Despertar - O Saber de Uma Alma
3 Querubim Mutável
Notas iniciais
Aprendi de uma maneira obtusa, que todo na vida é mutável. Personalidades, amores, pensamentos e até mesmo manias.
Em sua doce e caramelada confusão, eis o querubim mais novo, andando sozinho pelo vazio da rua lamacenta, girando o anel dado por seu eterno amor denominado mãe, enquanto mudava de pensamentos. Pensava antes em como dar continuidade para aquele sentimento complexo, porém agora, ouvia aquela voz grossa em sua mente, que martelava ideias.
"Jogue fora. Arremesse longe."
E lá foi o moreno querubim, atender as ideias da melodia torta que cintilava numa voz grossa e melosa. Num sinal de impaciência, girou pela última vez o anel no dedo, suspirou e por fim, arremessou com toda a força que vinha dos ombros largos e acetinados, o polido anel que agora, se distanciava levando junto a si, o lado ruim do dia.
Não querendo voltar para a casa, decidiu continuar a caminhada solitária. Sentindo-se mais leve, tateou o bolso do jeans surrado, pegando em mãos o aparelho branco. Fez sua dança de dedos na tela sensível e suspirou.
Nenhuma ligação perdida, nenhuma mensagem esquecida. Sem sua resposta aguardada, concluiu em mudar de tratamento.
Rancoroso, porém não mais aflito, mandou tudo para o espaço. Os problemas, os desamores, as preocupações, as desilusões... mandou tudo pastar. Agora, ainda mais leve, tocou uma última vez a tela do celular, escutando seu ritmo preencher o ar livre que o embalava. Sorriu e começou a cantar, começou a gritar, e até suspirar! Sentia-se leve, livre, como se tudo a baixo de seus pés fossem nuvens.
Desilusões no passado, relembrou as memórias que lhe faziam sorrir e suspirar, ainda cantando. Gargalhadas no inverno, corridas na chuva, sonhos desenhados... aquele menino bordado, dava um novo sentido a sua vida. "Deixa ir devagar..."
No fim de tarde, chegou feito um furacão no abrigo seguro que era seu lar, logo fazendo uma pequena folia em seu recanto. Aquela leveza percorreu mais uma vez seu corpo, quando entrou debaixo d'água quente e afável, lavando seu corpo e sua alma.
Descompromissado. Assim se encontrava o maroto, batucando no banco a frente do seu, enquanto sentia o ônibus parando. Suspirou e foi, com a cabeça alta e sorriso puro.
Mesmo que aquela leveza não se prolongasse, ainda estaria livre. Porque, em suma, ele mudava quando quiser, mas apenas por quem merecesse.
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