Desire Obsolete
1 Prólogo
Notas iniciais
— Granger, você não pode fugir de mim! – Grita ele ofegante. Meu coração falha algumas batidas.
Impulsiono meu corpo a ir mais rápido. Se ele me alcança-se, eu não teria como escapar. As consequências do que fiz me assombrariam pro resto da minha vida, mas isso não significava que eu teria que pagar agora. Ademais, se ele chega-se até mim as coisas ficariam perigosas, no mínimo.
A batida de suas passadas longas e rápidas no chão me fazem perceber o quão perto ele está. Viro a esquerda no corredor mal iluminado. A essa hora todos deveriam estar dormindo em suas camas quentinhas, alheios ao perigo que a cada dia ganhava mais força e poder. Um lampejo de olhos azuis intensos me fitando se infiltra na minha mente me fazendo tremer, trazendo em seguida uma pequena memória a tempos esquecida.
“- Sangue-ruins não merecem compartilhar da nossa magia. Não merecem estar entre nós. Eles são a escória, Hermione – Indaga para mim, enquanto seus dedos traçam um caminho sedutor do meu ombro até minha mão, onde entrelaça nossos dedos. O calor de sua mão em contraste com a minha gélida me faz arrepiar.
O então azul profundo de seus olhos, olhando-me maliciosamente envia uma poderosa dose de excitação para o meu corpo. Uma nuvem de desejo ameaça tirar meu foco. Afasto-me dele, indo para a outra extremidade do dormitório ficando de costas para o mesmo. Eu precisava ser forte e alto consciente de tudo a minha volta. Muitas vezes ficar perto dele me tirava a concentração e a lógica. Fazia surgir em mim instintos que eu pensei nunca ter. Encaro sem realmente vê a pequena bagunça de pergaminhos em cima da sua cama impecável. Uma efêmera bagunça em meio a sua ordem absoluta. Sempre tão meticuloso e controlador.
— O que você prega não é certo. Essa escória que você abomina são pessoas, crianças inocentes que não tem culpa de ter, de acordo com você; “nascido com o privilégio da magia que não mereciam.” – Rebato, citando a odiosa frase que havia me dito. – Você também me acha escória, Tom? O que eu sou para você? Não minta pra mim, eu saberei. – Concluo em um sussurro.
Viro-me para encará-lo nos olhos. Ele estava parado no mesmo lugar, encarando o chão. Seu semblante me dizia mais do que eu gostaria de saber. Ele estava pensando, articulando suas ideias para contrariar, sem realmente entrar em uma briga, tudo o que eu havia dito. Desde que começamos a namorar era sempre assim.
Quando ele volta a me encara, vários segundos haviam se passado. Seu corpo assume uma postura altiva e ele me dá aquele olhar de superioridade que tanto me enraivecia. Antes mesmo dele começar a falar, eu sabia que tudo o que sairia da sua boca eram palavras vindas do Lord das Trevas.”
Em algum momento tive alguma misera parte dele me amando, ou tudo não passou de um jogo de poder? Desejo.
Abandonando minha linha de pensamentos, ofego de tanto correr. Um rápido pensamento incômodo me atinge: eu nunca tive tanto medo dele, quanto estava tendo agora. Realmente eu tinha uma vida irônica. Um pequeno sorriso desponta em meus lábios, mas morre quase instantaneamente. Enquanto sinto meus pulmões clamarem por ar, percebo que fiz a curva errada no corredor errado. Respiro grandes lufadas de ar, sentindo meus joelhos fraquejarem.
Corra! Não pare! Corra! Digo a mim mesma ao me virar para corrigir meu erro de direção.
— Expelliarmus!
Um rápido lampejo de pânico e surpresa me atinge ao escutá-lo proferir a sentença de nossa inimizade.
Desvio de seu feitiço me jogando no chão, meu corpo atinge o chão em um baque surdo, sendo acolhido por um frio devastador. Involuntariamente procuro minha varinha entre minhas vestes, achando-a em seguida onde sempre ficava, presa em minha cintura. Não faço menção de tirar ela de lá. Ainda não. Lentamente me viro para encará-lo. Seus olhos cinzentos me fitam com raiva, tristeza e mágoa. Embaixo de toda a confusão de emoções noto o quão surpreso ele está ao ter me lançado um feitiço. Ainda bem que não fui a única, penso amarga.
— Por favor, não faça isso – Imploro ofegante. Lágrimas indesejadas se acumulam em meus olhos. Sinto o peso de todo o estresse, tristeza, raiva e decepção cobrando seu preço.
Com a respiração irregular e meus pulmões ardendo tento me levantar, mas meus joelhos fraquejam e eu permaneço no chão. Dois dias sem dormir, sendo constantemente assombrada psicologicamente acabaram com todas as minhas forças.
Seu uniforme verde e prata combinava com o meu. Eu podia perceber que está ali, fazendo aquilo comigo não era o que ele queria. E eu não podia culpá-lo. O sonserino segurava sua varinha apontada para mim, mas sua mão tremia. Incerteza? Medo? Raiva? Eu não sabia distinguir. Apostaria em um pouco de tudo.
Tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais, penso.
Olho além dele, para o corredor que me levaria ao meu objetivo. Tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe. Era assim que eu me sentia o tempo todo aqui. Nunca foi minha intenção vim para o passado, me apaixonar por um dos maiores vilões do mundo bruxo e viver tudo que vive aqui. Mas isso tinha acontecido comigo em um momento onde o que eu mais precisava era sumir e de certa forma, tudo aquilo fora um bálsamo para mim. E por mais que eu ainda não compreendesse o porquê, eu sabia que isso era maior que eu e ele. O herdeiro de Salazar Slytherin com a filha indesejada de Bellatrix Lestrange e Sírius Black. Séria nossa união uma piada cósmica?
— Você era minha amiga, Hermione – A dor que escapa por essas palavras fazem minhas lágrimas caírem.
Mordo meu lábio inferior, tentando reprimir meus soluços.
— Eu sinto muito, Malfoy. Eu nunca quis que nada disso acontecesse – Minha voz sai entrecortada pelo soluços que escapam.
— Você não queria? – Pergunta sarcasticamente. – Você acha que sou estúpido? Esse tempo todo você nos enganou. E agora, suas escolhas me faram ter que fazer a única coisa que eu pensei nunca ter que fazer... – Ele respira fundo e passa uma das mãos pelos cabelos platinados. – Ele te destruirá, Hermione. Você o magoou mais que qualquer um. Nunca o vi assim... Devastado! – Vejo seus dedos se fecharem com mais força em volta de sua varinha.
— Eu sei, Abraxas – Concordo olhando em seguida para o chão, sentindo meu coração apertar. Nunca pensei que poderia existir esse tipo de amor, tão forte e intenso, que me leva ao extremo das emoções. – Eu cheguei aqui... Eu não queria me apaixonar, mas aconteceu e então... Amá-lo não é fácil, sabia? Mas mesmo com todas as adversidades, eu fui em frente. Eu estava disposta a desistir de tudo por ele. E o que ganhei em troca? Mentiras.
— Mione...
Volto meu olhar para ele, que estava me encarando com pesar. Ele entendia o que era ser traído. Abraxas Malfoy, indo contra tudo o que sempre soube a respeito dos Malfoy's era o mais perto de íntegro que um Comensal da Morte poderia ser. Um verdadeiro amigo, com uma lealdade invejável.
— Eu sei que ele nunca me perdoará. Mas isso nunca mudará o fato de que eu o amo e sempre vou amar – Digo, sentindo-me mais no controle das minhas emoções.
— Então, porque? Eu não entendo, Hermione – Sua voz sai suave, quase serena. Mal sinal.
Engulo minha saliva e enxugo meu rosto, tirando o rastro de lágrimas que ficou. Reunindo toda a coragem e força que ainda me restava, levando-me, sentindo meus músculos doerem em lugares que não imaginava ser possível.
— Eu nunca concordei com vocês. Pra mim não existe isso de pureza do sangue. Bruxos puro-sangue não são melhores que nascidos trouxas. Nunca vão ser – Falo, endireitando-me. Uma postura confiante era a única coisa que me restava agora.
Ele suspira com impaciência, enquanto guarda sua varinha em suas vestes – por dentro da manga de sua blusa, onde ficava firmemente presa e acessível. Meu discurso já estava batido. Está não era a primeira vez que chegávamos a esse tópico.
Abraxas caminha em minha direção com a confiança que só um Malfoy poderia ter. O loiro era altivo, elegante, sempre muito bem arrumado, com traços marcantes e olhos irresistíveis. Sempre fui muito consciente de que seu poder de sedução não surtia efeito em mim, mas eu já havia visto garotas o suficiente sucumbir ao seu charme para saber que sua presença era marcante. Não como Riddle, que era quase hipnótico aos olhos, mas o suficiente para marca corações e intimidar adversários. Dou alguns passos hesitantes para trás. Ele para a uma distância relativamente curta.
Estudo seu rosto. Eu sempre consegui o decifrar.
— Não irei mais discutir isso com você, Granger. Temos opiniões contrárias e nunca chegamos em um entendimento – Fala, assumindo um semblante triste. Eu sabia o que viria a seguir, podia sentir em meus ossos. – Eu não sei o que vai acontecer a partir de agora, mas eu preciso te levar até ele. Se não for eu, será outro menos gentil, Hermione. Você não pode fugir. Tom colocou todos em sua procura. Eu só fui sortudo o suficiente para te encontrar antes de qualquer outro.
Ele estende sua mão para mim, oferecendo-me uma escolha; ir pacificamente ou não.
Respiro fundo. Eu não tive escolha ao vim parar quase cinquenta anos no passado, não escolhi me apaixonar pelo futuro maior bruxo das trevas de todo o mundo mágico, e eu com certeza não tinha escolha sobre ir ou não com Abraxas.
Ele estava me dando uma falsa sensação de controle, mas a verdade era que ele não permitiria que eu saísse daquele corredor sozinha, não voluntariamente pelo menos. E isso era uma das coisas que eu mais admirável nele, sua lealdade para com Tom.
Ah, o meu Tom! Poderíamos ter sido felizes juntos? Provavelmente não, se não fossem suas mentiras, teriam sido as minhas que acabariam com nossa relação, penso tristemente.
Desde o começo nossa relação estava fadada ao fracasso, mas eu mantive comigo a chama da esperança, que me aqueceu por muitos meses. Mas agora havia chegado a hora de apagá-la por completo. Minha partida deveria ter sido imperceptível até a chegada das primeiras aulas de amanhã, era esse o plano. Mas na minha rápida fuga acabei me descuidando e me deparando com Malfoy, que me procurava. Ele e todos os comensais a quais Tom conseguirá mobilizar a minha procura.
Olho para a mão estendida daquele que considero um grande amigo. Um frio tenebroso gela meu sangue. Nesses últimos dias eu realmente tinha feito coisas que justificariam minha estadia na Sonserina. E agora precisaria fazer mais uma, a última e mais dolorosa.
— Se você acha que irei tão facilmente, não me conhece tão bem, Malfoy – Declaro, empunhando minha varinha. E mais uma vez naquele dia, meu coração sangrou.
A traição deixa um gosto amargo na boca e eu já estava acostumada a senti-lo.
“Ninguém pode voltar a trás e fazer um novo começo. Mas qualquer um pode recomeçar e fazer um novo fim.”
— Chico Xavier
Fale com o autor