Notas iniciais
Enjoy

Retomo a consciência sentindo frio e dor, muita dor.

Tento abri meus olhos, mas a dor pulsante em minha fronte me faz gemer e permanecer com eles fechados. Cada parte do meu corpo emite rajadas de dor latentes.

Gemo, baixinho.

O frio cortante penetrar, ainda mais, em minha pele. Tento me encolher em uma bola para me aquecer, mas algo molhado e áspero arranha minhas pernas nuas.

Abro meus olhos, assustada.

A forte dor de cabeça me desorienta por alguns segundos, mas ao me recompor percebo estar deitada de bruços em grama e terra molhada, cercada por sombras projetadas acima de mim. A luminosidade é escassa, tudo está quase tomado pela escuridão que eu julgo ser noturna.

Onde estou?

Tento me levantar, mas meu corpo não consegue reunir as forças necessárias para isso. Levo minha mão esquerda até minha testa, massageio ali ritmicamente, tentando aplacar a forte dor. Quando afasto a mesma, sinto algo pegajoso e com um forte cheiro metálico ficar em minhas mãos.

Oh, merda! Isso é sangue? Sou tomada por assombro. O que aconteceu?

Forço minha mente em busca de respostas, mas encontro dificuldade em obtê-las. A dor pulsante cria uma parede grossa e dolorosa entre minhas memórias e eu. O pouco que me lembro é de ter brigado com os Granger’s sobre a maldita carta do Instituto de Salem e de ter ido dormir culpando Narcisa por tal infelicidade. Mas fora isso, nada mais me ven a mente.

O desejo do meu corpo é permanecer deitado e voltar a inconsciência. Posso sentir cada célula minha gritar por descanso e paz. No entanto, eu não posso dormir, não sem saber onde estou e como vim parar ali.

Procuro minha varinha com o olhar, tendo uma visão limitada do lugar pela forma como estou deitada e pela escuridão que me cerca.

Com muito esforço, reúno forças para tentar me levantar, mas desabo no chão logo em seguida, fraca. Meu corpo treme e se arrepia devido a aspereza do solo, que arranha minha pele, e o molhado gélido da grama rala. Tento novamente, com mais afinco. Consigo, enfim, me pôr de joelhos no chão.

Tateio, desesperada, tudo à minha volta, buscando minha varinha.

Onde está...? Cadê...? Merda! Onde está...?

A terra áspera arranha minhas mãos e joelhos, mas não me importo, continuo procurando. Assim que sinto minha varinha tocar meus dedos, agarro-a firmemente.

Ah, graças! Suspiro, aliviada.

— Lumos! – Sussurro o feitiço, escutando minha voz sair rouca e fraca.

A ponta de minha varinha se acende, lançando luz frente a escuridão.

A primeira coisa que percebo, assim que a luminosidade alcança o cenário à minha volta, é que estou cercada por árvores densas, e que eram elas que projetavam sombras acima de mim, impedindo a luz da lua de chegar até aqui em baixo. Eram tão próximas umas da outras que mal se dava pra ver adiante. O solo era escuro, cheio de deformidades e secura, com gramas amareladas e em alguns lugares podres. Têm ervas daninhas por todos os lados e mais algumas ervas que eu não reconheço.

Percebo que caído, inofensivo, perto de uma pequena brecha entre duas árvores gigantes, está um malão.

Rastejo indo de encontro ao mesmo. Assim que chego até ele, volto à completa escuridão, tendo a luz emitida pela minha varinha se apagado.

Volto a lançar o feitiço, avaliando meu estado. Chocada, percebo está usando apenas um pijama fininho e que agora está completamente sujo. Ótimo! Quase seminua e presa em uma maldita floresta. Muito bem, Hermione!

Estou completamente sozinha, dolorida, suja e com frio, em uma floresta desconhecida, não sabendo como tinha vindo parar aqui. Pode piorar?

Um trovão rasga os céus. Solto um breve grito de susto, e então, uma grossa camada de chuva começa a cair, encharcando-me.

Uau, com certeza pode! Penso, enquanto começo a tremer, violentamente, de frio.

Em um breve aceno de varinha, o ar à minha volta esquenta um pouco, mas não o suficiente para me aquecer de verdade, já que por mais eficaz que o feitiço de aquecimento pudesse ser, está chovendo muito forte.

Usando o malão como apoio, consigo me por de pé, mesmo com os protestos do meu corpo dolorido.

Okay, eu preciso sair daqui!

Olho para a pequena passagem entre as duas árvores, eu com certeza consigo passar ali se me espremer o suficiente, mas o malão não.

Abro ele com cautela, rezando para que seja o meu mesmo. Me deparo com meus objetos pessoais. Suspiro, satisfeita. Um rápido flash de memória me atinge, nele eu estou em meu quarto trouxa, é de madrugada e eu estou ajeitando minhas coisas para minha partida para Hogwarts.

Franzo a testa, confusa.

Há quanto tempo foi isso? Os Granger’s já notaram meu sumiço? Como vim para aqui... E onde é aqui?

Vasculho o malão até achar minha bolsinha lateral, pego um sobretudo preto e o visto. Fecho-o e então lanço reducio, vendo o mesmo diminuir até ficar do tamanho de uma caixa de fósforo.

Guardo-o em minha bolsinha, e me espremo para passar pela brecha das árvores, arranhando-me com seus troncos espinhosos.

Livre, me deparo com mais árvores densas e escuridão noturna, mas dessa vez não me detenho, continuo andando. Meu cabelo gruda em meu rosto e nuca, encharcado. A chuva cai torrencialmente, com relâmpago esporádicos.

Penso em fazer um guarda chuvas com minha varinha, mas isso a inutilizaria por momentos precisos. E sem saber onde estou, eu preciso dela mais que nunca. Não à garantias de que eu estou próxima de algum lugar conhecido, e muito menos que eu ainda estou na Inglaterra. Eu preciso está preparada para o pior.

Aponto minha varinha para frente e murmuro point me. Rapidamente, minha mão é guiada pela varinha para meu lado direito, indicando-me que aquele era o norte. Eu nunca utilizei esse feitiço antes, — é como uma bússola e indica sempre o norte. Mas as circunstâncias exigiam isso.

Sigo aos tropeços para o norte, me deparando com árvores grandes e antigas, algumas de troncos musgosos e retorcidos, outras largas e nodosas, outras delgadas e compridas. Suas copas densas bloqueiam a luz da lua com tamanha eficiência, que em certos pontos é totalmente impossível enxergar um palmo à frente do nariz, eu preciso, frequentemente, usar o lumos.

O lugar me trás sensações familiares, mas não me vem nenhum nome a mente.

Quanto mais avanço, mas as árvores vão se afastando uma das outras, mas continuam densas, grandes e sombrias. O lugar todo exala perigo. A qualquer momento sinto que alguma criatura horrível vai pular na minha frente e me atacar.

Os únicos sons que ouço ali são os do farfalhar da folhagem que parece sussurrar uma cantiga maldosa, outras vezes parecendo murmura indiferente, apenas o diálogo entre o vai-e-vem dos galhos e o som do vento se deslocando, suave, é o que me cerca. Não é nem de longe confortador saber que estou sozinha aqui.

Não percebendo um pequeno buraco no chão, caio pra frente, não conseguindo me apoiar em nada devido ao terreno lamacento.

— Ah, merda! – Exclamo, irritada.

Um relâmpago corta o céu, jogando uma breve luminosidade à minha volta. Me levanto com dificuldade, sentindo meus músculos doerem e meus joelhos arderem.

Minha dor de cabeça piora, gradativamente. Massageio de novo minha fronte, dessa vez não vem sangue. Seja lá como consegui o corte em minha testa, o sangue já secara e a água o lavara.

Volto a andar, desejando encontrar quem quer que seja, e que possa me dizer onde estou.

[...]

Não sei por quanto tempo caminho, mas a quantidade de tropeços e quedas que levo, me põem em um estado lamentável de cansaço, sujeira, arranhões e dores. E a chuva torrencial agora nada mais é que uma fina garoa antipática.

Respirando com dificuldade, paro para analisar o lugar à minha volta, percebendo que aonde eu estou é menos denso e mais aberto, com uma grama um pouco maior e muito menos elevações no solo.

Franzo a testa, sentindo como se conhecesse o lugar.

Um barulho de galho quebrando atrás de mim, me tira de meus pensamentos. Seguro minha varinha com mais força, e me viro para trás, esperando ver o que causara o ruído.

Das sombras das árvores, um garoto de cabelos negros e pele pálida, trajando capa de chuva negra e um lampião, emergi, falando baixinho com alguém que vinha logo atrás dele. Não posso ver seu rosto, apenas seu perfil, mas isso basta para me informar que ele é lindo. E que não o conheço.

— Olá! – Falo, baixinho, para não lhe assustar.

O mesmo para no lugar, abruptamente, e saca a varinha em questão de milésimos de segundos. Com uma postura altiva, aponta sua varinha para mim, como se a qualquer momento fosse me estuporar ou coisa pior.

Um bruxo? Oh, Merlin! Onde vim parar?

Ele me avalia, friamente, da cabeça aos pés, franzindo a testa ao analisar meu corpo. Desejo, fervorosamente, ter fechado o sobretudo, para que ele não pudesse ver, o que antes foi um lindo pijama azul clarinho, e agora é uns trapos rasgados e sujos.

Engulo em seco, nervosa.

Seu perfil não fazia jus a beleza espetacular que ele tem. Seu rosto é pálido, sua boca pequena e rosada, seus olhos não consigo distinguir a cor, seus ombros são largos e é bons 15 centímetros maior que eu. Seu cabelo está impecavelmente arrumado.

— Quem é você? – Pergunta, friamente. Sua voz rouca me desconcerta, ligeiramente.

Fico sem jeito por alguns segundos, não sabendo o que responder. Nesse meio tempo, surge ao lado dele outro garoto, loiro, altivo e incrivelmente familiar.

O choque ao ver a réplica ambulante de Draco me faz solta um leve gritinho e pular pra trás, empunhando minha varinha e apontando a mesma para o loiro.

— Malfoy! – Exclamo, entre dentes.

— Opa! Calma, garota! – Pede, arqueando as mãos em sinal de rendição e dando alguns passos para trás.

Me mantenho inflexível, olhando o mesmo raivosa. Ele não é idêntico ao Draco somente por seus cabelos serem maiores e por ser mais alto e musculoso.

Droga, um Malfoy? Também seguidor do Lord? Será que minha situação é culpa daquele monstro? Algum tipo de armadilha? Minha mente gira, trabalhando em possibilidades.

— Tom, faça alguma coisa – Implora o garoto, percebendo que eu não iria amolecer.

O moreno abserva tudo, estranhamente, curioso e interessado.

Fico ligeiramente tonta por alguns momentos, sentindo pontadas de dores partirem meu crânio ao meio. Minha visão embaça e acabo tento que fechar meus olhos, ao abri-los percebo que o moreno guardava sua varinha.

— Você não respondeu minha pergunta, senhorita...? – Sua voz sai mais branda, suave.

— Granger, Hermione Granger – Respondo, ainda tentando assimilar tudo em meio a dor insuportável na minha cabeça.

Abaixo minha varinha.

— Miss Granger, o que você faz na floresta proibida? – Pergunta, meu sobrenome em sua voz saindo com asco.

Minha boca se escancara em assombro.

— Floresta proibida? O que? Mas... Mas... Oh, Merlin! – Balanço a cabeça, em negação.

Como eu vim parar aqui?

Ele dá alguns passos cautelosos até mim, me afasto aos tropeços. O mesmo para e olha para o Malfoy. Algum tipo de conversa mental acontece ali, porque no minuto seguinte, vejo o loiro parti para longe.

— On-onde ele vai? – Pergunto, assustada.

Ele da de ombros.

— Não se preocupe, a senhorita está desorientada e precisando de ajuda... Em Hogwarts você as conseguirá, lhe garanto – Diz, calmo.

— Hogwarts? Ah sim... Aahhhh, é isso! – Meu gritinho feliz o pega de surpresa e o aborrece igualmente – Preciso ver o diretor Dumbledore – Afirmo, baixinho.

Ele estala a língua para mim, em desaprovação. Sinto minhas bochechas ruborizarem, aquele gesto sendo sexy em demasiado.

— Diretor Dippet!

— Desculpe-me...? — Pergunto, tímida.

Ele suspira, irritado.

— Dumbledore é apenas o professor de transfiguração e diretor da Grifinória, o diretor de Hogwarts é Armando Dippet – Explica.

— O que? – Armando Dippet já morreu. Ele só pode ser louco! — Do que você está falando? Dumbledore é o diretor.

Ele claramente não gostou de ser contrariado, porque seu rosto ficar sombrio e sua boca se aperta em uma linha rígida.

— Não seja tola, garota. Eu estudo em Hogwarts por mais de cinco anos, e com certeza sei quem é o diretor, já você... Seus antecedentes são incertos e duvidosos – Fala, irritado. Sua voz assume um tom de zombaria no final.

Fico encarando o mesmo, confusa.

Eu nunca havia o visto em Hogwarts em toda a minha vida estudantil, e muito menos ao outro Malfoy. E, com certeza, eu tenho plena certeza de que Alvo Dumbledore é o diretor de Hogwarts.

Um flash de memória me atinge, trazendo consigo a imagem de um clarão forte violeta tomando tudo à minha volta, enquanto sinto que estou caindo em espiral.

O que...?

— Em que ano estamos? – Pergunto, temerosa.

Ele franze a testa, encarando-me altivo.

— Estamos em 1944, Granger – Sua resposta é curta e fria.

Desabo no chão, sentindo meus joelhos perderem as forças.

Ah, merda, merda, merda!

Seguro-me no solo, enquanto minha mente gira, me deixando tonta. As memórias me vem como uma torrente elétrica forte; madrugada, banho, quarto, vira-tempo, mulher, luz violeta, caindo...

— A senhorita está bem? – Sua voz não emite preocupação, na verdade, está bem monótona.

1944... Penúltimo ano do Lord Voldemort em Hogwarts... Penso, consternada. Do que aquele Malfoy chamou ele... Tom? Oh, meu Deus!

— E-eu não sei seu no-nome – Minha respiração se acelera, meu sangue pulsa em meus ouvidos. Sinto meu estômago embrulhar.

Uma camada de suor fino começa a aparecer em meu pescoço. Eu estou a beira de um ataque de pânico. Nunca tive um, mas deve ser essa a sensação: o mundo se fechando em volta de você.

— E como ia saber se eu não falei, não é mesmo? – Pergunta sarcástico, alheio ao meu estado.

Fico quieta, não sabendo se conseguiria responder sem surta.

— Riddle, Tom Riddle – Fala, contrariado.

A última coisa que me lembro antes de desmaiar é de ver um jovem Dumbledore surgindo entre as árvores, com suas vestes brilhantes contrastando com o ambiente sombrio.

“Creio que quase sempre é preciso um golpe de loucura para se construir um destino.”

— Marguerite Yourcenar

Notas finais
Gostaram? Mereço comentários? Leitores fantasmas, ressuscitem. Obrigada por lerem até aqui, um comentário não vai fazer seus dedinhos caírem, só vai me enche de felicidade e inspiração para postar o próximo capítulo logo. Beijinhos sabores proibidos!!