Desire Obsolete
7 Violeta
Notas iniciais
Arqueio o objeto metálico contra a luz solar que adentra pela janela do meu quarto, vendo o roxo florescente se destacar e refletir vários pontinhos coloridos sobre toda a estrutura circular do vira-tempo.
Parada em frente à janela, analiso, pelo 2 dia consecutivo, o objeto mágico em minhas mãos. Eu estou, completamente, cativada de curiosidade a respeito dele.
Intrigante!
Estruturalmente, tirando o tamanho avantajado e o pó arroxeado, aquele vira-tempo era igual aos demais. Mas essas pequenas diferenças distintas, faziam dele exótico no mundo bruxo. E, consequentemente, em minha opinião, mais perigoso e interessante.
— A quem quer que você pertença... Qual é sua finalidade? – Pergunto-me em voz alta, girando o objeto em minhas mãos, cuidadosamente.
Desde o momento em que ele veio parar em minhas mãos, esse é um dos mistérios mais frequentes que rodeiam minha mente, juntamente com o da mulher misteriosa do parque. Mesmo com todas as coisas que aconteceram comigo, nosso encontro vez ou outra retorna para minha mente, instigando-me a descobrir sua identidade.
Batidas na porta me tiram de meus devaneios.
Guardo rapidamente o vira-tempo em sua caixa e deposito ela na gaveta do criado mudo, vislumbrando a letra “M” uma última vez antes de fechá-la.
— Pode entrar!
O Sr. Granger adentra o quarto, sorrindo calorosamente para mim. Tento sorrir de volta, mas meu rosto se forma mais em uma careta do que propriamente em um sorriso.
— Você está bem, querida? – Pergunta, sentando-se em minha cama.
Seus olhos verdes refletiam cansaço e tristeza. Sinto meu coração de comprimir de culpa. Eu estava tão confusa e magoada sobre tudo, que não via o quão mal eles deveriam estar se sentindo pelo meu afastamento súbito. Sempre fomos muito unidos.
— Claro, estou bem! — Ofereço-lhe meu melhor sorriso – O senhor sabe... Início de um novo ano letivo... Estou extremamente ansiosa! – Reviro meus olhos, fingindo exasperação para tentar da mais verdade às minhas palavras.
Ele sorri, calidamente.
— Você se sairá bem, meu anjo – Afirma, amoroso.
Olhando para todos os lados do quarto, posso perceber que o mesmo está nervoso e inquieto.
— Sabe, Hermione... Eu não digo isso muito, mas... – Ele coça o queixo com a mão, em um claro sinal de nervosismo – Sua mãe e eu temos muito orgulho de você. E quem não teria? – Pergunta retoricamente, sorrindo feliz – Você é uma filha maravilhosa! E sempre poderá falar conosco... Sobre qualquer coisa!
Sinto meus olhos marejarem.
Ah, não! Por favor, não!
Tento engoli minha saliva, mas minha garganta estava seca demais para tal ato.
— O-obrigada, p-pai – Gaguejo, emocionada. A palavra pai sai deixando um gosto amargo em minha boca.
Ele sorri, amplamente.
O mesmo se levanta e vai em direção a porta, parando antes de sair e encarando-me intensamente.
— Você almoçará conosco hoje? – Sua pergunta era simples, mas extremamente significativa.
Confirmo com a cabeça, incapaz de falar.
— Eu gostaria de arrancar essa tristeza dos seus olhos, meu bem – Murmura, cabisbaixo.
Então, ele vai embora, me deixando destroçada para trás.
Cubro minha boca com a mão, tentando reprimir os soluços que querem escapar. Sinto o rastro quente e molhado das minhas lágrimas banhar meu rosto, enquanto minha visão fica desfocada e minhas pernas enfraquecem.
Caiu de joelhos no chão, dando vasão a todos os sentimentos conturbados que me atingem.
[...]
Olho-me no espelho, mal reconhecendo a garota que me encara de volta. Seus olhos opacos, inchados e seu semblante cansado me dizem muito sobre ela, sobre mim. Eu cheguei ao meu limite. Estou no fundo do poço, emocionante falando. Nas últimas duas horas eu chorei e refleti sobre todas as minhas ações.
Ouvi-lo dizer o quanto sentia orgulho de mim me fez desmoronar. Mas entre soluços e lágrimas, eu percebi o quão distante da Hermione que os deixava orgulhosos eu estava, e que essa garota covarde e afundada em alto piedade que me encarava de volta no espelho não era quem eu queria ser. Eu era mais que os erros que meus pais cometeram (biológicos e adotivos), e tinha mais a oferecer que um coração amargurado.
Harry, Rony, Dumbledore e toda a Ordem da Fênix precisavam de mim em meu melhor. A guerra que rastejava em nossa direção não esperaria eu me recompor e sair da minha bolha de tristeza.
Respiro fundo, decidida.
Chegou a hora...
[...]
Saio do quarto a passos lentos, praticamente, arrastando meus pés.
— Estávamos esperando por você, querida – Diz a Sra. Granger, colocando o que me parecia ser um ensopado de carne na mesa, quando chego na cozinha.
O Sr. Granger já estava sentando na mesa, servindo-se de salada.
Ele me olha e sorri.
Nos últimos dias eu tinha evitado chamá-los de meus pais, sentindo como se isso fosse errado. Mas vendo o modo como os dois estavam me olhando, como se eu fosse seu mundo, eu não podia negar... Mesmo que minha entrada para essa família tivesse sido envolta de tragédia e dor, eu fazia parte dela agora. E estava, enfim, disposta a lutar por ela.
Sento-me à mesa, sendo seguida por Jane, minha mãe.
Era estranho, mas eu precisava me reeducar para começar a chamá-los de pais de novo.
Começamos a comer, a tensão estalando a minha volta. O tilintar dos talheres raspando nos pratos é o único som presente no ambiente. Percebo que nunca comemos tão silenciosamente quanto agora. Antes eles ainda tentavam conversa comigo, mesmo eu dando resposta curtas e distantes, mas algo está os incomodando tanto a ponto deles não quererem puxar assunto.
— Algo de errado? – Pergunto.
Eles se entreolham, então fazem que não com a cabeça. Meu pai volta a atenção para o prato, claramente, evitando meu olhar.
— Claramente tem algo incomodando... O que é? – Insisto, curiosa.
Minha mãe suspira, então larga os talheres e me encara.
— Recebemos uma carta hoje, Hermione – Começa, encarando-me. Vejo meu pai se remexer na cadeira – E ela nos surpreendeu.
— Que carta?
Ela se levanta sem dizer nada e sai da cozinha. Ouço-a subir a escada que levava aos quartos.
— O que está acontecendo? – Pergunto, novamente, me voltando para um Arthur Granger quieto, encarando sua comida como se ela fosse seu bote salva-vidas.
— Não se preocupe! Apenas fomos pegos com a guarda baixa, querida – Diz, sem me encara.
— Como? Não entendo...
Jane volta a cozinha a passos rápidos. Ela não se senta, apenas coloca um envelope azul na mesa, ao meu alcance. Então, cruza os braços e encara meu pai, que encarava seu prato.
Assim que meu olhar recai sobre o envelope, reconheço de imediato o brasão presente no mesmo, eu havia estudado sobre o mesmo a pouco menos de uma semana. As estrelas inconfundíveis, assim como as cores – vermelho, azul e branco – saltavam a vista.
Mas, o que? Pego-o, apressadamente.
O papel era macio e possuía um forte cheiro de flores do campo. Tiro a carta lá de dentro e começo a ler.
Instituto das Bruxas de Salem
Diretora: Mabelle Annelise Salem
(Ordem de Salem, Primeira Classe, Grande Feiticeira, Bruxa Suprema, Confederação Internacional de Bruxos)
Prezados, Sr. e Sra. Granger
Temos o prazer de informar que vossa filha tem uma vaga de intercâmbio no exclusivo e renomado Instituto das Bruxas de Salem, vaga conquistada devido a seu excelente desempenho acadêmico e suas digníssimas recomendações.
O ano letivo começa em 2 de Setembro. Aguardamos sua coruja até 30 de julho, no mais tardar.
Atenciosamente,
Annette Salem, diretora substituta.
Termino minha leitura não sabendo o que falar ou pensar. Mas está bem claro em minha mente que aquilo é obra de Narcisa. E que aquela carta ter sido enviada para eles e não para mim, me diz que ela está disposta a jogar sujo para me mandar para longe.
— Pensamos que você estava feliz em Hogwarts, querida – Diz o Sr. Granger com cautela, enfim, encarando-me.
— E eu estou!
— Então porque você quer ir para esse... Esse Instituto sei lá do que? – Minha mãe estava nervosa, e ela nervosa era um péssimo sinal.
— Eu não quero...
— Oras, Hermione, se você não queria ir, então como ganhou a bolsa? – Interrompe Jane, irritada.
Empertigo-me na cadeira.
Por que toda essa irritação? É só uma droga de carta.
— Eu não entendo o porquê de toda essa irritação. Eu claramente não vou – Disparo, chateada.
Ela coloca as mãos na cintura, pronta para me dá um sermão.
— Hermione, há tempos que você mal fala conosco, nos evita e fica trancada em seu quarto. E então, de repente, descobrimos que você foi aceita em um Instinto, Deus sabe lá onde... Nós é que não entendemos o que está acontecendo – Diz tudo em um fôlego só, brava.
— Fica em Massachusetts! – Falo, à guia de explicação. Mas percebo que isso só enfurece ainda mais ela – Eu não vou...
— Você não vai estudar nos Estados Unidos, mocinha – Afirma, seu rosto ganhando uma coloração avermelhada nas bochechas. Ela estava possessa.
— Hermione – o Sr. Granger interrompe, calmo – Nos só não queremos que você nos esconda as coisas. E esse Instituto não...
Gargalho, sem humor.
— Vocês só podem estar brincando! – Minha voz sai mais alta e fria do que eu gostaria.
— Olhe o tom de voz, Hermione – Me adverte ela.
— Vamos todos nos acalmar – Aconselha ele, pacífico.
— Não, Arthur! Hermione precisa entender que seus atos tem consequências, e que mentir para nós é errado – Jane diz, em tom de bronca.
Consequências? Mentir? Isso só pode ser uma piada do universo.
— Se eu sou uma mentirosa, o que vocês são? – Pergunto, irada.
Vejo que minha raiva e pergunta ácida os pegou de surpresa. Minha mãe adotiva pisca algumas vezes, enquanto meu pai me encara pasmo.
— Do que você está falando, Hermione? – Ele me pergunta, cauteloso.
— Vocês querem saber porque estou tão afastada ultimamente? – Pergunto, tentando manter o meu tom o mais neutro possível, mas por dentro eu borbulho de raiva.
Eles estão me culpando por algo que eu não tenho culpa, e isso eu não iria aceitar. Não sou uma mentirosa!
Percebo que eles se entreolham, antes de afirmarem positivamente.
— Eu não aguento ficar perto de vocês enquanto vocês mentem pra mim como se eu fosse uma idiota – Falo, friamente – Eu sei que não sou filha biológica de vocês.
Vejo o assombro tomar posse de seus rostos, eles empalideceu simultaneamente. A mulher a minha frente leva a mão à boca, enquanto seu marido agarra as extremidades da mesa.
— O-o que... O-o que você disse? – Me pergunta ela, assombrada.
Dou de ombros, olhando para meu prato. Eu perdir a fome.
— Por que nunca me contaram? – Minha voz sai amargurada.
Tento manter a calma, entrar naquele assunto discutindo nunca fora o que eu queria, mas atravessar o mesmo em uma discussão não era o ideal. Eu odiava discussões.
— Quem te falou uma barbaridade dessas? Você é nossa filha! – A convicção presente na voz dela voz não me abala, só me contraria.
— Não importa como descobrir. O que importa é, porque vocês nunca me contaram?
Eles se olham e ali travam uma conversa não verbal que não entendo nada. No entanto, pelas expressões do meu pai, ele queria contar a verdade, mas ela não iria abrir a boca tão facilmente.
— Não sabemos como você chegou nessa conclusão estapafúrdia, mas está completamente errada – Diz a mesma, com o tom de voz neutro.
— Será que uma vez na vida vocês poderiam não mentir para mim? – Falo, em uma explosão de raiva – Vocês são dois mentirosos patológicos ou o quê?
— Hermione, acalme-se! – o Sr. Granger ordem, perdendo a paciência – Somos seus pais e não admitiremos que você fale assim conosco.
Olho para eles, irritada. Meu sangue pulsava nas veias, desenfreado. Sua recusa em admitir a verdade só me irritava ainda mais.
Abandono a cozinha sob protestos dos mesmos, levando comigo a carta do Instituto de Salem.
— Hermione, volte aqui agora mesmo! – Pede o Sr. Granger.
— Nos obedeça, mocinha – Ordena a Sra. Granger – Hermione, volte já aqui!
Subo a escada de dois em dois degraus, rapidamente.
Assim que passo pela porta do meu quarto, fecho a mesma com força.
Eu não estou mais aguentando ficar perto deles e de suas mentiras. E se eles querem me tratar como uma criança, eu irei agir como uma. O que é irracional, mas eu não me importo.
Me jogo na cama, deixando a carta sobre o criado mudo, e começo a chorar, compulsivamente. Tendo a raiva e mágoa como combustíveis para minhas lágrimas.
Como eles podem fazer isso comigo?
Espero eles virem até meu quarto, mas isso não acontece.
[...]
Acordo escutando batidas fracas na porta. Minha mente enevoada pelo sono não detecta no começo quem era, mas logo a voz feminina inconfundível da Sra. Granger é nítida para mim.
— Querida, é hora do jantar... Vamos conversar, por favor! – Implora ela.
Enterro meu rosto no travesseiro, ignorando a mesma.
— Por favor, Hermione! – Sua súplica não surte nenhum efeito em mim – Filha... Tudo bem, eu vou embora, mas... Amamos você muito, querida. Desculpe por mais cedo, eu... Não podemos te perder, querida! – Sua voz embargada denúncia que ela vai começar a chorar a qualquer momento.
Suspiro, escutando a mesma se afastar.
Logo cedo eu havia planejado conversa com eles e explicar que sabia e que não me importava de não ser filha biológica deles, contanto que me amassem. Mas aquela maldita carta tinha feito a conversa sair totalmente do controle. E suas recusas em admitir a verdade só me deixaram ainda mais insegura e irritada, não disposta a conversar. Internamente, culpo Narcisa por todo esse desastre.
Fecho meus olhos e me entrego ao mundo de Morfeu.
[...]
Acordo de madrugada sentindo sede, com meu humor sereno. Falar em voz alta para eles que eu sabia da verdade tirou um enorme peso de meu corpo.
Vou até a cozinha e volto sem ser notada, com a casa completamente tomada pela escuridão noturna.
Sento-me na cama, sabendo que não conseguiria voltar a dormir nem tão cedo. Olho a minha volta, ansiosa. Então decido, por fim, que eu precisava ocupar minha mente e corpo com algo para fazer, antes que meus pensamentos sombrios me levassem à lugares tristes.
Opto por terminar de arrumar meu malão.
Tirou-o de debaixo da cama e coloco o mesmo em cima dela, abro e verifico o que já se encontrava dentro e tomo nota, mentalmente, do que eu ainda precisava ser colocado ali.
Vou até meu guarda roupas, pego algumas calças, blusas e suéteres e começo a dobrar para guardar.
Meia hora depois tenho todas as minhas roupas, produtos de higiene, calçados, livros e materiais escolares, apropriadamente, guardados.
Olho para a carta no criado mudo, decidindo se eu devia queimar ou guarda. Opto pela última opção. Pego a mesma e guardo-a no malão, dentro de meu livro sobre as escolas de magia da América. Fecho o mesmo manualmente.
Abro a gaveta do criado mudo e retiro de lá a caixinha contendo o vira-tempo misterioso.
Em Hogwarts irei obter as informações que preciso sobre você, penso feliz, olhando sua ampulheta com atenção. Seu pozinho roxo me intrigava mais que tudo.
Do que você é feito?
Sento-me na cama, com o mesmo em minhas mãos. Fico alguns minutos contemplando sua estrutura, mas então lembro que dormi sem tomar banho.
Eca!
Coloco o pequeno objeto misterioso em cima do malão, cuidadosamente, e vou para o banheiro, levando comigo meu pijama preferido.
Tomo um longo e relaxante banho quente, a água juntamente com o vapor me revigoram. Visto o short e a blusa do pijama e volto para meu quarto.
Adentro o mesmo cantarolando uma musiquinha de ninar que a minha mãe trouxa costumava cantar para mim quando eu era criança e tinha medo de tempestades com trovões.
Assim que percebo a cena à minha frente, paraliso. O pequeno vira-tempo está brilhando, literalmente, brilhando!
Boquiaberta, vejo o pozinho dentro da ampulheta iluminar todo o cômodo, emitindo uma luz forte e violeta.
Oh, merda!
Corro até minha varinha, que está depositada no criado mudo. Pego-a e me aproximo, cautelosamente, do objeto brilhante. A luz violeta é quase hipnótica, mas também dolorosa a visão.
Aponto minha varinha para o vira-tempo, instintivamente, planejando destruí-lo.
— Não faça nada estúpido, minha jovem – Pede, uma voz feminina familiar.
Viro-me depressa, com o coração a galopes, procurando a dona da voz. Mas eu estou sozinha, não vendo ninguém no quarto comigo.
— Quem está aí? Revelisse! – Mando, nervosa.
Olho para os quatro cantos do quarto, segurando minha varinha com força. Sem emitir som algum, lanço o feitiço abaffiato, para que seja lá quem estivesse ali, não pudesse ser ouvida pelo Granger’s. E, consequentemente, não os fizesse mal.
Meu corpo se arrepia, subitamente.
A voz feminina volta a se fazer presente, entoando baixinho o que me parecia uma cantiga sombria, mas que eu não conseguia distinguir as palavras. Sua voz bela e suave dava um toque aterrorizante para a música.
O brilho violeta toma intensidade, me fazendo voltar minha atenção para o vira-tempo. O mesmo respondendo as notas musicais proferidas pela voz.
Ela está fazendo-o brilhar com mais intensidade só por cantar. O que está acontecendo aqui? Me pergunto, assustada.
A voz entoa a cantiga com mais força, arrancando mais luminosidade do objeto mágico.
Antes que eu possa fazer ou falar qualquer coisa, o quarto é tomado pelo violeta, não consigo ver nada a minha frente a não ser essa cor.
— O que está acontecendo? Pare com isso! – Desesperada tento me mover, mas meu corpo paralisa no lugar.
Sinto dedos hábeis jogando meu cabelo para o lado direito do meu pescoço, por trás.
Arfo em pânico.
— Não se preocupe, querida. Vai dá tudo certo! – Sussurra a mulher em meu ouvido. Algo metálico e frio é depositado em meu pescoço. Colar!
Mesmo não conseguindo mexer minha cabeça para olhar o quê é, percebo que o brilho violeta fica mais intenso ali, logo deduzo que o que está em meu pescoço nada mais é do que o vira-tempo.
— O-o que você...? – Tento formular minha pergunta, mas dois dedos são posto em minha boca, fazendo com que me cale.
— Silêncio!
Ouço passos atrás de mim, até que uma bela mulher aparece em meu campo de visão.
— Você!? – Exclamo, surpresa.
À minha frente se encontra a mulher misteriosa que eu encontrei há alguns dias atrás, no parque.
Ela sorri perante minha surpresa.
— Volare in altum cum nubibus caeli – Murmura para mim, então suas mãos vão até o vira-tempo em meu pescoço, ela mexe suas engrenagens.
— Por favor, não! – Imploro, mas ela me ignora, concentrada em suas ações – Por que você está fazendo isso? O que eu te fiz? – Lágrimas começam a cair sem que eu perceba — Quem é você?
Ela se afasta de mim, sorrindo.
De repente, tudo perde o foco ao meu redor. E então, sem nenhum aviso prévio, eu estou caindo em um abismo sem fim.
"O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente..."
— Mário Quintana
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