Destinados à Payre
44 O Escolhido que não tinha escolha
Notas iniciais
Alexis ignorava tão ostensivamente a presença do "irmão" quanto ele a dele. Estavam acompanhados apenas por um Oberoh, que os guiava silenciosamente pelos corredores do palácio em direção ao local onde todos deveriam estar a espera deles, para retornarem à Sylesth. Os espaços pelos quais passavam eram amplos, permitindo assim, a confortável distância que ambos faziam questão de manter.
Erak ia quase ao lado do Oberoh, enquanto Alexis seguia-os mais atrás; seus olhos azuis eram gelados ao contemplar o sujeito que tivera o atrevimento de beijar Angel daquela forma. Tinha prometido a si mesmo esquecer esse episódio, afinal, de que valeria um sentimento tão inútil quanto o ciúmes na situação em que estavam? Mas era bem mais fácil prometer do que de fato fazer. A cena não tinha saído da sua memória. Assim como o estranho brilho nos olhos cinzentos do Rei quando sua espada estava colada ao pescoço do Monarca. Não fora divertimento ou mesmo triunfo que Alexis encontrara ali. Parecia quase... tristeza.
Tristeza pelo quê?
Pela situação entre eles? Pela reação de Alexis? Ou…
Havia aquele algo que o incomodava. Episódios isolados vinham à sua mente com frequência desde o… incidente.
Erak assistindo discretamente os treinos de Angel, que Alexis associara à sua preocupação com a evolução da Humana. Mas seria isso mesmo?
O olhar do Rei sobre os ombros da garota quando ela sugou o seu sangue. Sim, havia a inquestionável provocação. Contudo, havia mais.
E o que pensar da luta entre eles, quando Alexis, fora de si, tinha cortado a mão do Monarca, a mão que havia ferido Angel tão gravemente? No último minuto, ao se defender do golpe, o Rei hesitou, e isso resultou na amputação de seu membro. O que o fez hesitar em defender-se?
Mas a imagem que mais passava pela mente dele, e ele admitia que começara antes mesmo de tudo aquilo, era o sorriso de Erak. Desde que chegara a Payre, Alexis não tinha visto o Rei agir com naturalidade ou mesmo com descontração em momento algum, nem mesmo com Esan; já com Angel... O Rei havia sorrido para ela e até mesmo relevado comentários ácidos com visível divertimento. E o que incomodava Alexis nisso era a inquietante noção de que ele sabia o que o Rei sentia. Era como voltar no tempo.
Ele lembrava como era olhar para Angel com curiosidade, a principio, e, então, com admiração. Perceber-se aos poucos cativo da sua personalidade franca e quase petulante. Se ver pensando nas suas possíveis reações e, ainda assim, se surpreender com elas. E querer passar por isso de novo. E ansiar por entender cada vez mais aquela garota que, embora exibisse a aparência do mais frágil dos seres, sendo capaz de despertar todos os instintos de proteção que nem sequer se imaginava possuir, era a mais corajosa e protetora criatura que já conheceu. Um simples olhar seu era capaz de lhe provocar dúvidas, desejos e temores. E vida.
Por isso, ao analisar as atitudes do Rei, Alexis se sentia mergulhando em algo espinhento e desagradável, pois melhor do que ninguém sabia como era apaixonar-se por Angel. E era isso que acreditava que estava acontecendo com o maldito Rei Alicano. O que o colocava em outra situação igualmente irritante: o que faria com tal informação?
Incapaz de continuar se debruçando sobre aquele assunto, afinal, isso certamente não serviria de nada além de deixá-lo frustado e disperso de outras questões mais urgentes, como a conversa que acabara de ter com o Rei de Nagtar, Alexis relembrou como ela havia sido. De modo geral, sendo franco, foi completamente inútil, pois não ouviu nada que já não soubesse através dos conhecimentos passados a eles pela Rainha Syka. E, para completar seu desalento, foi bombardeado por perguntas a respeito do mundo do qual veio e de sua suposta relação próxima com os Deuses. O que apenas confirmou as suspeitas do Príncipe logo no início quanto a perda de tempo que prometia ser aquele encontro. Foi basicamente como ouvir as ladainhas de um fanático religioso, com o acréscimo de ser alvo de boa parte daquele fanatismo.
Contudo, tinha que confessar, acabara interessado por algum motivo nas histórias contadas pelo Oberoh a respeito do Rei Melkor. Não deixava de ser intrigante perceber no líder de um dos maiores inimigos dos Alicanos tamanha admiração e reverência pelo Rei morto dessa raça tão odiada por eles. Inevitavelmente Alexis comparou o tipo de homem que Melkor tinha sido com o pai dele na Terra. Hamad era odiado e tratado com repulsa por seus inimigos políticos, e até mesmo por seus aliados. Muitos apenas faziam acordos com ele por pura necessidade, diante do seu grande poder – fruto apenas do dinheiro que possuía, pois, sem ele, não passava de um homem fraco, cruel e egoísta.
Subitamente ouviu uma discussão. Tinha consciência de que ainda estavam longe da sala, mas seus ouvidos sensíveis captaram os sons provocados pelas vozes familiares de Esan e Zaffar.
― Se acredita que ele vai perder o controle ao saber, deveria informar Erak primeiro e deixar que o Rei decida, mas eu acho isso tudo desnecessário. Não é como se o Humano fosse capaz de vencer dois Reis e mais um grupo como o nosso.
― Não se trata apenas disso, Zaffar. Estamos na iminência de perder tudo pelo qual nos preparamos por centenas de anos! Não podemos agir sem pensar nas consequências! E se o Predestinado resolver ir atrás dela, como iremos impedi-lo?
Atrás dela?
Seu cérebro ficou em branco, apenas uma questão despontou, temerosa e urgente: Atrás de quem ele iria?
Quem o faria perder o controle?
Angel.
Seu corpo agiu quase que por vontade própria. Quando sua cabeça tentou produzir algum tipo de pensamento coerente, só pôde notar que estava correndo, quase voando pelos corredores seguindo o som daquelas vozes.
Ao irromper na sala o silêncio foi imediato. Seus olhos capturaram em um único movimento, Esan e Zaffar frente a frente, Noor ao lado de Zaffar, Ren estranhamente pálido em um canto e Choi sentado no chão de cabeça baixa sendo abraçado por uma Lali que chorava copiosamente, enquanto Zafy passava a mão entre os cabelos da garota.
― O que está acontecendo?
Embora fosse a pergunta que gostaria de fazer, não foi ele que a fez. Foi Erak, que certamente tinha o seguido até ali.
Esan deu um passo à frente e pronunciou com voz solene:
― A Princesa Oberoh, Monalisa e Angel estão desaparecidas. Já tentamos localizá-las e nossos sistemas apontam apenas que elas não estão mais no palácio.
― Quanto tempo faz que notaram a ausência delas? — Erak continuou a colocar em palavras o que ia pela cabeça de Alexis, pois no momento tudo nele gritava por algo que ele precisava manter sob controle.
No momento mais inoportuno possível, Alexis percebeu que o poder dentro dele não era tão estável quanto acreditara. E pela primeira vez se questionou sobre os limites dessa força caso ela escapasse do seu controle.
Inconsciente da batalha que Alexis travava, pois nada em sua expressão indicava sua luta, Esan explicou:
― Choi veio a minha procura, pois segundo ele informou, não fazia nem dez minutos que tinha estado com Monalisa quando já não foi mais capaz de encontrá-la.
― Mona saiu do meu quarto — o próprio Choi continuou, atipicamente sério -, logo em seguida também sai, mas não a vi mais. Apenas Ren e Lali, e eles também não sabiam onde ela estava. Então contatei Esan, e quando ele procurou por Mona, percebeu que Angel também não podia ser localizada, assim como a Princesa que deveria estar com ela.
― Não sabemos onde elas estão — Esan retomou a palavra -, quem as levou e com qual objetivo. Nenhuma nave, além da nossa, entrou em Nagtar segundo nossos sistemas, nem foi visto qualquer tipo de transporte deixando o palácio. Isso pode significar que elas estão perto, ou também pode ser que conseguiram burlar nossa vigilância e já estão a uma distância significativa daqui.
― O que podemos fazer nessa situação? — Se Alexis estivesse em condições de prestar atenção em algo além do que enfrentava consigo mesmo, teria reparado da hesitação contida na habitual frieza do Rei.
E na postura derrotada de Esan.
― Precisamos levar Vossa Majestade e os Humanos para Sylesth o quanto antes e enviar equipes de busca por Nagtar, e pelo Mar de Gelo, pois o Pirata Kaill pode estar envolvido.
Deixar Nagtar sem a Angel?
Ser levado para um lugar seguro enquanto nem sabiam onde ela estava?
Desesperado Alexis procurou conter todos os sentimentos que pareciam querer transbordar dele naquele instante. A raiva. O medo. A fúria. A preocupação.
Precisava manter-se frio, só assim conseguiria agir de forma coerente e encontrar Angel.
Mas ele jamais fora capaz de dominar a si mesmo quando se tratava dela. Por isso sua cabeça pareceu prestes a estourar diante do impacto de tantas sensações ampliadas tão subitamente. Seus sentimentos não poderiam ser contidos, assim como a essência que fazia parte dele. Seu corpo também exibiu seu descontrole, os olhos azuis brilharam mais claros e letais. Vagamente notou os Guardiões se moverem para proteger… o Rei? Os Humanos? Ou a eles mesmos? Alexis não saberia dizer. Estava em meio a um duelo contra ele próprio, contra aquele poder estranho que passara a habitar o seu corpo e ao qual vinha tentando regiamente se habituar. Contudo, manter suas emoções e seu poder sob controle mostrou-se uma tarefa além de sua capacidade naquele momento.
Talvez os demais não percebessem essa luta interna, talvez pensassem que por ser o “Predestinado”, Alexis saberia exatamente o que estava fazendo. E, talvez, fosse por esse pensamento equivocado que Zaffar, tão indiferente e inconsequente, deu um passo a frente para dizer:
― Não podemos fazer nada além disso, seria uma…
O Guardião não concluiu seus pensamentos, pois, antes que alguém pudesse impedi-lo, se isso fosse possível, Alexis o prensou contra uma parede, com apenas uma mão entorno do pescoço do Eiff, o ergueu deslizando pelo material frio e duro, até que os pés de Zaffar estivessem no ar, balançando tal qual um boneco.
Ninguém reagiu. Não sabiam que tipo de reação qualquer movimento poderia desencadear. Isso sem mencionar o choque provocado pelas ondas gigantescas do poder esmagador que emanava do Predestinado, tão subitamente.
Alexis aproximou o rosto do Guardião e este pode ver seu próprio rosto assustado refletido nas íris cor de gelo daquele que o segurava, além dos dentes pontiagudos que despontavam sobre os lábios do Príncipe quando o mesmo falou duramente:
― Não podem fazer mais nada? Nada além de fugir e esperar que um milagre aconteça? Esperar, talvez, pela boa vontade desses Deuses que tanto devotam suas esperanças? — Alexis virou o rosto para os demais que estavam na sala, ainda imóveis. — Não vou para Sylesth; nem sejam tolos de imaginar o contrário. O que eu vou fazer é pegar a nave que nos trouxe até aqui e ir atrás delas. E não me importo nenhum pouco se alguém tentar me impedir. — Seu olhar deixou muito claro o que exatamente suas palavras queriam dizer. Se tentassem detê-lo, Alexis não faria o mínimo esforço para evitar um combate.
Suas palavras mal foram concluídas e já estava próximo da porta, enquanto Zaffar contorcia-se entre engasgos, procurando desesperadamente sugar o ar novamente para dentro dos pulmões.
― Espere!
Só o fato de ter percebido o tom que beirava um apelo fez com que Alexis se detivesse para encarar Erak.
O Rei caminhou decidido até ele.
― Irei com você.
O choque causado pela atitude de Erak foi quase tão grande quanto o provocado pelo ataque de Alexis a Zaffar. Com a diferença de que naquele momento Esan conseguiu esboçar alguma reação.
― Não posso arriscar a sua segurança, Majestade! — argumentou o Guardião. — Se Khor tiver envolvimento direto com o que está acontecendo, e essa é uma grande possibilidade, ele poderá capturá-los! E isso seria o fim para todos em Payre!
― Se o que você diz é verdade, então realmente preciso ir junto. Não esqueça que para cumprir a Profecia necessitamos de todos os Humanos da Deusa Ashy, isso significa que sem a Angel e a Monalisa, Payre já estará condenada de qualquer forma. — Os olhos cinzentos do Rei se tornaram sombrios. — Ou você está duvidando das palavras dos Serines, caro Esan, o Protetor?
― Não duvido. — Esan não hesitou nem por um segundo. — Mas precisamos agir com bom senso. — Sua atenção voltou-se, corajosamente, para Alexis. — Certo, pretendem pegar a nave e... então? Nem sabem para qual direção seguir!
― Eu sei exatamente para onde devo ir. — Sem interesse em perder mais tempo ali, Alexis virou as costas para sair.
***
― O que foi? Está difícil cochilar com essa indignação toda sendo lançada no ar.
― Estou surpresa. Pensei que nada fosse capaz de perturbá-lo, Escolhido. — desprezo pontuava cada palavra de Vishal, em especial a última.
― Bem, então fique sabendo que pessoas, especialmente mulheres, enfezadinhas são uma grande fonte de incômodo pra mim. Por isso vai lá fora bater em alguma coisa para ver se se acalma, e me deixe dormir em paz.
Ela não foi capaz de segurar sua raiva:
― Como pode dizer isso? Como pode pensar em descansar em uma situação dessas? — E a questão que mais a enfurecia: — Como nem sequer se ofereceu como os outros para ajudá-las quando uma delas é a sua própria irmã!
Ele teve a desfaçatez de suspirar, impaciente, enquanto se erguia da cama.
― Minha querida, percebeu que não havia a possibilidade de todos irem?
― Mas você nem tentou! — Aquele sujeito era mesmo uma piada de mau gosto.
― Ei, não sei se você sabe, mas eu sou bastante ciente de que o Rei, Alexis, Zafy, Esan, e até mesmo o ridículo do Choi, são mais habilidosos do que eu e, portanto, bem mais úteis em um resgate. Por isso não havia qualquer motivo para que eu assumisse um papel que não é real, como um herói, apenas para mostrar uma imagem que deixaria as pessoas mais confortáveis a respeito das minhas atitudes.
Mais uma vez Vishal acabou por transformar em palavras os pensamentos que tinha com relação àquele Humano:
― Eu não consigo entender como alguém do seu tipo pode ser um Escolhido dos Deuses.
― Ora, sabe que eu também não faço ideia? Talvez a tal Ashy tenha selecionado a minha irmã, e eu fui apenas um acidente de percurso, entende, pela coisa de compartilhar o mesmo útero.
A expressão da Guardiã ficou estranhamente triste.
― Provavelmente isso seja o mais fácil de aceitar, pois do contrário eu ficaria tentada a entender o porquê de tantos da minha raça ainda duvidarem da existência dos Deuses. — Os olhos rosados fitaram o rapaz de semblante indiferente. – Afinal, não há como julgar tais crédulos quando você é um dos apontados como nossos salvadores.
― Veja por outro lado, que também pode fazê-la se sentir melhor, se esse é o objetivo de todo esse blábláblá: os inimigos podem estar certos e o verdadeiro salvador dessa terra é o mau e velho Deow, assim como seu pupilo Khor.
Era inegável o sarcasmo na voz do Humano; para ele tudo não passava de um grande aborrecimento, mas para Vishal era diferente. Para ela, acreditar na Profecia e nos Deuses era única forma de seguir em frente. De ter esperança. E por isso, por mais difícil que fosse, ela precisava acreditar nele.
― Deow jamais poderia ser a salvação de Payre, não quando os que o seguem são seres como os Nerinis, os Darkanos e, principalmente, os Deiroons. E, mais do que isso, Khor jamais poderia ser aquele destinado a trazer a paz a esse mundo.
― Assim como eu.
Vishal não precisava sequer erguer o cabeça para fitar os olhos negros de Ren, afinal, eles eram quase da mesma altura.
― Está enganado. Você pode ser um covarde egoísta e arrogante, que se preocupa mais consigo do que em se sacrificar por algo que não julga digno da sua atenção, mas isso não chega perto do que um Deiroon é capaz, apenas para o próprio divertimento.
Ela viu um brilho estranho misturar-se ao detestável ar de divertimento naqueles olhos escuros.
― Você não sabe do que eu sou capaz, apenas para meu próprio conforto.
As palavras que deveriam revoltá-la, serviram apenas para que lembranças deslizasse por sua mente, vindas das memórias mais doloridas e que serviam constantemente para impulsioná-la quando nada mais parecia ter sentido. Pois ainda que quase indistinguível, ela reconheceu o que havia nos olhos do Humano.
Foi como rever o seu rosto sujo e assustado refletido na armadura da mãe.
― Mesmo? Acho que sei, sim. Você é capaz de fugir de uma missão na qual é uma das principais figuras, responsável pela salvação de bilhões de seres, simplesmente porque não reconhece a existência de todas essas vidas. — Vishal o encarou com firmeza, procurando ler na expressão do rapaz algo lhe desse esperança. Algo que provasse a ela que no fundo a Deusa não tinha falhado em sua escolha. Que aquele Humano apenas tinha sido como ela fora um dia, há muito tempo. — Mas, me diga, você mataria essas pessoas com suas próprias mãos? Beberia o sangue delas? Comeria suas carnes? Brincaria com seus corpos, antes e depois de ter feito isso tudo?
Ren franziu as sobrancelhas. Vishal continuou:
― Você gargalharia enquanto faz isso? Riria do desespero de uma mãe em salvar sua filha usando o próprio corpo como escudo, mantendo-se firme enquanto seu sangue se esvai por tantos cortes quantos são capazes de criar as garras dos seus assassinos? Você seria cruel a ponto de destroçar aquele escuto protetor, divertindo-se com o desespero da filha coberta por pedaços da própria mãe? Com tanto sangue, tanto medo, tanto desespero. Prestes a ser apenas mais uma nas pilhas de corpos mutilados, tratados como coisas, como pedaços de carne...
Ren, mais uma vez, se escondeu atrás de seu sarcasmo:
― Olha só, já concordamos que sou um covarde, não precisa ficar me assustando com esses contos de terror…
― Não são contos. — Vishal procurou manter a firmeza em sua voz, e ficou feliz por ser capaz de conseguir isso. — Eu fui protegida pela minha mãe. Eu presenciei a morte dela. Eu vi os olhos dos monstros que fizeram aquilo com ela, e ouvi suas risadas. Eu sei como são os monstros. — Com voz suave, ela completou. — E eu sei reconhecer os olhos de alguém que está assustado e apenas quer fugir covardemente para longe. Para longe do horror. Para longe da culpa.
― Acha que o fato de estar assustado é que me faz não dar a mínima para essa guerra e para o meu suposto papel nela? — Ren arqueou uma sobrancelha loira. — Deixe-me esclarecer algo, antes que crie todo tipo de bobagens nessa cabeça fantasiosa. Eu também sei reconhecer monstros, mesmo quando eles não têm garras e matam mamães corajosas. E também sei reconhecer ratos assustados e fujões que fingem não ter culpa de nada. — Ele riu. — Eu sou um, afinal.
A Sentinela olhou com surpresa para o rapaz que assumia aquilo tão tranquilamente.
― Ambos tivemos nossa cota de monstros e de medo, mas seguimos por caminhos diferentes, fizemos escolhas diferentes. Você se tornou um exemplo de guerreira virtuosa, com uma grande noção de honra e todas essas merdas, mas eu não. Eu me tornei esse sujeito adorável que só quer cuidar da própria vida. — Ren se aproximou dela, com uma delicadeza que a surpreendeu, tocou seu queixo. — Não desperdice a sua força comigo. Use-a para continuar com as suas batalhas pelo que acredita.
Vishal não pensou, apenas agiu. Segurou a mão que tocava sua pele. Não havia gentileza no gesto, apenas determinação:
― Você se tonou uma das minhas batalhas, mesmo que nenhum de nós queira isso.
― Ora, vai tentar me comover com o papinho de que “Nossa, Ren, eu acredito em você”. — A voz feminina que ele tentou imitar não levou nenhum dos dois a sorrir, apenas continuaram a se encarar com firmeza.
― Eu não posso dizer isso. Você foi responsável pela morte de vários soldados que eu conhecia e respeitava e… pela morte de alguém que eu amava. — Ela viu a surpresa o tomar. — Mas eu preciso acreditar. E você também.
Ren tentou se afastar, mas Vishal não permitiu, continuou segurando a mão dele que tocava como brasa em sua pele.
― Em algum momento da sua vida você desistiu das pessoas a sua volta. Eu não sei o motivo, mas o importante aqui é que você sabe. — Não foi difícil perceber que suas palavras tinham sido certeiras. — Existem todos os tipos de criaturas cruéis no mundo, no meu e no seu, e até agora você não foi capaz de lutar contra nenhuma delas para proteger alguém, apenas o fez por si mesmo. Mas isso não vai bastar, não mais. Não aqui.
― Eu não preciso pensar nos outros para lutar nessa guerra. Não estou aqui para proteger as pessoas, e sim porque não tenho escolha. — Ren tinha deixado de lado seu tom irreverente.- E é melhor que entenda isso de uma vez.
― Está enganado. Você é que vai ter que entender, de um jeito ou de outro, que lutar apenas por si mesmo resultará apenas em uma morte sem sentido, e não apenas a sua.
― É tão idiota a ponto de achar que a morte de alguém, apenas por ser considerada “egoísta”, de acordo com os seus padrões, é vazia? No fim, luta apenas para se tornar uma heroína que será lembrada por anos e anos por sua incrível bravura e falso altruísmo? Que piada!
― Não se trata disso! Se trata de morrer por aquilo que se acredita, por aqueles que ama, pelos inocentes, pelos que continuarão a proteger todos eles!
Ren ergueu a outra mão e, inesperadamente, segurou a dela que estava livre, empurrando-a contra a parede. Para longe dele.
― Morte! Morte! Morte! — Ele inclinou a cabeça meio de lado, os fartos cabelos dourados caindo sobre a testa alta. — Foi para isso que sua mãe morreu? Ela se sacrificou para que a filha pudesse fazer o mesmo pelos outros? Então eu devo ser mesmo a porra de um cara muito egoísta, porque, honestamente, se fosse louco e imbecil o bastante para morrer por alguém, seria para essa pessoa viver. Mas pelo visto a vida que tem, graças a sua mãe, não tem todo esse valor, já que parece tão fácil julgar que qualquer outra é mais importante.
― Não se trata de qual vida é mais importante!
― Então do que se trata?
Vishal estava ainda apoiada contra a parede, mas na verdade o sentimento é de que estava contra ela. Prensada pela força das palavras daquele sujeito inconsequente e frívolo. A Sentinela fazia questão de manter aquela imagem dele em sua cabeça, tornando seus sentimentos ainda mais confusos. Queria acreditar nele, pela Profecia, pelos Deuses… mas como fazer isso quando ele seguia ideias tão… erradas?
Para enfatizar isso, respondeu:
― Se trata de fazer o certo!
Ren apenas deu mais um passo para trás, balançando a cabeça devagar. Então foi em direção a cama novamente. Ao se acomodar nela, retrucou:
― Bem, então vai lá, faça o certo. Morra como um mártir. Eu vou ficar aqui tirando um cochilo.
***
Angel viu os olhos dourados se entreabrirem de leve.
― Nossa, até que enfim, Bela Adormecida! Achei que iria ficar o passeio todo apagada.
Ela viu os olhos da garota piscarem, confusos. Quando a compreensão brilhou em seu rosto, Angel foi logo dizendo, para evitar histerias:
― Sim, não estamos no palácio. Pelo visto fomos sequestradas — não me pergunte por quem — e estamos indo para algum lugar — que desconheço — em uma nave — que também nunca vi — para — isso é apenas uma suposição minha — sermos mortas e/ou torturadas pelos vilões desse mundo.
Ao ver o rosto da garota ficar pálido, se deu conta de que talvez não tivesse se expressado da forma mais adequada ao momento. Bem, paciência. Não era como tivesse curtindo a situação com toda alegria, também.
― Quem mais está aqui?
― Além de nós duas não vi mais ninguém.
Angel acompanhou os olhos curiosos de Mona que percorreram o lugar de forma assustada. Ela já tinha passado por isso, então sabia que não havia nada para ser visto. Estavam sentadas no chão liso e escuro, cercadas por três paredes igualmente escuras, com discretos pontos de luz azul. A indicação de que estavam em uma nave era o céu, que podia ser visto através do teto de cristal. Nuvens densas e cinzentas davam um ar ainda mais desolador a situação delas.
Então finalmente algo diferente aconteceu. Uma porta se abriu.
Instintivamente as duas garotas se aproximaram, as mãos se tocando e, para surpresa de Angel, foi reconfortante sentir o calor da pele de Mona. O único calor que percebeu existir, pois naquele momento tudo dentro dela irradiava frio. O frio do medo.
Através da porta aberta passaram três pessoas. Dois Deiroons e uma Meiruu. Um dos Deiroons se aproximou. Lentamente, pequenos pedaços do que parecia pele se deslocaram pelo ar ao seu redor, em uma espiral cada vez mais ampla e rápida, logo uma nova forma surgiu diante dos olhos de todos. Angel e Mona, chocadas, reconheceram quem estava ali.
Ainda que fosse impossível.
― Agora que estão acordadas, venham conosco.
A voz da Princesa Oberoh mantinha a mesma delicadeza de antes, porém o sorriso que ela esboçou a seguir, não tinha nada de gentil. As palavras seguintes foram apenas um complemento à crueldade explicitada na bela expressão feminina:
― Khor está impaciente por conhecê-las.
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