Notas iniciais
Voltei, voltei, voltei! E trouxe o POV do Félix. Espero que não tenha ficado confuso. ♥ Vai demorar um tempinho para eu voltar a sentir os personagens tão bem quanto naquela época, então peço compreensão. Por favor, comentem o que acharam. Isso é super importante para o futuro da história, tá?

A escuridão era o refúgio perfeito, em todos os sentidos. Talvez porque ninguém consiga te enxergar do jeito que você mais teme ser visto. Mas não ali, o breu só protegia aqueles becos de qualquer testemunha ou alma caridosa. Eu só correria o risco de ser flagrado se visse meu reflexo através de alguma poça d'água. O que sinceramente, seria ainda pior.

O choro da criança não cessava, o rosto pálido e sem vida de Paloma deixado para trás... Não sei por quantos quarteirões vaguei desnorteado. A calçada ficou turva e meus joelhos falharam.

Um cheiro de ferrugem e sal invadiu minhas narinas quando esfreguei o rosto em sinal de desespero. Claro. O sangue. Sangue do meu sangue.

Forcei meus pés a se firmarem de volta ao chão e continuei a vagar. O silêncio da madrugada permitia que os meus pensamentos soassem como megafones.

Você sabe o final da história, Félix. De toda a história.

Meu pai sempre me amou, do jeito dele. De um jeito que mesmo depois de sua morte, eu tive dificuldade para entender. Paloma nunca fora o meu alvo principal. E quanto a criança... Ela seria resgatada, cresceria e terminaria bem ao lado da mãe. Ambas sobreviveriam ao crime desta noite.

Então, por que isso se repete? Por que eu tenho que reviver a cena de tempos em tempos, sem nunca encontrar paz?

Imerso em minha própria escuridão, eu mal prestava atenção no que estava à minha frente. Deixei que meus passos me levassem a qualquer lugar longe o bastante da caçamba e de tudo que me lembrasse do homem que já existiu dentro de mim.

"Só um tolo tropeça no degrau debaixo!"

Incrível como a frase de Márcia soa mais sensata para quem teve um passado do qual se envergonha. Era de se esperar que eu e ela jamais conseguiríamos lutar contra...

Estaquei.

Mas que diabos?

A construção à minha frente era estranhamente familiar. Reconheci os portões, a entrada e até o homem sonolento que cumpria seu turno na guarita.

Não hesitei em entrar no prédio e por alguma razão, o homem sonolento não pediu para que eu me identificasse. Talvez o porteiro soubesse que eu estava em casa.

O espelho do elevador desenhava um homem suado, um paletó em desalinho e listras de sangue coaguladas num rosto cansado. Desviei o olhar para o número do andar que importava.

A nova-morada não foi o melhor lar que já tive. Eu fugi para cá, era diferente. E dentre todas as sentenças de infelicidade, a pior delas era a única que eu não conseguia admitir...

Saí do elevador às pressas e busquei a maçaneta.

Trancada.

Doeu ter de tocar a campainha para poder entrar em minha própria casa. Era como se eu pedisse permissão, como se não a merecesse. Mas eu precisava ver quem estava atrás da porta...

A maçanete girou cautelosa e o alívio veio. Foi como se morfina corresse pelas minhas veias ao invés de sangue. Eu estava errado. Ali era o meu lar.

Eu aceito não ter cura, mas não posso viver sem morfina.

Minha garganta provavelmente entalou com tantas palavras bloqueando a minha voz. Niko pareceu entender a situação bem antes de mim. Seu lindo rosto se desfez em feições de pura dor ao me olhar dos pés até a cabeça, resignado. Quebrei a distância entre nós e levei minhas mãos sujas ao seu rosto, tentando inutilmente cessar suas lágrimas.

— Amor, nã-não chore. Olhe, está tudo bem agora. Eu estou de volta!

— Esse é o problema. — Sua voz saiu mais baixa que o normal, como se ele tivesse me contado um segredo.

Como é?

Mas ele nada disse. Continuava a me olhar com desprezo, os olhos ainda transbordavam lágrimas de dor. Antes que eu pudesse questioná-lo, um terceiro homem surgiu logo atrás de Niko e parecia tão chocado quanto eu.

O Félix que me encarava era nitidamente mais velho, mas suas olheiras haviam sumido. Suas roupas eram dois tons mais claras que as minhas, a barba até parecia mais rala... No entanto, eu e ele ainda tínhamos os mesmos olhos cor de ônix.

Apreensivo, ele tocou o ombro de Niko e lentamente o puxou para longe de mim.

— Niko, não o convide para entrar. — sussurrou o impostor.

Para a minha surpresa, Niko sorriu conformado para o outro Félix e tocou seu rosto com tanto amor que me causou inveja.

— É tarde demais, Félix. Não posso dizer que estou surpreso. Eu sabia que um dia ele voltaria...

Os dois se abraçaram e trocaram juras de amor em silêncio enquanto eu assistia a tudo desolado, o ciúme queimando as minhas entranhas. Pareciam estar se despedindo. Por minha causa.

Àquela altura, eu deveria ter percebido que o motivo de todos os meus problemas sempre seria o amor, a falta de amor. Eu não era desejado ali. Aquele universo feliz só tinha espaço para um Félix. Mas agora éramos dois e eu não suportaria ser rejeitado outra vez. Não era justo.

Motivado pela raiva de uma vida inteira e com o pouco da força que me restou, eu avancei em direção ao impostor e apertei minhas mãos ao redor de seu pescoço até seus joelhos cederem. Seu rosto foi perdendo a cor.

Num gesto de súplica, eu me voltei para Niko, sem tirar as mãos do pescoço do outro Félix. O amor da minha vida, que agora chorava por outro, me olhava horrorizado. Sem demora, eu lhe propus um destino:

— Ou ele, ou eu.

***

Nunca foi tão difícil colocar os pés para fora da cama. Meu corpo parecia pesar uma tonelada e os músculos não pareciam descansados, embora o relógio denunciasse que eu passei tempo demais na cama úmida, agonizando em pesadelo.

Niko.

Olhei ao redor do quarto e me dei conta do que havia acontecido noite passada. Flashes desconexos de gritos, portas batendo, bolsas esquecidas e gemidos invadiram a minha cabeça. Felizmente, nenhuma das lembranças mais nítidas incluíam uma tentativa de assassinato...

Tentei ignorar o tremor que percorreu o meu corpo. Ele não voltou. Eu não vou permitir.

Vesti a primeira peça que me apareceu pelo corredor e segui para onde eu sabia que ele me esperava.

Niko estava de costas na varanda, de frente para o Sol, provavelmente resmungando consigo mesmo por ter cedido ao meu jogo cruel.

A vergonha me inundou. Ele não merecia isso. Niko não merecia qualquer vestígio do homem que eu já fui um dia. Mas eu não conseguiria impedi-lo de voltar. Não sozinho.

Engoli em seco qualquer pedido de perdão ou explicação que tentou escapar da minha garganta. Toquei seu ombro e comecei a conversa mais longa de nossas vidas com dois pedidos.

— Oi, eu posso me sentar aqui?

Ele assentiu, o rosto suavizando com a minha chegada.

Com a cautela de um condenado, deslizei para a cadeira de frente para ele. O raios de Sol queimaram as minhas costas, mas não me importei.

Os olhos de Niko refletiam a mesma dor que vi em meu sonho. Eu mal suportava vê-lo chorar por qualquer motivo, mas ser a razão de seu sofrimento me quebrava em mil pedaços.

Daquele momento em diante, eu prometi a mim mesmo que nunca mais voltaria a machucá-lo. Eu precisava admitir em voz alta o que há algum tempo já sabia:

— Amor, eu preciso de ajuda.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.