Desire Obsolete
56 Passado (Parte. 1)
Notas iniciais

Suas mãos trabalham com destreza nas plantas ao seu alcance, dando uma atenção especial as pequenas com flores roxas em suas extremidades. Ela lhes arranca com cuidado, não querendo prejudicar suas raízes ou as outras plantas próximas.
O trabalho poderia ser mais rápido se feito com magia, mas sua mente necessitava se desligar dos problemas que a cercam. Por isso, nada melhor do que usar habilidades físicas para se distrair. Com seus cabelos negros estão presos em duas tranças raízes, deixando seu rosto livre de qualquer impedimento desnecessário, nada atrapalha sua visão e agilidade com as mãos.
— Ela ainda não está comendo. – A voz de Métis desperta Morgana de seu estado compenetrado.
Ela deposita as ervas colhidas em cima do pano médio ao lado de seu pé direito, embrulhando-as calmamente com ele. Lefay se volta para sua pupila incumbida de vigiar Mérope, inalterada.
— Isso já era de se esperar – Fala, entregando o embrulho com as ervas para a ruiva esguia à sua frente – Desde que voltamos de nossa visita à família Riddle, ela se fechou completamente para o mundo. Por isso, precisarei dessas ervas para que o nascimento do bebê seja sem complicações e ela sobreviva – Morgana limpa suas mãos sujas de terra em seu vestido simples laranja.
Métis acena, piscando seus olhos esverdeados para a atemporal.
— O que você fará em relação ao nascimento da criança? – Pergunta objetivamente, com sua costumeira calma – É um menino e, pelas leis... – Sua voz suave não denuncia sua preocupação, mas os leves vínculos envolta de seus olhos, sim – As leis de Avalon são claras, senhora.
Morgana se ergue, endireitando a postura.
— Existe um ritual... – Ela desvia sua atenção para a vastidão de plantas aos seus pés, procurando algo – Não será fácil, mas é o que temos. E sobre as leis de Avalon, deixe que eu me preocupo com elas, Métis.
A ruiva morde o lábio inferior, temendo ter irritado sua senhora.
— Ele poderia nascer em outro lugar – Dispara, após alguns segundos de um silêncio constrangedor.
— Não, infelizmente não.
Franzindo a testa, Métis não questiona.
— Ela está muito fraca para ser teletransportada para fora de Avalon. E se eu fizer isso, nas condições em que Mérope se encontra, o bebê morrerá – Explica, colocando as duas mãos na cintura, assumindo uma expressão irritada – E como ela está aqui na ilha, grávida de um menino, Avalon não está me deixando emprestar minha força vital para ela – Confessa, engolindo em seco.
Por mais poderosa que a mulher seja, existem limitações para sua magia. E pior, se sua maior fonte de poder está em discordância com suas atitudes, mais incapacitada a atemporal fica. Avalon não é uma simples ilha, mas também um dos pilares que governam a magia do mundo. É através da ilha que a magia é empregada em trouxas que tiveram algum parente distante bruxo. Mas que com o passar do tempo perderam tal capacidade, fazendo assim surgi várias linhagens de sem magia. Por ser.
— Eu não deveria tê-la mantido por tanto tempo aqui sabendo dos riscos de sua criança ser um menino. Foi irracional da minha parte acreditar que mantê-la comigo apenas por alguns meses poderia curar sua dor – Fala, admitindo seu erro. – Mas, como uma tola, me deixei ser regida por sentimentos e estamos com as mãos cheias de problemas para solucionar.
— Você se afeiçoou a ela, é compreensível – Métis fala, condescendente – Mérope estava sozinha, desamparada e sofrendo. Isso traz à tona sentimentos de empatia e afinidade.
— Odeio quando você está certa. – É tudo que ela diz, fazendo a outra sorrir.
Mesmo mantendo uma relação disciplinar entre suas pupilas e ela, Morgana é uma mulher que não se importa em ser contrariada por suas discipulas. Sempre estimulando-as a nunca ficarem caladas quando algo a desagrada, mas também deixando claro de quem é a palavra final. É uma relação respeitosa e equilibrada, aonde algo sempre é dado em troca da lealdade absoluta das garotas.
Morgana passa as costas de sua mão esquerda pela testa. Ela fixa seu olhar na mulher parada à sua frente. Métis é uma de suas pupilas mais jovens, tendo morrido cerca de 232 anos atrás, e também uma das mais racionais e prudentes. O que chega a ser interessante, já que seu nome é em homenagem a deusa grega da prudência. Sua aparência é de uma jovem mulher na casa dos 23 anos, baixinha e com longos cabelos encaracolados e ruivos que estão presos em um coque frouxo. Seu rosto é cheio de pequenas sardas adoráveis e seus olhos verdes são expressivos.
Um sorriso de canto de boca surge em Morgana.
— Se eu não te conhecesse, diria que estás preocupada. – Provoca, tentando descontrair a atmosfera.
— E eu estou! – Exclama, soltando uma risada nervosa em seguida – Toda essa situação é incomum, senhora. Todas nós estamos preocupadas. Avalon é tudo que temos.
— É tudo que eu tenho também, Métis – Devolve com suavidade começando a caminhar, sendo seguida de perto pela outra – Eu nunca deixarei que nada aconteça com essa ilha, ou com vocês. Tenham fé em mim, garota.
— Nós temos, senhora – Diz de imediato, transbordando sinceridade.
Morgana sorrir, apenas ignorando o mal pressentimento que se abate sobre seu coração.
Não existem muitos critérios para se tornar uma de suas aprendizes, mas dois são essenciais: ser mulher e já ter morrido. Qualquer outra qualidade, pode ser alcançada com esforço e seus ensinamentos. As bruxas residentes em Avalon não só servem como pupilas para Lefay, mas também como sua família. E ela daria a vida por todas as suas meninas. Sempre.
[...]
O cheiro forte de camomila faz a cozinha do lugar flutuar em um estado calmante realmente gostoso. Isso devido ao chá nas xicaras de porcelanas intocadas em cima da mesa de madeira.
— Você precisa se alimentar, Mérope. Seu parto será amanhã e você precisa está forte o suficiente para trazer seu filho ao mundo – Sem nenhum traço de delicadeza, Morgana aponta o óbvio.
A pálida mulher sentada ao seu lado na mesa apenas assente, sem fazer nenhum esforço para tocar nos pães, bolos e queijos em cima da mesa.
— Vamos, apenas tente comer – Pede, suavizando a voz.
Retorcendo o tecido do vestido preto, Mérope aperta os lábios em uma linha fina, encarando o líquido alaranjado em sua xicara.
— Nada desce – Sussurra.
— Se você tentar com mais afinco, conseguirá comer – Grunhe a atemporal, realmente irritada – Você não é uma criança, Mérope. Eu não deveria ter que estar aqui te pedindo para comer. Você tem lógica do quão patética essa situação é?
— Eu sou patética – Murmura, se alto depreciando.
Revirando os olhos, Morgana beberica seu chá, tentando recuperar a compostura. Lidar com Mérope é como lidar com um vaso prestes a se quebrar, qualquer aperto mais forte, o faz romper em milhares de pedaços.
— Tudo o que eu sempre quis foi ser feliz. – Confessa, agarrando a pequena xicara com as duas mãos vacilantes – Por que eu não posso ser feliz, Morgana?
— Você ainda pode ser feliz, Mérope. Apenas precisa acreditar que a sua felicidade apenas depende de você, não de outras pessoas – Se apressa em dizer, cobrindo suas mãos com as suas – Acredite em si mesma, você é uma bruxa...
Ela balança a cabeça em discordância, afastando suas mãos com rapidez.
— Ser uma bruxa foi o que me fez sofrer tanto. – Afirma com veemência, agarrando a cabeça com as duas mãos – Se eu não tivesse esses poderes amaldiçoados, eu não teria passado toda a minha infância e adolescência sofrendo abusos por ser tão lenta em fazer magia, por ser tão burra em não conseguir pronunciar simples feitiços corretamente ou por nem ao menos fazer o básico das poções exigidas sem destruir algo. Ser bruxa, foi a pior coisa que aconteceu comigo – Termina, sem folego por ter se alterado em suas palavras.
Com o rosto inexpressivo e os pensamentos frenéticos, Morgana apenas encara a mulher destruída a sua frente, temendo sua forma distorcida de pensar.
— Tudo o que fizeram com você não foi culpa da magia, Mérope – Diz, mantendo sua voz suave – Morfino e Marvolo são sádicos, homens cruéis. Nada do que eles fizeram com você foi sua culpa. Ou culpa da magia. Seu filho...
— Se depender de mim, meu bebê será criado sem magia – Diz, pegando a outra de surpresa.
— O que!?
Seus olhos injetados de determinação, assim como sua expressão feroz indicam que ela não está brincando. Para Mérope, a magia é o começo, meio e fim de todos os seus problemas.
Ela põe-se em pé, piscando por entre os olhos marejados.
— Se eu não fosse uma bruxa, eu poderia ter conquistado Thomas de outra forma, e não ter sucumbido ao caminho mais fácil e usado Amortentia nele – Fala com convicção, deixando as primeiras lágrimas do dia caírem por seu rosto – Mas, meu filho não cometerá os mesmo erros que eu. Por isso, não quero que ele tenha contato com o mundo magico. E talvez assim, quando Thomas e eu nos reencontrarmos, ele veja como nosso garotinho se parece mais com ele do que comigo e, acabe o amando e nos aceitando.
Ela vai embora, com um olhar sonhador e com uma nova esperança para seu futuro. Deixando uma Lefay completamente estagnada no lugar, incrédula demais até mesmo para rebater as convicções insanas da outra mulher.
Tudo sempre giraria em torno de Thomas Riddle para Mérope. Seu amor doentio é sua maior fraqueza e também sua única ruína.
***
— Qual o problema, Morgana?
A mulher termina de beber seu vinho em poucas goladas, depositando a taça vazia com força no aparador de bebidas da sala. Ela se vira para o local de onde a voz vem, se deparando com a imagem de Salazar Slytherin.
— Você me parece aborrecida – Fala, quando ela continua em silêncio, apenas lhe encarando com a testa franzida – Mérope ainda não está comendo? Isto é um problema. Você deveria forçá-la a comer, é o que eu faria.
— Eu não sou você, Salazar – Rebate friamente, sentando-se no sofá de dois lugares – Estou velha demais para isso – Diz, massageando suas têmporas, prevendo o início de uma forte dor de cabeça – Quanto mais tento me aproximar dela, mas ela escapa por entre meus dedos. Os danos mentais que Mérope sofreu, aliados ao seu coração partido, me impossibilitam de lhe fazer ver além de sua dor.
Seus olhos se fecham, enquanto a mesma respira com lentidão, tentando acalmar seus nervosos. Em nenhum momento ela cogita lhe contar que Mérope pretende manter seu filho longe da magia, sabendo que isso só inflamará a raiva de Salazar.
— O bebê que ela carrega tem um dos maiores índices de magia que já nasceu sob minha linhagem desde que morri, Morgana – Lembra-lhe, fazendo ela lhe encarar – Não podemos perder essa criança por nada. É sua a responsabilidade de garantir a pureza do sangue desde que lhe confiei minha linhagem. Você me prometeu que faria um dos meus herdeiros triunfar sobre os sangues-ruins, então, cumpra sua promessa – Prosseguiu, nenhum pouco intimidado pelo olhar raivoso que recebe – Eu já esperei demais, Lefay.
Um sorriso de escárnio aparece nos lábios da mulher.
— Você me lembra um pirralho mimado falando assim, Slytherin – Ele dá de ombros, não cedendo a sua provocação visível – Não falharei em minha promessa. Mas, após isso... Espero não te ver mais por boas décadas.
Ele solta uma risada sarcástica.
— Você parece uma vadia sem coração falando assim, querida.
Ele não se surpreende quando o quadro em que se encontra começa a pegar fogo. Sorrindo, Salazar desaparece sem dizer mais nada, deixando uma Morgana irritada e uma parede chamuscada para trás.
[...]
Os pingos de suor escorrendo por sua testa se misturam com suas lágrimas e tremores, dando a impressão de que são como gotas de chuva deslizando por um para-brisa de carro em uma tempestade: rápidos e curvilíneos. Seus sussurros ininteligíveis são baixinhos, cheios de alto aversão. Os tremores que sacodem seu corpo lhe fazem bater os dentes, produzindo dor em sua mandíbula.
Está chegando a hora, sua mente enuviada de tristeza consegue pensar. Meu Tom irá nascer.
Desde que se deitará, a jovem mulher só consegue pensar em como sua vida é um cemitério de esperanças enterradas, de como seu amor é infinitamente amaldiçoado e suas alegrias são raras e curtas. Provações em cima de provações, sem nunca vencer.
Tendo tido uma infância miserável, vivendo em um lar abusivo e decadente, quando a jovem mulher pôs seus olhos em Thomas Riddle, viu nele esperança. A esperança de enfim formar uma família, de amar e ser amada verdadeiramente. Idealizou em sua mente quebrada que a felicidade que tanto merecia estava nos braços de outros, e não nos seus. Tolo engano.
Com suas pequenas investidas tímidas sendo ignoradas e sabendo que nunca poderia ficar com ele tendo seu irmão e pai policiando quase 100% do seu tempo, ela se retraiu ainda mais, amando-o a distância. Quando, Marvolo e Morfino Gaunt foram mandados para Azkaban por uso indevido de magia em trouxas, Mérope viu nessa oportunidade sua chance de conquistar seu amado. E, em uma manobra desesperada, enfeitiçando-o para lhe amar com Amortentia. Por um ano, viveu em um sonho doce e poético, sendo amada e amando. No entanto, nenhuma felicidade em sua vida foi feita para durar. Assim que parou de lhe dar a poção, crente de que por estar grávida ele lhe amaria tanto quanto o amava, Thomas logo tratou de lhe abandonar, deixando-a sozinha e desesperada.
Morgana lhe trouxe para Avalon com o único intuito de lhe dar a confiança e proteção que nunca teve, de lhe mostrar como ser autossuficiente poderia lhe render vantagens inimagináveis. Todo o seu esforço ruiu quando a mulher se deixou ser convencida por Mérope de que ver Thomas Riddle encerraria esta página da história da Gaunt. Após o encontro fatídico, aonde foi descoberto que o homem já estava cortejando outra mulher, todos os pequenos avanços feitos por Lefay na armadura danificada da mente de Mérope foram jogados ao mar. E agora, duas vezes mais quebrada do que quando fora encontrada, Mérope não tem forças nem para encontrar o desejo necessário de viver pelo seu filho.
Com o rosto pálido, semblante abatido e olhar vago, Mérope não se parece em nada com a mulher reestabelecida dos primeiros contatos que Hermione fizera com sua imagem. É uma casca oca, um monte de ossos e tecidos que apenas servem para ocupar espaço.
Sua mão trêmula acaricia o topo de sua barriga de 9 meses de forma suave, por cima da camisola branca de tecido leve. Um pequeno sorriso se forma em seus lábios rosados, não chegando os seus olhos. Suas caricias se perpetuam por vários minutos, enquanto seus olhos alagados transbordam de tristeza e amor. Uma combinação estranha para um momento tão especial. Suas lágrimas rolam por suas bochechas de forma curvilínea, deslizando até despencarem para o travesseiro macio.
Após se passarem quase duas horas desde o momento em que se deitará, o primeiro sinal de sua certeza se concretiza. Assim que sua bolsa se rompe, suas coxas e cama se encharcam com o líquido amniótico, mas sua expressão triste e abatida não se altera. Ela mal se dá conta de que está prestes a parir, mas quando o faz, suspira limpando o rosto.
Mérope se mantém na cama, revirando nos lençóis macios até que a primeira contração forte lhe atinge, fazendo-a se encolher em uma bola. Assim que a dor passa, ela estica o braço para o aparador ao lado de sua cama, vendo turvamente sua jarra de água em cima dele com dois copos vazios ao lado e um objeto de ouro puro de formato cônico.
Respirando com dificuldade, ela pega e o balança com força. Por ser um objeto magico, o sino não produz o barulho que sinos normais fazem, mas sim um pequeno som indistinto que ressoa diretamente no quarto de Morgana.
Lefay aparece no centro do quarto, usando sua costumeira camisola longa de seda preta. Seus cabelos estão soltos e bagunçados, dando-lhe uma aparência selvagem.
— Está na hora? – Pergunta, encarando o corpo encolhido na cama, já sabendo a resposta.
— Si-sim.
Usando as mãos para fazer um coque bagunçado no cabelo, ela se aproxima da Gaunt na cama.
— Você precisa se sentar, Mérope – Informa, ajudando-a com seus braços a encontrar uma posição confortável para sentar-se.
Vários travesseiros são colocados em suas costas lavradas de suor, dando-lhe apoio enquanto a mesma respira com dificuldade. Mesmo sofrendo apenas uma forte contração até o momento, seu estado anêmico e falta de forças são seus maiores problemas.
Elizabeth, me traga o livro de ritos número 33. Instrui, conectando-se com sua pupila mentalmente. E pergunte a Selene, se todas as poções que pedi estão prontas.
Silêncio.
Elizabeth? Tenta de novo, estranhando o silêncio de sua aprendiz.
Senhora, o livro 33 nunca foi usado desde que Avalon fora criada, o tom sempre calmo de Elizabeth ganha um leve toque de pânico. É contra as leis sagradas...
Faço o que estou mandando sem me questionar, ordena ferozmente. A ligação mental delas é quebrada assim que a jovem se apressa a fazer o que lhe foi ordenado.
Outra contração é sentida por Mérope, duas vezes mais forte que a primeira, fazendo-a gritar pela dor inesperada.
— Merda – Murmura, mordendo o lábio inferior.
Isso não vai ser bonito, pensa a atemporal, sentindo a presença de suas pupilas antes mesmo de vê-las aparecerem no meio do quarto.
***
— Vamos lá, empurre! – Ordena Morgana, de joelhos na cama entre suas pernas abertas, vendo o sangue escorrer abundantemente de sua vagina dilatada – Eu ainda não estou vendo-o – Fala para as três expectadoras do quarto.
— Eu não aguento mais – Sussurra a mulher, realmente esgotada.
Seu rosto está pálido e coberto de suor, enquanto todos os seus músculos estão tensos e doloridos. Não existe uma só parte do corpo dela que não implore por descanso. Suas contrações estão com intervalos extremamente curtos, fazendo-a não ter mais energia nem ao menos para levantar a cabeça sozinha.
— Sim, você aguenta – Fala, agarrando seus tornozelos e abrindo ainda mais suas pernas – Métis, lhe aplique mais poção revigorante diretamente na corrente sanguínea – Pede para a ruiva próxima aos vidros de diferentes tamanhos em cima da cômoda do quarto – E você, Elizabeth, encontre o feitiço de ligamento o mais rápido possível. Eu sinto que o bebê logo nascerá.
— Sim, senhora – Respondem em uníssono, apressando-se com suas tarefas designadas.
Olhando para Mérope, Morgana faz uma ligeira prece para que tudo corra bem, tanto com o bebê quanto com sua mãe. Um gemido sôfrego escapa de Mérope quando Selene passa um pano molhado por sua testa.
— Ela está ardendo em febre, Morgana – Diz Selene, passando os dedos finos pelas bochechas ardentes da mulher – E está perdendo sangue com muita rapidez.
— Massageei sua testa com folhas de freixo e salgueiro-branco embebidas em seiva de aloe vera – Instrui, vendo a cabeleira castanha de Selene balançar quando ela acena positivamente.
Seu corpo desaparece do lado esquerdo de Mérope, voltando menos de um minuto depois com todas as coisas em suas mãos. Morgana murmura baixinho um rápido feitiço, passando suas mãos dos joelhos da mulher até os pés, vendo o sangramento diminuir de intensidade.
Não existe resistência por parte da Gaunt quando Selene começa sua massagem e Métis usa de sua agilidade para ministrar a poção revigorante em sua veia. Mas, antes que qualquer alívio possa ser sentido, a voz autoritária de Morgana lhe traz ao seu estado.
— Você não vai parar de empurrar até que eu possa ver a cabeça do seu filho, Mérope. Por isso, concentre-se e use toda a sua força quando as próximas contrações chegarem, entendeu?
— Si-sim. – Gagueja, branca como papel.
***
Às 21:45 da noite do dia 31 de Dezembro, Tom Riddle veio ao mundo, enchendo o quarto de alívio. Todas as mulheres suspiram quase em sincronia, vendo o pequeno bebê abrir seus olhos azuis e fitar tudo a sua volta com interesse, após sair de sua mãe. Se não fosse por seus barulhinhos com a boca e olhar curioso, facilmente ele poderia se passar por morto. Afinal, que criança nasce sem chorar?
— Ele é tão fofinho e pequeno – Métis fala, se aproximando quase como se estivesse hipnotizada pela imagem do bebê ensanguentado nos braços de Morgana.
— Por que ele não chora? – Elizabeth questiona, levantando as sobrancelhas em sinal de confusão – Tem algo de errado com ele?
Morgana sorrir, levitando a manta creme do encosto da cadeira até suas mãos. Ela lhe embrulha com cuidado, não se importando que seu corpinho ensanguentado possa sujá-la.
— Ele apenas é tímido – Fala, vendo os olhos pequenos fixando-se nos seus – Bem-vindo ao mundo.
Ela desloca-se com cuidado, saindo de sua posição ajoelhada na cama e indo até Mérope. Mesmo completamente esgotada, o corpo devastador de dor, a mulher encontra forças para sorrir quando tem seu filho posto em seus braços.
— Oi, Tom – Murmura, vendo-o lhe encarar com curiosidade – Seja bem-vindo, meu amor.
Algo surge em seu peito, algo que se expande por seu corpo, injetando-lhe de felicidade. É quente, rápido como um raio e forte como aço. Ela não saberia expressar todos os sentimentos que lhe abateram com a simples visão do bebê em seus braços nem se sua vida dependesse disso.
— Tom Marvolo Riddle – Proclama, beijando sua testa com carinho.
Talvez, Thomas não seja mais o centro de seu mundo, afinal, pensa Morgana, vendo a cena a sua frente aquecer seu coração.
Quando o som estridente de um trovão corta o momento pacífico, os olhos de todas as pupilas de Lefay se arregalam. O pequeno Tom se agita nos braços de sua mãe, não gostando do barulho extremamente alto que ressoa fora das quatro paredes que lhe abriga. Mérope arregala os olhos quando ver através da varanda de seu quarto uma chuva macabra de raios começar.
— Senhora... – Selene se cala, vendo o olhar cortante que recebe de Morgana.
— Me dê o livro na página que pedi – Pede Lefay à Elizabeth.
A loira rapidamente entrega o livro de ritos 33 para sua senhora, aberto na página 1.998. Passando seus olhos com rapidez pelo conteúdo, a mulher nem se dar conta da chuva de raios e trovões que se inicia. E muito menos da voz histérica de Mérope lhe chamando e suas pupilas tentando lhe acalmar.
— Senhora, o que faremos?
Morgana ignora o tom preocupado de Métis, varrendo seus olhos pelas linhas instrutivas do ritual e do feitiço necessário para a obtenção de seu objetivo com rapidez. Seu maxilar trava com a compreensão do que isso pode lhe custar.
— Spirituales Karma – Sussurra, não encontrando resistência nenhuma ao atravessar pelos véus da ilha o objeto magico que invocara.
A adaga de prata com um grande rubi cravejado em seu cabo brilha perigosamente sob a luz proveniente dos raios.
— O que... O que...? – A voz de Mérope falha, sua garganta se apertando.
Ela aconchega seu bebê com ainda mais força contra os braços, temendo a mulher com o instrumento mortal na mão.
— Não temos muito tempo – Fala, colocando o livro na cama e olhando para suas pupilas – Avalon não permitirá que eu finalize o ritual sem antes resistir muito a isso. Por isso, preciso que vocês contenham a maior parte dos danos, entenderam?
Elas não entendem, mas acenam mesmo assim.
— O quão ruim será? – Elizabeth faz a pergunta que todas as outras estão se perguntando.
— Muito.
“Esqueça as consequências do fracasso. O fracasso é apenas uma mudança temporária de direção para te posicionar diretamente para o seu próximo sucesso.”
— Denis Waitley
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