A areia cristalina encontra a imensidão azulada do mar bem à minha frente. É um espetáculo de tirar o fôlego e sendo permitida a companhia desejada, de um romantismo inesquecível.

A ilha ser proibida para homens é quase uma ironia do destino, indago para mim mesma, varrendo a paisagem exuberante com leve deleite. Meus pais amariam este lugar.

Respiro fundo, enchendo meus pulmões com a brisa salgada do mar e o oxigênio limpo da ilha, deixando o teor doloroso que ameaça se apossar de mim se esvair como poeira ao vento.

Tudo em Avalon é vivido, colorido e brilhante. Como se até mesmo a mais ínfima partícula de pó soprada pelo vento ganhasse tons majestosos aqui. A areia sempre muito clara brilhava no chão como um tapete quentinho de diamantes, a água salgada parecia reluzir mais que ouro quando o sol a beijava e às árvores, coqueiros e plantas que cercavam esse paraíso se destacavam em cores, tamanhos e formatos, sendo a primeira característica muito marcante e vibrante.

A variedade de flores e plantas medicinais era o que mais me chamava a atenção. Quase uma infinidade de odores, cores e serventias. Recordo-me por breves momentos da explicação que Morgana me dera sobre o porquê disso.

“- Cada mínima folha nutre um grande poder medicinal aqui, Hermione. Com infinitas possibilidades de manuseios – Fala, abrindo o guarda-roupas de madeira e retirando uma camisola de linho de lá de dentro – Avalon é um dos pilares da magia que circula o mundo. Tudo aqui é diferente tanto do mundo trouxa quanto do bruxo. Temos mais magia em uma gota de água do que em uma criança puro-sangue do seu mundo – Completa, dando-me a camisola.

Encaro o tecido macio com a testa franzida, ainda absorvendo suas palavras.

— O que eu faço com isso? — Pergunto, confusa.

— Use.

Inclino a cabeça para o lado, intrigada.

— Por que?

Ela sorri.

— Porque é assim que nos vestimos em Avalon. Minha ilha, minhas regras – Ela me deixa sozinha sem mais explicações.

Suspiro, encaminhando-me até o banheiro para fazer minha higiene noturna, prestes a dormi pela primeira vez em Avalon.”

Observar as ondas batendo e quebrando nas pedras da praia se tornou o ponto alto do meu dia desde que cheguei na ilha, três dias atrás.

Estranhamente cansada, desisto de me manter em pé.

Estendo a toalha vermelha no chão, em baixo de um coqueiro robusto, e sento-me, enterrando meus pés na areia quentinha e fofinha. A brisa calma de fim de tarde desprende algumas mexas do meu coque frouxo. Não me importo.

— Por que não entra? – Morgana pergunta, aparecendo ao meu lado e se sentando em minha toalha comigo.

Franzo a testa.

— Como?

— No mar – Ela aponta para a imensidão à nossa frente – Isso te faria bem.

Balanço a cabeça, negando.

— Hoje não. – Ela não diz nada, se limita a deixar um silêncio confortável cair sobre nós.

Fecho os olhos, um redemoinho de emoções reprimidas sufocando minha garganta.

Não pense nele, não pense nele. Hoje não.

— Minha tia... – Engulo em seco, mudando o rumo de meus pensamentos – Minha tia Agatha...?

— Não – Seus olhos me perscrutam – Ela ainda está viva.

Suspiro.

— Obrigada.

Morgana apenas dá de ombros.

Nesses três dias que se sucederam a minha vinda para Avalon, Morgana fora duas vezes até o hospital para ver como tia Agatha estava, me mantendo informada de seu estado. Mesmo tendo sido a pedido meu, sinto-me grada por sua disposição e boa vontade.

— Tive que apagar a mente do seu tio Albert – Informa, pegando-me de surpresa – Ele decidiu visitar Agatha ontem com sua esposa e filha. Como seus pais ficaram completamente perplexos ao ouvi-los perguntando sobre sua suposta filha Hermione, eu percebi que não poderia deixá-los lembrando de você.

Cruzo meus braços embaixo dos seios, encolhendo-me.

— Pensei que eles não fossem aparecer tão cedo, já que ele, a mulher e minha prima Evelyn estavam em uma viagem pelos Estados Unidos – Revelo, lembrando do que meus pais me falaram – E, verdade seja dita, não temos uma boa relação com eles. Nem ao menos gostam de tia Agatha de verdade. Tudo que sempre fizeram de festas, viagens e almoços aos domingo em família foi em nome da aparência e não do amor. Mas, agradeço você por isso.

Ela assente positivamente.

— Foram extremamente indiferentes ao estado dela, como se não se importassem o suficiente para se preocupar – Comenta, olhando ao redor – Quando apaguei a memória deles, tive que alterar as dos seus pais para que eles esquecessem que foram perguntados por você.

Mordo meu lábio inferior, meu peito se comprimindo de dor.

— Sinto falta deles – Confesso baixinho.

Ela aperta meu ombro em solidariedade.

— Eu sei, querida – Lefay sorri com simpatia.

Deixo um silêncio confortável se instalar sobre nós, mergulhando em tristeza e alto piedade, fazendo o possível para deixar meus sentimentos e pensamentos longes de Tom.

[...]

— Quando saberei o que realmente aconteceu com Mérope? — Pergunto, desviando minha atenção da lareira para encará-la.

Já deveria passar das 21hrs da noite e estávamos há um bom tempo ali na sala, conversando amenidades e lendo sobre medicina celta. Mas, quando não consegui mais me concentrar na leitura por ficar indo e vindo em lembranças minhas com Tom, abandono meu livro no sofá.

Ela deixa o livro que estava lendo de lado e me estuda com seus olhos azuis cintilantes.

— Você tem certeza? Não irá gostar do desenrolar final dessa história – Diz, virando seu corpo para mim – É triste e particularmente deprimente. Odeio reviver meus últimos momentos com ela, mas se você tiver certeza, o farei de bom grado.

Pondero um pouco.

Nos dias que se sucederam à minha chegada em Avalon, Morgana me manteve ocupada conhecendo a ilha, sua história e me dando algumas aulas sobre a magia elementar do lugar. E claro, me deixando sozinha com meus pensamentos em boa parte do dia. Mas, em nenhum momento tocamos no assunto Merope Gaunt e o porquê dela não ter ficado em Avalon.

— Tenho certeza – Afirmo, sendo o mais sincera possível – Eu quero saber.

Ela assente.

— Tudo bem, querida – Depositando o livro que lia na mesinha de centro entre nós, ela se levanta da poltrona e vem até mim, parando à minha frente – Dei-me sua mão.

Ela oferece sua mão para mim, pego-a de imediato, sentindo sua magia começar a fluir através de mim, partindo de nossas mãos entrelaçadas e subindo por meu braço até se espelhar por meu corpo.

— Posso vislumbrar tudo fora de seu corpo dessa vez, por favor – Peço, ligeiramente tímida – Não quero sentir as emoções dela em seu corpo. Elas serão devastadoras, imagino. E eu não... Não estou bem para isso agora.

Ela balança a cabeça, compreendendo minhas palavras.

— Muito bem – Ela aperta minha mão com delicadeza, passando-me conforto – Mantenha-se em silêncio e... — Sua voz morre à medida que sinto minha visão escurecer – Nada te acontecerá.

Tudo escurece e, de repente, me sinto caindo em queda livre.

Oh Merlin!

[...]

“Tudo é um emaranhado de ruídos, burburinhos e lamúrias à minha volta. Abro os olhos, sendo cegada de imediato pela claridade do ambiente.

Pisco freneticamente, tentando me concentrar nas vozes que me cercam e no barulho de fundo.

“Isso são carros passando? Onde estou? Londres?”

— Não deveríamos está aqui – A voz inconfundível de Morgana chega até mim com nitidez, assim como buzinas de carros e burburinho de vozes exaltadas – Eu não deveria ter deixado você me convencer a te trazer – Confidencia mais para si do que para a outra mulher.

Minha visão clareia, dando nitidez ao que me cerca. Estamos em uma calçada movimentada por pedestres frenéticos alheios a nossa presença e de frente para uma residência desconhecida. As duas encaram a propriedade à nossa frente com um misto de emoções, sendo Mérope a mais transtornada. São tantos sentimentos que seu rosto transparece, que mal consigo acompanhar suas expressões.

Olho para a residência, curiosa.

O muro baixinho que encobre a frente da casa com as grades pretas e pontudas não é um empecilho para minha visão, por isso, percebo que a casa é de classe média alta.

— Só preciso vê-lo uma última vez, Morgana – Mérope fala com a voz embargada, atraindo minha atenção para si – É só isso que te peço... Uma última vez.

Sua barriga avantajada é escondida por um vestido branco longo com uma faixa entre seus seios e onde seu bebê repousa, já Morgana está linda com um vestido verde musgo longo de mangas compridas e decote em V.

“Ele? O pai de Tom?” Pergunto-me, percebendo minha forma espectral translucidar quando um grupo de pedestres animados atravessam nossos corpos sem causar dano algum.

Faço uma careta, realmente não gostando de ser atravessada por pessoas.

— Falta menos de três semanas para você pari, Mérope – Lembra-a Lefay, sua boca se contraindo de descontentamento – Deveria está descansado para receber seu filho com alegria. Não gosto disso.

Pela expressão inalterável da Gaunt, ela não filtrou nenhuma das palavras de Morgana.

— Eu preciso vê-lo – A urgência em sua voz me alarma, assim como em Morgana também – Só quero vê-lo por alguns minutos. Estou morrendo... Morrendo de saudade, M – A pausa é proposital e dramática, percebo.

Quase posso vê as engrenagens de Morgana trabalhando furiosamente em sua cabeça, percebendo algo que não percebo.

— Você terá apenas 5min – Declara, dando-se por vencida e não gostando nenhum pouco disso – Não permito nenhum tipo de interação entre você e qualquer trouxa aqui, entendeu? Apenas observe-o. E, por mais tentador que seja falar com ele, resista.

Mérope não sorri com sua pequena vitória, mas seus olhos transbordam agradecimento.

— Tudo bem – Ela pisca calmamente – Sem interação. Entendi.

As duas saem do calçamento para a grama bem cuidada da residência, atravessando as grades do portão sem problema nenhum e caminhando a passos rápidos em párea. Sigo-as de perto, não querendo perder nada.

A porta se abre quando estamos a poucos metros da entrada, estancamos no lugar de imediato. Uma senhorinha vestida com um elegante vestido floral sai carregando um regador cinza. Seus cabelos grisalhos estão encobertos por um lenço de seda turquesa, mas alguns fios saltam para fora.

Mérope empalidece.

— Elizabeth... – Ela sussurra seu nome dolorosamente, colocando a mão na boca.

Não preciso pensar muito no assunto para constatar que aquela é a avó de Tom. Seus olhos azuis são inconfundíveis para mim e, se não bastasse isso, a reação de Mérope é um forte indicativo para tal conclusão.

A senhora passa por nós e vai até seu canteiro de gardênias, aguando-as cantarolando uma melodia da época, presumo.

— Um pequeno buquê seria fabuloso para hoje a noite – Fala para si mesma. Sua voz rouca e baixa causa um pequeno tremor no corpo da mãe de Tom, fazendo-a agarra o ventre protetoramente com as mãos.

Morgana aperta o cotovelo de Mérope e aponta com o queixo para a porta aberta, indicando que é para a mesma seguir adiante. Ela reluta um pouco, encarando a velhinha com os olhos arregalados. Mas quando decide seguir seu percurso, não olha para trás.

Mesmo não podendo ser vistas, adentramos a casa com cautela. Somos recebidas por um delicioso cheiro de biscoitos assando e um hall de entrada muito bem decorado e limpo.

Observo a beleza do lugar por breves instantes, impressionada com o requinte dos móveis e do revestimento das paredes, gesso. A cerâmica branca com detalhes em dourado reluz no chão com a luz provinda do belo lustre de cristal acima de nós, enquanto a escadaria para o andar superior é de madeira polida e muito bem carpetada. Noto que os móveis são de mogno, uma das mais nobres e sofisticadas madeiras que há.

“Uau, aqui grita riqueza e ostentação.”

— Com falta de dinheiro eles não sofrem – Morgana se pronúncia, atraindo minha atenção para si.

Seus olhos estão fixos em Mérope, avaliando suas emoções. A herdeira de Slytherin morde a parte interna da bochecha, deslocada.

— Thomas é banqueiro e seu pai foi um importante advogado – Revela ela, abraçando-se enquanto se perde em suas lembranças – Eles nunca tiveram problemas financeiros.

Vejo seus olhos umedecerem.

“E Tom cresceu em um maldito orfanato... Por que algo tão injusto tinha que acontecer com ele?” Questiono-me, sentindo uma súbita raiva brotar em meu interior. “Isso foi tão injusto.”

Um barulho de porta sendo fechada nos faz olhar para trás. Deparamo-nos com a avó de Tom entrando na casa e fechando a porta com o pé enquanto ajeita um pequeno buquê de gardênias. O cheiro das flores preenche o ambiente.

Ela passa por nós sem sentir nossa presença, seguindo adiante no corredor, passando pela escadaria até entrar no que imagino ser a cozinha.

Morgana faz menção de seguir ela, mas Mérope segura sua mão e olha para as escadas, indicando silenciosamente que é por ali que as duas devem ir.

Quando se movem para prosseguir seu caminho, vozes masculinas são ouvida antes mesmo que eu possa pensar em segui-las. Logo passos apressados descendo as escadas chegam até nós. Vejo Mérope prender a respiração enquanto Morgana se empertiga, esperando.

Um senhor idoso chega primeiro ao meu campo de visão, trajando uma camisa social de linho e uma calça preta social. Para sua idade avançada, ele mantém uma postura ereta e um caminhar decidido.

— Você precisa trazê-la há tempo do jantar ou Elizabeth ficará muito irritada. Sua mãe mandou a empregada fazer pernil e torta de batata doce, então, trate de chegar cedo. Elizabeth odeia atrasos e me infernizará a noite toda se você não trouxer Leila Scodelario para jantar – Diz o senhor, parando no hall e olhando para a cozinha, temendo que a mulher o tivesse escutado, presumo.

Da escada surge um belo homem de cabelos negros e olhos azuis, vestindo casualmente uma camisa de mangas compridas azul marinho e calça de tecido preta.

“Thomas Riddle”, o nome me vem à minha de imediato devido as semelhanças com Tom.

— Thomas... – A voz de Mérope não passa de um sussurro suplicante – Meu amor...

O homem franze a testa, olhando para onde estamos como se procurasse algo.

Prendo a respiração.

“Ele escutou?”

Balançando a cabeça para espantar quaisquer que tenham sido seus pensamentos, o pai de Tom leva o pulso para perto dos olhos e olha a hora em seu relógio dourado.

— Não se preocupe, chegaremos a tempo do jantar – Fala ele para seu pai – Só iremos caminhar pelo parque, pai. Mamãe não tem o que se preocupar.

“Ãh? Quem é essa mulher?”

Por minha visão periférica, vejo Morgana retorce os lábios, parecendo entender e desgostar da situação. Mérope cambaleia para frente, se aproximando do homem com as mãos agarradas na barriga.

Ela para bem na sua frente, totalmente concentrada em seu rosto.

Sua mão trêmula é erguida, abandonando a barriga avantajada, e ela ameaça tocar seu rosto. Mas a intenção dela é detida por uma outra mão. Morgana se teletransporta de onde estava para junto da mãe de Tom em um piscar de olhos, agarrando sua mão e lhe repreendendo com um olhar duro.

Me sinto mal por ela, que parecia a ponto de chorar. A dor em seus olhos é tão sufocante que desvio minha atenção para

— Leila é uma excelente moça e eu e seu pai ficaríamos muito felizes se essas caminhadas evoluíssem para algo mais – Elizabeth fala, voltando para o hall segurando uma jarra de vidro com as gardênias dentro e alheia a nossa presença – Só Deus sabe o quanto quero te vê formar uma família... Normalidade, é disso que essa família precisa – Concluí, lançando um olhar atravessado para o filho.

Percebo uma ligeiramente mudança na atmosfera. Mérope se solta do aperto fraco de Morgana e muda o peso dos pés, encarando a senhora com tanta raiva que posso jurar que ela quer matá-la.

— Mamãe, estou indo devagar com ela. Além de ser minha secretária, Leila vem de uma família extremamente conservadora e reservada – Fala, mas estou concentrada demais em Mérope para me dignar a encará-lo – Tudo será feito da forma correta dessa vez – Acrescenta ele, destruindo ainda mais a mulher que o ama.

Sua raiva dá lugar ao desolamento e, por fim, as lágrimas que ela lutava para não derramar caem. Morgana passa as mãos por seus braços, tentando lhe confortar.

“Então, é isso... Ele está saindo com outra mulher. Uma que sua família aprova... Trouxa.” Engulo um xingamento. “Pobre Mérope.”

— Você sabe que nunca gostamos daquela mulher – Dispara Elizabeth, cortando suas palavras com um menear de mão – Entendo que você não goste de falar dela, mas aquele relacionamento de vocês foi antinatural, satânico. E eu odeio muito isso, não tenho por que esconder. Se não fosse por aquela magia do mal que ela usou para te agarrar, amortencia ou algo assim, você já estaria casado e formando uma família, como manda as leis de Deus.

“Espera... O quê?”

— Amortentia, mamãe — Corrige-a, recebendo um olhar irritada – E não era um feitiço, era uma poção do amor – Ele prosseguiu, não se importando em irritar Elizabeth.

Minha mente dá voltas, filtrando suas palavras.

“Amortentia?”

— Magia, poção, feitiço... Que diferença falar o nome certo faz? Você foi vítima de uma satânica, adoradora do diabo, amante de Lúcifer – Rosna, agitando as mãos em exasperação.

Engulo um xingamento, realmente irritada com suas palavras maldosas.

Ele bufa.

— Tudo bem, tudo bem – Sua voz sai derrotada, resignada – Não vamos falar sobre ela. Mérope está morta e enterrada para nós. Fim.

— Não se o que ela disse for verdade – Intervém Anthony Riddle, atraindo a atenção de todos nós para si – Se ela realmente estiver grávida como disse, pode vim atrás de nosso dinheiro. Ou pior... De fazer parte da família.

Estremeço de repulsa, odiando a forma como eles falam.

— Filho? Você quer dizer cria de Satã, isso sim – Cospe a velha, acariciando as pétalas das flores no jarro – Mas duvido muito que ela tenha falado a verdade, foi apenas uma forma de tentar de manter sob seu controle – Ela dá de ombros – E se falou, que sua espécie amaldiçoada por nosso Senhor cuide do bastardo.

O jarro em suas mãos explode, fazendo vários pedaços de vidro voarem pela casa e mais alguns se gravarem em suas mãos.

Contenho um grito de susto colocando a mão na boca, mas os demais trouxas não seguram suas exclamações surpresas.

— Aahh!

— Mãe!

— Elizabeth!

Tudo se desfoca quase de imediato e sou sugada para longe deles.”

***

“A primeira coisa que percebo quando volto a me firma em terra é que estou enjoada e ligeiramente tonta. Meu estômago dá cambalhotas pela força de ter sido sugado tão abruptamente para outra cena.

Massageio minha barriga enquanto olho a minha volta.

Verde, marrom e pontos vermelhos compõem a maior parte das cores que me cercam. Sorrio, vendo as grandes macieiras abarrotadas de maçãs maduras e a terra sob meus pés úmida.

“Avalon! Estamos no pomar de Avalon.”

O cheiro das maçãs amadurecendo, de grama molhada e maresia impregna meu olfato, acalmando meu estômago.

Suspiro.

— Você não deveria ter se descontrolado daquela forma – Reclama Morgana, mantendo a voz baixa – Explodir aquele jarro por não controlar sua raiva foi insensato. Você precisa enterrar está história, Mérope. Pelo bem do seu bebê. Não permitirei que se encontre mais com aqueles trouxas, não se quiser continuar aqui – Sua ameaça é dita suavemente, mas existe tanta verdade ali que não duvido de suas palavras nem por um instante.

Mérope seca suas lágrimas com as costas das mãos, ignorando suas palavras. Ela começa a caminhar lentamente pelo lugar, não se focando em nada a sua volta. Sua dor é tão visível e palpável que engulo em seco, entristecida por ela.

— Ele está saindo com Leila – Sua voz não passa de um sussurro pesaroso – Leila, a secretária. Está me trocando por uma secretária.

Morgana revira os olhos.

— Trouxas, quem pode entendê-los, não é mesmo? – Existe sarcasmos na voz de Lefay – Você não deveria deixar isso te abalar. Você é melhor que isso, melhor que eles. É descendente de Salazar Slytherin, um dos maiores bruxos que este mundo já teve. Poder corre em suas veias.

Uma risada histérica deixa seus lábios, pegando Morgana e eu de surpresa.

— Bastardo, a maldita chamou o meu filho de bastardo – Não existia só raiva em sua voz, mas um odeio pungente – Eu deveria ter matado aquela velha quando tive a chance – A confissão sai fluida de seus lábios, verdadeira.

Mordo meu lábio, ainda tentando processar o fato dela ter enfeitiçado o pai de Tom com Amortentia.

— Bom, você não o fará mais – Morgana é enfática, ligeiramente irritada – É passado, Mérope. E é hora de você enterrá-lo.

Os olhos dela se ampliam.

— Como eles fizeram comigo? Me enterrando de sua história... Não, meu ódio eles não podem tirar de mim.

Dando as costas para Morgana, Mérope vai embora segurando seu ventre como um bálsamo para seu sofrimento.

Tudo volta a se desfocar e, uma vez mais, estou sendo sugada para outra memória.”

***

“- Você precisa comer, Mérope.

Pisco atordoada, deparando-me com a sala de jantar da ilha. Minha ânsia de vômito volta com força total.

Engulo em seco novamente.

“Isso não é nada divertido.”

— Estou sem fome – Responde, mexendo nos legumes de seu prato com o garfo.

A palidez de seu rosto me assusta, mas o que me deixa realmente preocupada são as maçãs de seu rosto quase chupadas e seus olhos fundos e roxos pelas olheiras.

Pela janela em uma das paredes percebo o sol se pondo, denunciando a chegada da noite.

— Você falou isso no café, no almoço e agora na janta há três dias seguidos – Largando seus talheres no prato, Morgana suspira – Se eu soubesse que te levar lá faria isso com você... Mérope, você está grávida, precisa comer pelo bem do seu bebê.

— Eu não consigo... – Em um fio de voz ela declara, enterrando o rosto nas mãos e chorando baixinho – Tudo dói.

“Mérope...” Não consigo conter as lágrimas que me escapam vendo seu estado.

— Ah, querida.

Antes da cena mudar completamente novamente, consigo ver Morgana saindo de sua cadeira e indo abraçar Mérope.”

[...]

Respiro fundo, engolindo minha saliva com dificuldade enquanto me curvo para frente, agarrando minhas coxas com as mãos para me equilibrar.

— Merda. – Exclamo, travando a mandíbula para tentar conter o vômito que sobe por minha garganta.

Sinto as mãos de Morgana acariciarem ritmicamente minhas costas, murmurando algumas palavras inteligíveis. E como por mágica, minha ânsia para, dando lugar a uma bem-vinda sensação de bem-estar.

— Melhor?

Ajeito minha postura, voltando a ficar ereta devagar, com medo de esforçar demais meu corpo e acabar vomitando tudo que comi.

— Sim, muito obrigada.

Ela sorri.

— Você gemeu enquanto eu te conduzia pelas minhas memórias – Revela, sentando-se na poltrona que antes lia seu livro celta – Te trouxe para que pudesse descansar e respirar um pouco. São informações demais para serem absolvidas de uma vez só.

Jogo meu corpo no sofá de dois lugares, deitando-me de barriga para cima.

— Ela sofreu tanto – Falo, encarando o teto de madeira – E tinha tanta raiva guardada dentro dela. Se eu estivesse em seu corpo sentindo suas emoções... Eu não aguentaria tanta tristeza. É demais para mim.

Pisco por entre as lágrimas que ameaçam cair.

— Quando trouxe Mérope para cá, eu queria mostrar para ela mais opções do que seu mundo limitado poderia oferecer. Queria fazê-la enxergar além de sua dor. E, no começo, consegui manter seu foco em superar seu amor platônico pelo Riddle – Ela faz uma pausa e, então, solta uma risada anasalada – Bem, eu pensei ter conseguido. – Sua amargura não me passa despercebida – Ela evitou demonstrar seu amor por ele, evitou falar dele, temendo que eu lhe abandona-se também, imagino. Mas no final, seu amor lhe matou.

Sento-me, encarando a mesma.

— Ela nunca o esqueceu, não é mesmo? – Não me surpreendo em a vê concordando comigo.

— Não, nunca.

Limpo os recantos dos meus olhos.

— Fico triste por ela – Revelo, sendo tomada por pesar – Eles a odiavam por ser diferente. Eram preconceituosos e mesquinhos, pessoas de mentes fechadas. Sinto muito que ela tenha passado por isso – Encolho os ombros – Mas, sobre a Amortentia... Não entendo. Ela usou a poção nele?

— Quando Mérope se apaixonou por Thomas, seu relacionamento foi totalmente construído à base da poção do amor e quando ela engravidou decidiu parar de lhe drogar, pondo fim ao seu enlace com ele sem querer. O trouxa lhe abandonou mesmo ela suplicando para ele ficar e afirmando estar grávida.

Contenho uma série de maldições.

— Que canalha! — Exclamo.

Morgana apenas assente, encarando o fogo da lareira sem realmente lhe enxerga.

— No entanto, não posso ignorar o fato de que ela lhe tirou o direito à escolha – Digo, após alguns minutos em silêncio — Talvez, se Mérope tivesse se aproximado dele sem o auxílio de artifícios mágicos, os dois pudessem ter construído um relacionamento verdadeiro. Ela era bonita o suficiente para conquistar qualquer homem.

— O amor nos faz cometer loucuras, criança — Fala, conjurando duas xicaras de chá em seguida, entregando-me uma e ficando com a outra – Mas, seu fim trágico lhe deu a paz que tanto merecia, afinal.

Não refuto suas palavras iniciais, mas não concordo com elas inteiramente.

— Como ela morreu? — Pergunto, avida por mais informações – Tom nasceu aqui, então, ela o teve e morreu aqui, certo?

— Sim – Seus olhos percorrem a sala até a janela, deparando-se com o breu da noite — Mas isto é história para outro dia, Hermione. Já está tarde, querida.

Murcho.

— Tudo bem.

Mordo meu lábio inferior, tentando organizar meu fluxo de pensamentos.

— Pergunto-me como Dumbledore não sabe disso – Digo por fim, bebericando meu chá — Ele me enviou um pequeno dossiê com todas as informações que sabia sobre Tom e sua família há alguns meses atrás e não tinha nada sobre isso lá — Termino, colocando minha xicara em cima da mesinha de centro à nossa frente.

Uma risada sarcástica escapa da boca de Morgana, confundindo-me.

— Querida, não seja ingênua – Seu tom debochado é antinatural e isso me irritada — É claro que Dumbledore sabe disso. Ele apenas não quis te dizer.

Abro a boca para retrucar sua afirmação, mas me pego igual um peixinho fora d’água, só abrindo e fechando minha boca.

— Acostume-se, Hermione – Ela se levanta, colocando sua xicara ao lado da minha – Existe muitas coisas que Alvo Dumbledore não te contou.

Ela me deixa sozinha com meus pensamentos.

[...] DIA SEGUINTE [...]

Incrementum.

Recito o feitiço como um mantra em minha cabeça, esticando minhas mãos para frente e deixando minha magia fluir através de meus ossos, correndo livremente, expandindo-se em meu corpo.

Deixo minha mente livre dos assuntos que passei a noite toda ponderando, realmente querendo me concentrar em algo mais produtivo.

Do que importa se Dumbledore não quis me contar sobre a Amortentia? Questiono-me aquela manhã, antes de ir pedir para Morgana me ensinar magia elementar celta. Não posso mudar nada ficando com raiva ou trancada em um quarto chorando de saudades de Tom e meus pais. E muito menos vou conseguir entender a história de Mérope sem saber seu fim.

O vento forte de fim de tarde desprende algumas mexas do meu cabelo do coque que fiz, irritando meu nariz com os fios que chicoteiam meu rosto.

“- Sinta a magia, seja sua própria magia.”

Revivo a fala de Morgana em minha mente, tentando me concentra em suas lições.

“- Deixe a magia fluir por seus poros livremente. Liberte-se do uso da varinha, Hermione. Você pode ser sua própria varinha, basta querer – Garante, virando a palma de suas mãos para cima e, em um piscar de olhos, conjurando chamas negras para elas.

Pisco, abismada.

— Como elas não te queimam?

— Controle e disciplina, minha querida – Ela balança as mãos no ar e as chamas desaparecem – Te farei chegar neste nível. Mas antes, começaremos pelo básico. Quero que você faça brotar da terra uma macieira.

— Se isso é o básico, não quero nem imaginar o nível difícil — Brinco, ficando ligeiramente excitada pelo desafio.

Ela ri.

— Vamos lá, recite o feitiço Incrementum em sua cabeça até que consiga sentir a sua magia fluir, depois disso é só indicar onde quer que a macieira nasça.

“Parece fácil”, penso.

— Irei visitar sua tia – Fala, avisando-me que acatou meu pedido de mais cedo – Fique aqui e treine bastante. Quero resultados quando voltar – Ao dizer isso, Morgana some sem fazer barulho.”

Fecho meus olhos novamente, concentrando-me em meu corpo. Cada batida de meu coração retumba em meus ouvidos, cada respiração sai fluída e contabilizada.

Incrementum.

Meus pelos se eriçam quando uma grande avalanche de sensações me atingem, fazendo com que meu corpo tremule e eu perca a concentração.

Suspiro, abrindo os olhos e me dando por derrotada.

— Isso é mais difícil do que pensei – Sussurro para o nada, sabendo que estava a mais de vinte minutos tentando brotar uma macieira na terra fofa e nada acontecera.

— Hermione.

A voz de Morgana surge atrás de mim, pegando-me de surpresa.

— Meu Deus, Morgana! – Coloco a mão em meu coração acelerado, voltando-me para encará-la – Você quase me matou de sus... – Paro, deparando-me com seu rosto tomado por pena – O que...?

Ela se aproxima de mim, colocando a mão em meu ombro.

— Sinto muito, Hermione.

Cambaleio para trás, me afastando dela.

— Minha tia... ? – Minha voz morre, minha garganta se fecha.

Não, por favor, não.

O pânico e a tristeza roubam meu ar.

— Agatha faleceu, Hermione – Revela, cruzando os braços embaixo dos seios, comprimindo os lábios em uma linha fina – Assim que cheguei no hospital percebi uma movimentação estranha na ala da sua tia, mas não entendi muito bem o que estava acontecendo. E quando dei por mim, seus pais já estavam providenciando o enterro. Sinto muito, querida.

Tudo escurece de uma vez quando perco a consciência.

“A vida não é justa. Mas também aprendi que é possível seguir em frente, não importa quanto pareça impossível. Com o tempo, a dor… diminui. Pode ser que não desapareça completamente, mas depois de um tempo não é esmagadora.”

— Nicholas Sparks

Notas finais
Por favor, me deixem saber se gostaram do capítulo. Desculpem pela demora, estou atolada com atividades da faculdade. Mas prometo me empenhar mais para postar aqui. Leitores fantasmas, pronunciem-se!! No próximo capítulo teremos muitas emoções e, pelos meus cálculos, será o penúltimo ou antepenúltimo capítulo da Mi longe do Tom. Por isso, aguenta coraçãooo!! Teremos muitas emoções ainda. Beijinhos sabor saudades infinitas!!