Desire Obsolete

57 Passado (Parte. 2 - Final)


Notas iniciais
Playlist: Young God – Halsey Latidos – Anahí Kingdom Fall – Claire Wyndham Bird Set Free – Sia Queendom – Aurora Princesses Don’t Cry – Aviva Yellow Flicker Beat – Lorde Unconditionally – Katy Perry Enjoy!!

— Muito.

Seus olhos se encontram com os de Mérope, vendo seu corpo estremecer e seus braços se fecharem ainda mais envolta do pequeno corpo contra seus seios. E, mesmo não falando, seu cansaço é nítido. Sua palidez é tão doentia que qualquer um poderia notar seu esforço para se manter consciente.

Ela não durará muito tempo acordada, Morgana indaga para si mesma com preocupação, encarando os lençóis ensopados de sangue. Seu estado físico é desastroso.

O barulho do forte temporal lá fora chega aos ouvidos de Morgana como um zumbido distante, cheio de estática. Sua mente é uma nevoa densa de pensamentos frenéticos, cheios de receios. O brilho da lâmina da adaga em suas mãos não é atrativo, mas sim, imprescindivelmente, necessário.

— O que está acontecendo? – Pergunta a mulher debilitada na cama, sua voz saindo rouca de medo e de tanto gritar enquanto fazia força para parir, um tempo atrás.

Todas as pupilas de Morgana se entreolham, sentindo suas próprias vozes serem caladas pelo medo. Medo do que virá a seguir. Os relâmpagos jogam luzes bruxuleantes sobre o cômodo, mas são os trovões cada vez mais ferozes que assustam suas almas.

— Não temos muito tempo, Mérope – Diz Lefay, se aproximando da mulher na cama só para vê-la se encolher de medo – Eu não vou te machucar, querida – Fala, parando no lugar, levemente magoada pela desconfiança da outra.

Métis avança alguns passos, inclinada a tomar o bebê das mãos de Mérope, mas basta um olhar repreensor de Morgana para sua pupila estagnar no lugar. Elizabeth e Selene trocam olhares desesperados, não estando acostumadas a tantas recriminações, problemas e temores acontecendo de uma só vez. É um caos de proporções épicas.

— Não quero você perto do meu bebê enquanto estiver com esse objeto em mãos – Joga as palavras para fora com sinceridade, sem rodeios.

Sua mão se fecha com tanta força sobre o cabo da adaga que, Morgana sente a circulação do seu sangue sendo diminuída naquela área, deixando uma branquitude anormal em seus dedos e palma.

— Eu entendo...

— Não, você não entende – Corta-a, engolindo em seco – Os trovões, os relâmpagos, está adaga... – Ela meneia a cabeça em direção a adaga na mão da atemporal – O que está acontecendo, Morgana? – Sua voz beira a histeria, mas Mérope respira fundo diversas vezes para se acalmar.

— Avalon está reagindo ao nascimento de seu filho.

— Por quê?

— Porque, pelas Leis Sagradas desta ilha, apenas mulheres são permitidas aqui – Diz, igualmente sem rodeios – Tom ter nascido em Avalon corrompe os princípios pelos quais tudo isso foi criado – O estrondo do trovão seguinte as palavras de Morgana faz todas as mulheres se encolherem e o pequeno bebê se remexer agoniado nos braços de sua mãe.

— Então, por que você não me tirou daqui? – Existe tanta mágoa em sua voz, que fica difícil para Lefay controlar suas próprias emoções.

Mérope sente seu coração disparar, o pânico tomando conta de seu sistema.

— Eu quis... Ou melhor, eu tentei – Ela dá um passo hesitante para mais perto da Gaunt, vendo seus olhos se estreitarem – Mas, seu estado debilitado não me permitiu aparatar contigo de uma forma segura para o bebê – Ao ouvir isso, um fungado choroso escapa da mãe de Tom – E, de forma punitiva, Avalon não me permitiu transmitir um pouco da minha força vital para você. Meus poderes são limitados quando se trata de ir contra os desejos dessa ilha. Eu sinto muito, Mérope.

Ela balança a cabeça em negativa, lágrimas caindo se seus olhos cansados.

— É tudo minha culpa! – Exclama com pesar, encarando os olhos azuis de seu bebê – É sempre minha culpa. – Seu sussurro é quase inaudível – Eu sou um poço de desgraça.

— Este não é o momento para alto piedade – Diz a atemporal, sentando-se ao lado da mulher, encarando seus olhos com simpatia – Tenho uma solução para o nosso contra tempo – Morgana se recusa a chamar a situação em si de problema na frente dela, não querendo agravar ainda mais os medos recém descobertos da mãe.

— Ela envolve a adaga?

— Sim.

— Você irá machucar o meu bebê?

— É claro que não! E, francamente, você cogitar que eu posso machucar um bebê me ofende muito, Mérope – Existe recriminação em seu tom de voz, mas também um leve traço de tristeza – É um ritual, uma passagem. E a adaga é apenas um dos instrumentos do processo – Ela aponta com o indicador para o lado de fora – Tudo isso é puramente instintivo. Avalon ver em Tom uma ameaça, então... Precisamos fazer com que a ilha entenda que seu filho não oferece nenhum risco.

— Ele é só um bebê, como poderia...

— Que irá crescer como todos os outros bebês – Interrompe-a, impaciente – Precisamos nos apressar, o ritual é complicado e, pelo estardalhaço lá fora, Avalon não cooperará – Mais relâmpagos iluminam o quarto.

— Como faremos isso? – Elizabeth pergunta, colocando uma mexa de seu cabelo atrás da orelha – Precisamos de mais garotas.

— Quando o ritual se iniciar, Avalon revidará – Selene complementa.

— Se mais garotas forem chamadas, será uma batalha de vontades com muitas forças envolvidas. Preciso que seja apenas Avalon e eu – Explica, confundindo ainda mais a cabeça das mulheres.

— Onde nos encaixamos então? – Métis questiona, realmente confusa.

Morgana olha para suas pupilas, vendo apreensão e dúvida em seus olhos.

— Conter os danos é tudo o que vocês irão fazer – Volta a dizer.

Ela sente, sente em seus ossos o medo delas, assim como o próprio medo entalado em sua garganta. É como uma coceira que não pode ser coçada, como um mantra incompleto em sua mente, que te atormenta a cada respiração. É a triste e mais pura forma de vulnerabilidade.

Se vocês não quiserem estar comigo, eu irei entender – Fala em suas mentes, após alguns segundos de reflexão – Sei que o que estou pedindo é mais do que já pedi a qualquer uma de vocês. Ir contra nossas leis... Sei que é pedir demais. Não posso obrigá-las a concordarem comigo quando, claramente, vou contra os desejos de Avalon – Completa, mantendo a conversa particular – Mas, se quiserem ficar... Não importa o que aconteça comigo, vocês devem proteger o bebê e sua mãe.

Morgana sabe que, se exigir, elas acataram qualquer ordem sua. Afinal, suas lealdades estão nela, não na ilha. Os laços que as unem é familiar, quase puramente maternal. Elas veem em Morgana a mãe que nunca tiveram ou que perderam para a morte. Mas, usar de sua lealdade para fazê-las lhe obedecer, não é algo que Lefay fará. Seu respeito por suas garotas transcende seus desejos egoístas.

— Estamos contigo até o fim — Métis quebra o breve silencio, aproximando-se de Morgana a passos decididos e rápidos – Mas, não iremos te perder.

Um suspiro aliviado escapa da atemporal.

— Vocês não me perderão – Afirma, sobressaltando Mérope que estava mais concentrada em gravar as feições de seu filho e se manter acordada do que no estranho silêncio que se formou no quarto.

— O que...?

Morgana balança a cabeça em negativa, não querendo prolongar ainda mais o inevitável.

Engolindo em seco, Mérope olha para o rosto das quatro mulheres no quarto, uma a uma, agradecida por elas estarem ali tentando consertar seu erro e dar ao seu filho e a ela uma moradia segura.

— Eu não sei o que vai acontecer, mas... Eu peço a Merlin para que meu bebê encontre uma mulher tão incrível e boa como vocês – Diz, pegando as bruxas de surpresa – Desejo que ele tenha uma família grande e que o ame tanto quanto ele merece ser amado – Lágrimas escorrem por suas bochechas.

Ela sorri em agradecimento, vendo os rostos das mulheres se suavizarem e retribuírem seu sorriso.

— O que eu realmente quero dizer é, obrig... – Sua voz falha quando um súbito aperto em sua garganta lhe rouba o ar.

Tossindo desesperadamente em busca de oxigênio, Mérope afrouxa seu aperto sobre seu filho, quase o derrubando na cama se não fosse pela rapidez de Selene em o pegar.

— Merda! – Exclama a atemporal, indo ao socorro da bruxa.

Colocando sua mão esquerda em seu peito arfante e a direita em sua testa escaldante, Morgana logo encontra resistência para fazer sua magia fluir até Mérope.

Não, merda! Você não fará isso, pensa, entendendo instantaneamente que Avalon está provocando a subida piora no estado da Gaunt. Você não a matará.

— Nã-não... Con-sigo... Respirar – Seu tom desesperado é de partir o coração.

Meu bebê! Eu preciso do meu bebê. Tom...!

Ela agarra os lençóis, fechando os olhos com força enquanto tosse sem parar, perdendo a noção do que a cerca.

A pressão em sua garganta só aumenta a cada tossida, chegando em um nível em que tudo é apenas dor. Nenhum pensamento coerente lhe passa enquanto seu corpo se curva para frente. Morgana, agarra seu rosto, vendo suas bochechas pálidas serem pintadas de um vermelho carmesim devido a súbita elevação de sua temperatura.

— Se acalme! – Pede, recitando baixinho todos os feitiços de cura que conhece, esforçando-se ao máximo para que eles cheguem até os pontos certos de seu corpo – Métis, pegue o frasco azul dentro da quarta gaveta do meu armário de medicamentos. É o que tem o nome Tempus Remedium.

Métis desaparece assim que o pedido é feito, teletransportando-se para a sala de remédios no térreo.

Tentando absolver oxigênio pela boca, Mérope se engasga repetidas vezes, tossindo ainda mais e ferindo sua garganta já machucada. Quando respingos de sangue saem de sua boca e mancham o foro da cama, Morgana não se surpreende. Queimando de febre e com seu ar obstruído, nada é filtrado. Tudo é apenas um borrão de dor.

— Você precisa conceder sua alma para que Tom permaneça em Avalon, Mérope – Dispara Lefay, tentando manter-se logica enquanto sente que seus esforços para salvar a mulher estão falhando – É o único jeito de Tom ficar a salvo. Eu preciso que você lute. Sobreviva! – Rosna, vendo a palidez no rosto cansado da mulher se acentuar ainda mais e ela não esboçar nenhuma melhora – Você precisa recitar o feitiço que sacrificará sua alma em prol da estadia de Tom aqui. É uma barganha. Por favor, lute! – Suas mãos se movem por suas bochechas, sentindo o calor de sua magia se encontrar com sua pele superquente – Se você morrer antes do feitiço ser feito, eu não poderei mantê-lo aqui. Você é sua guardiã, sua mãe, a única que tem poder sobre ele agora. Tom precisa de você, Mérope.

“Tom precisa de você.”

Em meio a dor e cansaço, a frase é absolvida por seu cérebro machucado com lentidão, tirando-a de sua nevoa por breves segundos.

“Tom precisa de você.”

Existe tanta confusão em sua mente, que tudo o que ela consegue absolver durante um tempo é que alguém precisa de outro alguém. Mas, ela não consegue associar rostos ou nomes a isso.

“Tom precisa de você.”

Quem é Tom? Pergunta-se. Ele é importante... Mas, não consigo me lembrar. Em sua mente confusa, nada dessa frase faz sentido. Tudo é tão doloroso aqui. Não quero sentir dor. Por que Tom é importante? Ele precisa de mim? Mas... Ninguém precisa de mim.

Fazendo um esforço sobre-humano, ela agarra sua cabeça com as duas mãos, rangendo os dentes com força buscando entender o que se passa.

Não quero sentir dor! Quem é Tom? Não quero sentir dor! Quem é Tom?

Encontrando barreiras invisíveis cheias de dor entre sua mente confusa e as respostas do que é verdade, seus instintos são a única coisa que não é afetado pela dor.

Tom. Tom. Tom.

Reunindo a última fagulha de força que tem, Mérope emerge das profundezas de sua mente quebrada, lembrando-se do rosto de seu bebê recém-nascido. Um aperto esmagador comprime seu coração.

Meu Tom!

Sua tosse rouca e dolorosa começa a diminuir quando o aperto em sua garganta é aliviado, deixando para trás apenas uma forte queimação em sua traqueia e uma Mérope extremamente cansada, lutando para recuperar seu equilíbrio respiratório entre arfadas descompensadas.

Te amo, meu bebê.

Seus olhos se fecham e ela deixa seu corpo cair para trás, batendo com tudo contra os travesseiros de apoio. Com sua mente estando tão cansada quando seu corpo, ela se deixa submergir com rapidez à uma maré de serenidade não natural, mas acolhedora, que lhe abraça e tranquiliza.

Amo você, Tom.

— Minha senhora, – O timbre desesperado de Elizabeth faz Lefay lhe olhar imediatamente, nem tento tempo nem de se sentir aliviada pela tosse ter parado – Ela voltou a sangrar. – Diz assustada, extremamente assustada com a quantidade de sangue vazando pelo meio de suas pernas.

As entranhas de Morgana se retorcem ao ver o fluxo de sangue que banha a cama.

— Ela está com hemorragia interna – Diagnostica, atordoada – Métis! – Grita por sua pupila, não vendo sua magia surtir grandes efeitos.

Nenhuma resposta é ouvida, por isso, Elizabeth tenta aparatar para aonde Métis deveria estar, mas, a única coisa que encontra é uma grande barreira invisível impedindo seu corpo de se deslocar.

— Eu não consigo me teletransportar – Elizabeth informa, pegando Morgana de surpresa – Existe uma barreira forte e não consigo atravessá-la.

— Droga!

Antes que ela possa processar os acontecimentos, uma Métis desgrenhada invade o quarto pela porta, segurando a barra de seu vestido longo com a mão direita.

— Des-desculpem! – Pede, levemente ofegante – Não consegui me teletransportar de volta – Explica, cambaleando até a cama com o frasco na mão esquerda.

Ela entrega-o para Morgana, que não tarda em se voltar para Mérope, encontrando-a de olhos fechados e com um semblante extremamente relaxado.

— Querida, preciso que você tome isto – Morgana leva o frasco aos lábios dela, não obtendo reação nenhuma da mulher – Mérope?

Nenhum movimento é feito, nenhuma reação é esboçada. Seu rosto aparenta ser esculpido em mármore.

— Ela está bem? – Pergunta Selene, balançado o bebê quieto nos braços, aproximando-se da cama com cautela – Seu peito não está subindo e descendo de forma normal.

Desesperada, Morgana coloca sua cabeça no peito da mulher, em cima de seu coração, escutando seus batimentos fracos diminuírem a cada respiração.

— Estamos perdendo-a – Sussurra, sentindo seu próprio coração disparar.

Soltando o frasco em qualquer lugar da cama, coloca suas duas mãos em seu peito, em cima de seu coração fraco. Uma melodia céltica preenche o ambiente, com Morgana entoando uma cantiga céltica com a voz embargada de emoção, pedindo mentalmente à Merlin para não perde a jovem mulher.

— Elizabeth, lhe dê a poção! – Pede com urgência, interrompendo sua cantiga para lhe falar.

Ela volta a cantar, fechando os olhos e buscando equilíbrio entre sua mente e sua magia interior.

Elizabeth se debruça sobre Mérope, tentando abrir sua boca para lhe dá a poção. Ela agarra seu queixo e puxa com delicadeza para baixo. Nada. Aumentando a força, tenta novamente abrir sua boca. Nada. Sua mandíbula se mantém fechada devido as contrações e rigidez facial.

— Não consigo! – Diz, chorosa para uma Morgana absolvida em seu cântico – Algo travou sua mandíbula. Ela não está respondendo – Usando de sua magia, Elizabeth tenta relaxar seus músculos para que consiga abrir sua boca. Nada acontece.

É como se seus esforços não estivessem surtindo nenhum efeito, como se sua magia não passasse de um sopro de ar: fraco e ineficaz. Novamente Avalon estava impedindo-as de usarem magia.

Após vários minutos se passarem, uma mão é posta no ombro de Morgana, desconcentrando-a. Ela ignora quem lhe toca e continua recitando sua cantiga, reunindo toda a sua magia para curar a mulher na cama. Métis, quem é quem lhe toca, lança um olhar preocupado para suas irmãs.

— Senhora... – Sua coragem se esvai e Selene se cala, beijando a testa do bebê com carinho, ignorando o sangue seco ali.

— Senhora, ela... – Um barulho semelhante a um rosnado vindo de Morgana faz com que Elizabeth se cale.

Mais alguns minutos se passam, com uma agoniante melodia sendo entoada pela atemporal. Lágrimas começam a descer por seu rosto, mas ela mal se da conta disso.

— Ela morreu, Morgana – Métis toma a palavra, não aguentando mais ver a mulher insistir em um corpo sem vida.

— Cale-se! – Rosna, irritada por elas estarem lhe desconcentrando – Ela não morreu.

Métis aperta seu ombro com força, tentando passar-lhe força e lhe tirar da negação.

— Ela se foi, senhora – A doçura de sua voz irrita Morgana profundamente, fazendo-a abrir os olhos.

A primeira coisa que ela vê é o rosto sem vida da mulher: branco como neve, sereno. E com isso, com o conhecimento de que nunca mais verá Mérope com vida, Morgana Lefay desaba.

Ela retira suas mãos tremulas do peito da mulher com rapidez e se afasta da cama, quase atropelando Métis no processo. E assim, com seus olhos arregalados e boca ligeiramente aberta, ela se dá conta que Mérope Gaunt Riddle faleceu. Sua amiga, sua responsabilidade. E a verdade é que Morgana nunca soube lidar com a perda de alguém querido.

Suas pernas tremem e seu corpo desaba no chão, pondo-a de joelhos, enquanto um grito desesperado sufoca sua garganta até que ela não consegue mais o prender. Ela grita a plenos pulmões, dando vazão aos seus demônios. O baralho de seus gritos é abafado pelo trovejar no lado de fora do quarto, mas suas pupilas sentem o tamanho de sua dor. E é o que faz elas chorarem.

Eu sinto muito por tudo o que aconteceu, eu sinto muito, suas mãos agarram os lados de sua cabeça. Inclinando-se para frente, Morgana quase toca o chão com a ponta de seu nariz. Mérope... Eu sinto muito.

Sua mente é um turbilhão de pensamentos desenfreados, mas o gosto amargo da perda acentua um em particular. Vingança.

E é quando levanta seu rosto alguns centímetros que sua visão é capturada pelo brilho do rubi incrustrado em sua adaga, que está caída no chão ao lado da cama. A compreensão do que fazer para obter sua vingança é quase imediata.

Reunindo coragem, ela engatinha até a arma, agarrando-a com força entre os dedos pálidos sob o olhar vigilante de suas aprendizes.

Um trovão de advertência é ouvido, mas ela ignora-o. Usando do colchão para se apoiar e se levantar, seus olhos correm pelo corpo imóvel na cama. O sangue já seco está escurecendo com o passar dos minutos, o corpo naturalmente pálido, agora está quase completamente branco, até suas veias sumiram. A única coisa tranquilizadora na cena, é o rosto sereno de Mérope. Seus lábios estando curvados ligeiramente nos cantos, como se ela pretendesse sorrir aliviada, mas morresse antes de completar o movimento. Tudo isso, é combustível para a raiva de Lefay.

— Eu quero o bebê – Diz, esticando suas mãos para Selene – Dei-me ele.

— Senhora? – Ela franze a testa, olhando da expressão feroz de Morgana para sua mão direita, aonde ela segurava a adaga – Não acho...

— Você não tem que achar nada – Interrompe-a, não se importando em estar sendo grossa – Apenas, me dê o bebê, Selene.

Ela hesita, mas é encorajada pelas outras pupilas, que não viam como negar isso poderia beneficiar qualquer um ali. Ao entregar o bebê para Lefay, ela beija sua testa e se afasta, sentindo seu peito se apertar.

Morgana embala o pequeno Tom entre os braços, tomando cuidado para não o ferir com a adaga. Dando as costas para suas pupilas e o corpo na cama, ela caminha até a varanda, aonde o bale de trovões e relâmpagos ainda persiste.

— Nunca te pedi nada em troca da minha devoção – Começa, parando no final da varanda, olhando para o céu – Você só precisava aceitar a alma dela em troca do bebê permanecer aqui por um tempo, era tão simples... Mas você preferiu ignorar meus pedidos e mostrar quem realmente manda aqui.

Engolindo o nó em sua garganta, ela respira fundo.

Ajoelhando-se no chão, Morgana deposita o bebê à sua frente, abrindo sua mantinha e expondo seu corpinho nu melado de sangue.

— Senhora? – O chamado de Métis é ignorando.

— Está frio, Morgana – É a voz de Elizabeth que se faz presente desta vez.

— Bom, chegamos a um empasse aqui – Uma risadinha debochada escapa de seus lábios enquanto ela estreita os olhos. Suas pupilas se arrepiam, nunca tendo escutado ela usar este tom antes – Você tirou algo de mim e agora, eu vou tirar algo de você. É justo! – Fala, contemplando a imensidão noturna da ilha.

Ela segura a adaga com as duas mãos, elevando-a acima da própria cabeça.

— Ele é só um bebê, senhora – Selena murmura desesperada, colocando a mão no coração disparado – Não faça mal a ele, por favor!

Quando a arma desce, três gritos são escutados, mas nenhum som é feito quando a lâmina corta o seu objetivo. As três pupilas correm ao auxílio do bebê enquanto uma tempestade torrencial começa a cair sobre a ilha, com ventos vindos de todos os lados e água caindo em abundância do céu.

Selene é a primeira a chegar ao lado de Morgana, abrindo a boca em puro horror e descrença ao ver a cena diante de si. Quando Métis e Elizabeth chegam ao seu destino, suas expressões são exatamente iguais a de Selene.

Com sua adaga cravada em seu corpo, bem entre seus seios, Morgana sorri mesmo com uma fileira de sangue escorrendo pelo canto esquerdo de sua boca.

— Merlin! – Exclama Métis, cambaleando até bater na parede atrás de si.

Caindo de joelhos ao seu lado, Selene tenta colocar suas mãos no ferimento, mas é dispensada por Morgana, que usa um de suas mãos para lhe afastar.

— Eu não vou morrer. – Sussurra, ainda com o sorriso no rosto.

— Senhora... – A voz chorosa de Elizabeth faz Lefay alarga seu sorriso.

— Vocês são tão dramáticas – É tudo que ela diz, puxando a adaga de uma só vez do peito, para o espanto de todas.

— O que...? – A voz de Métis morre ao perceber que, o que antes era um rubi de um vermelho vibrante, agora está completamente negro.

Agarrando a pequena mão direita de Tom, Morgana coloca-a em forma de concha sobre a joia e o mesmo faz com a esquerda, fazendo assim com que o bebê segure o rubi negro com as duas mãos pequenininhas, mas sem tirar suas mãos de cima das dele.

— Aceite minhas desculpas desde já, vadia – Morgana rosna para o céu, nenhum pouco arrependida pelo que vai fazer.

Quando o primeiro raio é lançado dos céus para onde a mulher estar, ele só não se choca com seu alvo, porque as três pupilas de Lefay o intercepta com muito esforço após terem seu sexto sentido despertado pelo perigo que mal conseguiam acompanhar.

Combinando seus poderes para que um escudo seja erguido, fazem com que a descarga elétrica seja dividida entre as três e não chegue até Morgana e o bebê. Mas, assim que outro raio vem em suas direções, o escudo fraqueja, quase levando a eletricidade a se chocar contra os corpos na varanda.

— Et det tibi terram hanc; – Morgana começa, fechando seus olhos e apertando as mãos com mais força em volta das mãos do bebê enquanto sente o ferimento em seu peito se fechar aos poucos – Et aerem istum proferre ad te; – Ela sente a pedra preciosa esquentar, assim como o bebê ficar anormalmente imóvel – Ex pulvis venisti ad pulverem reverteris; – Ela não vê, mas escuta o resfolegar de suas aprendizes e o barulho dos raios ricocheteando com muito esforço contra o escuto – Ex futuris usque ad consummationem saeculi – Seus olhos se abrem a tempo de ver um três raios vindos de sentidos diferentes ao seu encontro – Tom Marvolo Riddle. – E com isso, a finalização de seu rito, tudo para.

Os raios se dispersão, deixando faíscas brilhantes pelo caminho que estavam fazendo. Suas pupilas caem no chão, esgotadas demais para sequer se moverem.

O silêncio que se segue fala mais do que os trovões e raios que Avalon estava disparando contra Morgana. E isso lhe agrada, pois pela primeira vez desde que assumiu o controle da ilha, Morgana pode mostrar para o lugar que ninguém pode lhe controlar.

Olhando para o bebê nu diante de si, Morgana vê todas as suas veias ressaltadas, assim como seus olhos brilharem em um tom de vermelho anormal.

Ela joga a adaga para longe, vendo o rubi voltar a cor normal. Embrulhando novamente o bebê na manta, Morgana o trás para junto de seu peito curado.

O reinado de paz acabou. Agora, minha vingança foi concluída.

[...]

Um raio inesperado corta os céus, atingindo a grade de madeira da varanda do quarto, chamuscando-a. A descarga elétrica é forte, mas não se propaga, apenas queimando a madeira. Logo um trovão retumba pelos céus de Avalon, dessa vez sendo acompanhado por uma forte ventania que sacode todas as árvores com ferocidade.

O bebê deitado no centro da cama de casal se assusta, agitando suas mãos e pernas freneticamente, fazendo barulhos descontentes com a boca. De banho tomado e vestindo um macacão azul escuro, quase negro, o pequeno Tom está em toda a sua glória. A mulher sentada ao lado de seu pequeno corpo encara a madeira chamuscada sem realmente vê-la ou perceber a revolta do vento lá fora.

Ela morreu, simplesmente se foi.

Fechando os olhos, Morgana tomba a cabeça para trás.

Isso não é bom.

Levando as mãos ao rosto, esfrega sua face com força tentando clarear sua mente. Foi uma batalha de vontades em que Avalon levou a melhor, e isso Morgana nunca esqueceria.

Abrindo os olhos, ela encara o teto de madeira antes de se voltar para o bebê ao seu lado.

— Não posso ficar com você, Tom – Sussurra, sua voz falhando no final – Sua não mãe completou o ritual e, como seu pai agora é seu único guardião, não posso te manter comigo – Os olhos do bebê se prendem aos dela, como se ele entende-se suas palavras – Se eu te manter aqui, seu destino será igual ao de sua mãe. Ou pior.

Desviando o olhar, Morgana tenta conter a queimação pelo choro reprimido em sua garganta.

— Várias décadas atrás, eu fiz uma processa estupida a Salazar Slytherin, seu antepassado – Revela, não sabendo ao certo o porquê de estar falando com o bebê – Prometi que, se ele não conseguisse realizar seu desejo de se livrar dos nascidos trouxas, eu iria ajudar um dos seus descendentes a fazê-lo, mas só se a pessoa em questão quisesse. Bom, isso foi há muito tempo e, com o passar dos anos, percebi o quão ridícula minha promessa foi – Ela sorri com tristeza para ele – Promessas são promessas, e se tem algo que eu prezo, é por minha palavra.

Engolindo em seco, ela captura a lágrima solitária que cai por sua bochecha.

— Você deve estar se perguntando o que foi aquilo que eu fiz com você – Comenta, rindo em seguida – Meu Merlin, estou falando com um bebê como se ele pudesse me entender – Ela passa as mãos pelos cabelos.

Se levantando, Morgana vai até a grade de madeira, vendo o material chamuscado ainda soltando fumaça.

— O importante é que você ficará bem – Diz para o nada com tristeza, encarando as árvores abaixo de si sendo violentamente castigadas pelo vento – Mas, não poderei ficar contigo, Tom – Ela se volta para o bebê na cama com os olhos marejados – Por mais que eu tenha te entregado uma parte de Avalon, isso não é o suficiente para te manter aqui.

Eu sinto muito.

[...] UM ANO DEPOIS [...]

O sol é forte, mas a brisa que acaricia o corpo da mulher é tão suave quanto as ondas que se chocam contra a praia. Isto é Avalon em seu mais puro estado de calmaria. Em nada se assemelha com a fúria desmedida da noite em que Tom Riddle nasceu.

Suas mãos se fecham em punhos, enquanto prende o lábio inferior entre os dentes brancos.

Na primeira página da nossa história, o futuro parecia tão brilhante. Mas agora, o que resta são sombras. Sombras de um futuro caótico, cheio de lágrimas, percalços e mortes.

Morgana fecha os olhos, permitindo que sua mente vagueie por becos dolorosos.

Quem de nós se destruiu primeiro?

Seus olhos marejam, mas ela se recusa a chorar novamente. Uma vez é mais do que o suficiente. Lefay nunca comete o mesmo ato mais de uma vez, muito menos chorar pelo mesmo motivo mais de uma vez.

Ela afunda os pés descalços na areia fofinha.

Movida por raiva e sede de vingança, ela arrancou de si uma pequena parte do poder que Avalon lhe deu, transferindo-a para o bebê que agora reside no Orfanato Wool. As consequências disso? Seus poderes estão duas vezes mais limitados e a criança não pode morrer.

Absolvida em todos os seus erros desde o momento em que trouxe Mérope para a ilha, a atemporal não percebe a aproximação de uma jovem dama vestida com um longo vestido branco.

— Morgana?

Sobressaltando-se, ela se vira com rapidez para a direção de onde seu nome é chamado, deparando-se com a figura de Mérope parada a poucos metros dela.

— O que...? – Sua pulsação se acelera de imediato

Cambaleando para frente, ela perceber que, o que está vendo não é a forma física e sólida de Mérope, não. É a forma espectral da Gaunt, que nada mais é do que uma projeção de como o seu corpo foi em vida, mas sem solidez nenhuma. Basicamente, um fantasma aos parâmetros de Avalon.

Lágrimas caem de seu rosto sem que a atemporal perceba, entendendo que está é a forma de Avalon pedir desculpas. A ilha não permitiu que a alma de Mérope partisse, guardando-a para que em um futuro próximo pudesse trazê-la de volta, mesmo que de forma dramática.

— Oh, merda!

Sorrindo, a Gaunt se aproxima com sua forma envolta em uma luz perolada brilhando.

— Eu senti sua falta, Morgana – Diz, sorrindo para sua velha amiga – Onde meu bebê estar?

[...] PRESENTE [...]

A chuva é torrencial, com relâmpagos e trovões despontando pelo céu da ilha em um balé macabro. Todo o clima é sinistro, rodeado de densidade e uma escuridão tão antinatural quanto os pingos grossos de chuva que caem.

Morgana atravessa a floresta escutando o farfalhar de sua capa grossa no solo, pisando nas ervas daninhas e trepadeiras que se aglomeram como praga umas sobre as outras. O solo alagado suja suas botas e capa, assim como a barra de seu vestido cinza. Seu olhar de desgosto é nítido, assim como sua clara preocupação com a aparência do lugar.

Meu lar...

Atingindo o ponto que queria, ela fecha os olhos e murmura uma cantiga céltica baixinho, sentindo sua magia fluir livremente por seu corpo. À medida que o tempo passa, sua cantiga vária de ritmo, indo de lenta para rápida até voltar para lenta de novo. Seria uma visão de arrepiar, uma mulher encapuzada parada em meio à uma chuva torrencial cantando para o nada, se não fosse pela bela voz que ela dispõe e do que sua cantiga está fazendo com o clima.

O primeiro indicativo de que seu objetivo está sendo atendido, é a chuva começar a parar gradativamente, até que nada mais que chuviscos incômodos é sentido. Logo, uma brisa suave trás cheiros agradáveis das plantas para seu olfato, assim como grama e terra molhada.

Abrindo os olhos, ela se depara com a claridade da lua iluminando seus arredores.

Um suspiro lhe escapa, pouco antes de seu corpo desabar de joelhos no chão. Ela fecha os olhos, expirando o máximo de ar que seus pulmões permitem, entregando-se ao cansaço repentino, mas já esperado. Não existe uma só parte de seu corpo que não esteja tensa e dolorida.

Não poderei fazer isso por muito mais tempo, constata abrindo os olhos. Não tenho forças para lutar contra Avalon. Uma emoção aterradora de desolação lhe assola ao ver sua floresta ainda infestada de ervas daninhas e trepadeiras.

— Morgana? – Uma voz hesitante lhe chama, atraindo a atenção da bruxa.

Olhando para frente, encontra a visão espectral de uma jovem dama de cabelos negros e familiares olhos verdes.

Um pequeno sorriso se forma no rosto cansado da atemporal.

— Olá, Mérope.

Ela se aproxima com rapidez, quase flutuando sobre a grama molhada.

— Está piorando, não é? – Não é preciso dizer o que, Morgana entende suas palavras.

— Sim.

Usando do pouco de força que consegue reunir, ela se põe em pé. Com suas mãos ainda trêmulas, limpa a terra de seu vestido com cuidado, não obtendo bons resultados com isso.

— Não existe nada que você possa fazer? – Pergunta, já sabendo a resposta.

Balançando a cabeça em negativa, Morgana desvia seus olhos cinzas para um ponto distante atrás de Mérope.

— Primeiro foi o diário, depois o anel... – Ela suspira, massageando a têmpora direita com os dedos – Se a destruição das horcruxes continuarem, não restara muito de Avalon para salvar.

Encarando os próprios pés, Mérope encolhe os ombros.

— Eu sinto muito.

— Eu também.

Um silencio desconfortável se apodera do lugar, fazendo as duas navegarem por lembranças e tormentos.

— Quando eu lhe dei parte do meu poder, não pensei que estava colocando em risco a sobrevivência de minhas garotas – Confidencia, pegando a outra de surpresa – Eu estava tão cega pela raiva e pela dor... Só queria causar tanto sofrimento em Avalon quanto ela tinha me causado. Mas, sentimentos provocam irracionalidade e agora... Bom, agora tudo depende da sobrevivência de um homem que conduz o mundo bruxo para uma guerra.

Sem saber como retrucar a favor de seu filho, Mérope se mantem em silêncio por alguns minutos.

— Ele é amado – Afirma, não sabendo bem como agradecer-lhe por isso – Ele tem a família que nunca teve e é amado, Morgana.

Franzindo a testa, Lefay apenas pisca.

— Obrigada por levá-la ao passado, por levá-la para ele – Agradece com humildade – Sei que não era sua intenção, mas... Obrigada por dar-lhe uma família. Ele é amado e isso é o principal para mim.

Sorrindo com divertimento, Morgana deitada a cabeça para o lado.

— Não acho que eu possa levar os créditos por eles formarem uma família – Fala, ligeiramente travessa – Apenas troquei os frascos com a poção anticoncepcional da Hermione. Mas, os esforços físicos foram todinho deles – Uma risada divertida escapa de seus lábios – E garanto a você que eles fizeram muitos esforços físicos para chegarem neste resultado – Completa, passando por ela e seguindo seu caminho de volta a sua casa, rindo com a expressão perplexa da outra.

Se pudesse ficar corada, Mérope teria ficado. Mas, como não pode devido ao seu estado espectral, ela apenas ostenta olhos arregalados e boca ligeiramente aberta, ainda assimilando a conotação sexual das palavras de Morgana.

“Não há nada no mundo, nem recompensa, nem castigo, o que há são consequências.”

— Robert Ingersoll

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo, fiz ele com muito amor para vocês ❤️ Pelas minhas contas, a história só durará mais 4 ou 5 capítulos, por isso, desde já estou ficando tristinha. Não sei se respondi todas as suas dúvidas neste capítulo ou se deixei vcs confusos, então... Comentem!! Vamos discutir o rumo da história Leitores fantasmas, pronunciem-se!! Não mordo, prometo. PS: Essas foram as palavras usadas no ritual de Morgana: A ti concedo está terra, A ti propago esse ar, Do pó viestes, ao pó voltarás Do futuro para o fim dos tempos, Tom Marvolo Riddle Beijinhos sabor passado concluído!!