Desire Obsolete
54 Ódio
Notas iniciais

— Hermione?
Meu sangue corre mais rápido em minhas veias, levando pontadas de adrenalina para meus neurônios. Consigo sentir meu corpo se preparando, entrando em modo de sobrevivência. É estranho, mas não existe medo, apenas... incomodo. Sem raiva, mágoa ou tristeza. Olhar para ela não me traz nenhum dos sentimentos que julgo nutrir por suas ações e personalidade.
Sua presença inesperada me arrebata por alguns segundos, por isso, fico muda por tempo o suficiente para lhe fazer ter que chamar meu nome novamente, dessa vez, ainda mais raivosa.
— Bellatrix. – Minha voz sai como um sopro de ar.
Sua compostura é recuperada tão rápido quanto fora abalada. Ela ergue as sobrancelhas, enrugando o nariz.
— O que...? – Ela trava a mandíbula, esquadrilhando a sala com os olhos injetados de ódio – Não pode ser...
Meus pensamentos correm desenfreadamente, buscando entender sua presença e o que a motivou a chegar até mim. Mas apenas um tópico povoa meus receios: meus filhos. Ela não pode se aproximar dos meus filhos. Por isso, não existe uma única célula do meu corpo que não esteja em alerta, esperando seus próximos movimentos. Bloqueio de minha mente qualquer pensamento que possa denunciar suas presenças.
Ela balança a cabeça, espantando pensamentos indesejados e estreita os olhos para mim.
— O que você está fazendo aqui? Está é a casa de Milord? – Sua voz é fria como gelo e existe desgosto em sua face, mas sua última pergunta é o que me incomoda. No entanto, sua atenção não se demora em mim – Sua criatura insignificante, você me trouxe para o lugar errado? – Sua raiva se volta para Mirdy, cuspindo cada palavra com asco – Como ousa me fazer de idiota, elfa maldita! Leve-me para onde lhe ordenei imediatamente.
Seu corpinho se encolhe, mas não existe alteração em sua expressão vidrada. Mirdy está completamente tomada pela maldição imperius, sofrendo silenciosamente por ter cedido aos comandos de Bellatrix e a trazido até aqui.
É tudo tão surreal que meu cérebro corre desenfreado.
Ela procura a casa de Tom?
— A pergunta que importa é, o que você faz aqui? – Retruco, analisando o ambiente ao nosso redor e tento trazer sua atenção de volta para mim. Conjuro silenciosamente um Abaffiato quase que por instinto, não querendo que Alya e Damon escutem nenhum ruído vindo de nós – Está muito longe de casa, Lestrange – Observo, ignorando propositalmente sua outra pergunta.
Tom não a mandou aqui e, com certeza, não sabe que ela está aqui. Bellatrix estará em maus lençóis se ele lhe encontrar, mas... Por que ela iria querer vir para cá? Não faz sentido, penso. Nunca conversamos sobre Bellatrix, mas ele sabe que eu a odeio. Por que ela está procurando sua casa? Para todos os efeitos, Tom reside na mansão Malfoy. É lá que seus comensais devem lhe encontrar.
A sala de estar onde estamos é ampla, com mobília luxuosa em branco, cinza, preto e azul marinho, com ornamentos nas paredes em dourado. Com grandes janelas em arcos de madeira que dão em direção ao jardim, é um lugar muito bem iluminado. É também longe do quarto dos bebês que fica no primeiro andar, na única suíte do lado leste da mansão. Mas não longe o suficiente para mim, principalmente, quando iniciarmos um duelo.
Não existe um “e se” em minha mente, mas sim um “quando”. Se seu semblante raivoso não for um forte indicativo, com certeza sua postura agressiva é. Ela me odeia tanto quanto a odeio.
Bellatrix me responde com uma risada anasalada, quase histérica. Isso me traz de volta de minhas divagações.
— O que é tão engraçado? – Pergunto sem humor.
Vasculho em minha mente formas de tirar Mirdy de seu estado vidrado.
— Você.
Estreito meus olhos com seu tom zombador.
— Filhinha, não seja rebelde – Debocha, se afastando do corpo trêmulo de Mirdy – Mesmo longe de casa, posso concluir o que não fiz há quase 18 anos... – Ela faz uma pausa dramática, fazendo biquinho – Te matar.
— Você superestima seu próprio poder, Bellatrix – Digo, sem me alterar – E não me chame de filha, você não é minha mãe.
Seus olhos se reviram com minhas palavras.
— A biologia discorda de você, filhinha – Me contradiz, azeda – Mas, logo você se encontrará com seu papai e juntos poderão discutir sobre parentesco – Um sorriso sádico aparece em seu rosto – Se existir vida após a morte, não é mesmo.
Mordo a parte interna da minha bochecha, tentando não cair em suas provocações.
Desvio minha atenção para Mirdy.
Uma curiosidade implacável sobre a maldição imperius, é que ela coloca suas vítimas em um estado sereno que só pode ser desfeito por quem à lançou, ou por alguém forte o suficiente para não se deixar controlar por ela. Mas existe também a opção da morte, se seu conjurador for morto, a vítima é libertada.
Para tirar Mirdy do controle dela, preciso desacordar Bellatrix. Não será fácil, mas não posso permitir que ela se safe, concluo. E, acima de tudo, não posso deixar que ela se aproxime dos meus bebês. Ela não pode saber que eles estão aqui, ou tentará usá-los para me atingir. Um arrepio atravessa minha espinha, trazendo medo ao meu coração.
— Sua tentativa patética de tentar me distrair é realmente irritante – Fala, gingando os quadris em um rodopio sem sair do lugar e me tirando de meus devaneios – Mas não sou facilmente distraída – Sua atenção se volta para Mirdy – Você me trouxe ao lugar certo?
Silêncio.
— Mirdy, olhe para mim – Peço, vendo-a obedecer de imediato – Você não precisa responder, pode lutar contra isso. Bellatrix pode controlar seu corpo, mas não seu espírito. Resista!
— Cale-se, garota – Rosna, apontando a varinha curva para minha elfa, intensificando o feitiço sobre ela.
— Você é mais forte que ela – Prossigo, ignorando Bella – Eu confio em você, Mirdy.
Por favor, resista.
Percebo o hesitar, a luta para se manter em silêncio que Mirdy trava. Resistindo, piscando freneticamente seus olhos de mim para ela, realmente tentando não falar, ela agarra a cabecinha com as duas mãos, trincando os dentes.
— Isso, Mirdy! – Incentivo, me aproximando sorrateiramente delas – Você consegue...
— Chega! – O grito de Bellatrix me assusta, fazendo meu corpo travar no lugar, a pouco mais de quatro metros delas.
Vejo seus dedos ficarem brancos com tamanha força com a qual ela aperta sua varinha, fortificando seu controle e, enfim, vencendo a batalha.
— Elfa, me responda! – Ordena.
Seu corpo miúdo trava, ela endireita a coluna e volta a sua expressão serena.
— Sim – Responde mecanicamente, piscando os olhinhos amedrontados – Estamos no lugar certo.
Sua boca se aperta em uma linha rígida quase de imediato ao ouvir sua resposta. Seus olhos buscam os meus no mesmo instante também. Um fogo desconhecido brota ali, com um misto de emoções intensas passando por seu rosto, de descrença a indignação, de raiva ao nojo e, por fim, ao ódio. Um ódio tão profundo e visceral, que não compreendo de onde ele surgiu tão de repente. É como se ela estivesse me vendo pela primeira vez sobre uma nova ótica, uma em que sou sua maior vilã.
Desvio minha atenção para a pequena elfa, vendo seu corpinho se balançar para os lados, tremendo de culpa.
Afinal, por que ela queria tanto saber se aqui é a casa de Tom? Se ele nunca a trouxe, significa que não a quer aqui e que ela deveria se tocar disso. Não faz sentido sua obsessão... Mas, será que... Não, não pode ser. Eles não... Não!
Tomada por descrença, com meu sangue esquentando nas veias, levo minha mão direita à boca. O rumo de meus pensamentos é como um soco em meu estômago, me deixando sem ar.
Tom e ela!?
Seus olhos se ampliam e sua boca se escancara de descrença. Algo em meu rosto lhe causa tal reação. Fico atordoada com isso, mas não tanto quanto com os pensamentos que rodeiam minha mente.
Não é possível... É?
Nojo e descrença me invadem, nauseando-me.
Vejo-a apertar seus dedos em volta da madeira de nogueira de sua varinha. É um movimento rápido, mal se passa frações de segundos. Meu cérebro acompanha seu gesto com uma lentidão excruciante causada por meus pensamentos atordoantes.
— Crucius! – Grita, tomada de uma cólera transbordante.
Não tenho tempo de empunhar minha varinha, mas consigo evocar minha energia céltica, expandido minha magia para fora de mim, sendo minha própria varinha como Morgana me ensinará. O escudo que se forma ao meu redor absolve sua maldição imperdoável, mostrando-me que meu Deflexio, feitiço absorsor, funcionou com perfeição aliado aos conhecimentos que obtive em minhas aulas com Lefay.
— Você não quer fazer isso, Bellatrix – Consigo dizer, mesmo sentindo meu coração sendo esmagado no peito e meu estômago se revirando – Se começarmos, eu não vou parar – É tudo tão surreal, tão devastador, que sinto meu corpo flutuar em torno da verdade implícita.
Minha respiração se acelera quando o feitiço se desfaz em meu escudo, apenas deixando faíscas vermelhas respingarem no chão.
Mirdy é atirada contra a parede, atingida por um Estupefaça de Bellatrix que não consegui prever. O barulho retumba pelo cômodo quando seu corpinho cai no chão desacordado.
— Você pagará por isso – Consigo dizer, pegando minha varinha da fita presa em meu quadril.
Ela parece não me escutar, seu rosto tomado por palidez e ódio.
— Ele é meu! – Declara, empinando o nariz – Voldemort é meu, e só meu. Uma garota como você nunca satisfaria um homem como ele. Nunca.
Engulo a acidez que se forma em minha boca ao ter meus medos jogados em minha cara por sua voz maldosa.
— É? – Um sorriso lento e macabro, totalmente atípico se forma em meus lábios – Você tem certeza disso, Bellatrix?
Ela estremece de ódio, trincando os dentes.
— Eu vou te matar, bastarda! – Grita, destruindo os vidros das janelas.
Os cacos caem no chão com um barulho ensurdecedor, mas lá não ficam. Ela os atira em mim, fazendo-os de projétil. São centenas de pedaços, de vários formatos e vindos de todos os lados possíveis. Pará-los com um escudo é arriscado para Mirdy, que pode acabar sendo atingida se eles ricochetearem.
Engolindo uma maldição, fecho meus olhos.
“- Lembre-se disso, Hermione. Magia céltica não é diferente da ensinada em Hogwarts, apenas mais complexa e sensível – Morgana me diz, colocando um jarro cheio de terra em cima da mesa da cozinha – Para dominá-la, é preciso compreender suas variações e ligação com a natureza.
Acaricio minha barriga de três meses, escutando pingos grossos de chuva se chocarem contra os vidros das janelas, mostrando-me que mais uma vez estava começando a chover em Avalon ao entardecer.
Morgana faz uma breve careta encarando de relance a chuva caindo no lado de fora.
Sorrio.
— Bom, ensine-me – Peço, apoiando-me na mesa, ávida para aprender – Quero entender tudo o que for possível.
Ela sorri para mim com a boca fechada.
— Deixe-me te ensinar como senti-la e transformá-la ao seu favor, após isso te mostrarei como invocá-la – Diz, colocando as mãos em cima do jarro, fazendo em poucos segundos um lírio brotar dali – O céu é o limite para nós, querida.”
O ar se expande ao meu redor, parando os projetis de vidro. Sinto os pelos dos meus braços se eriçarem quando as pequenas descargas elétricas que atingem meu corpo se transformam em energia e, por consequência, poder.
Sinta, transforme e, então, invoque, recito para mim mesma.
— Quod sit volo – Murmuro, escutando o estalar da transformação bem executada.
Abro os olhos a tempo de ver os pedaços de vidros se transformando em pétalas de rosas vermelhas, caindo pelo chão ao nosso redor sem fazer barulho algum.
Ela me olha boquiaberta, realmente chocada.
— Ele não me parecia seu ontem à noite – Falo friamente, encontrando tanto ódio e ciúmes dentro de mim que até me assusto – Enquanto dividia a cama comigo e acordava hoje ao meu lado, com seu corpo entrelaçado ao meu, ele realmente não me parecia seu, mamãe.
O jato verde de seu Avada Kedavra vindo em minha direção não me assusta, porque eu já previa este seu movimento. Apenas me teletransporto como Morgana sempre o faz, sentindo de imediato a resistência das barreiras da mansão tentarem me impedir, mesmo não sendo minha intenção sair verdadeiramente do cômodo, apenas fugir da maldição da morte. Consigo ultrapassar as duas primeiras sem sentir dor, mas na terceira meus ossos são esmagados e jogados para trás, por isso, apareço atrás de Bellatrix quase sem fôlego.
— O que? – Sua confusão chega até mim.
Ela vasculha o cômodo, girando a cabeça para seus lados.
— Buh! – Exclamo, soprando uma lufada generosa de ar em sua nuca.
Seu pulo para frente é rápido, assim como seu corpo se virando para mim. Seus olhos estão arregalados e sua boca ligeiramente aberta. Existe raiva, surpresa e ódio em seu rosto, mas nada que verdadeiramente me assuste.
— Chegou a hora de acabarmos com isso, Bellatrix – Digo, deitando minha cabeça para a direita – Foi divertido te receber em minha casa, mas...
Passo a língua pelos lábios e coloco minha mão direita, propositalmente, em cima de meu coração, atraindo sua atenção para meu anel de noivado reluzente.
— Eu tenho um casamento para organizar, não posso perder meu tempo com você.
[...]
Descendo rapidamente o lance de degraus, Narcisa logo se encontra no térreo da mansão. Ela rumo com agilidade por entre alguns corredores até chegar à cozinha barulhenta, encontrando seu costumeiro grupo de elfos domésticos preparando o almoço.
Todos param ao verem sua senhora na entrada do lugar, esquadrilhando com avidez todos os recantos do ambiente, claramente procurando algo ou alguém.
— Mirdy, a elfa que sempre vem me buscar, alguém viu ela aqui hoje? – Pergunta, após não encontrar a mesma em lugar nenhum da mansão.
Todos balançam a cabeça em sincronia, negando.
Será que Milord não quer mais que eu ajude Hermione com os bebês? Pergunta-se, saindo do lugar sem dizer mais nada.
— Isso não é bom – Resmunga, seguindo pelos corredores que levam para a sala de reuniões.
Narcisa não é do tipo de pessoa que se deixa levar por pressentimentos, mas algo no fundo de seu ser, como sendo uma vozinha irritante, lhe diz que algo muito ruim está prestes a acontecer.
— Estou ficando louca – Murmura para si.
— Falando sozinha, mamãe? – A voz de Draco desperta a mulher de seus devaneios, assustando-a.
Ela estanca no lugar e olha para seu unigênito com a mão no coração, sentindo seus batimentos acelerados.
— Você me assustou, garoto – Ralha, suspirando logo em seguida ao vê-lo sorrir de lado – Onde está indo a essa hora? – Pergunta, percebendo seus trajes formais.
— Blásio e eu encontraremos Pansy em um lugar – Fala vagamente, perdendo o sorriso – A senhora não deveria estar... Onde é mesmo que a senhora está passando boa parte de seus dias?
Ela revira os olhos.
— Você sabe que não posso contar, Draco.
Ele revira os olhos e antes que possa retrucar, uma voz profunda e autoritária quebra o momento mãe e filho.
— O que você ainda está fazendo aqui, Narcisa?
— Milord! – Os dois pronunciam em uníssono, fazendo uma breve reverencia.
Parado um pouco a frente dos dois, tendo acabado de sair de uma breve reunião com Severo Snape, Voldemort se encontra. Sua aparência ofídica está ativa, intimidando qualquer um que olhe.
— O que você ainda faz aqui?
— Mirdy ainda não veio me buscar, senhor – Responde, passando por seu filho e se aproximando do herdeiro de Salazar.
Sua aproximação é calculada para manter a atenção do homem em si, deixando seu filho longe de seu radar.
Estreitando os olhos, Voldemort estende seu braço para ela, hesitando brevemente, Narcisa segura no antebraço de seu senhor.
Não é normal Mirdy não cumpri ordens suas. Na verdade, ela nunca descumpriu uma ordem sequer.
Algo está errado, este é o primeiro pensamento que passa pela mente do bruxo.
— Minha noiva deve ter precisado dela, então... – Diz, tentando não deixar sua preocupação transparente – Eu te levarei. – E com isso, eles aparatam.
Deixando um Draco extremamente confuso e curioso para trás.
[...]
Os cheiros adocicados das flores desabrochando invadem o ambiente, sendo trazidos pela brisa suave que sopra para dentro do cômodo agora sem janelas.
Damon solta um breve gritinho de felicidade ao ver o balé de pétalas vermelhas que faço sobrevoarem sua cabeça. Sorrio por entre as lágrimas.
Acaricio a cabecinha de Alya com delicadeza, sentindo suas sucções em meu seio esquerdo ficarem mais leve, sinalizando que sua barriguinha está quase saciada.
Limpo minhas bochechas com a mão direita pela quarta vez, contemplando o jardim da poltrona que posicionei de frente para onde antes tinha uma janela. Damon repousa em outra poltrona ao meu lado, com várias almofadas posicionadas para mantê-lo confortável e seguro.
Sua barriguinha já está cheia e frauda já trocada, por isso, Alya é quem necessita de um pouco mais de atenção. Mas, nem por isso deixo de mover as pétalas do chão para lhe distrair enquanto amamento a esfomeada. Ele tenta pegá-las, esticando seus bracinhos, não permito, sempre movendo-as para longe antes que ele possa pegar.
Quando um barulho de aparatação é escutado, Alya trava a gengiva em meu seio, causando-me dor e Damon solta barulhos de descontentamento por ter sua brincadeira parada.
— O que...? – A voz dele morre, provavelmente perplexo com a zona em que a sala de estar se encontra.
Tirando as centenas de pétalas no chão, as janelas destruídas e a parede chamuscada com o Avada que Bellatrix me lançou e não pegou, alguns moveis estão destruídos e outros jogados pelo chão de qualquer forma. Uma verdadeira zona de guerra.
— Hermione? – A voz preocupada de Narcisa chega até mim.
Me levanto com Alya ainda mamando, completamente alheia ao que a cerca. Viro-me lentamente para eles, vendo os mesmos parados em meio a bagunça, atordoados.
Tom é o primeiro a recuperar a compostura, analisando-me da cabeça aos pés, em busca de ferimentos, creio eu. Sua fisionomia ofídica me ajuda a manter minha postura fria.
— O que aconteceu aqui? – Pergunta, aproximando-se de nós.
Seus olhos carmesins vão de Damon à Alya e de volta a mim. Meu rosto é uma máscara de indiferença fingida, mas uma não muito boa, verdade seja dita. Meus olhos devem estar inchados e minhas bochechas vermelhas, denunciando meu choro recém parado.
— Não está obvio? Decidi redecorar – Ironizo, fazendo-o estagnar no lugar.
Sua postura se endurece de imediato, com ele assumindo sua melhor pose de superioridade.
— Hermio...
— Você chegou na hora certa, Narcisa – Interrompo-o, desviando minha atenção para a loira.
Ela se assusta, olhando de Tom para mim, completamente sem reação. Ele trinca a mandíbula, realmente furioso por ser interrompido na frente de um de seus subordinados.
— Hora certa? – Pergunta, engolindo em seco.
Sorrio.
— Sim, hora certa – Desgrudo Alya do meu seio, ajeito minha blusa no lugar e a coloco na poltrona que antes estava sentada, colocando algumas almofadas ao seu redor.
Sou lenta em minha tarefa propositalmente.
— Espero que também seja a hora certa para você parar de chiliques e falar que merda fez na sala e onde Mirdy está – Grunhe, vindo até mim com rapidez e parando ao meu lado – Te deixo sozinha por algumas horas e você o que... Enlouquece?
Engulo a bile que se forma em minha garganta, realmente tentada a lhe mostrar minha versão louca.
— Por que você não vai para o inferno, Tom? – É uma pergunta que não espero resposta, por isso, me volto para Narcisa – Já você, tia... – Aponto para ela, que assiste nossa interação plantada no mesmo lugar desde que chegou. Ser chamada de tia a faz sobressaltar – Chegou bem na hora de tirar o lixo para fora – Movo meu dedo para cima, sinalizando que é para eles olharem para o teto.
Não desgrudo minha atenção dela, vendo seu rosto perde a cor. Levando as mãos a boca, ela suprime um grito horrorizado.
— Merlin! – É tudo que consegue dizer, presa na cena macabra acima de nós.
Me voltando para Tom, percebo que seus olhos – agora azuis – estão em mim, mas que sua postura altiva fora completamente abalada. Ele viu o que tem acima de nós e sabe o que lhe espera, é obvio.
— Bellatrix e eu temos mais coisas em comum do que eu poderia imaginar, pelo visto.
— Eu não sabia que ela era sua mãe – Explica, roucamente.
Bufo com os lábios, realmente não me importando com sua explicação medíocre.
— Eu sei disso.
— Sabe?
Sorrio, pegando-o de surpresa.
— Claro que sei – Passo a língua pelos lábios secos, ele segue meu movimento – Antes de desacordá-la eu vasculhei sua mente maluca, então, é claro que sei.
Ele arregala ligeiramente os olhos, enquanto escuto Narcisa arfar com minhas palavras.
Levito quatro almofadas e as separo em pares, fazendo-as se unirem em uma “caminha” improvisada.
— Quando tirar o lixo para fora, me traga a última dosagem da poção cicatrizante que Morgana deixou – Ordeno, soando o mais esnobe que consigo – Mirdy está indisposta graças a sua irmã, então, ela está descansando.
Coloco Damon e Alya em cima das caminhas flutuantes, fazendo-os ficarem bem no centro para não caírem.
Suspiro, enfim olhando para cima.
Bem no centro do teto, detida com cordas douradas está uma Bellatrix desacordada, machucada e seminua. O que sobrou de suas vestes, só serve para cobrir o necessário.
— Ninguém pode me acusar de não ser uma boa anfitriã – Comento para ninguém em especial.
Um sorriso pequeno nasce em meu rosto e, com um estalar de meus dedos, vejo o corpo de Bellatrix despencar do teto. Ela não atinge o chão unicamente porque Narcisa a ampara com sua varinha e corre ao seu auxílio.
— Você está diferente – Ouço-o murmurar próximo de mim.
Olho no fundo de seus olhos, sem deixar de sorrir.
— Eu estou com ódio, querido. Apenas ódio.
E com isso, vou embora levando meus bebês comigo.
“Se você odeia alguém, é porque odeia alguma coisa nele que faz parte de você. O que não faz parte de nós não nos perturba.”
— Hermann Hesse
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