Desire Obsolete
65 Poder (POV - TOM)
Notas iniciais

Você está com as bochechas coradas?
Você já teve aquele medo de não poder mudar
O tipo que gruda como algo em seus dentes?
Há algum Ás na sua manga?
Você não faz ideia de que é minha obsessão?
— Arctic Monkeys (Do I Wanna Know?)
[...] Dois de Maio, 1998 [...]
A espada corta o ar com a mesma rapidez que uma decisão ruim é tomada, decapitando seu alvo de imediato. Não existe sangue, gritos, ou incertezas. É apenas o inegável fim, turvado por uma fumaça negra expressiva. O réptil se degrada no ar, desaparecendo com lentidão aos olhos de seu assassino.
Neville pisca, uma, duas, três vezes seguidas. Seu coração retumba em seus ouvidos, sua boca degusta o sabor metálico de sangue.
Acabou? É tudo o que sua mente quer saber.
Em outra extremidade da batalha, não é preciso ver, Voldemort sente em seus ossos o fim de uma era repleta de derrotas. É agridoce. E, enquanto encara seu inimigo à sua frente, o famoso Harry Potter, sua mente trabalha em cima de uma única questão: onde está Hermione?
Neville respira fundo, buscando absolver a maior quantidade possível de ar em seus pulmões, vendo a negra fumaça se dissolver por completo no ar.
Nagini está morta, quem está no controle agora?
Para os espectadores da ação, resta apenas a certeza de que nada será mais como antes. E, em algum momento foi? Movimentos geram movimentos, escolhas geram resultados e, sem sombra de dúvida, está morte gerou o fim que tantos esperavam.
[...] Março de 1998 [...]
Sonhei com você quase todas as noites essa semana
Quantos segredos você consegue guardar?
Porque existe essa música que encontrei
Que me faz pensar em você de alguma forma
E eu a coloco para repetir
Até eu pegar no sono, derramando bebidas no meu sofá
— Arctic Monkeys (Do I Wanna Know)
Não existe glória em morrer.
Cercado por miséria, desolação e esperanças infundadas, está foi minha primeira constatação profunda sobre a vida, lá pela tenra idade de 5 anos. E como tal, regeu minhas ações a cada passo que dei.
Não existe beleza na morte como as matronas do orfanado miserável onde vivi tentavam nos fazer acreditar. Com suas pregações enfadonhas sobre um Deus misericordioso, manipulavam os de mente fraca para não sofrerem por suas vidas desgraçadas.
Mas, não eu.
Sempre questionei suas palavras enfeitadas sobre o descanso eterno, a bondade infinita de Deus e o paraíso destinado aos justos e humildes. É até engraçado como meus pensamentos giram em torno de coisas tão banais, coisas que há anos não penso.
Tomo um generoso gole do whisky de fogo em minha mão direita, sentindo o líquido descer queimando por minha garganta enquanto devolvo o copo para a mesa, franzindo a testa pela piora na dor em minha cabeça. As pontadas latejantes, quase perfurando meu cérebro, são agonizantes. Ignoro-as, entupindo-me de álcool.
O verdadeiro poder nunca é dado, e sim tomado.
Minha segunda constatação sobre a vida, dessa vez com pouco mais de 8 anos, não me surpreendeu. Desde que sou consciente do mundo à minha volta, sempre acreditei que não existe bem nem mal, só existe o poder, e aqueles que são demasiado fracos para o desejarem.
Quando descobri o que podia fazer, o que eu podia controlar, elevei meu nível de poder. E ninguém, ninguém mesmo, pode mais me deter. Sem valentões amargurados por não terem sido adotados, sem matronas rígidas com sermões extensos sobre minha conduta anti-Deus, sem mais incertezas por ser diferente. Apenas a mais sublime certeza do meu potencial.
A única coisa minimamente decente que Dumbledore fez por mim foi revelar, sentencio, lembrando-me do dia em que ele veio ao meu encontro me dizer que sou um bruxo.
Giro a varinha das varinhas entre os dedos, sem perceber, entregue aos meus pensamentos.
A morte é a única inimiga fatal que temos.
Um fato interessante é que, nunca entendi minha fixação em odiar a morte até descobrir que havia um modo de pará-la, que havia como ser imortal. Morrer simboliza perder o poder sobre a vida, e perca de controle é uma das coisas que mais odeio. Só a partir desta descoberta, encontrada por mim de forma aleatória, eu entendi que só seria realmente poderoso se parasse a morte. Minha única inimiga fatal.
Nunca consegui esquecer as palavras da freira Dorothea quando lhe questionei a primeira e única vez sobre o porquê de não ter mãe.
Fecho os olhos, lembrando de seu rosto em formato de coração enquanto sinto a luz começar a piorar minha dor de cabeça.
“- Sua mãe está junto de Deus, Tom. Ele a chamou para seu reino – Disse-me uma vez, seus olhos castanhos transbordando convicção – Não fique triste, querido. Ela olha por você do céu – Completou, sorrindo com falsa afetuosidade.”
Uma criança curiosa de 4 anos sempre faz perguntas estúpidas, mas nunca fui como as outras, e isso certamente enlouqueceu a Sra. Cole, que sempre odiou meus questionamentos religiosos. Mesmo fazendo perguntas estúpidas guiado por emoções infantis, respostas rasas nunca me convenceram, e isso enlouquecia todos eles, trouxas de mentes vazias.
E se seu Deus é tão bom, por que nunca impediu os punhos de Howard de me acertarem? Ele tem favoritos? Se sim, isso não vai contra seus próprios ensinamentos? Perguntas sem respostas. Com o tempo, me tornei meu próprio deus, movido por minhas próprias convicções e crenças.
“- Existe um proposito para você nunca ter lhe conhecido, ou ao seu pai – Falou em outro momento Dorothea, nenhum pouco intimidada por minha aparente falta de fé em seus ensinamentos – Deus irá lhe mostrar isso quando for a hora certa, Tom. Até lá, seja um bom garoto.”
Ela teria surtado ao me ver matando meu pai e avós tão friamente, sem misericórdia ou dúvida. E a verdade é que não senti nada minimamente bom após matá-los. Nenhum alívio, nenhuma sensação de realização, ou de felicidade. Nada.
Do deprimente lugar onde nasci e cresci, a Sra. Cole e Martha, nossa enfermeira, foram como fantasmas desagradáveis, sempre tagarelando sobre suas convicções divinas. Suas pregações só não eram mais irritantes que as do padre John e da freira Dorothea.
Fracos, todos eles.
Sorrio sem humor, ignorando as pontadas recorrentes.
É tudo muito simplório e vazio na morte, e eu odeio simplicidade. Em um momento, você está vivo, lutando para sobreviver em um mundo repleto de miséria e loucura, no outro, morto. Simples. Já tive o bastante de simplicidade em minha infância, me nego a ser apenas mais um.
Depois que você morre, tudo acaba. Não existe beleza, serenidade ou esplendor te esperando. Luz branca? Paz eterna? Céu e inferno? Besteira. É apenas o inegável fim, uma simploriedade enervante e sem sentido.
Ouço uma batida hesitante soar, tirando-me de minhas reflexões mórbidas.
— Entre – Ordeno, abrindo os olhos e me endireitando.
Draco adentra o cômodo de cabeça baixa, quase como um cordeiro que teme seu abate. É engraçado como minha mera presença pode afetá-lo. Eu gosto disso. Respeito e temor são fundamentais para mantê-los na linha.
— Milord – Ele me reverencia, evidenciando o tremor em suas mãos.
Coloco a varinha de sabugueiro na mesa.
— Te chamei aqui porque creio que você tem algo que é meu – Falo, sem floreios.
Sua postura se enrijece quase de imediato. Vejo a cor de seu rosto desaparecer gradativamente.
— Perdão?
Levanto-me e rodeio a mesa sem pressa, vendo seus olhos se ampliarem. Minha aparência ofídica confere medo e nojo nas pessoas, algo que não me incomoda nenhum pouco. Mas, especialmente hoje, não estou disposto a usá-la. Por isso, sei que seu medo é unicamente dirigido à minha presença, ao meu poder.
— Conte-me de novo o que aconteceu quando trouxeram Potter aqui e o deixam escapar – Ordeno, estreitando meus olhos enquanto me encosto na mesa, cruzando os braços.
Vejo confusão brilhar em seus olhos pela mudança de assunto.
— Bo-bom, Milord... – Gagueja, tentando encontrar as palavras certas. Isso apenas inflama minha raiva, que piora minha cefaleia – Fenrir trouxe-os, mas... Bom... Foi tu-tudo muito rápido, e... Bo-bom, o elfo... Dobby... O lustre caiu e...
Reviro os olhos.
— Não tenho tempo para sua gagueira recém adquirida, Malfoy – Digo, sem humor – Vamos logo ao que interessa.
Seus olhos se arregalam, ele engole em seco.
— Enquanto Potter ridiculamente fugia, após ser ajudado por um simples elfo doméstico é importante ressaltar, – Friso a última parte, deixando todo o meu nojo evidente – Você foi desarmado?
Suas sobrancelhas se unem em confusão.
— Tudo foi muito rápido – Diz, parecendo divagar em seus pensamentos, mas recuperando o controle da fala – Eles entraram, Hermione aparatou com Luna para longe e, então, Potter e o Weasley foram jogados para nós – Um gosto amargo se instala em minha boca ao ouvi-lo se referir à Hermione pelo primeiro nome – Tia Bella expulsou Fenrir e seu bando aos gritos, irritada por eles dizerem que merecem todo o crédito pela captura deles. Logo, meu pai tratou de lhe chamar, Milord – Suas palavras são exatas, combinando perfeitamente com tudo o que colhi da mente de Lucius pouco tempo antes de mandar lhe chamar – Mas, antes que o chamado pudesse ser concretizado, o lustre caiu, tirando-nos de perto deles, que aproveitaram essa distração para pegarem suas varinhas de volta e aparataram com Dobby.
Descruzo os braços, afasto-me da mesa e sigo até perto dele, vendo seu corpo se encolher involuntariamente. Paro bem a sua frente, contraindo meu maxilar.
— Responda minha pergunta, Draco – Sou frio, sem emoção. – Você duelou com Potter?
Ele olha para o chão, envergonhado.
— Eu era o mais próximo deles, praticamente embaixo do lustre – Revela, suas bochechas atingindo um tom escarlate – Quan-quando o lustre caiu, mamãe me jogou para longe – Sua voz é baixa, não passando de um sussurro – Perdi o equilíbrio e bati minha cabeça contra a mesa de reuniões – Ele volta a me encarar, temeroso – Desmaiei, Milord. Não participei do confronto que ocorreu.
Sorrio, pegando-o de surpresa.
— Ótimo.
Dou-lhe as costas voltando a passos rápidos até a mesa, parando à sua frente. Ao lado do meu copo de whisky, minha varinha com núcleo de pena de fênix repousa. Pego-a, sentindo nossa familiar ligação.
Mesmo ciente de todo o ocorrido, justamente por ter esquadrilhado à mente de Lucius em busca de respostas, trazer Draco me serve para concretizar minhas suspeitas: ele não sabe de nada, e Severo Snape irá morrer agonizando como todas as suas mentiras descobertas.
— Você cometeu dois grandes erros, Draco – Informo, voltando-me para ele, percebendo que o mesmo não se moveu nenhum milímetro – O primeiro não foi sua culpa, admito. Você foi usado e, como tal, colocado em uma situação que não tem controle algum – Ele engole em seco, completamente perdido – E, se fosse apenas isso, sua sentença seria branda. Eu diria que indolor até.
— Milord...?
Um sorriso sinistro desponta em meus lábios, externando todos os meus objetivos.
— Mas, ninguém, e quero deixar isso muito claro, ninguém... Ninguém pode se referir à minha Hermione pelo primeiro nome, a não ser que eu permita – Rosno entre dentes, deixando meus demônios virem à superfície – Esse foi seu único erro – Ciúme turva minha visão.
Sua boca se escancara, parecendo perceber seu erro apenas agora.
— Milord, eu sinto muito, eu não pensei... – Ele cambaleia para trás, totalmente apavorado – Eu sinto muito! Perdoe minha indiscrição, eu...
— Você nunca pensa, Malfoy – Corto-o, endireitando minha postura – Eu espero que você seja um oponente razoável – Provoco-o, praticamente vendo sua alma deixar seu corpo em pânico.
Tenha em mente que ele não sabe que está em posse da lealdade da varinha das varinhas, uma vozinha racional lembra-me, sendo prontamente ignorada. Seu inimigo é outro.
— Você não morrerá hoje, Draco, apenas sofrerá algumas contusões – Aviso, brincando com suas emoções enquanto me delicio com seu desespero – Mas, isso não significa que serei injusto – Falo, tentando soar animador – Empunhe sua varinha, deixarei você desferi o primeiro feitiço.
Seu corpo está tão rígido quanto uma barra de ferro, piscando sem parar enquanto procura entender minhas palavras.
— Eu não entendo...
— Não é para você entender, é para fazer o que mandei – Sua insubordinação aliada ao meu ciúmes desperta meus demônios.
— Milord...?
— Pegue a porra da varinha! – Grito, perdendo por completo a paciência.
Ele empunha sua varinha, tremendo violentamente. Quase posso ver o pânico nauseante retorcer suas entranhas.
— Ataque-me.
Ele hesita, e isso é o bastante para me descontrolar por completo. Ignoro minha dor de cabeça, ciente de que terei muito tempo depois para aliviá-la.
E, sem piedade, eu ataco.
***
(Será que quero saber)
Se esse sentimento é recíproco?
(Triste por te ver partir)
Eu meio que esperava que você ficasse
(Querida, nós dois sabemos)
Que as noites foram feitas principalmente
Para dizer coisas que não se pode dizer no dia seguinte
— Arctic Monkeys (Do I Wanna Know?)
Deixo a água lavar o sangue seco em minhas mãos, esfregando-as com força. A pia manchada de vermelho não me inspiração emoção alguma, muito menos o olhar chocado que recebi de Narcisa momentos atrás.
Ora, ele ainda estava respirando e consciente quando acabei, penso, lembrando da bagunça que fiz em Draco. Se não fosse essa merda de dor de cabeça, eu realmente poderia ter me divertido.
Encaro meu reflexo, vendo minha bochecha direita manchada de sangue. Esfrego-a, retirando com rapidez os resquícios de meu descontrole.
— Não me surpreende eles terem medo de você – Diz Morgana, surgindo no reflexo do espelho à minha frente – Você é sádico, Tom – Existe diversão em sua voz, não a censura que normalmente vem com essa afirmação.
Pego a toalha do suporte na parede, secando minhas mãos e bochecha.
— O que você quer?
— Apenas vim checar sua disposição para a batalha que se seguirá – Existe sarcasmo em suas palavras – Ansioso para enfrentar Potter?
Viro-me, a encarando de frente.
— Minha disposição, como você chama, não é da sua conta – Sou direto, vendo-a contraindo os lábios em desaprovação – Já não basta você ter sumido com minhas horcruxes, veio me irritar com conversa fiada? Por favor, Lefay, faça um favor a si mesma e pare de me irritar. E, assim que Potter estiver morto, você me devolverá elas.
Ela suspira, parecendo se resignar.
— Você é desagradável demais quando quer – Seus olhos se reviram. – Não vim jogar conversa fora, tenho mais o que fazer. E, só para deixar claro, eu gostava mais de você quando ainda não sabia falar – Sua provocação me irritada, inflamando ainda mais o incomodo em minha cabeça – Não foi tão difícil me passar por você quando induzi Bellatrix e Draco a pegarem suas horcruxes – Um sorriso cínico aparece em seu rosto – Na verdade, imitar seu jeito escroto fora muito fácil, os dois caíram como patinhos –Termina, afastando-se da porta com rapidez.
Volto ao escritório, vendo-a se sentar na poltrona em frente à mesa. Dou a volta, e me sento de frente para ela, com o móvel nos separando.
— E, sinceramente, não tenho a intenção de permanecer mais do que o necessário com suas horcruxes – Diz, analisando o cômodo com falso interesse – Só as peguei porque você estava fazendo um trabalho de merda em mantê-las à salvo e, como já te falei, dependo de sua vitória para manter Avalon em pé. Não seja rabugento, Tom.
Ranjo os dentes.
— Então, você se passou por mim para conseguir minhas horcruxes? – Pergunto entredentes, sentindo minha respiração se descompensar.
Um amplo sorriso aparece, ela balança a cabeça em concordância.
— Uma miragem aqui, palavras rosnadas ali, uma ordem velada de sentença de morte acolá... Bum! Tudo saindo perfeitamente bem.
Quero rebater, estrangulá-la. Mas, sei que suas intenções justificam os meios. Seu conhecimento sobre o mundo é mais amplo que o meu e, mesmo que eu nunca admita em voz alta, isso é o que importa.
Morgana, contra tudo e todos, se tornou minha aliada mais formidável, e também uma ponte entre Hermione e eu. Não entendo seus sentimentos por minha castanha, mas sei que existe afeto entre elas.
— Você era um bebê muito fofo – Comenta despreocupadamente, sorrindo de lado em seguida – A primeira palavra coerente que saiu de sua boca foi “não”, sabia? Não me lembro bem do contexto, mas creio que era porque você não queria comer mingau de aveia.
Trinco os dentes, odiando a forma como ela participou indiretamente desta parte da minha vida.
— Eu sempre te observei, Tom – Revela, não me surpreendendo – Sei que não fara diferença para você agora, mas... Eu realmente gostaria de ter ficado com você – Seus olhos brilham, demostrando saudosismo – Eu vi pequenos trechos do seu desenvolvimento quando criança e adolescente, e confesso que isso me marcou muito. Mérope...
— Não, já chega! – Rosno, erguendo minha mão em advertência – Já chega dessa merda sentimental. Essa parte do meu passado está morta e enterrada, não...
— Não, não está – Me corta, determinação queima em seus olhos – Quando você nasceu, foi a primeira vez em muito tempo que vi Mérope demonstrar felicidade, amor e força. Você lhe trouxe esperança e vontade de viver, Tom. Eu preciso te falar... – Ela inspira profundamente – Sei que será difícil para você acreditar...
Fico em silêncio, absolvendo suas palavras desconfortavelmente.
— Mérope te amou mais que a si mesma – Prossegue, demonstrando uma certeza absoluta em suas palavras – Avalon roubou de vocês uma família, a felicidade que os dois tanto mereciam e, do fundo do meu coração, eu sinto muito.
Com um aceno simples de mão, desdenho de suas palavras.
— Suas desculpas não significam nada para mim, Morgana – Mantenho meu tom baixo e inflexível – E se por algum momento você pensou que sim... Bom, você é mais ingênua do que parece.
Ela me encara por alguns momentos e, então, suspira profundamente, parecendo entender sua derrota. Um gosto amargo se instala em meu paladar, mas trato de ignorá-lo.
Relembrar uma parte decadente do meu passado é uma coisa, ouvi-la me lembrando que ações impensadas e amores não correspondidos acabaram com os primeiros anos da minha vida, privando-me de ter uma família, é outra completamente diferente. E abominável. Já passei do estágio de realmente sentir algo por meu nascimento infortuno.
— Eu realmente estou repensando minha abordagem cordial em relação a você, Morgana – Grunho, não vendo sentido em suas palavras – Isso é uma perca de tempo, Lefay.
— Você chama isso de cordialidade? Sua educação foi precário então.
Esfrego minha têmpora esquerda com os dedos, massageando o local em busca de alívio. Olho o whisky pela metade em cima da mesa, perguntando-me quanto mais terei que tomar até que a dor suma.
— Precisamos conversar sobre Hermione – Diz, revelando o motivo de sua vinda.
Pego a garrafa e o copo vazio ao seu lado, me servindo de uma dose generosa.
— Por quê? – Fecho a garrafa e levo o copo até a boca, ingerindo um grande gole – Ela está bem, protegida – Giro meu pescoço de um lado para outro, tentando aliviar a tensão dos meus músculos – Mesmo com toda a merda no Profeta Diário, Hermione se mantém longe de perigo. Ela é uma mulher sensata, Morgana.
Um sorriso esquisito aparece em seus lábios.
— Sensata sim, estúpida não.
— O que você quer dizer com isso?
Bebo o líquido do copo em uma golada só, deixando a queimação do whisky clarear minha mente. Antes que eu possa pegar novamente a garrafa, ela flutua para a mão direita de Morgana, em contrapartida, um copo aparece em sua mão desocupada.
— Proponho um brinde à sua recente aquisição – Diz, apontando com o queixo para a varinha das varinhas posicionada perto da borda da mesa, ao meu alcance – É um feito e tanto – É nítida sua tentativa de mudar de assunto.
Recosto meu corpo na poltrona acolchoada, encarando-a.
— O que você quis insinuar dizendo que Hermione não é estúpida? – Estreito meus olhos, ignorando minha dor de cabeça – O que você está me escondendo?
Ela dá de ombros.
— Como se sente em posse de tal poder? Imagino que ela agora esteja te obedecendo direitinho – Morgana despeja whisky em seu copo, coloca a garrafa de volta na mesa e toma uma golada generosa, fazendo uma carreta em seguida – Eu tinha esquecido o quão ruim é isso – Fala, tossindo um pouco.
— Sem rodeios, Lefay, responda-me.
Ergo uma de minhas sobrancelhas, ela deposita o copo na mesa e, sorrindo amplamente, cruza as pernas.
— Hermione já sabe quem matou Bartolomeu Morvik.
De todas as respostas válidas que minha mente pudesse formular, nenhuma se igualaria a sua resposta. Aperto minha mandíbula, sentindo meu sangue correr mais rápido.
— Ela estava investigando por conta própria.
Levanto-me com rapidez, fazendo a poltrona voar para trás. Começo a me mover pelo cômodo, ignorando a presença da bruxa.
Merda, Hermione! Você não sabe deixar nada quieto... Porra!
Não me interessa quem matou o editor do Pasquim, ou o porquê. Não mais, pelo menos. Suas revelações acabaram sendo benéficas para meu ego, fazendo com que todos agora saibam que Hermione é minha.
— Como eu disse, ela é sensata, não estúpida – Ouço Morgana falar.
Encaro-a, percebendo que ela se levantara.
— Quem o matou?
Morgana me dá as costas, subitamente interessada nos papeis em cima da mesa.
— Você logo saberá, não se preocupe – É tudo o que diz.
— Morgana...
— Tom, eu nunca contei isso para ninguém... – Corta-me, parecendo ligeiramente apreensiva.
Levanto uma sobrancelha, frustrado e curioso por sua mudança de assunto.
— Sei que você entenderá os meus motivos por que, como te expliquei, Avalon é tudo o que tenho. É dela que vem minha imortalidade, juventude e poder. E foi decidido, entre Salazar e eu, que um de seus herdeiros governaria o mundo bruxo – Sua voz é pragmática, argumentativa.
— E?
Após Hermione parir, Morgana e eu passamos boas horas discutindo sobre o acordo que Salazar e ela mantém. Então, não posso deixar de me entediar com o assunto, já que ela já havia me contado tudo isso antes.
— Foi por minha causa que Hermione engravidou de você – Minha boca formar um grande “o” – Eu troquei seus anticoncepcionais e torci muito para que ela engravidasse – Confessa.
Sempre me gabei de não ser facilmente surpreendido, mas com sua revelação o golpe é imediato. Lefay me deixa sem palavras. E eu, mais que qualquer um, sei que os fins justificam os meios.
— Por quê? – Consigo perguntar, após alguns instantes em silêncio.
— Eu precisava que ela engravidasse para que seus motivos para ficar do nosso lado fossem fortes o suficiente, e também porque... – Seus ombros se encolhem – Em seu leito de morte, Mérope rogou ao divino para que você tivesse uma família – Ela coloca uma mexa de cabelo atrás da orelha, parecendo divagar – Aquilo nunca saiu da minha mente... Ela só queria que você tivesse o que nunca pode ter, uma boa família – Conclui, parecendo ver sentido em suas palavras.
Balanço a cabeça em negativa, sorrindo com escárnio enquanto acho suas palavras estúpidas.
— Filhos nunca são motivos fortes o suficiente para nada, Morgana – Digo, mesmo sabendo que existe um fio de sentido em suas palavras – E você mais do que ninguém deveria saber disso – Estreio meus olhos. – Se Hermione descobrir, você pode dar adeus ao relacionamento entre vocês.
Ela entende o veneno por trás de minhas palavras, por isso, seu corpo se volta para mim e seus olhos se fixam nos meus.
— Hermione não é Mérope e, enquanto sua mãe perdeu força ao longo dos meses de gestação, Hermione se tornou mais forte e adquiriu uma grande responsabilidade afetiva – Diz com uma doçura enjoativa, cruzando os braços – A sra. Granger pode ser influenciada por pequenos acasos e, venhamos e convenhamos, sou muito boa em criar situações casuais.
Reviro os olhos.
— Por que está me contando isso só agora?
— Porque Hermione é seu calcanhar de Aquiles – Responde sem hesitar, inclinando-se para frente – Ela é seu ponto fraco, Tom. Mesmo que não admita para mim, ou até mesmo para si mesmo... Você faria qualquer coisa por ela – Ela troca o peso dos pés – E isso aliado ao fato de que você não consegue controlá-la porque, como bem sabemos, ela é incontrolável, pode acabar atrapalhando nossos planos. Não quero acordar um belo dia e descobrir que seu corpo foi destruído porque você se distraiu em campo preocupado com a Hermione.
Não lhe contradigo, apenas permaneço imóvel e quieto. Discutir meus sentimentos e ações em relação à Hermione com Morgana é algo que não está no roteiro da minha vida.
— Como a boa garota que é, Hermione é guiada por sentimentos – Começa, analítica – Ela ama intensamente e tem um forte senso de justiça. E como bem sabemos, nosso lado não é o mais sentimental, ou justo, que existe.
— Sem rodeios, seja direta.
Sua boca se retorce em desagrado, ela dá alguns passo em minha direção, parando à meio metro.
— Mesmo que não tenha mais contato com Potter, ou com os Weasley’s, eu não sei se ela está completamente disposta a fazer o que é necessário para ganharmos – Revela, encolhendo os ombros – Devemos ser realistas, seus filhos dependem disso para não serem caçados por vítimas suas enlouquecidas. Você já matou filhos, pais, amigos e conhecidos de cada bruxa ou bruxa deste país – Deixando seus braços caírem ao lado do seu corpo, vejo um lampejo de hesitação passar por seus olhos – Não quero ser pessimista, mas... Um passo em falso e tudo rui.
— Você tem medo de que Hermione mude de lado – Verbalizo seus pensamentos, seguindo até o aparador repleto de garrafas com bebidas.
— Sim.
Não fode, porra.
Me sirvo de licor, precisando de uma dose generosa do líquido esverdeado para acalmar meus pensamentos.
— Ela não irá, eu sei disso – Afirmo friamente, mesmo sabendo que não tenho tanta certeza como transpareço.
— Sua fé nela é tocante – Sarcasmo transborda de suas palavras. – Mas, nem só de fé se vive. Quero que você a mantenha longe do campo de batalha, Tom. Precisamos dela sob controle.
Bebo o licor em uma só colada, sem tempo para apreciar sua queimação adocicada.
— Não que eu já tenha ao menos considerado deixar ela chegar à menos de 10km de um campo de batalha, mas... Por que seu súbito desespero com isso? Qual o real problema, Morgana?
Ela coloca as mãos no quadril.
— Como seu ponto fraco mais exposto e volátil, não quero que você se distraia temendo a segurança dela e perca seu foco – Soltando um suspiro audível, ela endireita sua postura – Não me entenda mal, Tom, mas Hermione não tem o que é necessário para ser uma assassina. Ela é boa, gentil, condescendente e generosa demais. Portanto, não quero que ela pule do barco e você enlouqueça.
— Sua fé em nós é tocante – Me ouço dizer, replicando suas palavras com ainda mais sarcasmo.
— Isso não é uma piada, Tom, eu realmente...
O som familiar de aparatação corta suas palavras, me viro de imediato para o intruso. O pânico soca meu estômago, retorcendo minhas entranhas. Minha boca vai ao chão enquanto escuto Morgana soltar uma exclamação de horror com a visão à nossa frente. É inevitável, meu coração dispara.
Porra.
Sinto meu corpo paralisar, não compreendendo a situação. É uma cena digna de um pesadelo. Hermione está parada em um canto da sala, completamente desorientada e maltrapilha. E pior, ensanguentada.
Seu olhar é frenético, não se focando em nada, e isso me assusta.
— O que...? – Engulo em seco, dando um passo em sua direção.
Seus olhos se voltam para mim, parecendo enxergar-me só depois que escuta minha voz. A mudança em sua postura é imediata. Vejo seu lábio inferior tremer, seus olhos turvando pelas lágrimas mal contidas. Quando a primeira lágrima cai, ela envolve seu corpo com os braços, de forma protetora.
Dou outro passo em sua direção, mas paro ao vê-la se afastar, encostando seu corpo na parede. Engulo uma maldição, minha respiração se descontrolando.
— Querida... – Minha voz morre quando ela balança a cabeça em negativa.
Vejo seus dedos se afundarem em seus braços delicados, em um aperto de ferro.
— Eu matei ela. – Confessa, não parecendo perceber a presença de Morgana – Eu a matei, Tom... Eu sinto muito... – O turbilhão de emoções que passam por seu rosto é angustiante – Mas foi preciso.
Com o rosto pálido, os olhos arregalados e inchados, e uma paralisante expressão de desolação, vejo Hermione perder as forças de suas pernas, indo ao chão em câmera lenta diante dos meus olhos.
[...] Dois de Maio, 1998 [...]
Me arrastando de volta para você
Já pensou em ligar quando você tomou umas?
Porque eu sempre penso
Talvez eu esteja muito ocupado sendo seu
Para me apaixonar por outra pessoa
Agora, pensei bem sobre isso
Me arrastando de volta para você
— Arctic Monkeys (Do I Wanna Know)
Quando Severo Snape recebeu o chamado de seu Lord aquela noite, ele sabia que sua hora havia chegado. Sem remorso ou medo, ele seguiu para seu abatedouro, a Casa dos Gritos.
O problema de servir a alguém tão inteligente e poderoso é que apenas por uma determinada quantidade de tempo você pode o enganar, e quando suas mentiras caem por terra, é hora de aguentar as consequências. Uma hora ou outra, Voldemort se tocaria que a Varinha das Varinhas não está lhe respondendo como deveria.
— O senhor realizou extraordinária magia com está varinha, Milord, só nas últimas horas – Diz o mestre das poções, parado ereto em frente ao seu senhor.
A pouca iluminação do lugar confere densidade, morbidez e tristeza ao ambiente. Rony e Harry esgueiram-se por trás da parede de madeira, tentando fazer o mínimo de barulho possível.
— Não, eu sou extraordinário – Fala sem modéstia alguma, aproximando-se do mesmo com Nagini em seu encalço – Está varinha resiste a mim – Revela, mantendo sua voz em um tom neutro.
A cobra esgueira-se pelo chão, sumindo entre as sombras.
— Não existe varinha mais poderosa, o próprio Olivaras disse isso – Relembra, não se abalando com as palavras do bruxo – Está noite, quando o garoto vier, ela não falhará. Eu tenho certeza.
Voldemort para bem à sua frente, encarando-lhe nos olhos com seriedade. Severo não fraqueja, encara seu senhor calmamente, buscando se concentrar em suas palavras o suficiente para que o outro não perceba suas mentiras.
A fisionomia de réptil que Tom escolheu usar neste momento não é unicamente para intimidação. Não, está noite ela simboliza o fim de uma era, simboliza o renascimento posterior de um império. Sua aparência grotesca será a última coisa que seus inimigos verão antes de morrerem.
— Ela responde ao senhor, e ao senhor apenas – Completa Snape, dando ênfase em cada uma das palavras.
Sentindo uma ligeira mudança na atmosfera depois de suas palavras, Severo pisca lentamente, tentando entender quais emoções atravessam os olhos de Você-Sabe-Quem.
— Será? – Questiona Riddle, repudiando a confusão fingida que atravessa o rosto de seu antes aliado.
— Milord?
— A varinha realmente só responde a mim? – Pergunta ele, dando a volta no comensal. O professor se vira com cautela, tentando não transparecer nada – Você é um homem sábio, Severo, deve ter a resposta para quem a lealdade dela realmente pertence.
Voldemort se afasta, refazendo o caminho que fez para se aproximar do mestre das poções.
— Ao senhor, é claro, Milord – Se apressa em dizer.
Uma risada debochada escapa da boca de Tom, fazendo Snape franzi ligeiramente a testa.
— A varinha das varinhas não pode servir seu dono apropriadamente se seu antigo senhor não foi morto – Fala pragmaticamente, parecendo dialogar com uma criança – Bom, eu poderia dizer que está varinha pertence ao bruxo que matou seu último mestre... – Ele volta a se aproximar, inquieto – Você matou Dumbledore, Severo. Enquanto você viver a Varinha das Varinhas não será realmente minha.
Severo engole em seco.
— Você tem sido um servo bom e leal, Severo... – Elogia, permanecendo sério por alguns segundos, mas logo solta uma risada ruidosa, não conseguindo se aguentar – Desculpe-me, eu nem consigo ficar sério enquanto digo isso.
Isso pega todos de surpresa, principalmente, o príncipe mestiço.
— Sempre fui um excelente ator – Diz, limpando a lágrima que escorre por sua risada – Mas, você me superou e, por isso, te dou seus devidos créditos.
— Milord?
Em um aceno de varinha, Snape cai no chão gritando de dor, com a maldição cruciatus destroçando seu corpo de dentro para fora. Ele faz de tudo para não gritar, mas a força do feitiço é esmagadora.
— Só eu posso viver para sempre, Severo – Diz, cessando a maldição.
— E-eu na-não... – Ele tenta falar, mas a dor o consome.
— Você foi um traidor habilidoso, mas nunca foi maior aliado – Revela, pegando os três de surpresa – Saiba que a varinha das varinhas responde a mim e que eu só estava... Como dizem...? Ah, sim... Eu só estava me divertindo as suas custas, Severo – E ele sorrir, vendo o bruxo lutar para se colocar de pé – Espero que tenha valido a pena me trair, Snape.
Em um aceno de varinha, a garganta do mestre de poções é cortada.
— Nagini, mate!
Enquanto sua consciência se esvai, Severo não pode deixar de contemplar uma última vez os olhos da mulher que tanto amou, mesmo que estes estejam fixos no rosto do filho do homem que odiou com todas as suas forças.
É irônico como a vida trabalha.
[...] Março de 1998 [...]
Então, você tem coragem?
Estive pensando se seu coração ainda está aberto
E se estiver, quero saber que horas ele fecha
Se acalme e prepare seus lábios
Sinto muito interromper, é que apenas estou constantemente à beira
De tentar te beijar
Mas não sei se você sente o mesmo que eu sinto
Mas poderíamos ficar juntos se você quisesse
Arctic Monkeys (Do I Wanna Know?)
Meus pés se movem mais rápido que minha mente filtra a cena à minha frente. Pego-a antes que seu corpo se choque contra o chão, o sangue fresco em suas roupas mancha minha camisa, mãos e calça, mas não me importo. Seu perfume misturado com suor, sangue e fumaça me envolve.
Passando meus braços por suas costas e pernas, tiro-a do chão, aconchegando seu corpo em meus braços com suavidade. Quero embalá-la, apagar de sua mente os vestígios de seu ataque. Ela não protesta, não emite som algum. Sua palidez é fantasmagórica.
Engulo em seco, enquanto tento controlar minha preocupação e raiva para que elas não obstruam minhas vias respiratórias.
Quem ousaria...?
— Coloque-a aqui – Ouço Morgana instruir, puxando a poltrona em que antes estava sentada para mais perto, tomando cuidado para virá-la em nossa direção.
Com poucas passadas, coloco-a com relutância sentada, fixando minha atenção em seu rosto, buscando sinais de dor. Nada. Hermione não demonstra nada além de angústia e desolação, e um cansaço quase doentio.
— Você está ferida? O que aconteceu? Quem fez isso com você? – Pergunto frenético, procurando com os olhos ferimentos visíveis – Nossos filhos estão bem? – A bile sobe por minha garganta.
Se algo aconteceu...
Ela fixa sua atenção em mim, sem piscar, quase parecendo fora do ar e, então, engole em seco.
— Eles es-estão bem, em casa... eu não... não... Nada aconteceu... – Não quero ficar aliviado, mas fico.
Existe um vazio sufocante em suas orbes. Seu rosto, cabelo, roupas e mãos estão ensanguentadas, é a primeira coisa que percebo. Sangue seco em alguns pontos e úmido em outros. Percebo em seguida que seu lábio inferior está cortado, sua bochecha direita está arroxeada e em sua sobrancelha direita um corte médio jorra sangue. Existem alguns buracos em suas vestes e arranhões em suas mãos, mas nada muito grave. Tudo é manchado por vermelho, uma bagunça completa.
— Hermione – Seu nome é sussurrado por Morgana, lembrando-me de sua presença na sala – Querida, o que aconteceu? – Ela abaixa o olhar, encarando suas mãos entrelaçadas em seu colo.
Com minha mão direita, retiro uma mexa de cabelo do seu rosto, acariciando sua bochecha esquerda com ternura. Ela se encolhe com meu gesto, embrulhando meu estômago. Não detecto nenhum ferimento grave em seu corpo, mas sua palidez e sujeira podem estar obstruindo minha visão.
— Você está machucada gravemente? – Pergunto, ajeitando a manga de sua blusa que pende para baixo, meio rasgada.
— Não – Sussurra.
— Chame Narcisa – Ordeno para Morgana por cima do ombro, tentando controlar meus pensamentos – Traga-a aqui agora mesmo.
Ela não me contradiz, apenas desaparece, mas não sem antes lançar um olhar entristecido para minha noiva.
Agarro seu rosto com ambas as mãos, ajoelhando-me aos seus pés. Com delicadeza, ergo seu queixo. Mesmo com seu rosto machucado, levemente inchado e ensanguentado, posso ver traços de terra negra em alguns pontos.
— Hermione, o que...?
— Eu perdi seu anel – Sussurra, mordendo o lábio inferior com força, machucando-o ainda mais – Ele caiu, eu não consegui achar – Ela ergue sua mão, mostrando-me seus dedos sujos de sangue e terra. Sem anel.
Com o polegar, retiro o lábio de seus dentes, não querendo que a mesma se machuque ainda mais. Seus olhos estão marejados, tão angustiados.
— Era só um anel, posso te comprar meia dúzia deles – Digo, tentando aliviar a situação – Me diga o que aconteceu, Hermione. Estou desesperado.
— Eu a matei... – Murmura outra vez com um fio de voz, deixando suas lágrimas escorrerem – Eu sou... Eu sou uma... Ai meu Deus, Tom! – Ela se engasga, tossindo um pouco – Eu a matei.
Uno meus lábios as dela com calma, tentando lhe passar conforto e segurança. Ela fica imóvel, tensa. Movo minha cabeça devagar, tentando despertar alguma reação sua. Seu corpo relaxa o suficiente para que eu saiba que posso aprofundar nosso beijo. Invado sua boca com a língua, sentindo o gosto metálico de sangue inundar meu paladar, assim como a doçura típica de seus lábios. Sou suave, não querendo lhe machucar. Deixo minha língua vaguear por sua boca lentamente; enroscando-se, provocando, instigando.
Quando me separo, colo minha testa na sua, deixando que nossas respirações se normalizem.
— Eu estou com você, querida, estamos juntos.
Um som engasgado deixa sua garganta, comprimindo meu coração. Lágrimas voltam a escorrer, deixando um rastro úmido por seu rosto. É devastador ver seu estado descontrolado.
— Não se esforce, Narcisa logo estará aqui – Peço, limpando suas lágrimas com delicadeza e tomando cuidado para não lhe machucar – Você ficará bem.
Quando suas mãos rodeiam meu pescoço e seu rosto se enterra ali, sinto os tremores convulsivos de seu corpo começarem. Abraço-a com força, desesperado para aliviar seu sofrimento. Hermione inspira e expira profundamente, encolhendo-se em meus braços.
— Eu a matei. Eu a matei. Eu a matei. – Murmura descontrolada, com sua voz ficando ligeiramente estridente – Eu a matei. Eu a matei... Mas não queria, eu juro.
Franzo a testa, apertando com cuidado seu corpo contra o meu.
— Hermione, eu não entendo... – Aproximo minha boca de seu ouvido, sentindo o cheiro pungente de sangue fresco – Quem você matou?
— Eu a matei... Minha mãe... Bellatrix.
***
(Será que quero saber)
Se esse sentimento é recíproco?
(Triste por te ver partir)
Eu meio que esperava que você ficasse
(Querida, nós dois sabemos)
Que as noites foram feitas principalmente
Para dizer coisas que não se pode dizer no dia seguinte
Arctic Monkeys (Do I Wanna Know?)
Deitada na cama, parecendo pequena e indefesa, Hermione dorme tranquilamente, agora curada e banhada. Suas contusões estão mais evidentes, vermelhas e arroxeadas, partindo de sua bochecha e se espalhando por suas mãos, braços e pernas. Seu lábio inferior está inchado e cortado. A camisola branca que Morgana lhe vestiu evidencia seu estado debilitado.
Seguro sua mão, me sentando na beirada da cama. Sua pele está morna, frágil.
— Eu não esperava que ela fosse tão insana a ponto de atacar Hermione – A voz de Morgana quebra o silêncio, com sua figura surgindo ao meu lado.
Tenho que soltar sua mão, temendo lhe machucar quando a onda de raiva vem. Fecho minhas mãos em punhos, inspirando profundamente.
— Bellatrix é uma vadia desgraçada – Sibilo.
Ouço seu suspiro, mas não desgrudo meus olhos de Hermione.
Tão frágil e pequena... Merda, foi minha culpa. Eu deveria ter matado Bellatrix muito tempo atrás, martirizo-me. Se algo lhe tivesse acontecido... Engulo em seco.
— Ela ficará bem, mas levará tempo – Comenta, como se quisesse me consolar.
— Não pedi a sua opinião, Morgana.
Ela aproxima-se da cama, passa as costas da mão direita na bochecha da minha castanha e inclina-se sobre Hermione, beijando sua testa com carinho.
— Não, não pediu, mas não preciso que peçam minha opinião, sou muito boa em ofertá-la sem precisarem me solicitar – Murmura, ajeitando a postura e se afastando um pouco – O que Narcisa falou sobre seu estado?
Volto a segurar sua mão, apertando de leve.
— Ela sofreu uma série de contusões nas costelas, fraturando duas delas, várias escoriações pelo corpo e uma fratura no crânio, fina como um fio de cabelo. Também teve uma perca significativa de sangue – Levo sua mãos as lábios e beijo os nós de seus dedos – Mas, nada grave.
— Ah, graças a Merlin!
Ficamos em silêncio por alguns minutos, perdidos em pensamentos.
— Ela está dormindo sob efeito de poções – Comento, não sabendo direito o porquê – Narcisa achou melhor assim, ela estava muito agitada.
Ela faz um barulho com a garganta em sinal de concordância.
— E como Narcisa estar? – Pergunta instantes depois.
Franzo a testa desviando, pela primeira vez, minha atenção de Hermione para olhar para ela.
Vejo que seu vestido foi trocado e seus cabelos agora estão trançados.
— E isso importa?
Suas mãos voam para sua cintura.
— Bellatrix era sua irmã, Tom! – Exclama, parecendo se irritar com o desdém de minhas palavras – Mesmo a Lestrange tendo sido uma louca, ela ainda era irmã de Narcisa.
Dou de ombros.
— Bellatrix ia morrer de uma forma ou de outra – Rosno, irritado – Meu único remorso é não ter lhe matado assim que descobri que ela me esconderá o fato de ser mãe de Hermione – Passo a mão livre por meus cabelos – Se eu a tivesse matado, Hermione não precisaria ser machucada. Foi um erro tolo que nunca mais cometerei.
Ela balança a cabeça em negativa.
— Narcisa ficou devastada com a notícia, Tom. Ela tremia! – Sua voz é categórica – Enquanto curava Hermione, diagnosticava e preparava as poções, ela mal conseguia parar de tremer. Seus olhos estavam marejados o tempo todo, como você não percebeu... Ou melhor, como você não se importa com isso?
Solto uma lufada de ar pela boca.
— Serei o mais explicito possível, Morgana – Meu tom é baixo e frio – As únicas pessoas que me importam são Hermione e meus filhos, o resto do mundo pode se foder.
Volto minha atenção para minha castanha, ignorando-a.
— Você é incredível.
— Não, o que eu sou é sincero – Lanço um olhar hostil para ela – Hermione e meus filhos são tudo o que importa.
Ela não diz mais nada, simplesmente some.
Já vai tarde.
[...] Abril de 1998 [...]
Me arrastando de volta para você (arrastando de volta para você)
Já pensou em ligar quando você tomou umas? (Você tomou umas?)
Porque eu sempre penso (porque eu sempre penso)
Talvez eu esteja muito (talvez eu esteja muito ocupado)
Ocupado sendo seu (sendo seu)
Para me apaixonar por outra pessoa
Agora pensei bem sobre isso
Me arrastando de volta para você
Arctic Monkeys (Do I Wanna Know?)
Enquanto caminho pelo corredor, desabotoo minha camisa com lentidão, louco para tomar um banho. A porta do nosso quarto está aberta, assim como a dos gêmeos.
De novo, Hermione!?
Ao invés de entrar em nosso quarto, paro no batente da porta dos bebês, vendo-a parada em frente ao berço duplo das crianças.
— Como você está?
Seus olhos se movem do berço dos bebês para mim, piscando lentamente.
— Perdão?
Entro no quarto, fecho a porta e me aproximo dela. Abraço sua cintura com força, descansando meu queixo em seu ombro. Seu shampoo e sua colônia invadem minhas narinas. Relaxo.
— Pare de pensar nisso, Hermione – Aconselho, beijando seu pescoço enquanto vejo nossos bebês dormindo – Já faz mais de um mês, você não pode se martirizar por ter se defendido – Alya se agita em seu sono, mexendo suas perninhas – Se ela não estivesse morta, eu mesmo a mataria. Dolorosa e lentamente – Rosno a última parte.
Sua falta de apetite e sono nas primeiras 2 semanas após o ocorrido me assustaram pra caramba. Vi Hermione definhar diante dos meus olhos por ter matado Bellatrix sem conseguir fazer nada. Nada do que Morgana e eu falamos tirou-lhe do seu luto. E, para piorar, ela não contou tudo o que se passou na luta.
Seus únicos momentos alegres, aonde eu realmente via sua força emergir, era quando ela estava ao redor dos gêmeos. Se Narcisa não tivesse interferido, quase um mês após a morte da Lestrange, e conversado com ela por algumas horas, de acordo com Morgana, não sei onde estaríamos.
Se tornar uma assassina destruiu uma parte de Hermione que nunca mais seria recuperada. Quero me entristecer por isso, mas a única coisa que consigo pensar é que ainda bem que Hermione se defendeu.
— Fui eu quem a procurou, Tom – Diz, sua voz não passando de um sussurro – Rastreei ela até a mansão Lestrange e a confrontei, o primeiro feitiço disparado foi meu.
Não esboço reação, não querendo lhe aborrecer.
— Não importa, você fez o que era preciso. Sua morte é uma benção para nossas vidas, Bellatrix já não servia para nada.
Seu corpo fica tenso. Mordo o lóbulo de sua orelha para lhe distrair, arrancando-lhe um suspiro baixinho.
— Tom!
Rio.
Com delicadeza, giro seu corpo, fazendo-a ficar de frente para mim. Seus olhos estão sem o brilho petulante que tanto amo, mas ainda são de tirar o fôlego.
— Amo você – Sussurro antes de colar meus lábios aos seus.
Ela retribui ao meu beijo de imediato, agarrando-se a mim com força. Suas mãos rodeiam meu pescoço, enquanto meus braços agarram sua cinturam e grudam seu corpo ao meu. Nossas línguas se enroscam desesperadamente, em uma brincadeira deliciosa de exploração.
— Eu também amo você – Murmura assim que nos separamos.
Colo minha testa a sua, deixando a ponta de nossos narizes se tocarem. Vejo seus olhos marejarem.
— Não chore, querida – Peço, apertando ainda mais seu corpo contra o meu, quase tirando-lhe do chão – Você é mais forte do que pensa.
— Eu não quero ser forte, Tom – Confessa, deixando as primeiras lágrimas caírem – Não aguento mais ser forte.
Solto sua cintura e agarro seu rosto com as mãos, limpando suas lágrimas com meus polegares.
— Não diga isso, Hermione. O poder nos liberta, nos faz alcançar o inimaginável.
Ela balança a cabeça, discordando.
— Poder mata, machuca e distorce tudo.
— Não, querida, você está errada – Puxo-a de volta para meus braços, sentindo-a se aconchegar em meu corpo – Mas não se preocupe, sou poderoso o suficiente por nós dois.
Ela inspira meu cheiro profundamente, deitando a cabeça em meu peito.
— Tenho medo de te perder, Tom.
— Você não irá, eu prometo.
[...] Dois de Maio, 1998 [...]
A cada passo que a mulher dá, seu coração bate mais forte, como se tambores estivessem sendo simultaneamente batucados em seu peito. É uma sensação angustiante, e não ajuda em nada a floresta está fria, escura e úmida. Sob o olhar atento de várias pessoas que querem ver sua derrota, principalmente após os fracassos de seu marido e distúrbios de sua irmã, ela se mantém altiva.
Ele está à salvo. Ele está à salvo. Ele está à salvo.
Assim que se aproxima de seu destino, a loira se ajoelha com lentidão, sua varinha apontada para o corpo em seus pés, sua mente pronta para se defender se for preciso. O garoto de pouco mais de 17 anos está imóvel, parecendo morto.
Seus olhos treinados buscam sinais de vida, que logo são encontrados na respiração fraca e irregular do jovem. Neste breve momento, Narcisa tem um lampejo em sua mente de seu filho, igualmente jovem e bonito. Por uma fração de segundos, seu coração falha algumas batidas e sua determinação rui.
Mas, independentemente dos momentos complacentes de Narcisa, ela é uma Malfoy. Nascida em uma linhagem de sangue puro, é claro como o dia que a caçula Rosier Black foi criada para acreditar que a magia deveria se sobrepor aos trouxas.
Virando-se para sua plateia, encontrando o olhar atento de todos os comensais, seu marido e seu senhor, Narcisa respira fundo antes de proferir:
— Ele está vivo.
“Há pessoas que amam o poder, e outras que tem o poder de amar.”
— Bob Marley
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