Notas iniciais
Enjoy

Descrente, olho-a boquiaberta.

— O que? – Eu havia escutado direito? – Você está me dizendo para ir embora? Desaparecer?

Ela faz que sim com a cabeça, com seus olhos azuis analisando-me, minuciosamente.

Solto uma breve risada histérica.

— Você só pode estar louca – Digo, ainda rindo – Eu não vou abandonar meus amigos. Isso está fora de questão.

Ela encolhe os ombros, nervosa.

— Eu entendo que isso possa ser difícil para você, e eu nunca pediria se não fosse o melhor...

— Melhor para quem? Você? Bellatrix? Não minta para mim dizendo que é o melhor para mim, você não se importa comigo, só quer salvar sua pele – Interrompo-a, revoltada – Está com medo de que Você-Sabe-Quem descubra seu segredo e se vingue no seu filhinho.

— E você pode me culpa por querer proteger meu filho?

— Eu não serei descartada como um brinquedo defeituoso.

Ela contrai os lábios em uma linha rígida, para em seguida sorri maldosa.

— Você acha que seus amigos vão permanecer ao seu lado sabendo quem realmente é sua mãe? Os mais estúpidos talvez sim, mas aqueles a quem a guerra tirou muito te repudiaram. E no final, Potter, os Wesley e quem mais for importante para você, te abandonará.

Engulo em seco. Ela sabia como jogar sal na ferida.

Cretina!

— Eu posso perde alguns amigos, mas pelo menos permaneço viva – Comento, maldosa.

Ela se empertiga, irada.

— Garota, não ouse me desafiar assim. Você pode achar que eu perderei muito mais que você, e de fato pode ser assim. Mas lhe garanto, o que você perderá, te fará desejar nunca ter nascido – Ameaça, enraivecida – Estou te oferecendo uma saída, cabe a você aceita ou não, mas saiba que as consequências te alcançaram aonde quer que você vá – Seus olhos endurecem como aço.

Inclinando a cabeça para o lado, ela me estuda, pacientemente. Tento me manter quieta no lugar, mas minha vontade era dar-lhe as costas e ir embora.

— Eu posso conseguir que você estude na melhor escola de bruxaria das Américas ou de qualquer lugar longe o suficiente para que você não seja encontrada – Informa, demonstrando uma certeza absoluta no que dizia – Você não terá que se preocupar com nada, a não ser ficar bem longe daqui. Poderá até mesmo manter contato com seus conhecidos por cartas, desde que nunca lhes diga a verdade – Avisa – Tudo não passará de um intercâmbio sem volta, criança – Diz, persuasiva – Imagine pode recomeçar longe daqui, fazer novos amigos, não precisar se preocupar com nada nem ninguém... Você poderia forma uma família, se assim desejar.

— Eu não quero nada disso! Não vou abandonar meus amigos em meio a uma guerra estúpida – Rosno – Você não me conhece... Eu nunca aceitaria fazer isso. Enquanto Harry precisar de mim, eu estarei lá por ele – Afirmo.

Ela balança a cabeça, desgostosa.

— Garota tola, você luta por uma causa perdida. – O olhar frio que ela me lança poderia congelar um vulcão – Acabará morrendo por seus queridos trouxas – Ela levanta-se, olhando-me altiva – Você realmente não nega ser filha daquele traidor do sangue. É lamentável vê sangue Black ser desperdiçado assim – Ela se põe ao meu lado, olhando-me com superioridade – Eu realmente pensei que por ser considerada a bruxa mais inteligente da sua geração, você teria mais bom senso. Mas vejo que me enganei. Eu deveria ter deixado Bellatrix te matar – Enfatizando o matar, ela simplesmente vai embora.

Fico paralisada no lugar por um bom tempo, assimilando tudo que acontecera ali.

O que mais me falta acontecer?

[...]

Saindo da cafeteria, após uma hora perdida em pensamentos e duas xícaras de chá bebidas, caminho apressadamente rumo à residência Granger. As ruas movimentadas de Londres nunca me pareceram tão solitárias e tristes quanto agora.

Com coração afundando em dúvidas e medos, eu tento não vagar meus pensamentos para as partes mais específicas da minha conversa com Narcisa. Mas as sensações de abandono, raiva, medo e solidão me perseguem.

O frio da noite penetra em minha pele, me fazendo arrepiar. Olho para o céu noturno acima de mim, a lua cheia estava em todo o seu esplendor, cercada por estrelas brilhantes e delicadas.

Qual o sentido de tudo isso? Pergunto-me, encarando a imensidão azulada acima de mim. Até pouco tempo eu conhecia tudo sobre mim, mas agora abriu-se uma lacuna enorme em quem eu sou. Por que tenho que passar por tudo isso? É algum tipo de provação cósmica? O destino é uma vadia raivosa que me odeia... Será parente minha também? Riu sem humor de meus pensamentos idiotas.

Mais e mais questionamentos invadem minha mente, mas não me atento a nenhum. Os últimos acontecimentos tinham me transformado em alguém que eu não era, e eu precisava mudar isso. Mas até eu descobrir como lidar com tudo, eu precisaria me manter afastada de quem eu poderia machucar com a verdade. Meu primeiro passo fora mandar, antes do meu encontro com Narcisa, uma breve recusa à senhora Weasley, acerca de seu convite para passar o resto das férias na Toca. Eu não estava pronta para ver ninguém ainda. E se eu fosse, só pioraria o meu estado caótico e contagiaria todos com meus dramas existenciais.

Perdida em minha cabeça, acabo esbarrando com uma mulher ao telefone na rua, que grunhe de raiva pelo esbarrão. Rapidamente peço desculpas, sorrindo sem graça.

A mulher a minha frente, vestida em um terninho preto, revira os olhos para mim e continua seu trajeto, falando ao telefone.

Grossa!

Balanço a cabeça em desaprovação e sigo meu caminho.

[...]

Assim que adentro a casa, sou recepcionada por uma Jane Granger seria.

— Aonde você estava, querida? – Me pergunta.

— Fui caminhar pelo parque – A mentira sai fluida.

Estava sendo comum eu me fechar perto deles, não é opcional. É como se fosse um instinto de alto preservação. Alarmes soam em meu cérebro toda vez que eu estou perto deles.

— E foi boa sua caminhada? Viu algum conhecido? – Continua, tentando iniciar uma conversa amigável.

— Foi sim, e não, não vi nenhum conhecido. Hum... Estou um pouco cansada, vou me recolher mais cedo. – Aviso-a, que abre a boca para discorda, suponho — Boa noite! – Me despeço, rapidamente.

Seguindo para meu quarto, apressada, fecho a porta assim que passo por ela.

Era tão estranho tê-la perto de mim e saber que ela não era minha mãe de sangue, que me adotará só porque perderá sua outra filha. Eu sentia como se tivesse recebido “restos” de outra pessoa. Era estúpido e insano até, mas não consigo tirar isso da minha mente. Eu só estava ali porque alguém havia morrido e eu fora a substituta convenientemente.

[...]

Reviro-me no colchão pela sétima vez em um curto período de tempo, sem conseguir pegar no sono. Fecho meus olhos, inspirando e expirando, em busca de equilíbrio mental. Não funciona!

Sento-me na cama, desistindo de tentar dormir.

Acendo o abajur que fica em cima do criado mudo ao lado da minha cama e retiro de uma de suas gavetas duas folhas de papel. Uma era uma carta, a outra um compilado de anotações.

Fico olhando para o conteúdo das anotações por alguns minutos, chateada. Eram tão escassas as informações ali contidas que podia-se dizer que não valiam de nada.


Nome completo: Tom Marvolo Riddle
Data de nascimento: 31 de dezembro de 1926
Pais: Mérope Gaunt e Thomas Riddle
Casa: Sonserina

Observações: Órfã, mestiço, introspectivo, herdeiro de Salazar Slytherin (por isso, ofidioglota), aluno exemplar e querido do professor e diretor da Sonserina (na época), Horácio Slughorn. Sempre tivera propensão para as artes das trevas e seus derivados. Tem um grande poder de persuasão...

O pequeno compilado que eu obtive foi graças as informações a mim repassadas na carta que repousa no colchão, a mim enviada pelo diretor Albus Dumbledore, à quem eu havia escrito na esperança de me nortear nesse assunto.

Ele me repassara tudo o que sabia sobre o jovem Tom, o que não era muito, devido a introspecção do sonserino.

Riddle só se relacionava com seu restrito grupo de amigos, ou quando precisava mostrar sua superioridade intelectual nas aulas. E mantinha-se sempre fora do radar do jovem Dumbledore, escondendo-se sob a pele de um estudante modelo.

Como se conhece alguém que é quase um eremita?

Suspiro, frustrada.

Enquanto eu não sabia quase nada a respeito dele, provavelmente, o mesmo sabia de muitas coisas sobre nós. Isso é apavorante.

Meu único segredo bem guardado só era conhecido por três pessoas ao todo, e era também um gatilho para a minha condenação, que nas piores hipóteses; ou Voldemort me matava ou meus amigos me abandonavam.

Olho para a carta que repousa no colchão e a pego, lendo as últimas linhas escritas pelo homem sábio. Parecia uma mensagem motivadora feita especificamente para o que eu estava vivenciando.

Nunca esqueça que você não está sozinha, senhorita Granger. Hogwarts sempre estará aqui para o que precisar. Momentos sombrios não definem o futuro. Mantenha-se sempre brilhante e espirituosa. Obrigada por sua dedicação a está causa. Com determinação e perseverança, o mal não triunfará sobre a luz.

Amavelmente,

Albus Dumbledore.

Sorriu, amplamente, admirada com sua capacidade de me fazer sentir bem até por carta.

Picadas na janela me fazem pular de susto. Ponho a mão no coração, sentindo meus batimentos acelerados.

Olho, surpresa, para a coruja totalmente negra parada me encarando com atenção. Vou até a mesma, apressada.

Ela não se parece com nenhuma outra coruja que eu já tenha visto, mas pela hora, a mensagem deveria ser urgente.

Assim que destrancou a janela e a abro, ela alça voou para longe.

— Ei, espere... — Chamo-a, intrigada.

Não acredito que ela me fez de boba!

Cruzo os braços, aborrecida. Ela voa acima das casas com agilidade, indo embora sem olhar para trás.

Suspiro, me preparando para fechar a janela. Mas assim que olho para baixo percebo que, repousando no parapeito da janela, está um pequeno embrulho pardo, sendo quadrado e maior pouca coisa do que uma caixinha de anel.

Pego-o, curiosa.

Isso é para mim?

Procuro a coruja com o olhar, varrendo o céu e as casas próximas à minha, mas não encontro-a em lugar nenhum. Ela fora rápida e taciturna, sumindo sem deixar pistas.

Fecho a janela e me sento em minha cama, esquecendo de minhas anotações e reflexões.

Giro o embrulho em minhas mãos, divagando se deveria ou não abri-lo.

É mais um problema? Quem o mandou? Não tem nenhum destinatário ou remetente. Será para mim mesmo?

Me cansando de tantas perguntas, abro o embrulho de uma vez, rasgando o papel sem esforço. Encontro uma pequena caixa de veludo azul, com a inicial “M” escrita em seu topo. Fico parada encarando aquela letra por alguns minutos, curiosa.

Quem será M? Podia a coruja ter errado a casa?

Tomada por curiosidade, abro a caixa, cuidadosamente.

Franzo a testa perante seu conteúdo.

Um vira-tempo?

Pego o objeto com cuidado, procurando semelhanças com o qual a professora Minerva me emprestara no terceiro ano. Ele era maior que o quê tive, feito de prata e ouro, com o pozinho dentro de sua ampulheta sendo roxo florescente.

Não pode esse vira-tempo funcionar... Ele parece todo... Errado, penso.

Qual finalidade você tem?

Para quem quer que este vira-tempo estivesse destinado, a pessoa não o receberia hoje. Guardo-o de volta na caixa, tomando cuidado para não acioná-lo.

Amanhã decido o que fazer com você, penso, indo colocá-lo dentro da gaveta, onde antes estavam minhas anotações e a carta de Dumbledore.

“O presente não é um passado em potência, ele é o momento da escolha e da ação.”

— Simone de Beauvoir

Notas finais
Façam-me uma autora feliz e me digam se gostaram, se querem que eu melhore alguma coisa, essas coisas. Desde já agradeço por lerem; leitores fantasmas, se pronunciem! PS: já no próximo capítulo a Hermione voltará no tempo. Ansiosos para verem como vai ser o primeiro encontro dela com o Tom? (Eu estou, e muitoooooooo) Beijos sabor lua de queijo!!