Desire Obsolete
18 Sonhos
Notas iniciais
Corro meus olhos sobre a mesma linha de palavras pela terceira vez, distraída demais para me focar em seu conteúdo.
O que está acontecendo comigo? Me pergunto, aborrecida.
Já deve passar das nove da noite e o barulho da festa ocorrendo a poucos metros de mim não da sinais de que irá cessar. Mas esse não é o motivo para minha falta de concentração. A razão para tal tormento tem olhos azuis tempestuosos e uma capacidade devastadora de me confundir.
“Riddle me ajuda a levantar com calma.
— Você está bem? – Pergunta.
Faço que sim com a cabeça.
— E você?
Ele meneia a cabeça positivamente.”
Suspiro, contrariada.
Qual o motivo de sua gentileza? Você não precisava me ajudar a levantar ou me perguntar se eu estava bem, mordo meu lábio inferior. Eu não entendo... Seu joguinho de palavras... Isso é tão confuso! Concluo, frustrada.
O duelo de mais cedo fica indo e vindo em minha mente, não por seu resultado, mas sim pela forma como se encerrara, com suas últimas palavras martelando em meu cérebro.
“Ele sorri lentamente para mim.
— Você é uma coisinha fascinante, miss Granger – Sussurra, para em seguida se afastar, indo para junto de seus comensais, que não poderiam está mais perplexos.”
Esfrego minhas têmporas com os dedos e me afundo um pouco no travesseiro.
Eu não posso ficar pensando nisso. É loucura! Nunca vou entender como sua mente perturbada funciona.
Fecho o livro que repousa em cima de minha barriga, após ser abandonado por mim, e o ponho no criado, desistindo de tentar absolver seu conteúdo.
Já chega! Preciso dormir.
Cubro-me com meu lençol e me aconchego na cama, tratando de fechar logo meus olhos. Tento regular minha respiração para que pudesse pegar no sono mais rápido. Inspirando e expirando.
O amanhã me trará novas oportunidades, penso antes de cochilar.
Quando a porta é aberta em um solavanco, me sento na cama assustada e desorientada, me deparando com duas loiras risonhas que adentram o quarto como se fossem donas do lugar.
Pisco meus olhos repetidas vezes para espantar o sono.
— Aí meu Merlin! – Sussurra a mais baixa, horrorizada, ao se dá conta da situação – Eu sinto muito! – Afirma, abrindo e fechando a boca como um peixe fora d'água – Erramos de dormitório, Evelyn – Murmura para a outra.
A tal Evelyn arregala os olhos ao me ver e cobre a boca com a mão, para em seguida engatar uma chuva de desculpas. As duas não aparentam ter mais de 14 anos, por isso, presumo serem amigas de Cassiopeia, a aniversariante e dona da festa surpresa que ocorria no salão comunal.
Eu havia sido convidada por Dorea para participar da festa, mas após refletir por um tempo recusei o convite. Pollux foi o motivo central. Por ser irmão e um dos organizadores da festa, e tendo uma declarada aversão a mim, não acho prudente ir. Em segundo plano, eu digo a mim mesma que não devo ir porque Tom estará lá. E por mais decidida a deixar para lá seja quais forem seus jogos comigo, é melhor manter distância dele.
Sorrio com simpatia para elas.
— Sentimos muito – Volta a desculpa-se a mais baixa.
Balanço a cabeça em entendimento.
— Não se preocupem! Está tudo bem – Garanto, enquanto esfrego meus olhos, tentando me deixar mais alerta. Elas sorriem fracamente e começam a sair – Fechem a porta quando saírem – Peço, sonolenta.
Elas acenam positivamente e saem, fechando a porta com cautela. Suas risadinhas divertidas atravessam a porta, indicando que acham a situação muito engraçada.
Cubro meus olhos com minhas mãos, deixo meu corpo cair na cama e volto a tentar controlar minha respiração.
Meu último pensamento antes de adormecer por completo, é que eu devo me empenhar mais para parar de pensar em Tom Riddle.
[...]
Rindo como uma criança travessa, me ponho a correr de encontro à casa, sabendo que é o certo a fazer, que é onde eu devo está. Meu longo vestido branco agita-se à minha volta, respondendo aos comandos do vento fraco que sopra.
‘Aqui é o paraíso?' Pergunto-me, intimamente desejando que sim.
Atravesso passarela de madeira com rapidez, parando em frente a porta. A estrutura de madeira da casa é maciça e dura. Passo meus dedos pelo material, sentindo a textura e rigidez da madeira raspar em minha pele.
A porta é aberta bem no momento em que eu irei bater. Deixo minha mão cair, envergonhada.
Cambaleio para trás ao ver a figura feminina que abriu a porta. Seus cabelos negros, seus olhos azuis e sua palidez eram inconfundíveis para mim. Ela é o motivo da minha atual condição.
‘Você!' minha mente grita.
— Você demorou – Afirma ela, sua voz saindo exatamente como eu me lembro – Pensei que tinha se perdido no caminho para cá.
Seu sorriso brincalhão me diz que ela só está me provocando.
Abro a boca para retrucar, mas algo estranho acontece. Solto uma risadinha feliz, como se fôssemos conhecidas. Mas o mais assustador é o som da risada, não é a minha risada. O som que sai de minha boca é mais agudo e feminino, delicado demais até. O tipo de risada que eu nunca reproduziria.
— Você me assustou, M – Digo, que dizer, alguém fala.
Minha boca se mexe e sinto essas mesmas palavras saindo de meus lábios, mas aquela não é minha voz, e não é minha intenção dizer aquilo. Eu quero respostas, não socializar com ela como se fôssemos amigas.
‘O que está acontecendo aqui?'
Tento levar minhas mãos até meu rosto, mas nada acontece. Nenhum músculo meu obedece a meus comandos.
— Vamos, entre! – Pede, movendo-se para o lado, deixando uma grande brecha para que eu entre na casa – Logo escurecerá e você não pode leva friagem.
Automaticamente sinto minhas pernas responderem a suas palavras, começo a adentra a casa. Tento frear meus movimentos, mas como antes, meu corpo não me obedece. Paro ao lado dela, ombro a ombro. Sinto meus lábios formarem um sorriso caloroso.
— Eu nunca vou pode te agradecer o suficiente pelo que você está fazendo por mim – A voz que não é minha diz, emocionada – Eu pensei está sozinha... Eu não tinha ninguém por mim, e você apareceu... Obrigada, M! Eu sei que fiz coisas horríveis... – Minha voz, ou a voz da garota em meu corpo, falha no final, arrependida.
Sinto meus olhos se encherem de lágrimas, mas o calor em meu peito me diz serem lágrimas de gratidão.
‘Não, não é meu corpo! Não são minhas lágrimas. Eu não sou grata a essa destruidora de vidas.’
A mulher que me lançou no passado me abraça com forma, acariciando minha cabeça em um afago calmante. Tenho vontade de empurrar, gritar com ela e perguntar ‘porque?'. Mas não controlo meus movimentos. Apenas meus pensamentos são realmente meus aqui.
— Eu estou aqui por você – Sussurra em meu ouvido com sua habitual calma – Não precisa agradecer, minha jovem – Ela se afasta e segura meus ombros com gentileza. Seus olhos se conectam com os meus – Apenas deixe as lembranças ruins para trás. Sem julgamentos, apenas harmonia. Não somos frutos de nossos erros. E de cada situação amarga podemos colher um ensinamento doce – Ela toca meu rosto, acaricia minha bochecha e sorri com candura – Agora, vamos entrar e comer. Fiz seu prato preferido.
Ela se afasta e entra na casa, sigo-a, parando apenas para fechar a porta. Quando me viro para analisar o interior do cômodo algo chama minha atenção. Um espelho de corpo todo estava pendurado na parede próxima ao lado da entrada. Seus adornos em ouro e esmeraldas me cativam.
Sinto em algum lugar da minha mente a voz delicada da mulher que fala por mim sussurra pra si: ‘ele não esava aqui quando sai mais cedo.’
Atraída por sua beleza, meu corpo é guiado para próximo do objeto.
Suprimo meu grito mental ao não me vê refletida ali. A aparência que reflete no espelho não é a minha. A mulher bela a minha frente é bons cinco centímetros mais baixa que eu, tem longos cabelos castanhos lisos, olhos verdes oliva e uma pele branca como neve. Deve ter pouco mais de vinte anos, mas o cansaço mental exposto em seus olhos lhe dava muitos anos a mais.
Vejo-a levar as mãos até os olhos e limpa o rastro de lágrimas que ficara, então, ela deixa suas mãos cair ao lado do corpo e suspira.
— É lindo – Murmura, tocando as extremidades do objeto.
— Foi um presente de Salazar – Explica a mulher do parque, aparecendo atrás de mim.
‘Dela, atrás dela. Essa não sou eu.’
— Ele tinha bom gosto – As palavras saem de minha boca sem meu consentimento.
— Slytherin sempre foi um canalha, mas tinha lá seus encantos – Fala, para em seguida se afastar, sumindo em um corredor que sei que leva até a cozinha.
‘Como sei disso? Ah, sim! Não sou eu que sei, é ela.’
Nos voltamos para nosso reflexo no espelho, eu vendo uma completa desconhecida me fitar de volta e ela analisando a si mesma com alto piedade.
Um sorriso tristonho desponta de seus lábios.
— Ficaremos bem – Sussurra para ninguém em especial.
[...]
Acordo em um sobressalto, tremendo compulsivamente. Meu coração está disparado e minha respiração ficando irregular.
Oh, merda! Isso não foi um sonho, não um sonho comum, pelo menos.
Me ponho em pé em um salto, começando a caminhar em torno do quarto sem me focar em nada. Minha mente borbulha com as imagens do sonho.
A mulher do parque... era ela. Mas quem era a outra? Caminho em torno de minha cama, transtornada. Qual a relação delas? Ela falou em um presente de Salazar Slytherin... Como o conheceu? Quem realmente ela é? Paro, respiro fundo e tento me concentrar no ponto principal da história. O que vi no meu sonho foi uma lembrança ou visão? E por que agora?
Abro a gaveta do criado mudo sem cerimônia, retiro de lá uma folha em branco e minha pena. Sento-me na beirada da cama e começo a rabisca as partes mais importantes do sonho, apoiando o papel em minha coxa.
Tenho certa dificuldade em organizar minhas ideias por causa do fluxo descontrolado de pensamentos.
O nome da mulher que me enviou para cá inicia com a letra “M”. Ela conheceu Salazar Slytherin (Como? De onde? Quantos anos ela tem?)
A outra mulher fez algo ruim e M ajudou ela quando ninguém mais o fez (ela é extremamente grata por isso).
Vivem em uma casa de madeira próxima a uma praia (lembro-me dessa praia do primeiro sonho que tive).
Por que isso tudo me foi mostrado? É intencional ou involuntário? Tem mais coisas? (Se sim, como ela consegue acessar minha mente?)
Paro de escrever, tentando lembrar de mais detalhes, mas nada me vem mente.
Droga!
— Tudo bem, Hermione? – Pergunta-me Dorea, com sua voz sonolenta.
Olho para sua cama, onde a mesma estava encolhida só com os olhinhos de fora.
— Claro, estou sim. Te acordei?
— Não, não, eu apenas estava tendo um sonho ruim... – Sua voz sai baixa, triste.
Eu posso até imaginar quem protagonizou seu sonho: Charlus.
Encolho meus ombros.
— Eu entendo – Sussurro, lembrando-me do meu próprio sonho ruim – Mas o bom de sonhos ruins é que, quando acordamos eles não passam disso. E podemos seguir em frente e mudar o que é preciso ser mudado.
Ela se remexe nas cobertas, piscando seus olhos castanhos para mim em entendimento.
— Você está certa – Concorda, tirando o lençol do rosto e sorrindo para mim.
Retribuo seu sorriso.
— Vamos dormi – Aconselho, guardando o pedaço de papel em meu criado mudo – Temos aula amanhã de manhã cedinho.
Ela concorda com a cabeça, lança-me um boa noite e se vira para o outro lado, indo dormir.
Me deito na cama com a cabeça fervendo de dúvidas.
“O doce sacrifício da vida é perdoar a si mesmo por amar demais a própria dor contida em um coração sem lágrimas...”
— Marcos Ferrer
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