkanos, graças a sua magia, não eram afetados pelo fogo dos Dragões. Também eram muito velozes e embora suas armas não fossem tão avançadas quanto as dos Eiffs, eles eram difíceis de acertar, pois se teleportavam com a mesma velocidade estonteante com que se moviam. Os Domadores, aqueles que compartilhavam seus poderes com os Dragões de Fogo, conseguiam explodir, ainda que com impacto menor. Mas eram tão letais quanto os animais alados gigantescos que sobrevoavam às centenas o lugar, graças as poderosas asas formada por escamas tão duras quanto mortais, uma vez que o veneno que cada uma delas continha só poderia ser retirado com o sangue do Dragão que a possuía. O que significava, no fim das contas, que ser atingido por uma delas era morte certa.
Assim que avistou a nave roubada, e consequentemente o Dragão que a guardava junto aos vários soldados, Vishal esperou os outros Sentinelas se aproximarem, atirando e atraindo a atenção do grupo. Quando eles se dispersaram para atacá-los, ela foi para cima dos que permaneceram perto do alvo. Praguejando quando um Drakano desapareceu quando estava prestes a acertá-lo, sentiu o impacto de uma chama em sua perna direita. Sorte que o Tron tinha evitado um dano maior ao saltar para o ar, assim o golpe atingiu-a apenas de leve. Sem perder tempo, acertou outro inimigo, que como os anteriores, estourou de forma repugnante, restando apenas uma gosma vermelha escura, quase negra, que se espalhou pelo ar. Ao se aproximar ainda mais do seu objetivo, Vishal percebeu que os Darkanos notaram a intenção dos Sentinelas, e deixando-os para trás, começaram a atacá-la incessantemente.
Protegendo-se ativando seu escudo com potência máxima, a Eiff ergueu as mãos do Tron, exibindo as duas armas que continham a munição especial capaz de disparar pequenas esferas negras, chamadas de goons, que quando em contato com o alvo, o envolvia com um líquido viscoso em questão de milésimos de segundos, até espremê-lo e então estourá-lo. Era muito eficiente principalmente no caso dos Darkanos, pois mesmo que se transformassem em chamas, não conseguiriam escapar ao serem atingidos por ela. Então, com sua mira perfeita, Vishal passou a caçar os Darkanos que se aproximavam, a velocidade de suas armas quase se igualando a que eles usavam para desaparecer e aparecer em outro lugar. Mas, ainda assim, eram muitos, uma vez que além do que já estavam ali quando chegaram, outros se reuniram a eles.
Ouviu uma enorme explosão a sua esquerda. Mais um Dragão havia sido detonado e dessa vez estava muito próximo dela, tanto que chegou a sofrer um certo desequilíbrio, o suficiente para ser atingida pelos oponentes à espreita. Graças aos seu escudo, conseguiu se proteger, mas perdeu uma de suas armas. A situação estava indo de mal a pior. Se não chegassem logo ao Humano, fracassariam naquela missão. Tantas vidas desperdiçadas inutilmente.
― Líder. Dois Dragões de Fogo estão se aproximando. Ragh foi retardá-los, mas estamos ficando sem tempo.
Ouvir as palavras ditas pelo companheiro Sentinela apenas confirmou seus temores, por isso, com sua arma em punho e fazendo com que outras seis surgissem no entorno do seu Tron, ela foi com tudo para perto da nave que era o objetivo. As novas armas a sobrevoavam em velocidade alucinante, atirando precisamente nos alvos, ajudando-a a limpar o caminho. Apenas Sentinelas muito poderosos conseguiam controlar tantas armas ao mesmo tempo, pois como o Tron era intimamente ligado a essência do Sentinela, o seu poder de fogo também era, por isso fazer uso de tamanha potência requeria muito poder e energia. E Vishal era uma das raras pessoas capazes disso.
― Perdemos Ragh. Sua armadura foi completamente destruída.
Apesar de abalada com a informação passada pelo Tron, Vishal não perdeu o foco, estava quase lá.
― Líder. Um dos Dragões foi derrubado por Ragh, estou cuidando do outro, mas não sei por quanto tempo mais vou conseguir. Zaffar está se aproximando para ajudá-la.
Vishal logo reconheceu o Tron preto com verde escuro vindo a sua esquerda. Assim como ela, Zaffar tinha aprendido com os pais, também Sentinelas, a conjurar uma armadura. Apenas Eiffs com características muito especificas eram capazes de unir a própria essência às maquinas, ao ponto de criar uma.
Na situação em que estava, Vishal nem mesmo seria capaz de questionar a atitude de Zaffar ao não cumprir o plano traçado por eles. Como tinha passado quase a vida toda em Sylesth, sendo treinado para se tornar um Guardião, Zaffar não era tão familiarizado aos campos de batalha, embora tivesse participado de alguns pequenos conflitos nas fronteiras, por isso Vishal não o considerava preparado para uma missão daquelas. Mas não era o momento de pensar nesses detalhes, pois estavam em uma situação desesperadora.
Com a ajuda dele, abriu passagem e entrou na nave. Logo encontrou o Humano caído entre um pequeno grupo de Darkanos. Assim que eles a viram, seus olhos com escleras negras flamejaram e seus corpos começaram a brilhar ameaçadoramente. Desgraça, eram quase todos Domadores! Se explodissem ali dentro ela não conseguiria evitar que o Humano fosse morto. Sem tempo para pensar direito, agindo através dos seus instintos, começou a atirar antes que eles atingissem o objetivo. A gosma dos vários corpos lançaram-se para todos os lados, mas ainda que fosse muito veloz, eles eram mais e as explosões foram invitáveis.
Então Visahl fez a única coisa que poderia salvar o Escolhido da Deusa naquele momento. Ela atirou nele.
Chamas tomaram o lugar, mas seus escudos estavam em potência máxima, isso lhe daria alguns segundos para escapar. Correu pela nave e capturou em meio ao inferno que tinha se tornado o lugar, a pequena bolha escura jogada no chão. Era o Humano. Ela o tinha acertado, mas após envolvê-lo com o goon, não tinha sido feito o processo de esmagá-lo, por isso ele ainda estava vivo e protegido do fogo. Contudo, precisava tirá-lo logo dali, antes que mais Darkanos aparecessem, pois Zaffar já tinha se encarregado de eliminar os que tinham sobrado e os que se construíram após explodir.
Assim que escapou do espaço confinado, Vishal colocou aquela coisa que mais parecia uma bola viscosa na altura do estômago do seu Tron. Enquanto a armadura a absorvia a Sentinela saiu em disparada pelo ar, para longe da feroz batalha que parecia não ter fim. Para longe das vidas que estavam sendo perdidas e que, ao contrário do rapaz, que naquele momento já se encontrava em segurança junto com ela, no núcleo do Tron, não poderiam ser salvas. Não era sua missão ajudar os corajosos soldados que foram enviados para proteger o povo. Sua missão era resgatar um covarde responsável pela morte de dezenas, entre eles, seu único amor.
Se impedindo de chorar, Vishal endureceu seu rosto. Ainda não tinha terminado seu trabalho. Precisava entregar o Humano em segurança para os Reis de Sylesth.
Assim, aumentou a velocidade, percebendo Zaffar atrás de si e a nave em que Zafy estava os aguardando logo a frente.
Depois de alcançarem Zafy e entrarem na nave, Zaffar assumiu o comando e os direcionou para o palácio de Alirini, e a Curadora passou a tratar os inúmeros ferimentos do Humano, pois ele tinha sido terrivelmente queimado. Dessa forma Vishal ficou livre para tentar contatar Teon mais uma vez, mas com enorme frustação descobriu que novamente foi inútil. Seu Tron não tinha o encontrado também. Não sabia se o companheiro Sentinela estava vivo ou morto. Não havia nenhum tipo de sinal, era como se ele tivesse bloqueado qualquer interferência de localização, mas um soldado treinado como ele jamais faria algo assim, ainda mais em uma situação daquelas. O que teria acontecido com ele?
E Ragh?
Cada vez mais próxima de perder o controle, Vishal se isolou em um canto escuro da nave e permitiu que uma solitária lágrima caísse por Ragh. O valente Ragh. O homem que havia lhe mostrado que havia mais do que apenas morte e guerra naquele mundo.
Só que para Vishal, agora, já não existia mais nada além disso.
Morte e guerra.
***
Kaill se afastou dos mapas que observava, projetados no meio da sua sala de comando, e olhou para o Meiruu chamado Irian. Seu belo rosto exibia um tranquilo sorriso, mesmo suas palavras pareceram quase alegres ao questionar o recém chegado:
― Então não conseguiram chegar perto da nave apenas por que um exército de Eiffs, com Sentinelas, apareceu?
Havia uma clara hesitação no olhar e nos gestos do Meiruu ao responder:
― Sim, Meu Mestre. Os Sentinelas eram realmente fortes, e foram muitos os soldados que surgiram subitamente!
Com uma suavidade nem um pouco tranquilizadora, o Pirata Kaill comentou:
― Vamos recapitular a situação, meu camarada. Estávamos alegremente observando uma nave que saiu de Sylesth e foi para Cylles. Então, poucas horas depois, percebemos com nossa astúcia sem igual, que essa mesma nave saiu do palácio Tittum e foi derrubada, sem qualquer glamour, pelos Dragões dos Darkanos, que estavam se aproveitando da vulnerabilidade das fronteiras de Cylles, graças a informação passada por mim àquele Duque de Heil, um sujeito bem inútil, aliás. — Kaill fez uma pausa e tocou com a ponta do dedo os lábios generos e ainda sorridentes, embora exibisse agora um ar pensativo — Por isso eu me pergunto, como esses Eiffs que vieram depois, conseguiram o feito de tirar o que quer que estivesse dentro daquela maldita nave, e os meus competentes piratas, não?
― Eles estavam em maior número, Mestre. Até mesmo os Darkanos, que estavam em grande quantidade, não foram capazes de detê-los.
Kaill se aproximou do sujeito, e este, apesar de estar aterrorizado, ficou totalmente impassível, pois conhecia o seu Mestre bem demais para saber que se esboçasse qualquer reação que demonstrasse seu pavor, seria sumariamente eliminado. Kaill poderia até aceitar falhas, ele ria achando-as divertidas, seu lema é que se tudo fosse muito fácil, perderia a graça. Mas covardia não era tolerada. Nunca.
Para minimizar os efeitos da delicada situação em que estava, o agitado pirata informou:
― Meu Mestre, apesar disso, conseguimos um presente muito valioso para o Rei Khor.
Kaill arqueou suas claras sobrancelhas, enquanto, com delicadeza, colocava uma mecha de cabelos atrás da orelha repleta de argolas, muito semelhantes as duas que ele tinha em cada canto do lábio inferior. Só então questionou:
― É mesmo? E o que seria assim tão interessante?
― Um Sentinela, Meu Mestre. Vivo.
Agora havia interesse na expressão do Mestre Pirata.
― Onde ele está?
― Está sendo mantido desacordado no Bloco.
Sorrindo ainda mais, verdadeiramente feliz, Kaill deixou o aliviado pirata e foi para o corredor do gigantesco navio chamado de “Marh”, em homenagem a sua falecida esposa. Cantarolando uma canção que Marh sempre cantava com sua incomparável voz – e que ele odiava, mas que passou a amar depois que ela morreu -, foi na direção do Bloco. Esse era o local onde ele guardava seus “tesouros” capturados. E um Sentinela vivo era certamente um grande achado. Mal era capaz de lembrar a última vez que havia conseguido um. Para seu desânimo, eles tinham a desagradável tendência a morrer quando tentava pegá-los. Sujeitinhos irritantes.
E como o objetivo do Rei Khor ao contatá-lo daquela vez tinha sido com claro interesse nos Trons dos Eiffs, um Sentinela, que era exatamente um “pintadinho” que podia conjurar uma daquelas armaduras ridículas, seria digno de valiosas recompensas.
Quase o fazia esquecer o incidente com a misteriosa nave e seu conteúdo ainda mais interessante. Apenas “quase”. Pois era decididamente curioso o envio de tantos soldados de elite para uma missão de resgate. Principalmente por terem sido enviados pelos Reis Eiffs, não exatamente conhecidos por seu grande amor ao povo. A maior prova disso tinha sido vista durante a Segunda Grande Batalha. Que Rei patético e covarde seria capaz de abandonar sua terra para que outro morresse por seu povo e por seu lar?
Bem, por isso que os Meiruus eram muito melhores que esses hipócritas que idolatravam Deuses cheios de paz e amor, mas não hesitavam em agir de forma diferente quando lhes convinha. Os Meiruus não. As regras eram claras. Ficavam do lado dos vencedores. Por que apoiariam os Alicanos, por exemplo, se isso poderia acabar matando boa parte do povo?
Serem aliados dos Deiroons apenas trazia alguns sacrifícios necessários. Afinal, não era bom irritar o vizinho comedor de gente, certo? Então, quando o Rei Khor estava com o paladar mais para o salgado, ordenava o envio de alguns Meiruus, no que era prontamente atendido pela Rainha Zobel.
E, ao contrário do Rei Eiff, que se escondeu atrás de outro Rei para salvar sua gente, quando Khor exigiu um dos Reis Meiruus, pois queria fortalecer seu poder para lutar contra o Rei Melkor na Primeira Grande Batalha, o Rei Meiruu, Scar, foi sem hesitar por um único segundo. Sua morte evitaria a extinção de sua raça, então não havia escolha.
Por isso, quando Khor exigiu sua esposa, Marh, Kaill também não hesitou em entregá-la a ele. Assistiu ela ser sugada até a última gota e ter boa parte de seu corpo devorado, pelo Rei Deiroon e por mais dois de seus soldados.
Se ele se sentiu ressentido? De forma alguma. Era apenas uma questão de sobrevivência. Se tivesse agido de outra forma, ele e seu filho Tiaf, além da esposa, teriam sido servidos naquele dia. E talvez muitos outros Meiruus. Ele entendia isso perfeitamente. Marh também entendia. Apenas Tiaf, não.
Mas era compreensível, afinal o garoto tinha apenas onze anos.
Contudo, logo ele também ele entenderia que o mais importante naquele mundo era sobreviver. E não eram os mais fortes ou poderosos que permaneciam em pé. Claro, isso ajudava, mas os fatores essências eram a coragem e a sorte.
A coragem para entregar até mesmo o bem mais querido que se tem. E a sorte de não ser esse bem. Guerra, afinal, era simplesmente isso.
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