Desire Obsolete
51 Obsessão
Notas iniciais
Estou quente, confortável e sonolenta, em um estado de semiconsciência. Consigo distinguir certos sons e ruídos à minha volta, mas não me esforço para acordar por completo. Apenas deixo minha mente vaguear pela inconsciência parcial, necessitando descansar mais um pouco.
Aconchego-me ainda mais nos lençóis, enterrando meu rosto no travesseiro. Uma colônia masculina amadeirada impregna meu olfato, circulando por meus pulmões a cada inspiração e expiração.
O colchão afunda perto do meu rosto, resmungo em protesto. Mas mantenho meus olhos fechados, aérea demais para querer abri-los. Todas as poções que precisei tomar pra me regenerar mais rápido me nocautearam, assim como as pomadas e feitiços que Morgana ministrou em mim retiraram todas as minhas forças.
Algo quente e peludo raspa em meus pés, arrepio-me.
Remexo-me na cama, encolhendo minhas pernas e enterrando meu nariz ainda mais no travesseiro fofinho, inalando a colônia gostosa com mais força. Algo macio toca minha testa, mas rapidamente se afasta.
— Morgana, mais alguns minutos, por favor – Peço, escutando uma risada feminina em resposta.
Suspiro, me virando de barriga para cima.
Sinto outro toque macio, dessa vez em minha bochecha esquerda. É mais demorado, consigo distinguir a maciez e temperatura. É como uma pequena almofada de pele morna tocando meu rosto.
Resmungo algo ininteligível e esfrego minhas bochechas com as mãos, deixando meus braços caírem ao lado do corpo na cama, tentando voltar a dormir.
O toque macio volta para minhas bochechas, apalpando minha pele quase imperceptivelmente. Antes que eu possa voltar a reclamar por isso, a almofadinha morna ataca minha pele com picadas dolorosas, arrastando o que distingo ser uma pata de gato suas garrinhas por um curto trajeto antes de se afastar.
Abro meus olhos, encontrando um par de olhos amarelados com fendas negras me encarando com curiosidade.
Sento-me na cama de supetão, meu coração indo parar em minha boca.
— Bichento! — Exclamo.
Recebo um miado manhoso em resposta.
Agarro seu corpo peludo com as mãos e trago-o para perto do meu rosto. Seus olhinhos me estudando com visível interesse enquanto seu nariz se contrai ritmicamente, com ele me farejando em busca de reconhecimento.
— Merlin, é você mesmo! – Beijo o topo de sua cabecinha peluda, abraçando seu corpinho enquanto sorrio, sentindo meu coração se aquecer – Eu pensei que tinha perdido você junto com meus pais – Consigo dizer, colando meus lábios em seu pelo mais uma vez.
Ele ficara paradinho, recebendo minhas caricias apenas soltando ronronados suaves.
— Milord o pegou em sua casa há alguns meses – Narcisa me informa, se fazendo presente no quarto – Desde então, apenas ele cuida do meio amasso.
Pisco, tentando espantar as lágrimas.
Estou emocional demais.
— Meus pais me falaram que Bichento foi mandado para o veterinário, em um checape de rotina – Comento, relembrando que fora essas suas palavras quando perguntei do paradeiro de meu gato, pouco tempo depois se saber que tia Agatha estava internada – Não estranhei, porque uma das condições deles para manter o gato comigo foi que eu cuidasse bem dele e sempre o levasse para o veterinário. E com todas as coisas que aconteceram... Confesso ter esquecido.
Acaricio seu pelo fofinho, afasto as cobertas com as pernas e me levanto. Assim que toco o mármore frio com os pés, estremeço. Bichento mia, irritado comigo ter parado as carícias. Volto a afagar seu pelo e me indireto, deixando minha coluna ereta.
— Como Tom o pegou? – Questiono, estreitando os olhos.
Se ele machucou meus pais...
— O gato foi pego bem antes de você aparecer na casa dos seus pais – Fala, passando a mão na nuca – Não sei como ele o pegou, mas sei que após isso, um comensal fora mandado lá para alterar a memória deles e eles acharem que o gato estava em uma clínica para animais, ou algo assim.
Estalo a língua, decidindo tirar essa história a limpo mais tarde.
— Você o chama de Tom – Percebe, me olhando com atenção – Ninguém mais o chama assim. Milord é Voldemort agora.
Dou de ombros.
— Prefiro usar seu nome de nascença, não gosto de como Voldemort soa – Acaricio as orelhas de Bichento, vendo-o levantar seu queixo e me encarar manhoso.
Um barulho engasgado sai de sua garganta, ela tosse, tentando recuperar a compostura.
— Dormi por quanto tempo? – Pergunto, me virando para a mesma.
Bichento ronrona mais alto à medida que intensifico as carícias.
— Apenas três horas. – Responde, cruzando as pernas e se reencostando melhor na poltrona cinza. Seus olhos me analisam da cabeça aos pés – Você precisa descansar mais um pouquinho. As poções que ministramos foram eficazes e poderosas, te curando e revigorando com excelência. Mas você ainda precisa ficar de resguardo por, pelo menos, dois dias.
— Estou bem! – Lhe lanço um sorriso fraco – Realmente bem.
— Tudo bem, mas não se esforce ou fique muito tempo em pé – Instrui – No máximo, 15min por vez.
— Certo, posso fazer isso.
Coloco Bichento no chão, mas não sem antes lhe beijar a testa e o narizinho gelado. Minhas costas protestam de dor pelo ato, ignoro. Ele mia, se esfrega em minhas pernas e pula de volta para a cama, se deitando onde antes minha cabeça estava.
Caminho até o berço duplo que Morgana trouxera enquanto Narcisa me ajudava a banhar Alya e Damon, meia hora depois que pari. As roupas e acessórios deles também foram trazidos, assim como as minhas próprias coisas e, graças a Narcisa, estavam todas dobradas e empilhadas no closet do quarto. Ainda não estava pronta para preparar outro quarto para eles, como sugeriu Tom. Por enquanto, quanto mais perto de mim, melhor.
Olho para seus rostinhos corados e adormecidos e um sorriso aliviado brota em mim. Apoio minhas mãos na madeira branca do berço, olhando meus filhos com atenção.
Seus rostos demonstram paz e serenidade, e os pequenos tufinhos de cabelos negros em suas cabecinhas estavam bem penteados.
Alya está vestindo um macacãozinho lilás e usando luvinhas e meias brancas, já Damon está com um conjuntinho de calça e blusa verde oliva e usando luvas e meias brancas também. Os dois estão em suas respectivas caminhas, virados um para o outro como se sentissem a presença de seu gêmeo. A temperatura em volta do berço fora enfeitiçada para permanecer aconchegante e quentinha. Mas, mesmo assim cobri os dois mais cedo com suas mantas amarelas. Não posso deixar de me sentir abençoada vendo suas boquinhas se mexerem, formando biquinhos gostosos.
Criamos algo sublime, Tom.
— O berço é lindo. – A voz de Narcisa me desperta de meu estado contemplativo.
Olho para a mesma, surpresa com sua aproximação.
— Morgana me ajudou a escolher. – Revelo, vendo-a parada ao meu lado, olhando os pequenos com carinho – Escolhemos ele juntas, em uma lojinha perto de onde me instalei, próxima à casa de meus pais.
E para ficar perto de uma iluminação e ventilação natural, mas, sabiamente, longe do sol, Tom colocou o berço no recanto esquerdo da parede que abrigava a sacada. Não era distante da cama enorme do quarto, apenas duas ou três passadas. Ele enfeitiçar o berço para se manter aquecido foi o toque final de sua mania controladora.
— Como você está se sentindo?
Seus olhos estudam meu rosto, buscando repostas para as perguntas que fervilham em sua mente.
— Me sinto esquisita – Opto pela sinceridade – Não ter eles dentro de mim... É estranho. É como se faltasse algo. Mas estou feliz por tê-los em meus braços e finalmente por lhes abraçar.
Ela balança a cabeça, entendendo minhas palavras.
— Demorei algumas semanas para me acostumar a não ter Draco dentro de mim – Revela, se voltando para meus bebês — É esquisito no começo, mas você se acostumará, eventualmente – Seu dedo indicador contorna o nariz de Damon – A escolha dos nomes deles é peculiar. Não imaginei que você gostaria de seguir a tradição dos Black.
Reviro os olhos.
— Ainda não acredito que ele perpetuará essa tradição estranha de vocês – Resmungo, fazendo-a arregalar os olhos – Só concordei porque foram nomes bonitos e eu não tinha pensando em nenhum outro nome que combinasse com Diana e Damon. Mas, se dependesse de mim, não continuaria com essa tradição.
Seu riso é baixo e rouco, meio constrangido.
— Minha mãe já não aguentava mais a tradição da família Black de só escolher nomes de estrelas para os filhos – Um pequeno sorriso se forma em seus lábios – Então, ela decidiu que eu quebraria o ciclo. Bellatrix e Andrômeda não tiveram a mesma sorte.
Rio.
— Bom, mas Alya e Mizar são nomes bonitos, Milord escolheu bem. – Complementa, olhando-os com o sorriso congelado no rosto – Serão crianças extraordinárias.
Concordo.
— Para onde Morgana e Tom foram? – Pergunto, afagando as mantas para que fiquem mais confortáveis.
— Milord precisou sair para resolver alguns assuntos urgentes e Morgana saiu dizendo que voltaria mais tarde, mas não sei para onde ela foi – Sua voz é neutra, mas existe um quê de impaciência em sua fala.
Concluo meu trabalho de acolchoar suas mantas e me volto para ela, que me encarava com as sobrancelhas unidas.
— Diga-me, Narcisa... – Seus olhos se estreitam – Qual a principal pergunta que rodeia sua mente?
Ela não vacila, não pisca, apenas solta de uma vez:
— Como você e Milord acabaram ficando juntos?
Sorrio.
Tenho um ponto de partida, afinal de contas.
[...]
Usando sua aparência ofídica, Voldemort caminha por entre os corredores da mansão Malfoy, seguindo altivamente um percurso muito pouco frequentado. Na verdade, a não ser pelos elfos que cuidavam da limpeza do lugar, ninguém mais fora ali por 6 meses inteiros.
Vendo sua expressão gélida e mortífera, as poucas almas presentes nos corredores desviam de seu radar com eficiência. Não é preciso muitos incentivos para comensais, elfos e quaisquer seres pensantes quererem não cruzar seu caminho.
Parando em frente à porta de magno polido, o homem deixa a máscara de altivez escorregar por breves instantes, demonstrando toda a sua consternação.
Se recuperando, Tom entra na sala de cabeça erguida.
— Quem é vivo sempre aparece, não é o que os trouxas dizem? – Saúda uma voz que há muitos anos ele não escutava – Não te esperava aqui, Tom.
Um suspiro profundo deixa as narinas do homem.
A sala é fechada, sem nenhuma janela ou ventilação natural. As paredes são revestidas de ouro e a temperatura é estritamente controlada por feitiços, assim como as tochas que se acendem quando um indivíduo entra no aposento. Aquela não era a única morada na mansão Malfoy que o bruxo que Tom estava visitando tinha, mas com certeza é uma de suas preferidas.
— Abraxas. – Cumprimenta friamente.
A moldura de ouro e pedras preciosas que a adornam, contém a imagem envelhecida de um Abraxas Malfoy de 70 anos.
O senhor, com seus cabelos loiros platinados agora completamente brancos e chegando acima de seus ombros, sorri para seu único amigo de juventude.
— A imortalidade não fez bem para seus cabelos, Milord – Uma risada divertida escapa do Malfoy – E muito menos para a beleza que julgavam você ter.
Mesmo sem querer sorrir, as palavras do bruxo falecido colocam um sorriso divertido nos lábios pálidos do ofidioglota.
— Vejo que morrer preservou seu senso de humor – Rebate, aproximando-se do quadro na parede – Mas não vim aqui para falar sobre beleza.
Ao dizer essas palavras, sua forma se modifica para a aparência que poucos já viram, seus olhos saem do carmesim e vão para o azul, sua pele atinge um tom pálido saudável e seus cabelos negros aparecem.
— Porque é óbvio que eu continuo mais bonito que você – Completa, sorrindo com escárnio.
Balança a cabeça em descrença, um sorriso zombador aparece nos lábios do bruxo no quadro.
— Por que isso não me surpreende? – Pergunta retoricamente.
Tom dá de ombros.
— Talvez, porque você tenha um cérebro e usa-o – Devolve.
Abraxas retira de sua blusa azul marinho poeiras que não existem.
— Diga-me, Tom – Seus olhos cinzas se fixam nos azuis do outro homem – Ao que devo a honra de sua presença? Saudades minhas eu sei que não foi.
O bruxo das trevas hesita, encarando a figura de seu servo com frieza.
Seus pensamentos se voltam para a mulher que deixou dormindo em sua cama. Tão bela e tentadora quanto suas lembranças lhe recordavam. Passou anos e anos preso em recordações vividas dos momentos que teve com a castanha e, em seus momentos mais obscuros, se prendeu a esperança de voltar a ver-lhe. Por isso, estava preparado para lidar com Hermione.
Tudo tinha sido meticulosamente planejado, iria sequestrá-la, mantê-la na mansão até a guerra terminar e então, juntos, comandariam o mundo bruxo. Existia mágoa e raiva dentro de si e sabia que sim, poderia acabar machucando sua mulher por causa dos anos que ficou sozinho, sofrendo amargamente. E mesmo tendo ciência de que Hermione não estava disposta a ceder as suas crenças, para o Lord era só uma questão de tempo até conseguir reconquistar a confiança e amor de sua amada. Porém, não existia somente eles dois agora. A entrada dos dois anjinhos que agora dormiam em seu quarto, completamente dependentes de seus pais, principalmente da mãe, não fazia parte do plano. E para isso, o homem não sabia se estava preparado.
— Milord...?
— Eu sou pai.
Silêncio.
Cruzando os braços, Tom encara Abraxas, vendo-o boquiaberto e paralisado. Seu rosto marcado por linhas de expressões e envelhecido pelo tempo não causa nenhum choque ou desconforto em Tom, o que o surpreende, pois espera sentir nem que fosse uma estranheza.
— Você será pai? – Pergunta, saindo de seu estupor.
— Eu não serei, eu sou — Corrige-o.
— E o que isso quer dizer? Quem é a mãe?
— Não seja burro, Abraxas – Tom passa a mão direita pelos cabelos – Quer dizer que agora eu tenho dois filhos.
— Dois!? – Seu grito reverbera por todo o cômodo, irritando ainda mais o Lord das Trevas – Por Merlin! Como isso aconteceu? Por favor, não me diga que você traiu a Hermione. – Seu tom é descrente, completamente chocado – Se a Bellatrix for a mãe...
Voldemort corta-o, levantando a mão em sinal de advertência.
— O que Bellatrix e eu tivemos foi sexo, nada mais – Fala, desdenhoso – E eu nunca formaria uma família com ela. Nunca – Ele passa os dedos pela moldura cravejada de diamantes, rubis, esmeraldas e safiras, encarando com desgosto a forma pomposa da estrutura – E, eu nunca colocarei ninguém acima de Hermione em minha vida. Ainda mais a mãe louca dela.
Um assobio é ouvido, Tom encara o rosto consternado de Abraxas.
— Se o que entendi está certo – Começa estreitando os olhos – Você transou com a mãe da Hermione... Você sabe que quando ela descobrir isso, você está fodido, não é?
— Cuidado com suas palavras, Malfoy – Rosna, odiando a forma repreendedora com a qual o outro lhe fala – Não é porque você morreu que eu não posso te atingir.
Abraxas levanta as mãos em sinal de rendição.
— Além do mais, eu não sabia que Bellatrix é a mãe de Hermione – Completa, ciente da dor de cabeça que esta descoberta lhe proporcionaria – Manterei Hermione no escuro sobre isso.
Abraxas balança a cabeça, compreendo seu senhor.
— Bom, então, suponho que você voltou a encontrá-la e que vocês recuperaram o tempo perdido – Um sorriso malicioso se abre em seus lábios – Fico muito feliz por isso. Gostaria de revê-la, Tom. E de conhecer suas proles.
— Nós não... Deixa para lá – Ele se afasta, começando a se irritar com o rumo da conversa – Até a Hermione aprender a me obedecer, ela não sairá da mansão.
— E ela concorda com isso?
— Ela não precisa concordar, só me obedecer – É tudo que ele diz.
Abraxas não lhe contradiz, mas sabe que não é bem assim que as coisas serão. Não quando se trata da indomável Hermione Black que ele conheceu.
[...]
Narcisa pisca para mim lentamente, abobalhada.
— Então... – Com movimentos lentos, ela se endireita, arqueando sua coluna – Você e Tom se relacionaram na adolescência quando, sem querer, você voltou no tempo?
— Sim.
Ela se levanta da cama, aonde estávamos sentadas lado a lado desde que comecei a lhe contar minha história e, perplexa, começa a caminhar pelo quarto.
Se só com os detalhes mais breves ela está pirando, não posso deixar de imaginar o que ela faria se soubesse que minha ida ao passado não fora acidental, e sim premeditada por Morgana em algum plano sórdido que eu ainda não sabia. E que duvidava muito que descobrisse.
— Mas... Mas...
Ela não sabe o que dizer.
— Tudo faz sentido agora – Fala, passando as mãos pelo rosto – O gato, a obsessão por você, a constante vigilância em cima de sua família... Tudo se encaixa.
Não digo nada, não sabendo na verdade o que dizer.
Obsessão?
Um balbuciar manhoso preenche o quarto e, em menos de 5 segundos, estou com Damon nos braços, ninando-o para que não chore e acabe acordando Alya. Seus olhos azuis abrem-se e ele me encara.
Sorrio, beijando sua testa em seguida. Ele pisca seus olhinhos para mim, me derreto por completo.
Volto a me sentar na cama e olho se ele precisa ser trocado, depositando seu corpinho no colchão. Assim que constato que não, abaixo a alça de minha regata e lhe coloco em meu peito. Ele abocanha minha auréola e começa a sugar.
É uma sensação nova e estranha, mas não ruim, apenas diferente. Sei que me acostumarei com ela assim que se passar mais alguns dias.
— Troquei eles pouco antes de você acordar – Informa, ainda caminhando pelo quarto.
— Obrigada.
Ela acena, concordando.
Algo que descobri ao ler uma série de livros sobre amamentação é que, colostro é o primeiro líquido materno que meus seios produzem. É um tipo de imunizador natural e um colonizador de instinto, colocando bactérias do bem e construindo a flora intestinal do bebê, antes da decida efetiva da apojadura (leite materno), que só começa a sair dentre 48 ou 72 horas após o parto.
— Hermione – Ela me chama, parando de caminhar pelo quarto.
Suas mãos voam para sua cintura estreita, ela me analisa.
Franzo a testa, sentindo a sucção de Damon diminuir, indicando que ele está ficando satisfeito.
— Você o ama?
Prendo a respiração.
Bato as pestanas com rapidez, mas me mantenho calada.
É obvia a resposta para essa pergunta, mas não fácil de externar em voz aumenta. Morgana nunca me perguntara tão diretamente a intensidade de meus sentimentos, imagino que por já imaginar. Ter Narcisa me questionando, me faz querer fugir.
— Tom não é uma pessoa fácil de amar.
— Não foi isso que perguntei.
Dou de ombros, afastando Damon de meu peito ao senti-lo adormecido.
Ajeito minha regata no lugar e coloco-o apoiado em meu ombro, instigando com batidinhas suaves sua regozijação.
— É tudo o que vou dizer sobre isso, Narcisa.
Quando ele regurgita, coloco-o de volta no berço, adormecido. Ajeito sua mantinha para que ela lhe proteja do frio que só em minha mente ele vai poder sentir, vendo a noite cair lá fora. Quando me volto para Alya, seus olhinhos azuis estão grudados em mim.
Meu coração falha algumas batidas.
— Ela abriu os olhos.
Em poucos segundos, Narcisa se posta ao meu lado.
— Merlin, que fofura! – Exclama.
Pego-a de sua caminha no berço com um sorriso gigante nos lábios.
[...]
Ele se mantém imóvel no lugar, imerso em pensamentos e sem escutar o relato do homem à sua frente. Seus dedos tamborilam no braço da cadeira, seus pensamentos focados na mulher e nos recém-nascidos que deixou em casa.
Não posso perdê-los, é só nisso que sua mente pensa, com ele preso nas palavras de Abraxas. Se Hermione descobrir minha ligação sexual com Bella... Porra, sua reação é imprevisível. Ela não suporta Lestrange e não precisa ser um gênio para compreender isso.
— ...Então, não houve baixas nesta missão – Conclui o comensal, esperando os elogios que não vieram de seu senhor.
Não posso me confiar apenas nos feitiços que coloquei em volta da mansão, analisa, lembrando dos feitiços de confinamento que colocará antes de sair de sua moradia mais cedo. Hermione não é burra. E eu não lhe tomei a varinha. Ela pode escapar e levar meus filhos para longe de mim.
Quando um silêncio inesperado se apodera do ambiente, todos encaram seu Lord em expectativa, só para receber mais silêncio como resposta.
E ainda tem a Lefay... Merda! Preciso conversar com ela.
— Milord? – A voz hesitante de Bellatrix se faz presente, mas isso não é o suficiente para tirar o homem de sua própria mente.
São muitas pontas soltas, preciso resolver isso o mais rápido possível.
— Milord? – A voz rouca, mas firme de Rodolfo Lestrange trás Voldemort ao presente.
Ele pisca brevemente, encarando seus comensais.
Seus olhos se prendem-se nos de Bellatrix por alguns instantes. Sua mente trabalha rapidamente, e a solução mais rápida é descartada de sua mente assim que se aloja em seu cérebro.
Não tenho motivos para matá-la, constata analiticamente. Bellatrix é fiel e uma boa comensal, se eu a matar sem motivos gerara desconfiança e pânico.
Ele suspira e se levanta, fazendo assim todos se levantarem também.
— A missão foi muito bem sucedida – Começa monopolizando a atenção de todos – Parabéns a todos os envolvidos.
O silencio que volta a reinar é repleto de descrença e surpresa, um elogio vindo de Voldemort era mais raro que chuva em deserto. Seus seguidores demoram um minuto para processar o elogio, mas quando o fazem, os envolvidos na missão estufam o peito, enchendo-se de orgulho.
— De hoje há um mês teremos um baile de comemoração – Prossegue, voltando a surpreendê-los – Por isso, quero a presença de todos nesta sala e seus familiares confirmada. Não admito desculpas para o não comparecimento.
Todos assentem, surpresos e curiosos.
Voldemort se afasta da mesa, pondo-se ao lado da cadeira em que antes estava sentado, encarando a todos com superioridade.
— Perdão, senhor – Draco chama sua atenção, fazendo todos virarem-se para ele.
Ele quase se arrepende de falar ao ver os olhos vermelhos de Voldemort fixos em si. Um arrepio de medo atravessa sua espinha.
— O quê? – Seu tom é impaciente, com ele já não aguentando ficar mais nenhum segundo longe de sua castanha.
Draco engole em seco, preparado para o esporro que irá levar ao perguntar o que ficou sem explicação.
— O que iremos comemorar?
Um sorriso letal se abre em sua boca, seus olhos atingindo uma nova tonalidade de vermelho sangue.
— Comemoraremos meu noivado.
Alguns arfam de surpresa, outros mordem as línguas pegos em descrença e, em especial, Bellatrix suprime um grito de horror, pasma demais até para isso.
Tom não se demora ali, realmente não se importando com as perguntas que irão se formar ou com as teorias que serão feitas. Ele simplesmente aparata de volta para seu lar.
***
Ele aparece em sua sala de estar, de frente para imensa lareira de pedra acessa, recebendo o calor do lugar e seu cheiro característico com tranquilidade.
— Você demorou – Saúda-o uma voz que ele começou a reconhecer.
— Morgana.
Seu corpo se vira para a bruxa sentado no sofá de dois lugares branco, vendo-a sorrir de lado para si.
— Vejo que já está se sentindo em casa – Seu sarcasmo é nítido.
O sorriso dela se alarga.
— Eu faria umas modificações aqui e ali, mas em geral, é um lugar facilmente adaptável – Rebate, cheia de ironia.
Ele revira os olhos, assumindo sua forma humana.
— Pronta para me explicar o porquê de você ter mandado Hermione ao passado? – Pergunta, jogando-se na poltrona preta perto de onde ela estava sentada – E sim, enquanto ela estava distraída eu consegui coletar essa informação de seu cérebro.
Morgana balança a cabeça em concordância, não se importando com esse fato.
— É claro, meu querido – Seu tom calmo e suave enerva o bruxo – Estou esperando por esse momento há 70 anos.
E enfim chegou, pensam em sincronia.
[...]
Sinto o vapor da água quente abrir meus poros, apenas fecho os olhos e afundo ainda mais na banheira oval. Meus músculos relaxam ainda mais, tanto pela quentura da água quanto pelo vapor.
Um sorriso relaxado se forma em meus lábios e ali fica.
O cheiro floral dos sais de banho que coloquei circula pelo banheiro, impregnando-se nas paredes e nos meus cabelos lavados. Não sei se já prevendo minha captura ou se só por uma precaução, mas todas as coisas que uso para minha higiene intima estão sobre o balcão de mármore do banheiro.
Me pego imaginando o que mais vou encontrar pela casa que possa me surpreender, até sentir algo tocar meu tornozelo.
Abro os olhos e sento-me com rapidez, deparando-me com Tom sentado sobre a lateral da banheira, encarando-me com divertimento.
— Divertindo-se? – Sua voz rouca me causa arrepios.
Olho para a entrada do banheiro, vendo a porta aberta dando diretamente para onde o berço dos bebês está.
— Narcisa...
— Ela já foi – Corta-me, estalando a língua para mim.
Sinto meu coração disparar no peito.
— Os bebês...? – Estou ofegante e nem ao menos sei o motivo.
— Estão dormindo.
Seus olhos descem por meu rosto e param em meu colo, algo nubla sua íris. Quando sigo sua linha de visão, deparo-me com meus seios projetados acima da água, livres para seus olhos inspecionarem.
Cubro-o o mais rápido que consigo, minhas bochechas esquentando de vergonha. Uma risada divertida escapa de seus lábios, me deixando completamente mortificada.
— Você deveria ter batido na porta – Digo, tentando não me afogar em minha súbita timidez.
— Perderia a graça – Murmura, ainda encarando meus seios, agora, cobertos.
Ele volta sua atenção para meu rosto, agradeço mentalmente por isso.
— Como você está?
— Melhor do que eu pensei que estaria – Uma risada sem graça escapa de sua boca – E, definitivamente, presa – Meu riso morre.
— Depende do ponto de vista – Ele chacoalha a água com os dedos da mão que antes estava me tocando.
Riu sem humor.
— É claro, e o céu é cor de rosa.
— Para os loucos, o céu pode ser da cor que eles quiserem.
Franzo a testa.
— Não sou louca.
Ele sorri.
— Temos algo em comum, afinal de contas.
Suspiro.
— Tom... – Meu tom é de pura advertência.
Não entendo onde ele quer chegar com suas palavras estranhas, mas não estou no clima para charadas.
Ele levanta suas mãos em sinal de rendição, parecendo entender meu humor. Abro a boca para pedi-lhe para lhe dizer que eu não ficaria presa em sua mansão estupidamente linda – Pelo menos, seu jardim imenso e bem cuidado era tão deslumbrante que passei vários minutos admirando da sacada, já que até proibida de sair da suíte eu fui –, mas algo inesperado acontece, calando-me.
Emergindo de dentro da água, uma concha do mar aberta aparece, sem nenhuma gota de água retida nela e com um lindo anel de diamante e esmeraldas dentro.
Meus olhos voam para ele de imediato, minha boca se abrindo em surpresa.
— Não vim aqui discutir com você – Revela, endireitando a coluna e ficando mais ereto – Eu só queria te ver.
Mordo a parte interna de minha bochecha, meu coração voltando a disparar. Dessa vez, mil vezes mais rápido.
— Tom...
Ele se levanta e vai embora, fechando a porta no processo.
Paralisada no lugar, fico repetindo suas palavras em minha mente como um disco arranhando enquanto admiro a beleza do anel e seu pedido de casamento silencioso.
Eu só queria te ver.
Eu só queria te ver.
Eu só queria te ver.
“O amor calcula as horas por meses, e os dias por anos; e cada pequena ausência é uma eternidade.”
— John Dryden
Fale com o autor