Desnortear
6 Capítulo 3.2
Notas iniciais
Abri os olhos. A luz forte que vinha da janela entreaberta do quarto incomodou a minha íris sensível. Desviei o olhar para o despertador no criado-mudo. “06:13?”, pensei. Era cedo. Cedo demais para perder o sono numa manhã de quinta. Anos atrás, eu estaria acordando por volta das 8:30, correria para o banheiro a passos leves a fim de um hálito impecável e cachinhos bem enrolados, beijaria a bochecha de Adriana ao encontrá-la na cozinha lavando a louça ou fazendo o desjejum dos meus filhos, e como era quinta-feira, já que o restaurante só abria mais tarde, eu aproveitaria a sua presença e pediria a ela sugestões do que inovar quando preparasse a bandeja de café da manhã para o meu…
Merda!
Não me atrevi a virar e vê-lo ressonar do meu lado, como antes. Como nunca devia deixar de ter sido. Também não me mexi. Quem corriam eram os meus olhos, que seguiram pelo chão até a porta aberta do quarto que dava ao corredor. A trilha de peças de roupa, ou o que restou de algumas delas, eram as evidências daquele acidente, e as paredes, as únicas testemunhas.
A respiração dele, próxima demais do meu pescoço, ia perdendo o ritmo. Eu sabia que Félix logo acordaria. Fiz o possível para não fazer qualquer barulho ao levantar da cama, caminhei até a porta desviando das roupas, aliviado por não tê-lo acordado, até que tropecei em um sapato social escondido por uma camisa branca. Perdi o equilíbrio e o baque do meu braço contra a parede da porta em busca de apoio não foi surdo. Não cai, e mesmo assim gelei.
A cama rangeu e eu já xingava mentalmente a minha falta de atenção. Tive que checar. Nunca tive tanta vergonha de encarar um par de olhos negros, mas virei. O corpo de Félix, coberto até a cintura pelo lençol, continuava quase na mesma posição de quando eu o vi adormecer ontem à noite, a cabeça e o tronco só tendiam para outro lado agora. Se ele estivesse acordado, seus olhos estariam na minha direção.
Eu não queria, mas foi impossível não admirar o corpo magro, ainda mais branco pela luz do sol, os músculos do braço sutis e bem desenhados, o peitoral subindo e descendo, a expressão tranquila e saciada do rosto, os cabelos negros em contraste com a fronha branca.
O impulso me dizia para voltar para a cama, acordá-lo e fazê-lo jurar entre beijos e gemidos que ele nunca mais iria embora, mesmo que eu o mandasse.
Não, Nicolas!
A consciência venceu o impulso justamente quando eu desejei que ela fosse muda. Respirei fundo e saí do quarto bruscamente. Talvez por medo do que aconteceria se eu ficasse por mais tempo naquele quarto.
Eu precisava me vestir. As peças que eu encontrava no chão durante o percurso até a lavanderia não me apeteciam, todas elas teriam o cheiro de Félix. O que era irracional da minha parte, já que o cheiro dele emanava de mim.
Escolhi qualquer conjunto da cesta de roupas e passei reto pela cozinha. Parecia um milagre eu não ter fome àquela hora.
Não me sentia acordado, entorpecido era a palavra. Segui para o lugar mais especial daquela nova morada — o lar que prometeu em vão nos trazer paz e apagar todos os borrões do passado: a varanda das cadeiras de madeira. Era ali onde eu sempre refletia sobre o quão volúvel a vida podia ser, e seria ali que eu teria calma para reviver a noite mais louca dos últimos anos.
"Você age como se tivesse vergonha de nós. Vergonha de mim. Mas sabe o que? Eu quem deveria ter vergonha de você."
Me arrependi do que disse no segundo em que as palavras saíram. Mas sua reação me proporcionou o que eu queria. Queria que ele soubesse que eu também sabia ferir com palavras, que ele não era o único que tinha um lado negro dentro de si. Mantive o jogo, o rosto de desprezo.
Senti quando ele perdeu o controle, mas não esperei pela violência. Bati a cabeça contra a parede do apartamento e logo senti o seu corpo me prensando contra o concreto gelado, porta aberta, bolsa esquecida. Eu estava imóvel.
"Repete. Repete o que você falou. Anda, repete!” berrou ele.
Eu senti medo. As veias de Félix pulsavam, a respiração saía falha, os olhos negros me olhavam e pareciam não enxergar, cegos pela raiva. Mas não me dei por satisfeito, contrariei os meus instintos de defesa, talvez por não acreditar que ele seria capaz de me machucar, e ataquei de novo.
"Eu disse…" ignorei a dor no peito à cada palavra de saía, eu não podia perder dessa vez! Nossos lábios estavam a uma distância perigosa, seu hálito banhava o meu rosto e isso quase me deteve "Que eu deveria ter vergonha de você!"
Fechei os olhos, esperando o soco.
Não entendi quando suas mãos invadiram a minha camisa e viajaram pelo meu tórax, ou quando seus lábios capturaram os meus com urgência. Também me perguntei por que eu não estava reagindo.
Os lugares explorados por suas mãos arderam, sua boca estava seca e sem disposição para buscar ar. Os lábios desceram pelo meu pescoço e eu pude finalmente tomar fôlego, enquanto sua língua queimava a minha pele.
"Ai, F-Félix, p-áára!" aquele era o último vestígio de razão que me sobrara. Ele não me ouviu. Tarde demais, pouco importava. Joguei seu paletó no chão e busquei o nó de sua gravata. Ele devorava a minha boca de novo.
Não! Não era assim que o jogo tinha que terminar! Eu não seria fraco o suficiente para me render a uma tentativa barata de sedução. Seria?
"A-a porta…" quando consegui fugir do cativeiro de seus braços, fui trancá-la. Ao virar de volta, seu corpo me prendia de novo, agora contra a porta.
Eu o encarei. Seu olhar estava diferente. Ele não me olhava com raiva, mas aquilo estava longe de ser amor. Era… fome. Se ele não jogasse tão sujo, eu teria me importado em ser a carne. Ele me guiou até a sala, sem jamais me soltar. Só paramos de cambalear quando colidimos com um dos braços do sofá.
"A gente agora vai brincar, Nicolas" não reconheci o tom de voz, os movimentos, nem nada do que se seguiu. Quem era aquele homem na minha frente?
"B-brincar?" minha voz falhou.
Ele não respondeu, não era necessário. Quando nos beijamos de novo, eu já não via por que resistir. Só queria livrá-lo de todas aquelas peças desnecessárias que me impediam de desfrutar de seu corpo. Ele não me deixou tocá-lo.
"Não. Você precisa pagar pelo o que fez.. Agora relaxe!" ele ordenou. Não tive voz para contrariá-lo. Fogo e gelo brincavam dentro de mim. Ele me despiu por completo, jogando as peças a esmo, enquanto eu latejava. Viu o meu estado, sorriu e abaixou lentamente.
Antes de me abocanhar, olhou para mim lá de baixo, e no reflexo de seus olhos, eu pude ver o quanto os meus estavam escuros.
Gemi alto. Sua boca era quente e receptiva. O ritmo enlouquecedor. Perdi o controle dos sons desconexos que saíam da minha boca. Cada palavra proferida a partir de agora soava como puro instinto.
"Félix, e-eu vou…" bastou isso para que o ritmo aumentasse, eu não ia aguentar. À segundos de atingir o clímax, Félix interrompe os movimentos, se levanta e encara a minha expressão frustrada.
"Você sente vergonha de mim?" indagou ele. A voz gélida.
Foi a gota-d’água, então era essa a tal brincadeira? Me torturar durante o sexo?
"Félix, que porr…" Não terminei, a boca dele me calou, e sua mão já me estimulava de novo.
"Quieto. Agora fala! Fala se você sente vergonha de mim. Anda!" A cada palavra a mão dele se tornava mais rápida. Eu só conseguia gemer em resposta.
"ANDA, NICOLAS! FALA!"
Reuni forças e o respondi. A frase mais pareceu um grito repleto de letras. E então o meu deleite veio em suas mãos. Ele lambuzou a própria boca e depois beijou meus lábios, antes secos, para que eu sentisse o meu gosto.
"Então é isso, você vai me torturar essa noite?" falhei ao parecer bravo.
"Não. Torturar, não. Você está pagando pelo o que fez. Nada mais justo" ele sorriu, cínico. Eu não conhecia aquele homem controlado, calculista, e frio. Mas o seu jogo era tão mais interessante do que o meu, que pouco importava saber quem ele era. Talvez fosse o Félix de quem Paloma uma vez me alertou, talvez fosse o Félix que eu amo, camuflado. A resposta eu poderia buscar amanhã.
Ele permitiu que eu o despisse aos poucos, mas logo me impediu quando procurei seu ponto fraco.
"Não, Niko! Hoje você é meu, não seu. Entendeu?"
Não era uma ordem. Mas eu não via como não ceder.
O restante da noite seguiu nesse jogo. Transamos no sofá, no corredor e finalmente em nosso quarto. Quando trocávamos de “cômodo”, ele aplicava a sua tortura de um modo diferente. Tarde da noite, chegara a vez da cama nos receber. Não era comum ele não me deixar ficar por cima. Tudo parte do seu plano.
Enquanto Félix me preenchia cada vez mais forte e a explosão estava à caminho pela terceira vez, ele desacelerou. Deitou sobre as minhas costas e sussurrou em meu ouvido:
"Fala agora! Fala que não quer que eu vá embora!" o hálito quente fez cócegas por onde passou. A sua última "ordem" me pareceu mais uma súplica.
"AI, FÉLIX!" Ele parou de se mover, sem sair do meu corpo.
"FALA!"
"Eu não quero que você vá embora!"
"POR QUÊ? FALA O PORQUÊ!"
Sim. Ele estava implorando.
"Porque eu te amo, porra!"
E o ritmo recomeçou, mais rápido, foi na última estocada que um grito ecoou pelas paredes do apartamento. Um grito meu, ou dele. Talvez tivéssemos gritado juntos.
Félix se desconectou de mim, e deitou do seu lado da cama. O corpo vermelho e coberto de suor, os fios negros grudando na testa.
Eu não sentia as minhas pernas. Ignorando a cãibra, rastejei para o meu lado da cama, e vi que ele me olhava.
Nada dissemos. E nunca falamos tanto. Ele sorriu, beijou a minha testa e recomendou:
"Durma, já está tarde" sorri de volta. E assim como fiz a noite inteira, eu o obedeci.
Como eu pude ser tão idiota? Eu deliberadamente me tornei um escravo de Félix? Qual o feitiço que ele tinha usado? Por que eu não consigo me manter irredutível quando estou perto dele?
"Pagar pelo o que fez" HÁ! E as acusações terríveis que ele fizera? E o motivo de toda aquela crise (resultado de todos os seus receios)? Quando é que isso seria pago? Eu sabia que acordaria arrependido. O erro não foi ter me entregado ontem. Foi ter dado a Félix o poder de me destruir, de me consertar, de fazer o que quisesse de mim.
Uma mão tímida tocou no meu ombro enquanto eu resmungava mentalmente o quão fraco eu tinha sido.
Olhei para cima e engoli em seco.
"Oi, eu posso sentar aqui?"
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