Desire Obsolete
5 Problema
Notas iniciais
Caminho a passos rápidos, indo de encontro a pequena cafeteria próxima ao parquinho que encontrara a mulher misteriosa, três dias atrás. Meu coração está disparado, minhas mãos suam e minha garganta está fechada. A sensação de nervosismo sempre me deixa bastante inquieta.
Oh, Merlin! Para onde foram os dias tranquilos? Pergunto ao divino mentalmente, com o frio de fim de tarde castigando minha pele. Cruzo os braços e acelero o passo.
Aperto com força o papel de carta preso entre meus dedos, amassando-o ansiosa. Eu já havia lido e relido seu conteúdo no mínimo dez vezes, ainda não acreditando que estava indo a seu encontro em um salto de confiança.
Como fui concorda com isso?
A cada passada, sinto a textura da minha varinha roçar contra meu quadril, embaixo da blusa longa de frio, em um lembrete claro da minha loucura.
Se algo der errado...
Chego ao local indicado pela folha; pequeno e rústico, com uma atmosfera família.
Assim que entro, o sino preso à porta toca, indicando minha presença. As poucas pessoas dali me encaram rapidamente, mas logo voltam a seus afazeres. Um forte cheiro de café, tortas e jasmim me atinge. Procuro entre as mesas ocupadas do lugar minha companhia para aquela tarde.
Encontro a loira altiva sem esforço, ela se destaca no ambiente simples. Sentada ao fundo, seu olhar de desgosto e nojo me dizia o quanto ela está apreciando estar ali. Apesar de ter poucas pessoas no ambiente, ela jamais se sentiria confortável estando em meio à trouxas.
Sorrio para a garçonete que estava limpando uma mesa perto da porta e indico com a cabeça que tinha alguém me esperando mais à frente, ela acena e sorri.
— Já irei atendê-la – Avisa-me. Apenas aceno positivamente.
Respirando fundo, vou de encontro a mulher que me esperava impaciente, o mais ao fundo possível do estabelecimento.
— É deselegante se atrasar – Afirma, friamente. Seus olhos azuis gelo contrastavam com sua pele de porcelana.
— Olá, é bom te ver também, tia – Minha voz sai repleta de sarcasmo.
Narcisa estreita os olhos, encarando-me irritada pela minha ousadia.
Percebo que por mais maquiada que ela estivesse, a sombra escura embaixo de seus olhos me dizia que eu não era a única que não estava conseguindo dormir ultimamente. A diferença entre nós era que eu não tentava esconder isso. Fato que, por sinal, estava me causando uma grande dor de cabeça, graças às constantes tentativas preocupadas de interrogação por parte dos Granger.
A garçonete vem em nossa direção, mas antes de abrir a boca, Narcisa dispensa-a dizendo que quando quiséssemos, solicitávamos sua presença.
O sino da entrada soa assim que me ponho sentada a sua frente, um casal com duas crianças entra no local. Sorridentes, eles se sentam na mesa ao lado da nossa.
A loira a minha frente retorce os lábios, desgostosa. Seu nariz se enruga de nojo quase instantaneamente.
Deve ser um inferno na terra ela estar ali, penso feliz. Mas minha felicidade cai por terra ao lembrar que fora ela quem escolhera o lugar de nosso encontro. Por que aqui?
— Se você não gosta do ambiente, por quê escolheu aqui? – Pergunto baixinho.
A mesma dar de ombros.
— Achei que a escolha de um local trouxa te influenciaria a aceitar meu convite. E este lugar me pareceu reservado o suficiente para termos um encontro pacífico – Fala, despreocupada.
Muito bem! Ela pensa em tudo.
— Ponto pra você! Aqui estou, o que você quer? – Coloco o papel em minhas mãos na mesa, seu conteúdo estando gravado em minha mente desde que o recebera, na noite anterior.
Hermione,
Eu sei que uma carta minha era a última coisa que você esperava receber, mas dadas as atuais circunstâncias e aos recentes acontecimentos, acredito ser indispensável um encontro entre nós. Encontre-me para uma conversa breve e esclarecedora, garanto que não irá se arrepender ou perder seu tempo.
Segue abaixo o endereço do local. Não se atrase!
Cordialmente,
Narcisa Malfoy
Encaro-a, ávida.
A mesma veste um vestido verde elegante e comportado, de um tecido pesado. Suas madeixas platinadas estão presas em um coque perfeito e suas mãos enluvadas. Seu semblante está sério.
Narcisa remexe-se na cadeira.
— A última vez que te vi, você era só um bebê – Diz, reflexiva.
Sua boca se contrai no que parece ser um sorriso lateral, mas é tão imperceptível que não sei se é ilusão da minha mente ou realmente ela está tentando sorrir pra mim
— Imagino que não foi saudade o motivo para esse encontro – Digo, cautelosa.
Ela balança a cabeça, concordando.
— Bella ter te procurado foi um grande erro, você não deveria saber da verdade. Nunca – Enfatiza, contrariada.
Irritada, estreito meus olhos.
— Mas agora que você sabe... – Prossegue, inclinando-se para frente – Devo te explicar tudo o quê está em jogo para nós, e principalmente, para você – Completa, sombria.
A atmosfera a nossa volta se torna densa por causa da tensão acumulada. Minhas mãos param de suar e começam a tremer.
— Você realmente acha que não sei? Que sou uma garota burra, que não sabe que se as pessoas descobrirem que eu... eu sou... – Minha voz fraqueja – Bellatrix é uma assassina louca. Vocês servem a um monstro preconceituoso, são seus comensais da morte mais fiéis. Eu não posso ter o mesmo sangue que vocês – Minha voz sai baixa, mas repleta de raiva, angústia e magoa.
Sinto minha garganta fechar, logo meus olhos turvam. Respiro fundo, com medo de cair aos prantos bem ali.
Ela fica em silêncio por alguns minutos, esperando que eu me recomponha.
— Você entende só o básico do que aconteceria se descobrissem, criança – Ela tamborila, sem emitir som, seus dedos na superfície da mesa – O que você perderia? Alguns amigos? Talvez, todos? Quem sabe nenhum. – Diz, falsamente otimista – Mas, o que Bella e eu perderíamos? Na melhor das hipóteses, nossas vidas. Na pior? Eu estaria condenando meu filho perante o Lord.
Inclino-me em sua direção.
— Eu não pedi pra nascer, não pedi pra você me proteger de Bellatrix, e com certeza não pra você me entregar aos Granger's – Rosno, trincando os dentes.
— Você deveria se mostra mais grata. Afinal, se não fosse por mim, você nada mais seria que a lembrança de um erro que não se perpetuou – Comenta, sorrindo de escárnio.
Tenho vontade de gritar que eu não devo nada a ela, mas me contenho mordendo meu lábio com força. Tinha certo fundo de verdade no que ela dissera e também fazer uma cena não ajudaria em nada.
— Eu não te devo nada. – Declaro, possessa.
Ela descansa suas mãos na mesa, calma. Sua postura não foi abalada.
— Bella nunca deveria ter se envolvido com Sírius, mas ela se envolveu. Você não deveria ter sido concebida, mas isso aconteceu. E eu não deveria ter me metido nessa história e ter te manda para os trouxas, mas eu o fiz – Sua voz oscila, em arrependimento.
Eu tentava não pensar que nos primeiros momentos que Bellatrix descobrira estar grávida, ela desejara minha morte. Mas agora vendo que a única pessoa que pensara em mim como um ser merecedor de vida, se arrependia de ter me protegido, me arrasava mais do que eu admitiria em voz alta.
Engulo o nó que se forma em minha garganta, lutando para permanecer calma.
— Precisamos lidar com isso da melhor forma para todos – Diz, convicta. Seu olhar se perde em um ponto imaginário atrás de mim.
Aperto minhas mãos em punhos, machucada emocionalmente.
— Eu não contarei para ninguém de quem é o sangue que corre em minhas veias – Começo, me sentindo quebrada – Não a necessidade das pessoas saberem da verdade. Manteremos isso entre nós. E continuaremos a mentir. Seu Lord não saberá, meus amigos tão pouco. Então, tudo transcorrerá como deve ser – Afirmo, mas para mim do que para ela. Eu estou sendo covarde, e sei disso.
Ela suspira, encolhendo os ombros.
Quando me olha, seus olhos transmitem todo o cansaço que sua postura superior não demonstra.
— Isso seria o que vocês trouxas chamam de conto de fadas, Hermione; impossível e irreal – Ela soa desesperançada e triste.
Então, pela primeira vez na minha vida, vejo Narcisa Malfoy desmoronar. Seu rosto transparece uma dor pungente, quase sufocante. Seus olhos marejam, ela desaba bem na minha frente. Suas lágrimas caem timidamente.
Fico sem reação, vendo a mulher imponente à minha frente tão frágil. Instintivamente, seguro sua mão, tentando confortá-la. Ficamos em silêncio por alguns momentos, enquanto eu a via, sem saber o que dizer, banhar seu rosto com lágrimas. Não importa para mim que ela a poucos minutos tenha verbalizado arrependimento em me ajudar quando ainda feto. Uma dor como essa que eu vejo nela não pode ser fingida.
Sabe-se apenas ela os demônios que carrega consigo, penso.
— Me desculpe, isso não foi apropriado – Fala, rapidamente limpando o rosto com um lencinho que tirara Merlin sabe de onde. Ela separa nossas mãos, colocando-as em seu colo, protegidas da minha visão – Não sei o que me deu, normalmente, não sou de chorar – Ela encara a toalha da mesa, envergonhada.
— Não se preocupe, você me vira nua quando bebê, estamos empatadas em constrangimento – Faço uma alusão tosca para tentar dissipa o clima.
Ela sorri, um verdadeiro sorriso dessa vez. Pequeno e tímido, mas um sorriso.
— Você gostaria de conversar? – Pergunto, nervosa – Dizem que ajuda a aliviar a dor.
A Malfoy faz que não com a cabeça, pressiona o lenço nas bochechas apagando o rastro de choro e me encara.
— Tem certeza? Não quero te pressionar, mas talvez ajude – Minha voz sai rouca.
Por que estou tentando ajudá-la? Me pergunto. A resposta quase vem de imediato, porquê você precisa se focar nos problemas dos outros para esquecer os seus.
Narcisa me encara de modo estranho, como se estivesse me vendo pela primeira vez desde que chegara.
— Você é bondosa demais, Hermione – Sussurra, a voz ainda embargada pelo choro contido.
Franzo a testa, confusa.
— Isso vindo de você não pareceu um elogio.
— E não foi, querida – Fala com simplicidade, sem arrogância ou falsidade – Até seus 11 anos eu te acompanhei de longe, sabia? Queria ter certeza que você não era um abordo e se você iria para Hogwarts. Devo confessar que fiquei extremamente decepcionada quanto você foi para a Grifinória. Mas devido a sua criação, não me surpreendeu tanto – Diz, dando de ombros – Sua amizade com o fedelho Potter complicou as coisas.
— Do que você está falando?
Ela me encara fixamente, parecendo formular as palavras certa. Então olha para suas mãos, nervosa. Era surreal pra mim vê-la daquele jeito. Quando se ouvia falar da Sra. Malfoy, ela recebia sempre os mesmos adjetivos: reservada, bonita, elegante e distante.
— Lucius, provavelmente, será mandado para Azkaban. Draco está sendo pressionado a se tornar um comensal da morte, como forma de punição pelos erros do meu marido no Ministério da Magia. Bellatrix não me apoia em tirar essa ideia da cabeça do Lord e eu sozinha não sou capaz – Diz tudo em um fôlego só – Estou sem forças para lutar mais de uma batalha por vez.
Ficamos em silêncio, apenas nos olhando. Eu não sabia o que dizer, tudo que ela estava passando era por escolha dela em apoiar Voldemort.
— Não entendo o que isso tem a ver com o Harry – Falo, por fim. Intimamente, eu sabia sim, mas falar em voz alta seria tortuoso.
— Você não é burra, Hermione, sabe muito bem no que tudo isso tem a ver com ele, o famoso eleito – Sua voz no final fica cheia de asco.
— Harry é uma vítima nisso tudo – Falo, indignada – Seu Lord é um grande imbecil, perseguindo um garoto...
— Chega, criança! – Seu comando me faz ficar em silêncio, ela usa o mesmo tom de uma mãe ralhando com um filho mal criado – Milord irá ganhar essa guerra, Hermione, de um jeito ou de outro. Ele é inteligente o suficiente para saber e explorar os pontos fracos do Potter, e um deles, infelizmente, é você – Diz, irritada – Sua aproximação com esse garoto atrai para si toda a atenção possível. Está nos colocando em perigo, menina. Você quer saber por que não podemos fingir que nada aconteceu? – Sua pergunta soa mil alarmes em minha mente.
Engulo em seco e afirmo com a cabeça.
— Todos que são próximos ao garoto que sobreviveu estão sendo estudados pelo Lord. Ele quer achar o elo mais fraco e usá-lo para ferir o Potter – Conta-me, endireitando sua postura – Mas uma "suposta sangue-ruim" em particular enraivece não só a ele, mas todos os comensais, justamente por ser a garota mais inteligente de Hogwarts, indo contra todos os conceitos que acreditamos de que nascidos trouxas são inferiores. Você pode imaginar quem é essa garota, e o quão valiosa ela pode ser? – Sua pergunta sai sugestiva – Você está na mira do Lord compromete tudo que eu tanto escondi. Se ele chegar até você, tudo será descoberto, e eu não posso permitir que isso aconteça. Por isso, eu tenho uma proposta para você, criança.
Minha mente rodopia tentando processar todas as informações.
Proposta? O Lord estava nos estudando?
— Que proposta? – Minha voz sai baixa e insegura.
— Contar a todos a verdade traria consequências devastadoras para nós – Começa, inquieta – E se o Lord chegar até você, ele vai invadir sua mente, que graças a Bellatrix, contém a informação que nos condena – Agitada, vejo-a morde o lábio inferior – Apagar sua mente deixaria uma lacuna que atrairia ainda mais a atenção dele para ti – Diz.
Minha boca se abre em ultraje ao perceber que ela pensou em me obliviar.
— Ele não chegará até mim, Narcisa. Hogwarts é o lugar mais seguro do mundo – Digo, verdadeiramente convicta de minhas palavras.
Ela sorri, debochada. Como se soubesse de algo que eu não sei.
A mulher à minha frente se remexe na cadeira, desconfortável. Seja por instinto ou intuição, mas eu sabia que o quê ela me diria, eu não iria gostar de ouvir.
— A melhor opção para nós séria você desaparecer, Hermione – Sentencia.
“Os problemas nunca vão desaparecer, mesmo na mais bela existência. Problemas existem para serem resolvidos, e não para perturbar-nos.”
— Augusto Cury
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