Destinados à Payre
2 Monalisa e o bobo da corte
–- Preciso me lembrar de nunca, ouça bem, nunca mais subestimar a diversão proporcionada por uma briga em uma escola de riquinhos! — Choi se jogou no sofá próximo a janela pela qual Alexis observava, com seu característico ar sério, as mãos nos bolsos das calças de grife pretas. Impecável e indiferente.
Sem se abalar com a falta de reação do outro, algo que não o surpreendeu, Choi esticou as pernas e apoiou os pés em um canto da mesa baixa de vidro que estava a sua frente. Ali era a sala do Presidente do Grêmio Escolar, que obviamente era Alexis, pelo segundo ano consecutivo. O Presidente do Grêmio era escolhido através de votação, de forma muito democrática, mas o candidato tinha que apresentar certos pré-requisitos indispensáveis. Estar no Ensino Médio, ser um líder, um excelente aluno e vir de uma família muito poderosa.
Alexis estava no segundo ano do Ensino Médio, era o melhor aluno, com as notas mais altas, com vaga para o Campus Universitário garantida, algo absolutamente raro. Premiado esgrimista e o melhor do Clube de Esgrima da Alpha desde a infância. Todos, até mesmo o Conselho da escola, formado por poderosos homens de negócios, ouviam suas opiniões e o respeitavam. E, se isso não fosse o suficiente, era ainda um príncipe , o único filho do rei de um dos países mais ricos do mundo, Quidar. A fortuna pessoal da família real tornava seu pai, o Rei Hamad Aziz Al-Saud, o homem mais rico do mundo.
Se Alexis não fosse um filho da mãe tão frio e indiferente com essa coisa toda de poder, Choi realmente teria muita inveja dele. Mas sabia que não era uma posição para ser cobiçada. Alexis não podia confiar em ninguém e nem se relacionar de forma normal com qualquer pessoa. Não tinha amigos, namorada e, para falar a verdade, nem mesmo pais, o que ele tinha era um rei que ele mal via e o qual deveria superar em tudo quando o sucedesse. Choi se considerava o mais próximo de um amigo que Alexis tinha, mas era bastante consciente de que príncipe não pensava dessa forma. Para ele, Choi não passava de mais um atrás dos benefícios de estar próximo dele.
–- Então, como é mesmo o nome dela? — Choi sorriu de forma provocativa enquanto endireitava os óculos de armação preta sobre o nariz. — Ah! Angel! Cara, ela se chama “Anjo”! O Ren apanhou, feito uma boneca de trapos, de uma menina que se chama “Anjo”!
Embora ainda lhe doesse a barriga das últimas gargalhadas que soltou quando soube da notícia, o rapaz se contorceu no sofá em meio a risos novamente. Olhou para Alexis, que continuava observando pela janela, sem lançar olhar sequer em sua direção, então acrescentou:
–- Além disso, soube que é uma garota, segundo relatos “estranhamente bonita”, ou o meu favorito “linda como um Anjo”. Realmente ela é assim? — Como Alexis nada comentou, Choi resolveu provocar um pouco mais. — Deve ser mesmo já que você, que normalmente “gela” as garotas só com o olhar, literalmente jogou essa Angel no chão e pulou pra cima dela! A menina até desmaiou, coitada!
Para espanto de Choi, Alexis o encarou com raiva.
–- Não estou com paciência para aturar você e essa sua boca infernal. Caia fora!
–- Uau! — murmurou o garoto. Sempre brincava com Alexis daquela forma e ele normalmente o ignorava ou respondia algo distraidamente. Raiva? Ele nem sabia que Alexis era capaz de sentir algo!
Antes que qualquer um dos dois pudesse dizer mais alguma coisa, ouviram batidas na porta e alguém entrou. Choi abriu um sorriso enorme.
***
“Droga!” pensou Mona “esse idiota já está aqui!”. Mas deveria ter previsto que aquele coreano irritante não ia perder tempo em ir azucrinar Alexis. Sinceramente, não sabia como Alexis, com sua personalidade tão fria, o aturava. E ela não era a única da escola que se perguntava isso constantemente.
Abrindo um sorriso simpático e exibindo o seu famoso brilho meigo nos olhos dourados, Mona dirigiu sua atenção para o rapaz na janela, ignorando totalmente a presença de Choi.
–- Você está bem, príncipe Alexis? Fiquei preocupada quando soube que foi atacado por alguém no pátio.
–- Não minha doce Monalisa. — Choi fez um ar muito surpreso, arregalando seus olhos de forma dramática. — Foi o nosso estimado colega quem atacou uma linda donzela! Não sabia?
Mona, mesmo contra vontade encarou o rapaz. Como detestava aquele sujeito! Ele sabia muito bem o quanto ela odiava que a chamassem pelo seu nome completo. Culpa da sua mãe, uma duquesa espanhola e famosa pintora, que quis homenagear um dos seus pintores favoritos. Claro, poderia ser pior, ela poderia ter um nome horrível como seu irmão, Rembrandt. Outro pintor favorito da mãe.
–- Choi, sei que isso pode ser surpreendente para você, mas eu não acho nem um pouco interessante esse seu humor desagradável.
O rapaz jogou-se de costas no sofá, com a mão sobre o coração, em uma pose de puro sofrimento. Falso puro sofrimento.
–- Deus! Como viverei agora se minha musa, minha inspiração, meu raio de sol na escuridão, me acha desagradável?! — Em um salto se pôs de pé e foi até a garota que observava a cena impassível. Sem a menor cerimônia pegou uma mecha dos cabelos negros de Mona e a levou até os lábios, beijando de forma exagerada — Já disse hoje como você fica linda quando me dirije todo esse desprezo, doce Monalisa? — O rapaz encarou, claramente divertido, o belo rosto da garota que corou. De raiva.
Mona tinha vontade de dar um soco naquele sujeito. Mas tinha que manter sua imagem de dama elegante e meiga. Admitia que Choi era mais do que bonito, seus traços orientais eram exóticos, assim como as pontas azuis dos cabelos castanhos escuros, que ele mantinha meio longos e que sempre lhe caiam pela face. Como naquele momento. E embora não fosse alto, talvez uns dez centímetros maior do que ela própria, que media não mais do que um e sessenta e cinco, tinha o corpo forte e bem definido, provavelmente resultado das suas práticas de judô. Mesmo os óculos o deixavam charmoso.
Uma pena que ele não fosse alguém como o príncipe Alexis, que despertava a admiração até mesmo de um homem como o seu pai, o Ministro americano mais poderoso do Congresso e próximo candidato a Presidência dos Estados Unidos. Ele sempre comentava sobre o rei magnifico que Alexis se tornaria e a importância de já garantir alianças com ele. Choi seria considerado por seu pai apenas mais um inútil, como seu irmão, isso bastava para que ela ignorasse qualquer reação indesejada que ele pudesse lhe causar. Por isso Mona buscava uma aliança com o Príncipe, mas não do tipo política ou econômica. Ela buscava um casamento.
Lembrar do seu objetivo foi o suficiente para cobrir seu rosto com uma frieza que costumava dirigir somente a Choi.
–- Tire as suas mãos de mim.
Choi deu um leve sorriso de escárnio, mas se afastou. Os dois ficaram se encarando por algum tempo até Alexis falar, no seu característico tom monótono:
–- Antes que voltem a questionar ou fazer suposições sobre o ocorrido de hoje, gostaria de lembrá-los que eu nunca tive interesse nas fofocas de corredor. — Ele direcionou seus frios olhos azuis para Mona. — Nem em preocupações banais. Agora, agradeceria se os dois se retirassem. Tenho coisas a fazer.
Alexis saiu de perto da janela, onde estivera até então, enquanto ignorava totalmente a cena passada entre Choi e Mona. Foi até sua mesa, uma peça bela e sóbria que combinava perfeitamente com o restante da sala, toda em madeira escura, couro preto e vidro. Nenhum porta retrato, nenhuma planta, nenhum bilhete de recados, papéis ou uma caneta fora do lugar. Tudo era perfeitamente organizado e limpo. Seu quarto, no dormitório masculino, também era mantido dessa maneira. Algumas pessoas o consideravam meio assustador por ser tão perfeito. Parecia pouco humano.
Ao sentar na cadeira diante do moderno Notebook, único item sobre a mesa, Alexis falou sem erguer os olhos da tela.
–- Mona, antes de sair, poderia me dizer onde está seu irmão?
A garota escondeu o desconforto que a pergunta lhe causou, respondendo sorridente:
–- Soube que foi direto para o dormitório, Alteza.
–- Certo.
Sem querer tornar a situação ainda mais incômoda, ela saiu da sala, logo seguida por Choi.
Assim que chegou no corredor, onde ficaram a sós, disparou furiosa:
–- Você sabe muito bem que essas histórias ridículas que estão circulando não tem o menor fundamento! Então pare de repetir essas bobagens!
Choi arqueou uma sobrancelha com ar divertido:
–- Opa, voltamos para o tópico príncipe-coração-de-gelo ataca donzela indefesa? — Mona soltou um grunhido que o fez rir. — O que? Você assistiu a cena e está irritada porque viu uma desconhecida esquisita conseguir atrair mais a atenção do nosso estimado príncipe em dez minutos do que vocês em três anos?
A garota apertou os punhos com raiva. Não, não tinha presenciado a surra merecida que seu querido irmão levou de uma garota naquele final de tarde, mas assim como os poucos não presentes, logo ficou sabendo de tudo. De como Alexis havia tentado conter a agressora, a segurando e depois a jogando no chão e imobilizando com o próprio corpo. Mas o que mais incomodou Mona foram as várias observações sobre o quanto o Príncipe ficou focado na garota. “Ele ficou lá, deitado sobre ela na grama a encarando por um tempão!” comentou uma de suas colegas. “Mesmo vestida como um espantalho parecia uma boneca... ou melhor, um Anjo!”, falou entusiasmado um dos garotos.
Mas, Mona conhecia o príncipe Alexis há três anos e nunca o viu agir nem perto da forma como todos estavam falando. Precisava se inteirar melhor da situação.
–- Você é um perdedor mesmo. — Ela lançou um último olhar de desdém para Choi antes de ir embora.
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