Desire Obsolete
55 Volátil
Notas iniciais
Posso sentir a raiva apertando o fundo da minha garganta – grossa como bile, e pesada. Entrego-me a ela. Eu me torno ela.
Caminho o mais rápido que posso pelo jardim da mansão, passando por entre as flores e o lago artificial com mureta de cimento queimado cercando-o, sem realmente presta atenção em nada.
Minha respiração sai entrecortada, realmente feroz.
Está é minha quarta volta pelos arredores do lugar, e nada da raiva diminuir. É como se um interruptor tivesse sido apertado e, buhh!, minhas emoções começassem a girar em torno da minha raiva.
De todas as mulheres do mundo, por que ele tinha que se envolver com a que me renegou desde que soube estar gravida de mim? Que pensou em me matar ainda em seu útero?
Um grito de frustração quase escapa por entre meus lábios, mordo minha língua para conter seu escape. Raiva e descrença crescem a cada inspiração de ar. Sou uma completa bagunça emocional, doente de ciúmes.
Não é justo. Nada disso é justo.
Nunca me deixo navegar sobre as possibilidades de relacionamentos que Tom pudesse adquirir com minha ausência em sua vida. Não por ser ingênua e pensar que ele permaneceria celibato até voltar a me encontrar, mas por saber que a dor em imaginá-lo com outro alguém é insuportável demais para lidar. No entanto, nunca, nunca mesmo, eu poderia estar preparada para encontrar uma de suas amantes. Menos preparada ainda, sendo ela minha mãe biológica.
E uma completa louca, uma vozinha chata acrescenta em meu cérebro.
Fora de controle, sem realmente coerência nenhuma em mim, pego a primeira pedra que encontro – redonda e achatada – e a atiro contra a mureta do lago que jorra água magicamente de baixo para cima em duas extremidades opostas, atirando o liquido à uma altura de dois metros e meio só para vê-lo cair preguiçosamente em seu interior. A pedra encontra seu alvo e ricocheteia para trás, desaparecendo por entre a grama. Não há nenhum pensamento coerente por trás de meu ato, apenas raiva e uma mágoa esmagadora em carne viva.
Fecho os olhos e deito minha cabeça para trás, recebendo os raios solares de fim de tarde soltando um longo suspiro.
Não posso fugir para sempre de conversar com ele, digo a mim mesma, em um rompente de clareza. Sou mais sensata que isso, tento me convencer. Mas, por que dói tanto? Fecho as mãos em punhos, sentindo o material de meu anel pesar em meu dedo. Não é como se tivesse sido uma traição... Foi!?
Sorrio com os lábios fechados, um sorriso triste, defeituoso. Deixo minha mente vagar por nosso relacionamento complicado.
Todas as tentativas de conversar e brigar que Tom tentara iniciar comigo nos 8 dias que se sucederam ao meu encontro com Bellatrix foram ignoradas por mim. No quinto dia, ele desistiu de tentar, dando-me espaço. Não sei se isso foi bom ou ruim, mas a verdade é que mal nos vemos. Ele deita-se só depois que durmo e se levanta primeiro que eu, sumindo pelo resto do dia neste meio tempo. Os únicos indicativos de sua presença são o seu cheiro nos lençóis e as ocasionais vezes que levanto a noite para trocar ou dar de mamar aos gêmeos e vejo-o adormecido ao meu lado.
Por serem bebês extremamente tranquilos, é raro que eles chorem, apenas soltando alguns murmúrios ou lamúrias a noite se precisam de algo. E como nossa rotina é metabolicamente programada, tanto eu quanto eles sabemos a hora certa para acordarmos. Tom nunca acorda, ou melhor, nunca me deixa saber que está acordado diante disso. Não me chateio tampouco, pois, por mais ausente que ele possa querer se provar ser, sempre fica ao lado dos bebês quando está em casa. Não que isso seja algo a ser admirado ou parabenizado. Mas, é sempre bom vê-lo com nossos filhos, aquece meu coração.
Abro os olhos, o gosto ruim que se forma em minha boca incomodando minha deglutição.
O grande elefante azul entre nós não pode ser facilmente ignorado. Mesmo querendo muito ignorá-lo, sou melhor que isso. Preciso encontrar uma forma de confrontá-lo sobre a natureza de seu relacionamento com Bellatrix, pondero. Em sua mente doentia pude ver que ela é obcecada por ele, nutrindo um amor doentio. Mas... O teor carnal de seus encontros privados nunca passou disso. Sexo.
Um embrulho se forma em meu estomago, nauseando-me.
Não naveguei por sua mente com profundidade, apenas capturando seus encontros privados e não me demorando nas cenas indecentes entre eles. O pouco que vi foi o suficiente para me fazer respirar com dificuldade para o vomito não sair. Mas, algo que me confortou, mesmo que muito pouco, fora que desde Tom descobriu que Bellatrix é minha mãe, ele sanou qualquer contato íntimo com ela. E até mesmo antes disso, seus encontros eram escassos.
Vasculho meus arredores, procurando outra pedra para jogar dentro da fonte, o que encontro me deixa ainda mais volátil.
Tom está parado há poucos metros de mim, encarando-me com sua aparência estonteante e as mãos dentro da calça social preta. Com seu cabelo perfeitamente penteado para trás, rosto marcante e boca convidativa, ele é um verdadeiro adônis de tirar o folego de qualquer um. É engraçado como tanta beleza pode esconder um perigo tão profundo. Seu exterior é iluminado, esculpido por anjos, já seu interior é pura escuridão forjada por demônios.
Ele não diz nada enquanto me assiste pegar outra pedra e jogá-la contra a mureta de cimento. A mesma repete o processo da outra, bate contra o alvo e ricocheteia. Seu rosto é uma máscara em branco e, como de costume, não sei o que se passa em sua mente, mas ao contrário das outras vezes, não quero saber o que povoa seu cérebro. Não me importo.
Sem dizer uma palavra, atravesso a distância entre nós e tento passar por ele para voltar para dentro da mansão.
Que se dane a lógica. Não estou pronta para ter essa conversa com ele.
Tom agarra meu braço assim que passo por ele e me encara. Um olhar cuidadoso me é lançado, mas ignoro.
— Eu sei que você está com raiva. – Diz, acariciando minha pele com o polegar.
— Muito perspicaz da sua parte – Zombo, tentando não estremecer com sua caricia falsamente despretensiosa.
— Sei que está confusa e magoada – Prossegue, ignorando minhas palavras anteriores – O que você está sentindo é inimaginável e não sou hipócrita em dizer que entendo. Mas... Quero que você saiba que se eu soubesse...
— Você deveria ter me dito! – O fogo em meu interior explode, cansado de ser contido – Alguém deveria ter me contado! Se não Narcisa, então você acima de todos, deveria ter me dito. Ela é a porra da minha mãe, Tom.
Não quero chorar na sua frente, mas um nó indesejado aperta minhas cordas vocais, meus olhos lagrimejam e sinto minhas mãos tremerem.
— Você está certa – Concorda, pegando-me de surpresa. Ele vira a cabeça para longe – Eu deveria ter dito, mas...
Suas palavras sinceras e suaves abalam um pouco da minha raiva, mas não o suficiente.
— Não existe mas, Tom. Você deveria ter me dito.
Seus olhos tempestuosos procuram os meus.
— Eu fiquei com medo – Confessa, as palavras saindo quase engasgadas de sua garganta.
— O que?
Ele solta meu braço e se afasta, passando as mãos pelos cabelos, bagunçando os fios negros.
— Medo, caralho – Uma risada sem humor escapa de seus lábios – Fiquei com a porra de um medo irracional de te perde. É a verdade que você quer? Está aí, bem na sua frente. Eu fiquei fodidamente assustado. Apavorado.
Pisco, compreendendo com lentidão suas palavras.
— Quando descobri a verdade, fiquei furioso. – Começa, sua respiração se acelerando gradativamente – Não só por ela não ter me contado, mas por saber o que isso faria conosco. Tentei evitar o máximo possível que você soubesse, realmente desejando criar coragem para te contar antes do baile, mas nunca achei que era o momento certo. E, aqui estamos... Juntos, mas a quilômetros de distância – Ele volta a colocar as mãos dentro dos bolsos da calça, mas antes consigo captar um leve tremer nelas – É engraçado, não é?
Engulo um suspiro, minhas defesas caindo por terra com suas palavras.
— O que? – Minha voz sai sussurrada.
Seus olhos clareiam, como o céu diurno no verão. Um azul cristalino, limpo.
— Que tudo o que mais quero se resume a você – Diz, tão casualmente que é como se ele me confessasse sua estação do ano favorita.
— Eu...
— Sei que parece que te esqueci – Ele fecha os olhos por breves segundo, transparecendo toda a sua consternação com a situação – Por um tempo, eu realmente desejei poder te esquecer, a dor seria menor. Mas, você nunca me deixou, não aqui – Ele coloca a mão direita no peito, em cima do coração – Mesmo muitos dizendo que eu não tenho um coração, eu sei que tenho pois se ele bate, é por você. E por muito tempo, só foi por você – Ele olha para o primeiro andar da mansão, um sorriso pequeno se instalando ali – E por nossos filhos agora.
Meu coração falha, realmente quase parando de bater com suas declarações. As lágrimas que tanto segurei, caem como chuva por meu rosto.
— N-não é jus-to – Digo, com a voz entrecortada pelo choro – Você não pode me falar coisas bonitas assim apenas quando estamos brigados.
Ele sorri, é pequeno, mas me faz prender a respiração.
— Você precisa parar de chorar ao me ouvir falar coisas bonitas – Existe diversão em sua voz, mas também verdade.
Limpo o rosto com as costas das mãos, fungando baixinho.
— Não era por esse caminho que eu queria que nossa conversa sobre ela se seguisse – Revelo, limpando minhas mãos na frente do meu jeans – O que você teve com Bellatrix dificulta tudo, Tom. Ela é minha mãe, é completamente louca e te ama insanamente. Isso é uma receita desastrosa para o caos e... Eu me arrependo de ter torturado ela – A confissão deixa meus lábios com muita dificuldade. Vejo seu rosto endurecer como aço – Por mais que ela tenha vindo pronta para matar quem roubou o amor da sua vida e se deparado comigo, me insultando e atacando, não justifica o que fiz. Eu não sou assim e não quero ser.
Meu comportamento raivoso e atípico me torturou por vários dias, até que o enterrei no fundo da minha mente após uma longa e calma conversa com Morgana. Ela me mostrou que em casos de vida ou morte, nosso instinto de sobrevivência sempre buscará formas de nos proteger e, acima disso, eu considerar a Lestrange como uma ameaça para meus filhos despertou meu lado mais insano.
Sua postura se endurece, mas ele leva pouco mais de um minuto processando minhas palavras.
— Você não precisa se preocupar com ela, Hermione – Abro a boca para argumentar, mas ele me silencia levantando a mão em advertência – Ela não me ama realmente, porque Bellatrix não sabe o que é amar alguém. Nem com a própria irmã, que é quem limpa as merdas dela, Bellatrix tem consideração – Ele tem um bom ponto, penso amarga – E sobre torturá-la, ela mereceu. Você fez menos estrago do que eu nela, então não perca seu sono por isso.
Boquiaberta, apenas pisco atônita.
— Você a torturou mesmo depois do que fiz com ela?
— Sim – Diz, com simplicidade.
— Tom, ela já estava completamente destruída e...
— Hermione, mesmo que você tivesse matado ela – Interrompe-me sem se alterar com meu timbre recriminador – Isso não te macularia de forma nenhuma, pois existe mais pureza em um fio de cabelo seu do que em todo o corpo dela.
— Corpo esse que você gostava de explorar – Não seguro a língua.
Ele suspira.
— Eu mereço mesmo sua raiva? – É uma pergunta esquisita, que não tenho resposta pronta.
Mordo meu lábio inferior.
— É muita coisa para processar em pouco tempo.
Ele assente, não por realmente entender e sim por pura educação, percebo.
Uma ideia maluca desponta em meu cérebro tão de repente que franzo a testa sem compreendê-la muito bem. Um pequeno raio de esperança brota em meu peito.
Sem pensar, vou até ele e agarro seus pulsos com força, pegando-o de surpresa.
— Vamos embora – Proponho, permitindo-me flutuar em torno da ideia de abandonarmos tudo – Tom, podemos ir para bem longe daqui. Só nós e nossos filhos. Eu posso esquecer sua relação com ela, todas as coisas que você já fez. Mas eu preciso que você abandone tudo por nós.
Suas mãos saem de dentro de seus bolsos e voam até meu rosto.
— Hermione, você não é tola – Solta, aproximando seu rosto do meu – Todas as pessoas que matei, todas as coisas que fiz... Eu não me arrependo de nada – Revela, trazendo lágrimas novamente aos meus olhos e esmagando minhas esperanças – E, acima de tudo, nada poderia ser consertado com minha partida. Ninguém me deixaria partir, na verdade.
Ele se afasta quando uma lágrima solitária escorre por meu rosto. Limpo-a antes que despenque por contra própria.
— Você acredita mesmo que eu não seria caçado? – Pergunta, elevando um pouco seu tom de voz – Tanto meus Comensais quanto toda a maldita Ordem da Fênix nos seguiriam pelos confins do mundo até nos matarem. Matarem nossos filhos! – Existe uma raiva descomunal em seus olhos – Ou você acha que são tão piedosos a ponto de perdoarem meus atos? De não julgarem nossos filhos com base no sangue que corre em suas veias? Ou, de não te julgarem por você ter transado comigo? Você realmente acredita nisso, Hermione? Minha única alternativa é ganhar está guerra. Por nós.
— Sempre existe um outro caminho a ser seguido e não, não minta para mim dizendo que é por nós, Tom. Tudo isso começou unicamente por sua ambição e preconceito.
— Não para mim. Não existe outro caminho para mim, Hermione – Um suspiro cansado lhe escapa – Estou desgraçado até a alma. Em todas as partes dela que sobram, pelo menos – Seus lábios formam um sorriso sinistro, realmente maldoso – Desde o meu nascimento eu estou condenado, só você não vê isso, querida.
Franzo a testa, não compreendendo sua piada estranha e nem suas palavras depreciativas.
— O que isso quer dizer?
Ele encara o horizonte, perdendo o sorriso e contemplando o sol se pôr.
— Nada.
Bufo.
— Tudo com você tem um porque, então não me diga que não é nada.
— Você está certa – Seu rosto se volta para mim e ele sorrir – Ninguém me conhece melhor que você, Hermione.
— Tenho dúvidas sobre isso.
— Eu sei, Coisinha Fascinante.
Encaro o chão, sentindo minhas bochechas esquentarem com seu termo carinho, criado especialmente para mim. Quando a compreensão de que está provavelmente fora nossa conversa mais longa desde que nos reencontramos me abate, fico ainda mais vermelha. Minhas pernas tremem como gelatina, abraço-me em busca de conforto e equilíbrio.
— Poderíamos forja sua morte – Consigo dizer e, mesmo com minha voz embargada e garganta seca, tento ser lógica – Ninguém iria te procurar se acreditassem que você morreu.
Ele balança a cabeça em negativa.
— Impossível.
— Por quê?
— Eu não posso morrer, Hermione – Ele se aproxima, parando a poucos centímetros de mim. Arqueio minha cabeça para poder lhe encarar devido a nossa diferencia de altura – E eu sei que meus inimigos sabem disso e estão procurando formas de me destruir. É uma questão de tempo até que tudo tenha que ser concluído.
— Nada do que você está falando faz sentido, Tom.
— Ainda não, mas fará.
Ele leva a mão até meu rosto, acariciando minhas bochechas com os dedos mornos.
— Se eu morrer, tudo será desequilibrado. Eu não posso morrer e não vou me sujeitar a uma vida miserável – Ele planta um beijo demorado em minha testa – Preciso de você ao meu lado tanto quanto preciso de ar – Sussurra contra minha testa – Me deitarei contigo assim que decidires ir dormir, espero que isso não te incomode – Não é uma pergunta, mas sinto que ele espera uma resposta.
Ele dá um passado para trás, deixando-me entristecida pela perca de suas mãos em mim. Seus olhos capturam os meus.
— Não me incomodará – Murmuro, levando-o a sorrir. Um sorriso amplo, cheio de dentes e que chega até seus olhos.
Leva uma grande quantidade de alto controle para minhas pernas me sustentarem em pé depois de seu sorriso estonteante.
Ele vai embora, lançando-me um sorriso malicioso antes de me dá as costas e entrar para dentro da mansão.
— Oh, Merlin!
[...] Dois Dias Depois [...]
O barulho de conversas pode ser ouvido em vários corredores diferentes da mansão, desde que a porta está aberta e vários comensais se encontram discutindo acaloradamente sobre mais uma tentativa fracassada de capturar o garoto Potter.
Quando o homem trajado com roupas pretas de combate (camisa de tecido grosso e manga compridas, calça preta justa e botas de cano médio) entra na sala, o silêncio impera na mesma hora. Não por respeito, mas sim confusão.
— Quem é você? – A voz de Rabastan é a primeira a ser ouvida.
Todos se levantam de suas respectivas cadeiras em sincronia.
— Pare aí mesmo – Ordena Lucius, empunhando a varinha – Não sei como passou por nossas defesas, mas escolheu o lugar errado para invadir, escória.
Varinhas de todos os lados são apontadas para o homem, que se mantém impassível, caminhando a passos lentos até a cabeceira da grande mesa do lugar.
O primeiro feitiço é disparado por Rodolfo, que ver o homem como uma ameaça a ser esmagada. Tão rápido como lançou o feitiço, o sangue puro é desarmado e jogado contra a parede de pedra pelo estranho de olhos azuis intensos, produzindo um baque estridente pela mansão.
Um sorriso vitorioso aparece no belo rosto do homem, inflamando ainda mais a raiva dos comensais. Lucius e Mulciber atacam em sincronia, mas o homem aparata, fazendo seus feitiços se chocarem e produzirem uma chuva brilhosa no ar.
Aparecendo a poucos metros de Rabastan, o homem usa o feitiço Accio para lhe desarmar. Embasbacado, o Lestrange é rapidamente estuporado, perdendo a consciência quase de imediato.
— Maldito! – A voz de Avery não é nada mais que um rosnado
Quando Lucius e Mulciber estão prestes a atacarem o intruso novamente, uma Narcisa afoita invade o cômodo.
— Lucius, não! – Grita, pegando a todos de surpresa.
Encarando sua mulher de olhos arregalados, o Malfoy para seu ataque.
— O que...?
A loira se vira para o invasor, curvando-se elegantemente para baixo, em uma reverencia exagerada.
— Perdão, Milord – Pede, levando todos os comensais ao terror absoluto – Lucius e... Eles não sabem como é sua verdadeira aparência.
Suspirando, Voldemort passa as mãos pelos cabelos negros bem alinhados.
— Você estragou minha brincadeira, Narcisa – Diz, parecendo mais divertido do que chateado enquanto gira sua varinha e a de Rabastan nos dedos.
Ela se endireita, piscando lentamente.
— Desculpe-me, senhor.
Ele simplesmente dá de ombros.
Uma nova algazarra, dessa vez com todos os comensais presentes pedindo-lhe desculpas, é ouvida. Voldemort sorrir internamente diante o desespero deles, realmente deleitoso com seu pânico.
Ele levanta a mão, silenciando-os de imediato.
— Saiam e me deixem a sós com Narcisa e Rodolfo – Manda, caminhando a passos rápidos até a cadeira que fica na cabeceira da mesa, se jogando ali assim que se aproxima.
O homem joga a varinha de Rabastan para Mulciber e aponta para que ele tire o corpo desacordado do homem da sala. O mesmo apenas acena, ainda tomado por medo. Todos se retiram da sala, deixando apenas os três no lugar. Antes de sair, Lucius lançou à mulher um olhar preocupado, que ela trata de lhe oferecer um sorriso tranquilizador.
Rodolfo, que mesmo tento sido jogado contra a parede no duelo, levanta-se com dificuldade, sentindo seus músculos doerem.
— Perdão, meu senhor – Pede, ficando de joelhos – Se eu soubesse...
— Cale-se, Rodolfo – Diz, sem nenhum pingo de simpatia na voz – Narcisa, sente-se.
Ela faz como ordenado, sentando-se na cadeira ao lado direito da dele. Tom aponta para que Rodolfo sente-se na esquerda, o que ele prontamente faz.
— Vamos conversar sobre dois tópicos hoje – Inicia, tendo total atenção dos bruxos – O primeiro é o que e como você irá falar em meu noivado, Narcisa – Revela, encarando a bruxa com atenção, fazendo-a prender a respiração – O segundo é...
Ele volta sua atenção para o marido de Bellatrix, que também prende a respiração. Narcisa tem uma vaga ideia do que ele irá dizer, mas só isso produz gelo em suas veias.
— O porquê de Bellatrix e você não irem, Rodolfo – Tom faz uma pausa, sorrindo de lado.
É, ninguém pode me acusar de não prezar pela dignidade de meus servos, pensa divertido, vendo o homem perder a cor. Ah, Rodolfo... Ser corno é o menor dos seus problemas.
[...] Dias Depois [...]
Narcisa tosse, desviando o olhar do vestido à nossa frente para mim. Suprimo uma risada divertida, vendo seu rosto tomado de incredulidade. Nossa relação desde o fatídico dia em que Bellatrix esteve aqui esfriou, mas nem por isso ela é rude ou deixa de dar sua opinião quando solicitada. Não sei bem se por medo ou respeito, mas aprecio mesmo assim.
— É realmente bonito.
— Mas?
Ela volta-se para ele novamente, seu nariz se enrugando.
— Não gosto da cor principal – É sincera, sem titubear. – Mas, o corte e os detalhes são magníficos. Quem o fez?
Sorrio.
— A cor é perfeita. Está no top 3 das minhas favoritas – Digo, só para vê-la crispa os lábios – E quem o fez foi Matilde Rewendy.
Os olhos dela se arregalam e sua boca se abre ligeiramente.
— Merlin! Ela já morreu faz décadas. – Diz, soando realmente impressionada.
Encolho os ombros.
— Fico triste em saber disso – Confesso, cruzando os braços. Evoco seu rosto em minha mente, entristecida – Ela era uma senhora amável e... Bem, é um presente vindo do passado. É especial para mim, por isso, irei usá-lo.
Ela se recompõe com rapidez, balançando a cabeça em entendimento.
— Às vezes me esqueço que você viajou no tempo – Revela, para em seguida voltar a encarar o vestido perfeitamente conservado – Me desculpe.
— Não tem do que se desculpar – É só o que digo.
Ficamos em silencio por alguns minutos, encarando a obra estilística à nossa frente. Com certeza o modelo que Matilde projetou para mim fora a frente de seu tempo. Mas, não é só sua beleza que me compele a usá-lo em nosso noivado, mas sim o amor com o qual o vestido foi confeccionado.
— Creio que Milord também não gostará – Sua voz me tira de minhas reflexões.
Encaro-a com a testa franzida, sem entender. A mesma a ponta com a cabeça para o vestido.
— Não é ele quem irá usar, então, Tom não precisa gostar. Ou opinar.
Um suspiro escapa de seus lábios, mas nada diz.
Quando nos reunimos está manhã para discutir os toques finais do baile que acontecerá dentre uma semana, Narcisa voltou a insistir sobre querer ver o vestido que eu irei usar. E mesmo estando ligeiramente indignada por eu não permitir que seu costureiro favorito confeccionasse minha vestimenta para a ocasião, ainda existia uma curiosidade genuína nela. Cansada de dar-lhe desculpas esfarrapadas, decidi lhe mostrar. Sua reação se encaixa nos padrões que estipulei para o momento.
Choque, descrença e encanto.
— Você com certeza se destacará – Diz, falsamente despretensiosa.
— É o objetivo – Concordo, dando as costas para o modelito preso no manequim que criei com magia e seguindo para fora do cômodo ao qual escondi o vestido, sendo seguida por ela. – Afinal, eu sou o destaque da noite – Completo.
[...] Seis Dias Depois [...]
Narcisa olha de relance para seu marido pela terceira vez, bebericando seu chá matinal com calma. Sua mente fervilha de hipóteses não muito agradáveis sobre o dia que se seguirá amanhã.
— Algum problema, querida? – Pergunta, sentindo o olhar da mulher sobre si.
Draco, que até então mastigava seu café da manhã alheio ao que o seca, preso em divagações turbulentas, encara seus pais.
— Como vocês sabem, eu não posso lhes contar quem é a noiva de Milord. Mas quero que saibam que tenho uma boa relação com ela – Começa, depositando sua xicara no pires de porcelana – Então, peço que...
— Eu pensei que a senhora não sabia quem ela é – Interrompe-a Draco, cruzando os braços, franzindo a testa – Sempre que tocamos no assunto ou a senhora desconversa ou fica muda.
— Não seja idiota. – Ralha Lucius, lançando um olhar irritado para o filho – Você acha que sua mãe sai todos os dias para onde? Boutiques? É claro que ela fora incumbida em alguma missão pelo Milord – Ele se volta para a mulher, deixando um Draco consternado em sua cadeira – Eu só não sei a natureza de tal missão ou como ela se relaciona com a noiva dele. Devemos nos preocupar com ela?
Soltando um suspiro exasperado, a mulher estreita os olhos para o marido, irritada pela forma como ele tratara seu primogênito.
— Tudo, simplesmente tudo... – Seu tom não se eleva, mas os dois homens podem ver o quão frustrada e irritada Narcisa estar pela pausa dramática que a mesma faz, tentando recuperar sua calma interna – Tudo o que eu faço é pelo bem dessa família. O nosso bem. Por isso, eu não admito que amanhã, diante de Milord, dos comensais estúpidos que só querem nos passar para trás e das famílias bruxas mais importantes do nosso mundo, vocês façam qualquer coisa que desonre nossa família e todos os meus esforços para nos manter no topo da cadeia alimentar. Entenderam?
— Mãe... – Ele se cala assim que recebe um olhar fulminante da matriarca dos Malfoy’s.
— A noiva de Milord é alguém que merece o máximo de respeito e cuidados possíveis. Ela não é uma ameaça desde que não seja provocada ou desrespeitada – Fala, sentindo sua respiração se desnormalizar com as batidas frenéticas de seu coração – Precisamos dela ao nosso lado.
Eles acenam em sincronia, realmente não entendendo a preocupação que Narcisa demonstra ter por algo acabar dando errado em suas condutas para com a noiva de seu senhor. Nem sob tortura os mesmos desrespeitariam a mulher de Voldemort.
— Já basta todas as merdas que Bellatrix fez e faz, não posso me preocupar com vocês também – Diz, sombriamente – E, a propósito, Draco.
Ele pisca os olhos cinzentos para a mãe, ansioso.
— Controle seus amiguinhos amanhã – Pede em tom de comando – Pansy e Blásio tendem a ser escrotos quando querem, Theodore... Se ele for igual ao pai, com certeza é um idiota e Vicente e Gregory são estúpidos demais até mesmo para oferecerem riscos... Mas, mantenha todos sob controle.
Mesmo não entendendo o porquê de seu pedido estranho, Draco apenas concorda, sabendo que suas preocupações provavelmente têm algum significado importante.
— Você está muito tensa para o dia de amanhã – É um comentário despretensioso, mas Lucius exprime nele seu estado de espírito também.
— Tenho meus motivos – Diz, antes de se levantar da mesa.
Narcisa ajeita os vínculos de amassado que ficaram em seu vestido e joga seu cabelo para o ombro esquerdo.
— Resolverei os últimos ajustes para o baile – Comunica, endireitando a coluna – Não me esperem para o almoço – E com isso, ela vai embora.
[...]
Consigo escutar meus batimentos cardíacos retumbarem em meus ouvidos, seguindo o ritmo de meus receios.
E se tudo der errado? Pergunto-me, observando a estranha que me encara de volta no espelho de corpo à minha frente. Não sei se estou pronta...
Passo minha mão direita pelo penteado que Morgana finalizará pouco antes de ter que sair para olhar Alya e Damon, a pedido meu. É um coque simples, assim como a maquiagem que ela fizera, mas muito bem elaborados. O destaque em si fica por conta do vestido voluptuoso que visto e da minha própria presença.
— Você está estonteante! – O elogio de Morgana chega até mim com um deleite genuíno na voz.
Pisco, surpresa por não a ter escutado aparatar de volta para o quarto.
Viro-me para encará-la parada no centro do quarto da mansão Malfoy, aonde Tom costumava dormir. Me trazer aqui para me arrumar fora uma decisão de Narcisa, que com muita relutância e insistência dela e de Tom, aceitei. Deixar meus bebês com Mirdy foi a pior parte, claro. Principalmente, por não termos hora para voltar e a invasão de Bellatrix ter me deixado ainda mais protetora com eles.
— Você realmente acha isso? – Não sei de onde vem minha insegurança, mas o nó em meu estômago me faz querer entrar debaixo de cobertas e nunca mais sair – Estou com medo, Morgana.
O relógio na parede oposta a mim marca 19:45, quinze minutos antes de minha entrada, supostamente triunfal, programada por Tom. Seu desejo de querer me destacar a todo custo é realmente intimidante.
— O medo é compreensível – Diz, com simplicidade – Não é todo dia que uma mulher fica noiva de um homem como Tom e tem que encarar seus mais de 30 seguidores das trevas juntos no mesmo dia.
Suas palavras apenas servem de combustível para meus medos.
— Mas, Hermione... – Ela se aproxima, com seu vestido preto longo agarrado em suas curvas formando uma pequena calda ao seu redor – Também não é todo dia que alguém se compromete por amor. Pelo menos, no mundo bruxo. E sobre seus comensais, são eles que precisam te temer, e não o contrário.
Sorrio sem graça, alisando a capa transparente do meu vestido.
— Se eu estou nervosa assim em um simples baile de noivado, imagina quando nos casarmos oficialmente? – É uma pergunta retorica e estúpida.
Ela acaricia minha bochecha.
Oh, Merlin! Entrarei mesmo em uma sala com dezenas de bruxos das trevas que acreditam que sou uma nascida trouxa? E se eu cair? Ou pior, e se alguém me acerta um Avada antes que Tom possa lhes explicar que sou sua noiva?
Fecho meus olhos com força.
Respire, Hermione. Respire.
— Querida, nada de ruim te acontecerá, você tem minha palavra. E eu estarei o tempo todo contigo. – Diz, parecendo ler meus pensamentos – E duvido muito que Tom deixaria qualquer coisa te acontecer. Vamos, se acalme.
Balanço a cabeça em concordância, respirando fundo.
— Alya e Damon ainda dormem? – Mudo de assunto, tentando não pirar.
— Como dois anjinhos – Um sorriso maravilhado aparece em seus lábios, me levando a sorrir também – Mirdy lhes vigia como uma águia pronta para atacar tudo e qualquer coisa que se aproxime deles.
— Ela ainda se sente culpada – Revelo, meu sorriso esmorecendo – Mesmo eu a tendo garantido que não tinha como ela saber que Bellatrix a encurralaria e lhe lançaria o Imperius, ela ainda se pune por isso.
— Elfos são criaturas leais e estranhas – Diz, colocando uma pequena mexa que se desprende de meu coque atrás da minha orelha – Mas, isso é assunto para outra hora. Seu tempo de se preparar acabou, querida. Chegou a hora dos comensais de Tom conhecerem sua Lady.
Engulo uma maldição, realmente sentindo que meu coração saltara para fora de minha caixa torácica a qualquer momento.
***
Parada em frente à grande porta do salão de bailes da mansão, temo desmaiar a qualquer momento. Morgana aperta meu antebraço com delicadeza, tentando me reconfortar.
Nossa chegada ali é rápida, afinal, não andamos, nos teletransportamos para sermos mais discretas e rápidas. Mas, nem por isso minha respiração coopera, saindo ofegante e ruidosa.
— Você tem certeza de que Bellatrix não estará atrás dessas portas pronta para me atacar quando eu lhe dê as costas, não é? – Pergunto baixinho, engolindo em seco.
Minhas mãos tremem e sinto minhas pernas moles como gelatina.
— Querida, Tom nunca estragaria este momento permitindo a vinda de sua mãe – Sussurra, sorrindo travessa – Ela está muito bem encarcerada, não tema.
Suspiro.
Lembre-se, um pé na frente do outro e cabeça erguida, instruo-me, repassando o passo a passo que terei que executar até que possa me sentar.
Assim que as portas forem abertas, Tom estará me esperando a poucos passos dela, com seus comensais mais leais em duas filas opostas uma a outra, formando um caminho por onde passaremos. Ao final do percurso, subiremos em um altar decorado com um lindo arco de flores e dois tronos revestidos com veludo, aonde após um breve discurso que Tom fará, nos sentaremos e receberemos de pequenos grupos por vez as nossas felicitações pelo noivado. Nos levantaremos e transitaremos pelas mesas trocando formalidades em seguida e, então, o jantar será servido. Por último, valsaremos pelo salão.
— Erga a cabeça e endireite a postura, Hermione – O comando imperativo de Morgana me faz sobressaltar e seguir suas instruções por instinto, arregalando um pouco os olhos – O show irá começar. – A porta é aberta assim que ela termina de falar.
Morgana endireita a coluna e segura minha mão com delicadeza.
Prendo a respiração.
Parado bem à minha frente, de costas para o publico e de frente para mim, está um Tom impecavelmente vestido em um smoking negro de corte impecável, camisa branca e gravata combinando com o colete. Maravilhosamente perfeito.
Seus olhos se arregalam, com suas íris atingindo uma nova tonalidade de azul. Escura, densa, desejosa. Surpresa e choque passam brevemente por seu rosto, mas logo ele se recompõe, deixando apenas seus olhos transmitindo suas verdadeiras emoções.
Por está na minha frente, a única visão que seus comensais podem ter de mim, já que as duas filas humanas começam à alguns metros da porta é, provavelmente, só do meu vestido de seda vermelho sangue, que é volumoso na saia e tem uma capa que desce se alongando envolta do meu corpo.
Não desvio minha atenção de seu rosto, sentindo Morgana aperta minha mão e começar a me guiar para dentro do salão. Mecanicamente e com meu coração à galopes, sigo-a de cabeça erguida, tendo apenas Tom como foco.
Ele estende sua mão direita para mim, o que faz Morgana lhe entregar minha mão para ele. Um gesto que não combinamos, mas que vejo que lhe deu satisfação. O toque de nossas peles, quente e frio, produz eletricidade por meu corpo, partindo do encontro de nossas mãos e se espalhando por meu corpo. Arrepio-me. Sorrio para ela, que se afasta ficando atrás de mim, como... Minha mãe!?
Engulo o caroço que se forma em minha garganta, voltando a encarar Tom.
— Vermelho?
Deito minha cabeça para a esquerda, lhe lançado um sorriso zombador.
— Uma vez alguém me disse que vermelho era a minha cor – Relembro-o, fazendo menção ao dia em que cai da escadaria da Torre de Astronomia ao pegar Anelise e Abraxas se agarrando – Resolvi voltar à velhos hábitos.
— Essa pessoa é muito inteligente e perspicaz, então – Diz, curvando os lábios em um sorriso maroto.
Ele me puxa para seu lado e se desloca da minha frente, dando passe livre para que seus comensais conheçam sua noiva. O silencio do lugar é absoluto, mas assim que me revelo, muitos sons são indecorosos são produzidos. Desde arfas de choque, até tosses engasgadas. O melhor, com certeza, é o praguejar que ouço uma voz masculina desconhecida soltar.
As duas filas por onde iremos passar são compostas, principalmente, por casais, sendo Narcisa e Lucius o primeiro casal da direita e Avery e quem julgo ser sua esposa o primeiro da esquerda.
Tom guia-me lentamente para dentro do mar de pessoas, com sua costumeira pose imperturbável e arrogante. Ouço-o Morgana se deslocar atrás de mim, com seus passos se afastando.
Narcisa é a primeira que nos reverenciar quando nos próximos, tendo que bater delicadamente com o ombro no braço do marido para ele sair de seu estupor e fazer o mesmo. Quando Lucius se curva para frente, tira Avery e a esposa da paralisação devido ao choque, e eles seguem seu exemplo.
Tenho vontade de rir, uma risada nervosa e inapropriada, mas me contenho. O aberto dos dedos de Tom nos meus se intensifica, me passando coragem.
Os demais, que rapidamente paro de tentar associar seus rostos aos nomes que Narcisa me fez decorar, seguem o exemplo dos primeiros casais, curvando-se em reverência. E mesmo estando descrentes e chocados, com muitos de bocas abertas e olhos arregalados, não fazem ou dizem nada indecoroso. Sinto-me aliviada por isso.
Os últimos quatro casais, dois da esquerda e dois da direita, não conheço. Mas, seus sorrisos falsos e reverências pomposas me dizem que eles conseguiram absolver o choque mais rápido e disfarçá-lo melhor.
Subimos no altar, virando-nos para nossos expectadores com rapidez, soltando nossas mãos entrelaçadas no processo. As duas filas de casais dispersam-se em uma pequena aglomeração, com todos vindo para o mais próximo de nós possível.
Tom adianta-se para frente, sorrindo predatoriamente. Fico ao seu lado, um passo atrás, escutando sua voz grossa e autoritária retumbar pelo salão. Seu discurso é impessoal, apenas agradecimentos vagos por eles terem vindo celebrar este momento conosco. Deixo-me vagar pelo salão, estudando o rosto do máximo de pessoas possíveis e a decoração extremamente luxuosa em verde-escuro, preto, prata e dourado.
Meu coração ainda retumba em meus ouvidos, mas não tanto quanto antes.
Fora as correntes de casais por onde passamos, seus filhos e alguns menos importantes comensais estão espalhados em diversos cantos do salão, próximos a suas respectivas mesas. Percebo, pela sacada aberta à nossa esquerda e pelas janelas que vão do chão ao teto que cercam o amplo cômodo, muitos vultos negros passando com rapidez pelo lado de fora, provavelmente patrulhando o entorno da mansão.
Segurança.
Consigo identificar Draco, Pansy, Blásio, Vicente e Gregory formando um meio círculo à poucos metros do altar. Seus rostos, máscaras esculpidas em assombro e surpresa, se destacam entre os demais. Pansy parece que a qualquer momento irá vomitar, enquanto Vicente e Gregory estão tão pálidos quanto papel. Blásio respira com dificuldade, engolindo diversas vezes em seco. Já Draco... Ah, Draco! Este eu tenho prazer em absolver sua expressão atordoada e descrente. Sua boca forma um pequeno o, e os vínculos profundos em sua testa são realmente divertidos de olhar.
Tantos anos me chamando de sangue ruim para nada.
Continuo com minha avaliação de expressões, encontrando muitos rostos desconhecidos e julgadores. Morgana está o mais afastada possível dos demais, mas atrai a atenção de algumas pessoas, principalmente homens. Sua beleza é realmente algo a se destacar. Seu vestido agarrando-se a suas curvas é um pecado aos olhos e o decote em v oferece um show à parte. Prossigo com minha atividade, mas antes sorrio para ela, que me devolve o sorriso. Nada ali me surpreende até encontrar outro rosto familiar entre a multidão.
Puta merda!
Severo Snape está parado ao lado de Mulciber, me encarando com o rosto inexpressível. Sustento seu olhar por alguns segundos, até que seu companheiro lhe cutuca, atraindo sua atenção para si.
Isso só pode ser piada, suprimo um suspiro.
— Muito bem! – A voz de Tom me puxa para ele, encaro seu perfil – Agora que os agradecimentos foram feitos, é hora de vocês se mostrarem... Felizes com a oportunidade.
Ele se volta para mim, sorrindo polidamente. Em seus olhos, capto divertimento. Estendendo sua mão para mim, pego-a de imediato e juntos nos sentamos nos tronos atrás de nós, um ao lado do outro e de mãos entrelaçadas.
Ninguém se mexe por alguns segundos realmente aterrorizantes. Mas, antes que a paciência de Tom fosse colocada a prova, Narcisa – quase arrastando um Lucius atônito – vem até nós, sorrindo amplamente e com lágrimas nos olhos.
Eles param bem à nossa frente.
— É realmente uma honra estarmos aqui celebrando com vocês este momento tão especial – Lucius toma a palavra, um pouco desajeitado, mas soando firme – Só temos a lhes desejar um casamento longo e feliz...
O fungado ligeiramente alto de Narcisa tira o homem de seu raciocínio e nos leva a encará-la.
Franzo a testa, vendo-a secar algumas lágrimas indesejadas com um lenço de linho branco que não sei de onde tirou.
— Algum problema, Narcisa? – A pergunta de Tom é lançada de forma calma, mas sem nenhum pingo de curiosidade, como se como se ele soubesse o que ela vai dizer.
Noto que algumas pessoas dão passos discretos para mais perto, tentando escutar nossa conversa. E a verdade é que, um alfinete caindo no chão produziria um barulho realmente estrondoso pelo silêncio atípico do lugar.
— Perdão, Milord – Pede, sua voz soando embargada e alta demais para seus padrões, não realmente inadequada – Só estou sendo uma tola sentimental. É que vendo minha amada sobrinha... A quem fiz o parto, quase 18 anos atrás, tão bela e feliz ficando noiva... – Ela funga de nova – Tenho certeza de que se Bellatrix estivesse aqui, ela estaria tão emocionada quanto eu estou em ver sua filha noivando tão jovem, assim como nós. Tenho certeza de que vocês serão imensamente felizes.
Não sei quem ficou mais petrificado por suas palavras, nosso público ou eu. Pisco freneticamente, realmente perplexa.
Vejo tantos rostos perderem a cor e formarem “o’s” embasbacados com a boca, depois se engasgarem com a própria saliva, que me controlo com muito esforço para não ser um deles.
— Está perdoada, é de se esperar sua emoção – Tom diz, soando falsamente compreensível.
Um sorriso radiante desponta em seus lábios pintados de nude.
— Somos praticamente da família agora, Milord – Comenta, jogando a pá de terra que faltava em seu discurso ensaiado – E é com muita alegria e satisfação que lhe dou as boas-vindas à família Black.
Minha garganta aperta, seca e dolorida. Tento engolir minha saliva mais quase não desce.
Porra.
Aperto a mão de Tom com força, recebendo um aperto fraco em resposta
— Agradeço a hospitalidade, Narcisa – Tom volta sua atenção para mim – Gostaria de dizer algo a sua tia, minha querida?
Eu vou te matar.
Espero que meus olhos reflitam todas as minhas emoções e que Tom possa ver o quanto esse showzinho me desconfortou.
— Obrigado pelas palavras gentis, tia – É o que digo, entrando no jogo munida apenas de coragem – O destino realmente não poderia ter me dado uma parteira melhor – Meu sorriso enviesado lhe deixa saber que estou chateada, mas ela não perde a compostura.
— O prazer sempre será todo meu – E com isso, ela volta a nos reverenciar, levando Lucius a seguir seu exemplo sem precisar ser coagido dessa vez.
Assim que eles saem, outro casal se aproxima, os Parkinson’s. Não me foco no que é falado, apenas aceno e sorriu quando é esperado isso de mim. Me desligo completamente do que me cerca, absolvendo o que acabará de acontecer.
Merlin! Está noite será longa.
[...] UM DIA DEPOIS [...]
A chuva é torrencial, com relâmpagos e trovões despontando pelo céu da ilha em um balé macabro. Todo o clima é sinistro, rodeado de densidade e uma escuridão tão antinatural quanto os pingos grossos de chuva que caem.
Morgana atravessa a floresta escutando o farfalhar de sua capa grossa no solo, pisando nas ervas daninhas e trepadeiras que se aglomeram como praga umas sobre as outras. O solo alagado suja suas botas e capa, assim como a barra de seu vestido cinza. Seu olhar de desgosto é nítido, assim como sua clara preocupação com a aparência do lugar.
Meu lar...
Atingindo o ponto que queria, ela fecha os olhos e murmura uma cantiga céltica baixinho, sentindo sua magia fluir livremente por seu corpo. À medida que o tempo passa, sua cantiga vária de ritmo, indo de lenta para rápida até voltar para lenta de novo. Seria uma visão de arrepiar, uma mulher encapuzada parada em meio à uma chuva torrencial cantando para o nada, se não fosse pela bela voz que ela dispõe e do que sua cantiga está fazendo com o clima.
O primeiro indicativo de que seu objetivo está sendo atendido, é a chuva começar a parar gradativamente, até que nada mais que chuviscos incômodos é sentido. Logo, uma brisa suave trás cheiros agradáveis das plantas para seu olfato, assim como grama e terra molhada.
Abrindo os olhos, ela se depara com a claridade da lua iluminando seus arredores.
Um suspiro lhe escapa, pouco antes de seu corpo desabar de joelhos no chão. Ela fecha os olhos, expirando o máximo de ar que seus pulmões permitem, entregando-se ao cansaço repentino, mas já esperado. Não existe uma só parte de seu corpo que não esteja tensa, dolorida.
Não poderei fazer isso por muito mais tempo, constata abrindo os olhos. Não tenho forças para lutar contra Avalon. Uma emoção aterradora de desolação lhe assola ao ver sua floresta ainda infestada de ervas daninhas e trepadeiras.
— Morgana? – Uma voz hesitante lhe chama, atraindo a atenção da bruxa.
Olhando para frente, encontra a visão espectral de uma jovem dama de cabelos negros e familiares olhos verdes.
Um pequeno sorriso se forma no rosto cansado da atemporal.
— Olá, Mérope.

A felicidade é frágil e volátil, pois, só é possível senti-la em certos momentos. Na verdade, se pudéssemos vivenciá-la de forma ininterrupta, ela perderia o valor, uma vez que só percebemos que somos felizes por comparação.
— Nietzsche
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