Desnortear
3 Capítulo 2.1
Notas iniciais
Quando o Sol despontou durante as primeiras horas da manhã, me surpreendi por não ter pegado no sono por mais de meia hora. Abrindo as cortinas, vi as colunas de concreto que pareciam cortar o azul dos céus, as incontáveis janelinhas... Depois de morar na praia por tantos anos, me desacostumara com a vida na cidade. Os carros buzinando erguiam uma sinfonia que me lembrava aos poucos daquele cotidiano.
Esperei até um horário razoável para me levantar da cama. Perambulando pelo apartamento como um zumbi, deixei que as imagens da última noite aos poucos penetrassem em minha semiconsciência vespertina.
“Então... Então eu acho melhor você sair. Ir embora. Vai embora, Félix.”
Sacudi a cabeça procurando me livrar daqueles flashbacks, me arrependendo quase instantaneamente de tê-los procurado em primeiro lugar. Assim que escutei movimento ecoando pelos corredores, voltei ao quarto em que passara a noite. Digamos que não estava lá muito ansioso por convívio.
Batidas à porta me sobressaltaram de um cochilo. Pegara no sono sem nem perceber, sabe-se lá por quanto tempo. Uma segunda série de batidas e me levantei, coloquei a camisa do pijama que, atualmente, parecia no mínimo um número maior em mim, arrumei os cabelos e prossegui até ela esfregando os olhos.
“Bom dia, Edith, a que devo a honra de sua visita nessa linda manhã de segunda-feira?” encostando-me ao batente da porta, encarei minha hospedeira com um meio-sorriso.
“Engraçado, eu ia te perguntar a mesma coisa” forçando passagem por entre mim e a madeira, Edith entrou no quarto e sentou-se sobre a cama desarrumada cruzando as pernas.
“Ah, eu... Eu cheguei de viagem ontem e, como minha casa é longe do aeroporto, precisava de um lugar para ficar” tirei a imagem da mentira de minha mala encostada a um canto da parede.
A minha facilidade em aceitar uma recaída me divertia. Félix Khoury, o homem que gritava a plenos pulmões ter mudado completamente era o mesmo que omitiria a verdade assim que isso lhe trouxesse algum tipo de benefício.
“Você deve me achar estúpida” o deboche implícito em sua risada congelou-me a espinha “A verdade, Félix. Wagner foi trabalhar, não há motivo para você evitar o assunto. E, ao que me parece, você brigou com o seu namoradinho.”
Suspirando, deixei que as palavras entrassem por um ouvido e saíssem por outro. “Namoradinho” seria um termo ofensivo em qualquer outra ocasião, porém nesse momento a raiva de Niko não deixava que o sarcasmo daquela mulher me incomodasse. Logo contei a verdade, assentindo a cada comentário maldoso de Edith.
“E então você vem para a minha casa?” suas sobrancelhas se levantaram num gesto de incredulidade “Para a casa da sua ex?”
“Edith, entenda uma coisa” puxei um banco que estava em frente à escrivaninha e sentei-me encarando-a na altura dos seus olhos “Ao contrário de você, minha família não tem motivos para ser contra o Carneiri-, digo, Niko. Pelo contrário, todos são a favor. Se eu fosse para a casa de qualquer um deles, acabaria recebendo conselhos amorosos sobre como voltar para ele. E não estou com vontade de ouvir aquela conversa diabética.”
“Você não quer voltar para ele?” ela deixou o rosto pender para um lado com um misto de compreensão e compaixão no olhar.
Não tive tempo de passar do “não” inicial da frase. Empurrando a cama com as mãos, Edith lançou seu corpo para frente e me beijou. Seus lábios, a meu ver, eram tão frios que poderiam facilmente formar um degrade com os tons de cinza dos lençóis. Em um segundo de confusão, não reagi, o que foi o bastante para que ela me puxasse para mais perto pela camisa. Quando segurei sua mão, tive a intenção de tirá-la do tecido com delicadeza, mas ela não pareceu entendê-lo. Não me restou alternativa a não ser levantar-me de maneira abrupta para me livrar da investida.
“Ficou maluca, mulher?” indaguei ligeiramente mais alto do que pretendia e, por um momento, agradeci por Wagner não estar em casa.
Edith começou a gaguejar sobre amor, sobre me amar, sobre eu ser o homem de sua vida, fazendo com que me recordasse da última vez em que aquelas palavras haviam sido ditas.
“Não é porque eu decidi me afastar do Niko que uma Fada Madrinha e me fez gostar de... Enfim, é melhor você ir” voltei a escancarar a porta do quarto e esperei que ela fizesse menção de passar “Eu vou arrumar as minhas coisas e dar um jeito de ir para um hotel, vai ser melhor para todos nós.”
“Félix, não, me desculpa. Por favor, não vai embora, Wagner vai suspeitar de alguma coisa e...” pondo-se sobre seus pés, ela veio até mim e segurou meus punhos entre suas palmas “Eu gosto dele. Eu o amo, Félix. E se ele descobrisse... Por favor.”
“Tudo bem, tudo bem, criatura” suspirando, emoldurei seu rosto com uma de minhas palmas. Mesmo sem querer ainda sentia um grande carinho por ela, fosse ele proveniente da nostalgia ou não “Mas se você fizer isso de novo, eu vou embora e eu vou contar tudinho para ele, estamos combinados? Agora, eu estou matando por uma xícara de café.”
Depois de alguns minutos escutando o chiado da cafeteira, fui até ela e coloquei seu conteúdo em duas xícaras, levando-as até a mesa onde Edith se encontrava perdida em pensamentos. Coloquei algumas gotas de adoçante, como costumava fazer quando éramos “casados” e me sentei na cadeira oposta, esperando uma reação.
“Sabe, Félix, eu estava pensando...” ela começou enquanto mexia seu café num passo lento com a colher “Você disse que, antes de tudo desabar, vocês brigaram porque você não queria se casar.”
Confirmei antes de tomar outro gole, evitando entrar em detalhes ou mesmo acabar expressando meus pensamentos quanto ao chilique de Niko.
“Quem sabe ele não tem algum tipo de interesse em casar com você?” colocou a caneca na mesa e me encarou com mais seriedade “Algum interesse além do ‘amor’”
Confesso que assim que ela desenhou as aspas no ar eu soube do que aquilo se tratava. De qualquer forma, quis confirmar para o caso de ter interpretado errado suas insinuações. Pedi que se explicasse e, com os cotovelos sobre a mesa, me aproximei como que prestes a ouvir um segredo importante.
“Quer dizer, você é filho de César Khoury, milionário, e, agora que ele faleceu, você tem direito a uma grande herança” assenti antes mesmo de ela completar a sentença “Quem sabe essa pressa toda tem alguma coisa a ver com essa grana?”
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