Desnortear
4 Capítulo 2.2
Notas iniciais
Foi uma das noites mais difíceis da minha vida. Havia me acostumado a dormir com Félix ao meu lado, me abraçando, acariciando meus cabelos, beijando meu pescoço e apertando forte minha cintura contra a dele. Revirei-me pela cama a noite toda pensando em como ele estava, onde estava e se estava bem. Sentia que tudo aquilo era minha culpa, eu havia o pressionado, praticamente o pedido em casamento e isso o assustou. Ele simplesmente não estava preparado para isso e eu, com meu jeito dramático de ser, fiz com que ele se sentisse mal e isso o fez partir.
Após horas pensando em Félix, olhei para o relógio e vi que eram oito da manhã. A noite passará rápido e eu não havia tirado um cochilo sequer, mas não importava, não estava com sono. Tinha coisa demais para pensar. Me levantei, tomei um banho gelado para relaxar e fazer aquele peso em meus ombros desaparecer. Após o banho, fiquei mais uns segundos sentado na cama, pensando nele, claro. Lembrei-me de acordá-lo todas as manhãs com beijos por todo seu rosto, lembrei-me das vezes que ele insistira para tomar banho junto comigo, lembrei-me das vezes que ele dizia que eu precisava renovar o guarda-roupa, dizendo que tudo ali estava um tanto “old.”. Limpei as poucas lágrimas que haviam escorrido e me levantei. Coloquei uma roupa qualquer e fui para a sala. As crianças já estavam sentadas a mesa, Adriana já havia dado banho neles e agora servia o café da manhã.
"Bom dia"disse forçando um sorriso.
"Bom dia, papai" Jaiminho respondeu me dando um beijo na bochecha.
"Bom dia, meu filho. Bom dia, Fabricio" beijei sua cabeça.
"Bom dia, seu Niko" disse Adriana ajudando Fabinho a comer sua salada de frutas.
"Bom dia, Adriana" apoiei os cotovelos sobre a mesa e esfreguei o rosto.
"Tá... tudo bem com o senhor?" ela me encarou profundamente nos olhos. Deve ter enxergado minha tristeza e angústia.
"Tá" sorri e coloquei um pouco de suco em meu copo.
"Papai?" Jaiminho perguntou enquanto eu tomava um pouco do suco.
"Que foi meu filho?"
"Cadê o meu pai?" engasguei com o suco. Minha cabeça deu um nó, não sabia o que dizer. Como eu diria isso pra ele? “Seu pai foi embora porque ele não quer se casar comigo”? Ou então “Seu pai foi embora porque ele é um imaturo, idiota que não tem um pingo de sentimento por mim”? Tinha que mentir, tinha que amenizar a situação. Tudo bem eu ficar mal, mas meus filhos não. Seria muito mais doloroso para mim.
"Meu filho" Limpei a garganta e disse, tentando não embaralhar as palavras. "Seu pai... ele... ele teve que fazer uma viagem."
"Uma viagem?" indagou. "Pra onde?"
"Pra capital, amor. Ele teve que resolver umas coisas lá" fechei os olhos e engoli seco.
"Ah. E quando ele volta?"
"Ai, Jaiminho, não sei. Quantas perguntas" tentei mudar de assunto para que eu não tivesse que responder “provavelmente, nunca mais”. – Por que não vai escovar os dentes, hun? Senão você vai se atrasar pra escola."
"Tá bem" ele se levantou.
"Ah, e leva seu irmão também."
"Não, seu Niko. Pode deixar que eu levo" disse Adriana se levantando e colocando Fabricio no chão.
"Não, Adriana. Pode deixar que o Jaiminho leva. Eu quero conversar com você"falei encarando-a seriamente.
"Hum, ok, então..." ela soou assustada. "Vai lá, Fabricio. Vai lá com seu irmão" o garotinho andou desengonçadamente até o irmão, que segurou sua mão. Quando os dois saíram da sala, pedi a Adriana que se sentasse ao meu lado. "O que aconteceu, seu Niko? Eu fiz alguma coisa de errado? Ai, o senhor vai me demitir, né?" colocou a mão na testa. "Olha seu Niko, me desculpa se..."
"Não, Adriana" eu ri. "Calma. Não vou te demitir" segurei sua mão e sorri para ela. "Eu só quero conversar com você... sobre o Félix."
"Ah, entendi" ela sorriu e assentiu com a cabeça, como soubesse do que eu fosse falar. "Ele não foi viajar né?"
"É... não exatamente."
"O que aconteceu, seu Niko? Pode falar"
"Ai, Adriana, é que o Félix é um insensato... Um ogro, sabe? Ele... ele foi embora" meus olhos se encheram de lágrimas. Estava prestes a chorar, mas resisti.
"Embora? Embora pra onde? Por quê?" ela disse um tanto desapontada.
"Pelo que eu o ouvi falando, ele foi pra casa da víbora da Edith" meu rosto enrijeceu. "Ele foi embora por conta daquela briga, sabe? Sobre o casamento. Ele devia estar triste, com raiva, e foi embora. Agora tá lá com aquela horrorosa" falei com um tom de desprezo. "Ai, e se ela tentar alguma coisa com ele? E se ele deixar? E se ele gostar? Ai, Adriana..."
"Seu Niko, calma" ela segurou minha mão e sorriu."O seu Félix ama o senhor e não vai ser uma briga dessas que vai destruir o que vocês têm."
"Mas, dessa vez, parece que é sério. Ele... ele nunca saiu de casa antes" nessa hora a ficha pareceu cair. Ele nunca saiu de casa antes, essas palavras ecoaram pela minha mente. E se ele nunca mais voltasse? E se ele encontrasse outra pessoa, e se ele deixasse de amar, e se ele nunca tivesse me amado? As lágrimas voltaram e inundaram meus olhos. Eles ardiam, não podia piscar. Uma piscadela e todo o esforço para me manter forte teria sido em vão.
"Isso não quer dizer que ele não te ame" Adriana tentava amenizar a situação. Ela podia ver as lágrimas em meus olhos, mas via também a tristeza e o medo que habitavam minha alma. "Olha, seu Niko, casais brigam. Todo o casal briga e se desentende. Às vezes são brigas que rapidamente se resolvem, mas às vezes não. Talvez o seu Félix só esteja querendo esfriar a cabeça. Ele só não está pronto para se casar, só isso. E não é porque ele tá na casa da dona Edith que eles vão voltar."
"É você tem razão" senti tua mão quente sobre a minha" Mas me dá um aperto no coração, sabe? É tão estranho sem ele, tão vazio... e olha que só faz uma noite."
"É normal. O senhor se acostumou com a presença dele e ficar sem ele, mesmo que seja só por uma noite é estranho e ruim. Mas vai ficar tudo bem, viu? Qualquer coisa que o senhor precisar, tô aqui" ela sorriu o que fez o medo em minha alma amenizar.
De repente, escuto uma buzina lá fora.
"Meu Deus! Olha a hora" disse assustado. "Jaiminho! Sua van chegou meu filho. Corre!" gritei para ser ouvido por Jaiminho no banheiro.
"Pronto papai." ele pegou sua mochila. Adriana pegou a de Fabrício e levou os dois até lá fora. "Tchau, papai" ele me beijou no rosto.
"Tchau, meu filho" o abracei.
"Papai..." disse Fabricio, acenando com a mão.
"Ai, meu Deus" sorri espontaneamente ao ouvir aquilo. "Tchau, meu amor"
Os três saíram e fiquei sozinho sentando a mesa. Tomei um gole de suco e comi uma torrada com geleia. De repente, meus olhos se fecharam e uma cena passou pela minha cabeça.
– Félix me passa a geleia.
– Não, Niko. Chega de geleia.
– Por quê?
– Porque senão, daqui a pouco, você vai mudar de carneiro para orca, a baleia assassina.
– Chega tá?
– Por quê? – Félix sorri.
– Porque... se eu não sirvo pra fazer parte da sua família, você não serve pra fiscalizar o meu peso. Pronto, chega.
Ao lembrar-me daquilo, automaticamente, alcancei a faca e dupliquei a quantidade de geleia do pão que segurava. Mordendo a fatia com vontade, esperei que, por meio de algum tipo de conexão, ele percebesse o quanto eu me importava com seus comentários sobre meu peso.
Foi então que o telefone tocou.
"Alô?" respondi normalmente.
"Carneiri... quer dizer, Niko?"
"Félix?" meu coração acelerou. "O que você quer?" tentei dizer ríspido.
"É... eu preciso de umas roupas e... queria saber se podia passar ai pra pegar."meu coração apertou, meus olhos se encheram de lágrimas novamente. Ele precisava de roupas... talvez não fosse mais voltar...
"Pode, pode sim."
"Ok, então na quarta-feira à tarde eu passo aí, tá?"
"Tá" tentei não demonstrar emoção, não queria que ele notasse que eu estava triste e que precisava dele.
"Então, nos vemos depois"
"Ok, então. Tchau."
"Tchau" desliguei o telefone e fechei os olhos. Saí antes que pudesse processar o pior... ele estava indo embora de vez.
Fale com o autor