Notas iniciais
Enjoy

— Hermione...

Choque, descrença e assombro passam por seu rosto. Sua mão vai ao peito enquanto ela dá algumas passadas para mais perto de mim.

— Querida... – Existe temor em sua voz, como se ela tivesse medo que eu desaparecesse.

E mesmo com meu coração a mil por hora desde que acordei, consigo sentir o falhar de algumas batidas, tomada de amor e saudade.

Eu estou em casa.

— Oi, mãe – Consigo dizer sob o maremoto de emoções que me dominam.

— Hermione – Grita meu nome assim que assimila minha voz, jogando-se em mim.

Ela me abraça com tanta força que mal consigo respirar de direito. O cheiro do seu perfume invade minhas narinas. Fecho os olhos, absolvendo seu amor.

— Você está em casa, meu amor – Sussurra em meu ouvido, beijando meu rosto, cabelo e ombro com carinho – Você voltou para nós.

Choro baixinho, não aguento a explosão de felicidade que sinto ao escutar suas palavras.

— Mamãe – Soluço seu nome.

— Jane, o que está... – A voz do meu pai morre ao me ver.

Sorrio timidamente para ele, fazendo-o paralisar por alguns segundos.

Seus braços nos rodeiam em um abraço de urso, com ele quase nos tirando do chão. Sua colônia se sobrepõe ao perfume de Jane.

Sorrio por entre as lágrimas.

— Você voltou... – Ele sussurra em meu cabelo, grudando os lábios em minha testa.

— Eu voltei.

Quando nos separamos, vários minutos já tinham se passado. Minha mãe limpa o rosto com a manga do suéter verde escuro que ela usava e meu pai coloca seu braço por cima de seus ombros enquanto me encaram.

— Estamos tão felizes por você ter voltado – Começa ele, sua voz enviando tranquilidade ao meu coração – Mas isso quer dizer que você deixou o Instituto? Não estamos em época de férias ou feriado e...

— Não importa, Arthur – Minha mãe o corta, brava – O importante é que a Hermione está em casa agora. Conosco.

— Eu sei, Jane. Mas...

— Não. – Ela é incisiva.

Ele franze a testa, confuso com sua bravura.

Rio, pegando-os de surpresa.

— Eu senti falta disso – Revelo, sentando na cama – E não, não voltarei para lá. Meu tempo em Salem acabou.

Eles me encaram, desnorteados.

Sorrio sem graça.

Vejo minha bolsinha pendurada em minha penteadeira, na extremidade do espelho. Tento não me aborrecer pensando em como Morgana sabia que era ali que eu a colocava, já sabendo que a mesma me observava por muito tempo.

— Como foi lá? – Minha mãe pergunta, sentando ao meu lado e agarrando minhas mãos – Fez muitas amigas?

A imagem de Anelise, Dorea e Lena me vem à mente. Suas risadas divertidas ressoam em minha cabeça. Me pego sorrindo para o nada bobamente.

— Fiz algumas – Mordendo o interior da minha boca – Poucas, mas verdadeiras – Completo.

— Você está com fome, meu bem? – Papai pergunta quando o silêncio se instala, passando a mão pelos cabelos.

— Não, estou sem fome – Seu rosto demonstra preocupação, enquanto minha mãe tenta permanecer neutra e fingir que nada aconteceu.

Minha partida os machucou, fez seus maiores medos se concretizarem. Agora, eles não sabem como reagir. E muito menos eu.

— Tia Agatha está bem?

Seus olhos se cruzam, fazendo meu sangue gelar.

— Como você ficou sabendo? – Papai pergunta.

— É claro, não se preocupe — Mamãe declara.

Os dois falam ao mesmo tempo, se entreolhando em seguida.

— Vocês mentem muito mal – Minha voz sai tensa e baixa. Tento sorri para dissipar o clima estranho que fica. Não funciona.

Meu pai dá um meio sorriso tenso.

— Sua tia está internada desde ontem – Fala, pigarreando – Como você soube?

— Mas não precisa se preocupar, querida – Intervém ela, depressa até demais – Agatha está sendo muito bem tratada e medicada. Logo estará boa.

— Eu gostaria de ver ela – Digo, levantando-me e caminhando até meu guarda roupas — Só preciso tomar um banho e podemos ir – Abro as portas de madeira e começo a vasculhar minhas roupas, pegando a primeira blusa e calça que encontro – Eu escutei vocês falando sobre ela quando entraram – Minto, mas imaginando que era esse o teor de suas conversas.

— Ah, sim. É claro – Ele sorri sem graça, coçando a nuca.

— Ela pode receber visitas? – Abro minhas gavetas de meias, pego um par branco e fecho – Bem, não importa. Irei de qualquer forma.

— Hermione – A voz grave do meu pai chega até mim imperativa.

Paro.

— Sim?

— Acabamos de chegar de lá — Comunica, suspirando – Estamos exaustos, querida. Podemos ir amanhã? Temos muito tempo para fazer isso. Estamos a quase 24hrs sem dormi e sua tia foi colocada em um coma induzido.

Pisco um pouco, notando só agora suas olheiras e palidez.

— Eu posso ir sozinha.

Coma? Sinto minhas pernas fraquejarem.

Minha mãe é a primeira negar, balançando a cabeça freneticamente.

— Sem condições, Hermione – Jane diz, arrumando os fios desalinhados de seu cabelo preso em um coque — Você provavelmente acabou de chegar e, assim como nós, deve estar cansada.

— Não há pressa! – Ele interfere suavemente – E a situação da sua tia é estável, querida. Você terá todo o tempo do mundo com ela. Mas agora, que tal panquecas com bacon e uma soneca depois?

Tempo é algo que não tenho, penso antes de sorri com a boca fechada para eles.

[...]

Voldemort abre os olhos, deparando-se com o teto de seu quarto na mansão Malfoy. Sua visão embaça por causada da claridade. Mas logo ganha foco.

Ele se senta na cama, tonteando por um momento.

— Milord, consegue me ouvir? – A voz de Narcisa causa pontadas de dor no lado frontal de sua cabeça.

Rígido, ele vira seu pescoço para onde a voz vem, achando a mulher parada ao lado de sua cama, segurando a varinha e um frasco de poção. Narcisa permanece com as mesmas vestimentas do dia anterior, percebe.

— O que você está fazendo aqui? – Pergunta, com a voz rouca e baixa. Sua garganta protesta por falta de água – O que aconteceu? – Seu tom é mais agressivo do que ele se sente.

— O senhor não lembra? – Os olhos da bruxa se arregalam – Ouve uma explosão de magia e... Milord desmaiou.

Vendo a reação dela, Riddle procura em sua própria mente vestígios de lembranças, recebendo de imediato tudo o que aconteceu de uma vez. Ele não emite som algum, mesmo sua dor de cabeça piorando consideravelmente. Ele trinca a mandíbula para não gemer. Seu rosto meio pálido permanece congelado em sua expressão indiferente, apesar de queimar por dentro.

— Eu me lembro. – Consegue falar mesmo sob a raiva borbulhante que queima em seu interior.

Jogando as pernas para fora da cama, ele percebe que suas roupas não foram mudadas e, ao invés de se deparar com uma pele acinzentada doentia, encontra uma palidez saudável e bonita no lugar. Quando se levanta, seu corpo protesta sob dor e fraqueza, ele ignora.

Engolindo uma maldição, endireita a postura e caminha até o espelho de corpo no canto do quarto.

Sua expressão não se altera vendo seus olhos azuis e cabelo negros adornarem sua face e cabeça. As duas fendas no rosto deram lugar ao seu nariz aristocrático e sua pela antes cinza agora estava branca e sadia.

— Alguém fora você me viu assim? – Pergunta, virando-se para ela.

Narcisa balança a cabeça em negativa, não perdendo de vista nenhum movimento que seu senhor fazia. E mesmo tendo várias horas para se acostumar com sua nova aparência, a bruxa ainda achava inacreditável o quão belo o homem era. Quase como um anjo da morte – letal e poderoso.

— Apenas Kirky veio aqui. Ele trouxe comida para o gato e para mim – Responde, bocejando em seguida – Perdão, senhor – Pede, piscando os olhos para dissipar o sono.

Ele ignora sua demonstração de cansaço, mas reconhece o nome de um dos elfos da mansão. Kirky era o único que podia entrar em seu quarto quando ele não estava, e apenas para alimentar o felino.

Parecendo aguarda o momento em que sua presença fosse mencionada, Bichento mia, saindo de seu esconderijo preferido – debaixo da cama do bruxo – e vem desfilando esnobemente até os pés do homem, esfregando-se em suas pernas enquanto ronrona despreocupadamente.

Voldemort encara a demonstração de carinho com indiferença, já Narcisa não esconde seu espanto com a cena. É como se estivesse vendo o bruxo pela primeira vez sob uma ótica humana. E não só pela nova aparência, mas também pela paciência que ele demonstrava ter pelo gato.

Ela engole em seco, sabendo que terá muito o que pensar depois que ficar sozinha.

— Se o senhor vier a sentir alguma dor, tome está poção – Começa suavemente, sem jeito e não querendo que ele se irrite consigo – Eu a fiz para quando Lucius retornar de Azkaban. Ela é revigorante, anti-inflamatória e extingui qualquer tipo de dor, então... Bom, o senhor pode beber.

A bruxa coloca a poção em cima do criado mudo, decidindo que entregar para ele em mãos não seria uma boa ideia naquele momento.

— Sua maneira nada sutil e indireta de me pedir para retirar seu marido de Azkaban não me comoveu – Declara, empurrando o gato delicadamente para o lado, só para vê-lo voltar a se esfregar em suas pernas como se nada tivesse acontecido.

Narcisa fica em silêncio, sabendo que retrucar a verdade que ele falara só faria o bruxo se irritar. Bichento volta a miar, parecendo encantado com a brincadeira de empurra-empurra que o homem fazia com ele usando o pé.

— Quanto tempo permaneci inconsciente? – Pergunta, afastando-se do gato e indo até a varanda.

Parado no mesmo lugar, o felino se põe a lamber seu pelo decidindo não querer correr atrás do bruxo.

— Quase 11hrs, Milord – Responde, encolhendo os ombros ao perceber que o assunto sobre a prisão de seu marido fora deixado de lado.

Tom dá de ombros, encarando o amanhecer em toda a sua gloria, com o amarelo se sobrepujando ao azul do céu e beijando a terra carinhosamente com seus raios. O céu está limpo, livre de qualquer nuvem.

Seu humor piora ao saber que seu descontrole durou tanto tempo.

— Quero todos reunidos no salão daqui à 8hrs – Declara.

Ele volta-se para ela, que acena prontamente.

— Ninguém deve saber o que aconteceu aqui, entendeu?

Narcisa apenas concorda, sabendo que nunca conseguiria explicar o que aconteceu. Tudo em sua mente era estranhamente antinatural, fazendo seu cérebro dar voltas e mais voltas.

— Falei algo enquanto dormia? – Pergunta, esquadrilhando o rosto da bruxa a procura de algum indicativo.

— Não, Milord. Apenas... – Ela faz uma pausa, não sabendo bem como se expressar – O senhor teve febre, alguns desequilíbrios de magia e delirou um pouco. Mas não falou nada coerente ou inteligível. É como se estivesse em transe... Não consegui o acorda. Por isso, apenas me certifiquei de o manter estável e hidratado. E...

Arqueando uma sobrancelha devido a sua hesitação, ele se aproxima dela até ficar a pouco mais de um metro de distância.

— O senhor falou “ela voltou” duas vezes antes de desmaiar – Prossegue, cautelosa – Eu só não entendi muito bem o que isso significa.

— Só isso?

— Sim, Milord.

Ele acena, mas não comenta nada para sanar a curiosidade da bruxa.

— Você já pode ir – Fala, dispensando-a sem nenhum agradecimento ou palavra de elogio.

Curvando-se em uma respeitosa reverencia, ela despede-se. Saindo da sala a passos rápidos, aliviada por poder dormir e ficar com seus pensamentos em privado.

Assim que a porta é fechada, a máscara de neutralidade do bruxo cai, dando lugar a uma expressão feroz. Seus olhos instantaneamente saem do azul para o vermelho. Uma aura densa e elétrica recai sobre o quarto, com a magia do bruxo fluindo em sintonia com sua cólera.

Pressentindo o perigo, o gato corre para debaixo da cama, enquanto Voldemort caminha novamente até o espelho.

Sua aparência humana lhe causava certa estranheza ainda. Mas naquele momento a única coisa que ele conseguia vê era o rosto jovem e sorridente de Hermione Granger olhando para ele com ternura.

Sua risada melodiosa ressoa em sua mente. Assim como seu cheiro feminino impregna-se em suas narinas, tirando-o dos eixos.

Levando a mão até o espelho, o bruxo sente o vidro responder a sua magia, trincando a partir do ponto em que sua mão toca ali. Estalos são ouvidos antes que o material reflexivo se quebre em vários pedacinhos e comece a cair no chão, reverberando um som estridente pelo quarto.

“Por favor, não me odeie. O futuro para mim é nublado, mas se uma parte, por menor que seja, do seu coração me amou, eu sinto que conquistei o impossível. E que posso sobreviver ao que vem pela frente, porque para mim fomos o melhor que poderíamos ter sido um para o outro. Se os laços que criamos no passado sobreviveram ao futuro eu não sei. O que eu sei é... Nunca te esquecerei. 

Para sempre sua,

Coisinha Fascinante.”

Seu punho esquerdo atinge o que restou do espelho, lançando sua estrutura de madeira contra a parede. Um grito bestial escapa de sua boca, enquanto sua magia volta a se agitar.

Apenas uma vez, uma única vez. Nenhuma mais, repete a frase para si como um mantra.

Uma vez foi tudo o que ele se permitiu chorar quando mais jovem por sua amada traidora. Após lê a fatídica carta que o destruiu, Tom chorou por minutos a fio, entregue ao desespero de saber que não teria sua garota em seus braços mais. No entanto, quando seu ataque de fraqueza passou, seu amor fora enterrado tão fundo em seu coração, que quem não o conhecesse diria que nunca tinha existido. Que Hermione Granger fora apenas mais uma. Mas, para Abraxas Malfoy isso nunca sequer fora cogitado. Ele sempre pode vê através da cortina de indiferença que Tom erguia quando se tratava da castanha.

Respirando com dificuldade, Voldemort fecho os olhos com força. Seus punhos se cerram e seu maxilar trava, deixando-o estático por vários minutos para sentir seu ódio fluir por seu corpo.

Um miado assustado é ouvido, trazendo o homem ao presente. Bichento sai de deixado da cama, parando no meio do quarto flutuante.

Com a mobília do quarto flutuando no ar, respondendo a sua magia descontrolada, a atmosfera do lugar se torna sufocante até mesmo para o pequeno animal intuitivo. O bruxo agira as mãos em desdém e tudo volta ao chão em um baque estrondoso, fazendo o felino se erriçar de medo e soltar outro miado assustado.

Voldemort encara o gato com as sobrancelhas unidas, avaliando se mantê-lo vivo realmente serviria ao seu propósito.

— Você é igual a ela. – Fala, trincando a mandíbula e estreitando os olhos – Me lembra Hermione o tempo todo. E eu odeio isso.

Ele recebe um miado desdenhoso em resposta. É preciso muito auto controle do bruxo para não dá vazão aos seus demônios e tocar fogo no quarto com o gato dentro.

Dando uma última olhada ameaçadora para Bichento, Riddle aparata para longe da Mansão Malfoy.

[...]

Há um vazio angustiante em meu peito desde o momento em que acordei na Residência Granger, um dia atrás. Nenhuma lágrima à mais fora derramada também. E isso, contra todos os efeitos, está me deixando com um sentimento dolorosamente perturbador.

Olho através do vidro, vendo o corpo frágil e pequenino ligado à diversos aparelhos. Massageio o lado esquerdo do meu peito com a mão direita, sentindo meu coração bater loucamente.

— Querida, você precisa comer – Diz Jane, abraçando meu corpo com carinho e repousando a cabeça em meu ombro — Você mal tocou no café da manhã e... Já passa das 14hrs, querida – Conclui, após uma pausa para conferir a hora em seu relógio de pulso.

Absolvo seu afeto com tristeza.

— Não estou com fome – Aperto seu braço de leve, tranquilizando-a.

Ouço seu suspiro frustrado.

— Quando chegarmos em casa farei Sunday Roast para você – Garante, ignorando minhas últimas palavras – Seu pai já deve estar chegando.

— Obrigada, mãe.

Sorrio para ela antes de me voltar para tia Agatha.

Seu estado é crítico. Mas, na melhor das hipóteses, controlável com medicamentos. Porém, por sua idade avançada e debilitações físicas, é muito difícil que ela sobreviva para comemorar mais um ano de vida de acordo com o médico. O diagnóstico é claro e desanimador: insuficiência respiratória devido a líquidos acumulados nos pulmões e uma sepse generalizada grave. Fora a diabetes alterada e seus problemas costumeiros de pressão.

A realidade é crua e dura.

Engulo o bile que se forma em minha garganta, desviando minha atenção para o monitor que acompanha seus batimentos cardíacos, vendo as linhas subirem e descerem lentamente.

Levo minha mão trêmula ao vidro, espalmando ali em busca de consolo.

— Ela ficará bem, querida – Seus braços me libertam e Jane se coloca ao meu lado, encarando Agatha com ternura – Agatha é uma mulher forte. Todos os Granger’s são — A última parte é dita com apreensão, seus olhos grudados em meu rosto – Hermione...

Balanço minha mão de forma displicente.

— Não quero falar sobre isso agora – Digo, decidida – É passado. Eu sou uma Granger.

Ela troca o peso dos pés.

— Ainda não falamos sobre isso, Herms – Ela mantém sua voz baixa, calma – Precisamos conversa sobre o que te afastou de nós. Seu pai e eu te amamos muito. E sim, você é uma Granger. Somos seus pais.

Suspiro, a angustia em meu peito se intensificando.

— Existe tantas coisas em minha mente agora – Revelo, um pouco entorpecida por minhas próprias dores — Não consigo e nem quero lidar com uma crise existencial nesse momento. Vou aceitar as coisas da forma como elas foram e seguir em frente. Não posso lutar mais de uma batalha por vez – Concluo.

— Você voltou diferente. – Afirma, crispando os lábios — Distante, triste e... um pouco perdida.

Ela pisca os olhos com uma aflição mal contida.

Dou de ombros, colocando minhas mãos dentro dos bolsos do casaco para esconder minha tremedeira.

— Foram meses complicados – Digo.

— Podemos conversa sobre isso quando chegarmos em casa – Um sorriso encorajador surge em seus lábios.

— Tudo bem – Minto.

Vibrando como se tivesse acabado de ganhar alguma batalha, seu sorriso se alarga.

— Oh, seu pai vem ali – Diz, encarando um ponto além de nós.

Vejo-o se aproximar com o médico de tia Agatha em seu encalço. Um homem de 1,70 de altura com alguns quilos a mais e uma calvície precoce.

Engulo em seco.

— Ela está respondendo aos medicamentos? – Pergunto assim que os dois estão a poucos passos de nós.

Meu pai cruza os braços e suspira.

— Hermione – O tom da minha mãe é repreensor.

Não desgrudo minha atenção do médico, encarando seu rosto gordinho com seriedade.

Seus olhos são verdes e seus cabelos castanhos, com alguns fios brancos nas laterais. O jaleco que veste está bem passado, assim como a blusa social branca e a calça preta. Seus sapatos sociais brilham quando as luzes florescentes batem nele. Bordado em seu jaleco lê-se: Dr. Matthew James.

— É compreensível sua apreensão, senhorita Granger — Começa diplomático, encarando-me nos olhos – Mas, ainda é cedo para dizermos se a medicação está surtindo os efeitos desejados. Pela condição crítica da sua tia, no mínimo, devemos dispor de três dias para avaliarmos seu progresso. E como ela foi trazida para cá a pouco menos de dois dias, é preciso manter a calma e esperar

Balanço a cabeça em concordância, impotente.

— Você não gostaria de ir até o bebedouro tomar um pouco de água, querida? — Sugere mamãe disfarçadamente, passando as mãos por meus braços para me conforta.

A preocupação em seu rosto é visível.

Acato sua sugestão sem reclamar, me afastando deles o mais rápido que posso. Meus olhos turvam, mas me recuso a chorar.

Não é um adeus, não ainda.

[...]

Tranco-me em meu quarto assim que voltamos para casa, alegando está cansada demais para comer ou conversar. Eles protestam, mas me permitir ignorar suas vozes, necessitando de espaço para respirar. Deixo todas as minhas emoções serem libertadas assim que giro a chave na fechadura, fechando-me para o mundo externo.

Mais uma perda.

Cubro meu rosto com as mãos, escorrendo até o chão encostada na porta. Soluços inconvenientes escapam de minha boca.

Já perdi a conta de quantas lágrimas derramei por ter deixado Tom no passado. Mas essas que escorrem em meu rosto agora tem um novo motivo, tão doloroso quanto. Se não, mais.

Meu malão estar inofensivo em cima da cama, esperando que eu continue o trabalho que me manteve acordada a noite toda.

Fecho os olhos.

Uma nova despedida.

Cambaleio até ficar de pé, caminhando lentamente até o malão aberto com todas as minhas roupas, calçados e produtos de beleza/higiene dentro. Tudo que consegui encontra em meu quarto e na área de serviço estava ali.

Agarrando minha varinha de dentro da manga do meu casaco, as lágrimas descendo com mais abundância.

Sem forças para pega todos os meus livros e objetos de estudo das gavetas e prateleiras na parede manualmente, como fiz com todas as minhas outras coisas, uso minha varinha para concluir meu serviço. Vejo meus pergaminhos, livros, penas e tinteiros levitar para dentro do malão em tamanho reduzido, para caber tudo lá dentro.

Fecho-o com um aceno de varinha, vendo o sol se através de minha janela.

***

Agarro a alça da minha bolsinha lateral, sentindo-a mais pesada do que o normal. Acomodo a mesma em meu ombro, dando uma boa olhada em meu quarto, demorando-me em nossos porta-retratos na parede e em minha penteadeira com fotos adesivadas no espelho em pontos estratégicos.

Quero agarrar todas as fotos e porta-retratos e leva-los comigo. Mas sei que assim que passasse pela porta principal, tudo seria apagado.

Algo dentro de mim se quebra ao ver o álbum de fotos da família repousando em minha cama, abandonado. Náuseas me atingem por nunca ter o tirado do meu malão e agora está abandonando-o como se não significasse nada.

Quando estou enjoada demais para me manter encarando o que eu estava deixando para trás, fecho a porta devagar.

Minha saliva desce rasgando minha garganta, enquanto mais lágrimas caem.

Caminho pelo curto corredor até a escada de cabeça baixa, evitando encarar nossas fotos na parede. Meu coração da guinadas em meu peito, enlouquecido.

O último adeus.

Meus pais estão sentados no sofá da sala, o rádio está ligado em volume ambiente. Minha serve chá fumegante para meu pai, o cheiro característico do liquido atinge minhas narinas. Eles não notam minha presença.

Eu sinto muito. Sinto muito. É tudo minha culpa, é tudo minha culpa.

Tremendo, ergo minha varinha, as lágrimas grossas escorrendo até meu colo. Sinto que vou vomitar a qualquer momento, minha respiração se acelerando e meu sangue pulsando em meus ouvidos. Tudo para, dando lugar apenas a nós três naquele cômodo.

Não existe guerra, mortes ou mentiras. Não existe Morgana ou Avalon, já não existe Tom e nosso amor proibido. Somos só nós. Pais e filha. Amor.

Minha força fraqueja. Por isso, sussurro em um fio de voz:

— Obliviate.

[...]

— Eu sabia que iria te encontrar aqui – Diz ela, aparecendo à minha frente.

Pisco, vendo sua forma delicada e esguia tampar minha visão das crianças descendo no escorregador infantil.

Morgana se senta ao meu lado no banco de madeira, entregando-me um lenço de linho branco ao perceber minhas lágrimas inoportunas. O cinza do céu denuncia o que será uma noite chuvosa. Mordo meu lábio inferior.

— Você sempre saberá onde me encontrar – Limpo meus olhos com o lenço, fungando baixinho – Afinal, é esse o objetivo do feitiço que colocou em minha marca de nascença, não é?

Ela ri.

— Sim, você me pegou.

Não retruco sua afirmação, vagueando por entre as babás dispersas no parquinho completamente alheia ao seu tom brincalhão. As mulheres encaravam seus protegidos como águias, antecipando o menor movimento desajeitado deles. Isso faz recordações indesejadas da minha infância feliz surgirem em meu cérebro.

— O que você fez foi extremamente doloroso, suponho – Quebra o silêncio.

— Não quero falar sobre isso – Digo, entre respirações profundas.

— Compreendo – Seus cabelos são assanhados pelo vendo, Morgana coloca algumas mechas atrás da orelha – Quando estiver pronta, iremos a Avalon. Mas, antes preciso que você pronuncie em alto e bom som está indo por livre e espontânea vontade.

Franzo a testa, olhando para ela.

— E por que isso?

Ela deitada a cabeça para o lado, encarando-me com um repuxado sarcástico nos lábios.

— Levar o seu espírito para Avalon é diferente de te levar em carne e osso – Confidencia, parecendo ligeiramente entediada com o assunto – Avalon é uma dimensão com leis próprias. Além de não permitir homens em suas terras, um corpo só pode transcender o véu que protege Avalon se for com a minha permissão e de livre e espontânea vontade – Ela encara suas unhas bem feitas, sem esmalte – Particularmente não gosto dessas regras, mas não fui em que as inventei. E como tal, não posso mudá-las, mesmo sendo a única guardiã do reino.

Permaneço em silêncio encarando a mesma, que por sua vez encara suas unhas com muita atenção.

— Entendo.

Seus olhos me perscrutam.

— Entende mesmo? – Há desconfiança em sua voz.

Dou de ombros.

— Avalon é uma ilha mística. Tem suas próprias regras e leis baseadas no que acha melhor para sua preservação. O que é tão difícil de entender nisso?

Ela apenas sorri de lado.

Um silêncio confortável se instala. Deixo minha mente vagar por todos os caminhos tortuosos que eu tanto evitava.

Me vejo sendo selecionada para a Sonserina, depois caminhando com Tom pelos corredores do castelo, logo estou revivendo em minha mente nossa primeira vez juntos. “Consegue se manter longe das sombras, Tom?”, a frase ressoa em minha mente como um mantra e um balde de água fria.

Suspiro, odiando me lembrar de coisas aleatórias sobre nosso tempo juntos.

— Como Mérope pariu Tom em um orfanato se ela estava com você? – Questiono ao lembrar desse detalhe, vendo duas crianças correrem de sua babá, rindo – Vocês brigaram e ela fugiu? Ou, por não ser permitido homens ela não podia ter ele lá?

Ela se mexe ao meu lado, encaro-a com atenção. Seu sorriso lateral sumiu, dando lugar a uma expressão neutra.

— Ele nasceu em Avalon.

Me sobressalto, completamente descrente e surpresa com suas palavras.

— Como? Não faz sentido – Minha mente se agarra a distração bem-vinda, formulando perguntas e teóricas – Por que todos acreditam que Tom nasceu em um orfanato, então? Até Dumbledore pensa assim. Não consigo entender...

Ela estala a língua para mim.

Me pego lembrando da primeira vez que Tom fez esse mesmo barulho para mim, na Floresta Proibida. Fico desconcertada.

— Enfeiticei os funcionários para que eles pensassem dessa forma – Fala, olhando para o céu, parecendo vagamente perdida em pensamentos – Então, claramente é a história que todos contaram.

— Eu não entendo.

Ela suspira.

— É uma história triste – Revela, enrugando um pouco o nariz – Prefiro te mostrar ao invés de falar.

Faço que sim, apenas encarando a mesma.

Tom nasceu em Avalon... Merlin!

— Hermione Rosier Black, — Seu timbre despreocupado dá lugar a um mais diplomático, fico tensa – Você deseja ir para Avalon comigo por livre e espontânea vontade?

Eu desejo?

Mesmo Morgana tendo praticamente me intimado a ir para a ilha mística, meu desejo em deixar meus problemas para trás é mais forte que qualquer outra coisa. Não existe mais nada pra mim aqui. Ou seja, não existe outra resposta se não...

— Sim.

“Sinto um vazio imenso dentro de mim. Estou perdida nesse precipício escuro em busca de uma luz, de uma solução. Estou procurando você.”

— Giovanna Fonto Marins

Notas finais
Hello, meus anjinhos! Como vocês estão nessa segunda que antecede um feriadão maravilhoso pra ficar em casa lendo? Vulgo, carnaval kkkkkk. Bom, espero que vcs gostem do capitulo e comentem suas sugestões, duvidas e teorias. Amo demais ❤️❤️❤️ Bom, mais coisas desse capitulo serão aprofundadas mais para frente. Ainda não tenho a estimativa de quantos caps levararão para que a Mi reencontre o Tom no futuro. Mas, creio eu que serão apenas mais 2. Algo que quero me desculpar imensamente com vocês é: No cap "19 - Luxúria" eu cometi um erro terrível, e só vim me tocar agora (pra vcs verem o meu nível de lerdeza). Bom, refrescando a memoria de vcs, foi no neste capítulo que a Hermione e o Tom sucumbiram ao desejo pela primeira vez. Então, no capitulo a Hermione estava muito triste por estar fazendo aniversário e por isso pegou o álbum da família... Até ai nada de errado, não é?? ERRADOO!! Eu fui muito burra e não me liguei ao pequeno detalhe que, naquele momento a Hermione estava completando 17 anos, e não 16 como eu havia colocado no capitulo. Corrigi esse meu erro lá e quero corrigi-lo com vcs aqui. Hermione é 1 ano mais velha que o Harry, por isso, tendo 17 anos ela pode aparatar sozinha legalmente. Bom, é isso. Espero que me desculpem por essa confusão. O próximo capitulo sairá semana que vem (Se Deus quiser), e tratá os penúltimos momentos da Hermione antes de encontra-se com Voldemort. Desde já agradeço por terem lido meu capitulo. Beijinhos saber perdida na vida.