Destinados à Payre

3 Príncipe de Gelo


Ela acordou. Que pena.

― Finalmente acordou!

Angel virou na direção da voz animada que a saudou assim que abriu os olhos. Era uma mulher, pela roupa, uma enfermeira, com bondosos olhos verdes cercados por pequenas rugas. Provavelmente ela ria bastante. Angel geralmente não gostava desse tipo de pessoa. A alegria alheia a deixava de mau humor.

― A senhorita dormiu bastante, já é noite. Mas isso é bom, o remédio pôde fazer melhor seu efeito. Quer tentar levantar, ou acha que precisa descansar mais? Sente alguma dor? Pode passar a noite aqui se quiser.

Passar a noite com a Enfermeira Feliz? Não, obrigado.

Angel ergueu o corpo e, como sempre acontecia, estava totalmente recuperada depois de algumas horas de sono. Uma pena. Suspirando ela deu um pequeno pulo para sair da cama. Olhou para o relógio na parede, 22hs. Por isso sentia tanta fome. Estava a quase um dia sem comer. A última refeição havia sido durante o voo de Londres para Nova York, de onde foi levada de carro até uma cidadezinha portuária, lá pegou um barco que a deixou naquela ilha.

O secretário do seu avô, Watson, foi o responsável por organizar tudo com a máxima eficiência, até mesmo ao conseguir que a bagagem já estivesse totalmente organizada no quarto que ela ocuparia no dormitório. Pena que ele não pode garantir que o pneu do carro que a levou de Nova York não estourasse como aconteceu. Assim, ao invés de chegar durante a noite, discretamente, chegou no meio do período das aulas da tarde. A tempo de encontrar um babaca no seu caminho.

― Está com fome? — a Enfermeira Feliz perguntou. Angel viu pelo crachá que ela se chamava Annete Danson, mas preferia continuar pensando nela daquela forma.

― Não.

Seu estômago roncou alto. Traidor.

A Enfermeira Feliz riu entusiasmada e Angel rangeu os dentes de frustração. Porque que ela tinha acordado, inferno!

― Venha, a doutora deixou uma refeição preparada para a senhorita. Disse que, segundo o prontuário que o Sr. Watson passou pra ela, a senhorita precisa dormir muito e comer bastante depois que passa por essas crises. Então agora é ora de matar a fome! — Annete soltou uma risada que fez os pelos de Angel arrepiarem de asco.

A enfermeira a guiou até uma sala ao lado. Era um espaço colorido, com sofás confortáveis, algumas mesas com revistas e várias estantes com livros. Um carrinho de comida estava em frente a uma das mesas. A Enfermeira Feliz fez um gesto para que ela sentasse em uma poltrona e então serviu os pratos que estavam cheirando de forma muito convidativa. Angel esqueceu o orgulho e simplesmente atacou a comida.

Após estar totalmente saciada, a garota levantou e, sem vontade alguma de lidar novamente com toda aquela alegria da simpática Annete, aproveitou quando ela saiu da sala para cair fora o mais rápido possível.

Certo, e agora? Para qual lado ficavam os dormitórios das garotas? Subitamente Angel lembrou do mapa que tinha recebido de Watson quando sua matrícula havia sido aceita.

Na verdade ela tinha ficado bem surpresa com essa notícia, nunca teria imaginado que uma instituição como a Alpha aceitaria alguém com seu histórico. Ela havia sido expulsa de pelo menos sete escolas ao longo de seus dezessete anos. Por não cumprir as regras e por brigar, ah e uma vez por ter sido alvo de boatos sobre um homicídio cometido por ela. Não eram boatos, só que nada naquele episódio era fácil de explicar ou entender.

Bloqueando as lembranças o máximo que pode, Angel tentou recordar onde raios tinha enfiado o tal mapa. Ah, na mochila!

― Putamerda!

Ela tinha deixado a mochila no chão quando deu o primeiro soco no loiro babaca. Então, ou alguém tinha levado para algum lugar ou ainda estava lá no pátio onde a havia jogado.

Munindo-se de uma paciência infinita voltou para a enfermaria. A Enfermeira Feliz talvez soubesse de algo. Estava muito tarde para sair sem rumo pela escola.

***

Sim, seu dia não podia estar mais problemático. Uma viagem infernal para uma escola em que ela não queria estudar. Um riquinho babaca bancando o engraçadinho pra cima dela, tentando intimidá-la. Angel quase riu ao lembrar-se da surpresa naqueles olhos negros diante do primeiro soco que o levou ao chão. Então a aparição do outro sujeito. O com sotaque francês. Sinceramente ela não lembrava muito bem do rosto dele. Sabia apenas que era bem alto. E tinha olhos incrivelmente azuis.

A garota observou o corredor por onde andava. Tinha que dobrar a esquerda caso quisesse ir para o quarto. A direita iria levá-la a sala do Grêmio Escolar da Alpha. A Enfermeira Feliz havia dito que o Olhos Azuis, que Angel descobriu ser Alexis-um-monte-de-outros-nomes, porque era um príncipe de algum país do oriente, tinha ficado com a sua mochila e que ele era o presidente do GEA. Quando ele saiu da enfermaria, declarou que estava indo para sua sala, caso ela precisa de alguma coisa. Então provavelmente era lá que estariam as suas coisas. Angel mordeu o lábio inferior indecisa.

Não podia ficar sem sua mochila, havia algo muito pessoal lá dentro. Dobrou a direita. Bem, sendo tão tarde provavelmente a sala estaria vazia e o tal principezinho já teria ido para sua linda cama de dossel tirar seu sono de beleza. Enquanto caminhava pelos longos corredores parcialmente iluminados, Angel procurou se manter firme a esse pensamento feliz.

Alguns minutos depois estava diante de uma porta de madeira maciça com uma placa indicando ser ali o local que procurava. Abriu a porta e entrou em uma sala que mais parecia a requintada recepção de uma grande empresa. Sofás luxuosos em branco ocupavam o centro e uma janela cobria toda a parede do fundo. Haviam alguns quadros pendurados na parede de garotos e garotas, todos com ar sério e inteligente. Provavelmente eram de ex-presidentes do GEA. Do lado esquerdo da sala haviam duas portas “Sala de reuniões” e “Equipe do GEA”, diziam as placas metálicas com entalhes decorativos em dourado. A direita apenas uma porta “Presidente”.

Angel abriu hesitante a porta da direita, mas como havia previsto estava vazia, soltando um leve suspiro de alívio, fechou a porta atrás de si e foi em direção a mesa. Nem se deu ao trabalho de ligar a luz, sua visão sempre havia sido melhor que do que a das outras pessoas. Além disso, havia alguns pontos iluminados por luzes suavemente douradas, que tornavam o lugar ainda mais sofisticado. Angel assoviou baixinho ao olhar em volta. Quanta organização e vazio! O sujeito para trabalhar em um lugar daqueles deveria ser tão caloroso quanto um lago congelado no meio de uma nevasca. Bem, mas quem era ela para julgar esse tipo de coisa nos outros? Ela nem gostava de pessoas.

Ao virar a cabeça novamente em direção a mesa sentiu um cheiro familiar e estranho. Cheiro de Sol. Além da visão, seus outros sentidos também eram bastante apurados, então os cheiros às vezes tinham uma associação meio bizarra na sua cabeça e já nem chamavam mais a sua atenção. Mas aquele era diferente. Ela parecia senti-lo não só com o nariz, é como se todo o seu corpo sentisse o Sol, o calor no rosto em um dia frio, a sensação de aconchego. Balançando a cabeça de forma brusca, tentou eliminar aquilo da sua mente. Deu mais alguns passos quando o cheiro de sol a tomou por completo. Então ela lembrou quando o sentiu pela primeira vez. Foi ao conhecer o Olhos Azuis.

― Não está um pouco tarde para conhecer a escola? Mas concordo que é o melhor horário para invadir a sala de alguém.

Angel virou a cabeça na direção da voz com sotaque francês, retrucando:

― Vim apenas pegar algo que me pertence. Minha mochila.

O sujeito arqueou uma sobrancelha negra, em um gesto extremamente irritante.

― Confesso minha surpresa em perceber tamanho apego aos seus materiais escolares.

Calmamente caminhou até ela, que ficou incomodada ao perceber o quão alto era o rapaz. Com seus 1,55 Angel estava acostumada a achar todos grandes, mas isso nunca a intimidou como naquele momento. E era duro admitir que não se tratava apenas de uma questão de tamanho. O Olhos Azuis tinha algo que mexia com ela. E não exatamente de uma forma positiva. Havia percebido isso mesmo estando quase sem forças sob ele mais cedo. E para tornar tudo ainda pior, tinha aquele cheiro de sol que a desconcertava.

A pegando de surpresa, ele passou a mão sobre a cabeça dela em um movimento tão repentino que Angel nem teve tempo de reagir. A intenção tinha sido retirar o capuz que a cobria.

― Agora parece menos uma invasora.

Angel ficou furiosa com tamanho atrevimento. Irritada, encarou os olhos muito sérios e calmos do rapaz, e por um momento ficou sem fala.

Putaquepariu, ele era um filho da mãe muito lindo mesmo. Não bastava a cor magnifica dos olhos — um azul turquesa que lembravam a beleza do mar — eles ainda possuíam um contorno escuro bem marcado, com longos e espessos cílios negros. A cor era destacada pelo tom dourado de pele e pelas sobrancelhas negras arqueadas. O nariz reto e aristocrático lembrava as obras gregas de habilidosos escultores, culminando em uma boca, no mínimo, pecaminosa. Lábios cheios bem desenhados com os superiores mais finos, criavam uma suavidade em um rosto tão masculino de queixo quadrado e firme. Os cabelos provocavam um encanto a parte. Levemente ondulados, caiam de forma displicente sobre a testa, mechas negras um pouco longas que tocavam o pescoço moreno e o colarinho da camisa impecavelmente branca. A vontade de tocar aqueles fios que pareciam seda negra era quase incontrolável, a ponto de deixa-la chocada consigo mesma.

Completamente desgostosa com seus pensamentos idiotas, e com as coisas que sentia com relação a ele, Angel ergueu o queixo de forma petulante.

― O único invasor aqui é você. Foi você que invadiu minha privacidade ao ficar com as minhas coisas sem a minha permissão.

― As suas coisas me foram entregues enquanto você estava inconsciente e sem condições de permitir ou não que isso acontecesse. Foi um gesto amigável, na verdade.

― Amigável? – Angel o fitou cheia de sarcasmo. – Claro, você é um sujeito muito doce e prestativo.

― Sabia que você infringiu várias regras da escola ao bater em um colega, ameaçá-lo, tentar resistir a uma punição por seus atos, agredir outro colega…

― Estamos falando da mordida que lhe dei?

― E invadir espaço privado sem autorização? – continuou o babaca, a ignorando. – Fiquei com a sua estimada mochila apenas como... precaução.

― Roubo e sequestro são permitidos pelas regras da escola então? Interessante.

― Roubo seria uma impossibilidade nessa situação.

― Por quê?

― Porque eu sou um príncipe, de um reino muito rico? – ele respondeu de forma arrogante, arqueando uma sobrancelha em clara demonstração de descrença com a questão feita por ela.

― Já ouviu falar em cleptomania?

― Receio que mesmo alguém com esse distúrbio em estágio muito avançado teria dificuldade em considerar tentador aquele pedaço de pano puído.

Angel ficou boquiaberta diante de tamanho desaforo. Alexis aproveitando-se desse silêncio momentâneo continuou:

― E sequestro implicaria em tentar conseguir algo em troca do que foi supostamente pego sem autorização.

― E o que vai pedir em troca então? — Angel lançou seus olhos violetas de modo desafiador na direção de Alexis, deixando claro o que ela considerava na atual situação. Ele se aproximou ainda mais dela. Angel permaneceu imóvel, não iria lhe dar o prazer de se afastar como se o temesse. Ele baixou a cabeça até seus olhos ficarem na altura dos dela.

― Nada pela mochila. Como eu disse, não fiz algo com qualquer intenção que não a de resolver um problema de indisciplina que surgiu. Mas, poderia evitar bater e arrumar confusão com nossos colegas? — Seus olhos azuis pareciam conter um brilho irreal na parca luz que os cercava.

― Eu posso. É só eles não me provocarem.

― Isso me pareceu algo que uma criança do jardim de infância diria.

― Não, uma criança do jardim de infância teria dito isso. – Angel mostrou a língua de uma forma tão cômica que Alexis, para surpresa da garota, soltou uma gargalhada. Sim, claro, para coroar tamanha perfeição ele tinha suaves covinhas nos cantos da boca! Angel xingou a mãe natureza, aquela vadia traiçoeira por se esmerar tanto na criação de um sujeito tão pedante.

Ainda rindo, Alexis afastou-se dela e foi até a sua mesa.

― A Diretora preferiu não punir nenhum de vocês dois. Você e Ren, o garoto envolvido no caso. – Agora ele havia voltado para seu jeito sério. – Segundo ela, você poderia desconhecer alguns padrões de comportamento da Alpha. – O olhar de Alexis era puro sarcasmo ao dizer isso. – E Ren já tomou uma punição maior do que qualquer outra planejada. Humilhação pública.

― Faz sentido. – Angel também usou um ar zombeteiro. – Uma escola como essa certamente acharia humilhação pública algo bastante útil.

― Qualquer escola com alunos provenientes da alta sociedade acharia isso. Na verdade, mesmo uma com alunos comuns. Todos prezam a própria imagem mais do que tudo.

― Esse mundo de aparências é mesmo uma merda.

― Você não ligaria de apanhar, isso é totalmente teórico, de alguém que é menor do que você, na frente de todos os seus colegas?

Angel colocou as duas mãos nos bolsos da calça e começou a balançar o corpo para frente e para trás, pensativa.

― A questão não é essa – a linda voz musical da garota soou distante. – A questão é: por que isso importa? Você só se sente realmente humilhado quando está em frente a pessoas que quer impressionar e, como foi o caso, fode tudo pagando um mico ao apanhar de uma pigmeu quando está tentando mostrar para a galera geral que você é o babaca fodão do lugar. Então, respondendo a sua pergunta. Meu orgulho ficaria ferido por mim mesma e por mais ninguém. Quem mais importaria?

― Você não está totalmente errada.

–- E você? – Ela sorriu de forma maliciosa. – Se eu tivesse acertado essa sua cara linda, teria se sentido humilhado por você mesmo ou pelos seus caros colegas?

Alexis abriu um sorriso tão lindo que Angel sentiu o coração disparar. Ótimo, talvez ele a ajudasse a acabar com aquela droga toda de vida.

― Então ainda estamos trabalhando com teorias? Bem, certamente me sentiria um idiota, mas as consequências talvez compensassem. — Seu sorriso agora era levemente cruel.

― Ah, mas aí está a beleza do meu plano ao bater nos garotões. Se eles revidarem serão ainda mais babacas aos olhos dos outros. – Angel inclinou a cabeça e fez uma expressão tão doce que realmente seu nome finalmente lhe fez jus.

Alexis a observou de forma estranha ao continuar muito calmamente.

― Jamais bateria em uma garota. E não permitiria que uma me acertasse da forma que fosse. Se isso viesse a acontecer, só seria por um único motivo.

Angel sentiu o corpo se aquecer como se tocada pelo sol com calor que os olhos azuis turquesa lançavam em sua direção. Ela não conseguiu definir aquela expressão, não era familiar a ela.

― O motivo, eu permiti. E sabe porque eu permitiria? — a voz soou macia, sedutora aos ouvidos da garota. — Porque ela me deixou fascinado. E, portanto, um incompetente.

Nenhum dos dois falou nada por alguns segundos até que, quebrando o contato visual, Alexis andou até um armário discreto no canto da sala de onde tirou sua velha mochila preta cheia de emblemas costurados de forma pouco prendada. Eram os emblemas de todas as escolas que Angel já havia estudado. Sim, ela era estranha, gostava de colecionar essas coisas.

Ele foi até a garota e estendeu o que ela havia ido buscar. Ainda receosa com aquela situação toda, Angel estendeu o braço e tocou em uma das alças. Alexis não largou a mochila e continuou, como se a pausa não tivesse existido.

― Então, respondendo a sua pergunta, a humilhação seria por mim mesmo. Só eu, e agora você, sabemos que se algo do tipo acontecer é porque eu fiquei louco.

― Acho muito arrogante da sua parte pensar dessa forma.

― É mesmo? – era inquestionável o tom de zombaria.

― Ora, Alteza, pode apanhar de uma garota mesmo sem estar sob o efeito que mencionou. — Angel estava cada vez mais louca com aquela personalidade arrogante dele.

― Isso não aconteceria.

― Como pode ter tanta certeza?

Os olhos azuis não despregavam dos violetas.

― Porque eu não criaria uma situação que levaria a um embate físico com uma garota.

Angel ficou confusa. Resolveu que era culpa daquele seu coração maldito que nunca funcionava como deveria. Se tivesse refletido um pouco mais não teria feito a pergunta idiota do século.

― Mas não foi isso que fez hoje a tarde? Você me agarrou e…

Angel arregalou os olhos.

Alexis apenas sorriu levemente. Os olhos permaneciam frios, mais frios do que ela havia visto até então.

― Exatamente. O que aconteceu hoje não foi normal. Eu a conheço há apenas algumas horas, mas já foi o bastante para perceber o tipo de problemas que teria com você. — Como Angel estava completamente muda, ele continuou, com uma frieza assustadora que não combinava com aquela situação, afinal parecia com algo que beirava a uma declaração de interesse à primeira vista! — Eu, ao contrário do que provavelmente está pensando, não estou agindo de forma absurda. Sou apenas prático e não tenho paciência para lidar com essas coisas inúteis.

― Esse foi o real motivo para ter ficado com a minha mochila? — Angel finalmente recuperou a voz para perguntar. Tudo bem, ela tinha outras questões mais relevantes, mas seu cérebro não estava exatamente cooperando naquele momento.

― Devo admitir que sim. A outra resposta foi uma desculpa. Fiquei com receio de não conseguir falar a sós com você tão breve quanto gostaria. – Ele passou a mão pelo cabelo escuro, em um único gesto que lembrou vagamente alguma insegurança, mas logo sua postura voltou ao distanciamento e absoluto controle de antes. — Na verdade não pretendia ser tão franco sobre isso tudo, queria apenas saber se o que senti no pátio foi... real. — Vendo que ela não esboçou qualquer reação, continuou: — E foi. O que me fez tomar uma decisão. Quero que você saia dessa escola. Imediatamente.