Os quatro homens presentes no cômodo observam a mulher se deslocar pela sala como um tornado, alheia a tudo que a cerca. Seu rosto reflete toda a consternação em que sua mente se encontra.

— Bella, sente-se.

Assim como das outras vezes, Bellatrix ignora seu marido, caminhando de um lado para outro na sala espaçosa da mansão Malfoy.

Desde que lhe fora informado por seu senhor, há poucas horas, o baile que acontecerá dali um mês, seu estado transtornado se agrava. Todos sabem o motivo, mas ninguém ousa verbalizar.

Resmungando consigo mesma palavras ininteligíveis e se mantendo em movimento, a Lestrange é a imagem esculpida em carne e osso do que descontrole por fazer com uma pessoa.

— Bellatrix – A voz de Lucius se faz presente, em uma tonalidade mais elevada do que a do outro – Sente-se, porra. Você está me deixando tonto.

— Tonto você já é – Alfineta, continuando seu trajeto.

O bruxo trava a mandíbula, mas antes que possa retrucar, Severo se levanta e caminha até o aparador de bebidas perguntando-lhe onde Narcisa está.

— Milord mandou chamá-la hoje cedo – É tudo o que o loiro diz, porque é tudo que ele sabe. E isso lhe assusta.

— Há quase 12hrs atrás – Relembra Draco, atraindo a atenção dos homens para si – Não entendo o que pode requerer a presença da minha mãe por tanto tempo.

Lucius se mantém em silêncio, mas intimamente concorda com a confusão de seu filho. Severo une as sobrancelhas, mas nada diz.

— Orgulhe-se, Draco – Ordena Rodolfo, friamente – É uma honra servir ao Lord.

— Eu sei, tio – A voz do jovem sai igualmente fria – Mas, minha mãe estar sumida por tanto tempo é no mínimo estranho. Eu só gostaria de saber onde ela está.

Rodolfo não diz nada, limitando-se a ignorar o garoto.

Bellatrix da zero atenção para as conversas ocorrendo a sua volta, presa em suas próprias divagações.

Quando a porta é aberta e uma Narcisa desgrenhada, cansada e sonolenta entra na sala, todos lhe encaram com expectativa. A loira se joga na primeira poltrona que encontra, que fica justamente entre Draco e Lucius.

— Onde você estava? – Lucius pergunta, encarando sua esposa com atenção.

Draco examina sua mãe minunciosamente, procurando machucados ou lesões.

— Com Milord – Responde, fechando os olhos e massageando sua têmpora.

— E? – Instiga seu filho, tão curioso quanto todos os presentes.

Narcisa se mantém em silêncio, respirando fundo várias vezes para absolver todas as informações coletadas. Quando nenhuma palavra sai de sua boca por vários segundos, os outros bruxos se mantêm em silêncio, absolvidos em seus próprios pensamentos.

Draco segura a mão de sua mãe com carinho, apertando seus dedos para lhe passar conforto, temendo que algo ruim lhe aconteça. Ela lhe retribui o aperto, tentando tranquilizar sua prole.

— Milord dará um baile de noivado dentro de um mês – Bella quebra o silêncio, não aguentando mais não verbalizar a informação passada – Você sabe de algo sobre isso, Narcisa?

Abrindo os olhos com rapidez, a Malfoy procura os olhos da irmã, pasma.

— Noivado? Do que você está falando?

Mas já?

A morena desgrenha ainda mais seus fios desalinhados com as mãos trêmulas, não se importando de parecer louca.

Rodolfo encara sua companheira de canto de olho, sentindo seu sangue ferve em ciúmes.

— Ele anunciou mais cedo que fará um baile para comemorar seu noivado – Fala, com sua voz esganiçada repleta de descrença – Mas a pergunta de mil galões é, quem é a escolhida? Por que nunca ouvimos falar dela? Onde vive? Podemos confiar?

Narcisa e Severo se entreolham brevemente, os únicos no cômodo que sabem quem é a felizarda.

— São muitas perguntas que rondam sua mente, Bellatrix – Observa Severo, tranquilamente – Duvido muito que Milord tomaria uma mulher indigna para ser sua companheira. Por isso, aquiete sua mente. A escolhida deve estar à altura de tal honra.

Se um olhar pudesse causar danos a alguém, com certeza o olhar mortal que a Lestrange envia para o professor de Hogwarts, após ouvir suas indiretas, teria lhe tirado à sua vida.

[...] Dia Seguinte [...]

Levo a poção verde até os lábios, bebendo seu líquido em poucas goladas. O gosto embrulha meu estômago, mas me obrigo a tomar ele mesmo assim. Termino de ingerir fazendo careta, Narcisa sorrir.

— O gosto é horrível, mas sua recuperação está sendo rápida por causa dessas poções que te demos.

Ela cruza os braços e aponta com a cabeça para os outros fracos de poções em cima do balcão para mais tarde, aonde algumas foram feitas por ela e outras por Morgana. Essa é a quarta poção que tomo desde o momento em que acordei hoje.

— Eu sei – Jogo o frasco de vidro vazio no lixeiro do banheiro – A poção para meu inchaço já está pronta?

— Sim.

Ela sai do banheiro com rapidez.

Estalo o pescoço, sentindo meus músculos tensos.

Olho para meu reflexo com desanimo, meus cabelos chegam abaixo dos meus seios, precisando de um corte urgente. Minha pele está pálida, mas saudável e brilhante. O inchaço em minha barriga está proeminente, mas não tão grande quanto no dia anterior. Meus seios são um caso à parte, estando duas vezes maiores do que são e extremamente sensíveis.

— Aqui.

Narcisa volta para o banheiro, entrega-me o vidrinho pequeno contendo a poção desinchante alaranjada e para ao meu lado.

Bebo-a em apenas uma golada. Seu gosto é adocicado e menos enjoativo que da poção cicatrizante que tomei há poucos instantes. Jogo o vidrinho no mesmo lugar do outro, na lixeira do banheiro.

Encho um copo com água da torneira e o bebo, cuspindo a primeira golada na pia e depois solvendo o resto.

Passo a língua nos lábios, sentindo o gosto doce do líquido que tomei. Coloco o copo ao lado da torneira de metal.

— Preciso cortar meu cabelo – Digo para meu reflexo no espelho, não necessariamente esperando uma resposta dela.

Acaricio as pontas, sentindo a maciez dos meus fios enquanto encaro meu corpo com estranheza. A camisola rosa clara vai até meus pés, sendo longa e leve. Com suas alcinhas finas e o tecido de seda pura, é meu melhor escudo contra meu reflexo no momento.

— Posso cortá-lo para você – Propõe ela, solicita – Sou eu quem corto o cabelo de Bella, Lucius e o meu próprio.

Olho para Narcisa, que ajeita meus produtos de higiene em fileiras simétricas, inquieta. Ela propositalmente evita meu olhar.

Faço uma breve careta ao ouvir o nome da comensal, mas não digo nada.

O cabelo de Narcisa está preso em um coque, seu vestido é preto fosco de manga compridas e vai até abaixo de seus joelhos. Um discreto rastro de maquiagem cobre sua pele, mas nada muito chamativo, afinal, são 9:40 da manhã. Em seus pés, um scarpin preto de salto agulha lhe dá sustentação. Desde que chegará, uma hora atrás, seus modos são polidos e reservados, com ela me tratando quase como se eu fosse alguém... Importante!? Não entendo.

Ela não pode saber... Não, ela não sabe.

— Não sabia que você cortava cabelo – Falo, não querendo ser rude, mas não me aguentando. É surreal sua nova personalidade prestativa.

— Você não sabe muitas coisas sobre mim – É sua resposta.

Encolho meus ombros, sentindo-me desconfortável.

— Não quis ser rude. É só que...

— Hermione.

Seus olhos voam para mim e ela sorrir.

— Você não foi – Endireitando a coluna, Narcisa deixa sua atividade organizadora de lado – Você está longe de ser uma pessoa rude. E não sei se isso é uma coisa boa ou não.

— Por quê?

Ela apenas balança a cabeça.

— Deixe-me achar uma tesoura – Muda de assunto, abrindo as gavetas do balcão branco aonde ficam alguns outros produtos de higiene e toalhas – Sente-se na varanda, tem uma melhor iluminação lá – Instrui.

Balanço a cabeça em concordância.

Volto para o quarto, pego minha varinha em cima do criado mudo ao lado da cama. Vejo a gaveta entreaberta reluzir com pontos brilhantes. Fecho-a, ignorando o brilho que vem de dentro e afastando pensamentos incômodos que brotam de repente.

Não, não pense nisso.

Me aproximo dos bebês adormecidos, vendo seus rostos serenos virados um para o lado do outro.

Sorrio.

Vocês são ‘meu tudo’ agora.

Após alguns segundos de contemplação, enfim faço como Narcisa instruiu. Mas antes tenho que levitar um dos pufes acolchoados verdes até a varanda. Sento-me nele e deixo minha varinha em meu colo, recebendo os raios solares com felicidade.

Alguns minutos se passam e Narcisa aparece na porta da varanda.

— Não achei no banheiro, mas acredito que tem uma tesoura no criado mudo – Fala, indo direto para o lugar onde antes eu estava – Só levará um minuto.

Levando-me com rapidez e sigo-a com o coração acelerado.

— Não, espere. Eu pego...

Ela abre a gaveta e estanca no lugar, encarando o anel que Tom me deu com os olhos arregalados. Sua mão para suspensa no ar, como se temendo encostar na joia.

— Uau!

Engulo em seco, vendo seus olhos azuis se voltarem para mim.

— É um lindo anel de noivado.

Concordo, girando minha varinha nos dedos.

— Sim, é sim.

— Por que ainda não está em seu dedo? – Questiona, recuperando-se da surpresa.

— Ainda não...

— Bom, não importa – Ela balança a cabeça e suspira, sorrindo – Você terá a oportunidade de exibi-lo no seu baile – Fala, pegando a tesoura dali com cuidado e fechando a gaveta com mais cuidado ainda – Não há pressa.

Paro de brincar com minha varinha, estreitando os olhos para ela.

— Do que você está falando? – Ela fecha a boca em uma linha rígida, parecendo se arrepender de suas palavras – De que baile você está falando, Narcisa?

Ela perde a cor e eu a paciência.

[...]

Por quê?

A água gelada escorre por seu corpo magro, tirando o rastro de sangue que mancha sua pele. A poça avermelhada que se forma em seus pés é observada por ela, mas não filtrada. Sua mente está longe, mas precisamente nas últimas palavras ditas pelo amor de sua vida.

“- Comemoraremos meu noivado.”

Para sua mente perturbada, é incompreensível que Voldemort possa vim a ter um relacionamento com alguém que não seja ela. Além do mais, assumir um compromisso fixo para todos é tudo que a mesma sempre almejou com ele. E agora, isto está sendo concretizado, mas não com ela. Uma estranha tomou seu lugar.

Isso não vai ficar assim...

Sua obsessão por seu Lord das Trevas é antiga e doentia, beirando à dependência total por ele para viver. Sem isso, ou melhor, com isso ameaçado por alguém que não conhece, é um golpe ao qual Bellatrix não irá suportar.

Ele é meu.

Ela esfrega seu pulso com força, usando as unhas curtas para ferir o local. A dor física é bem-vinda. A mesma não para até ver sangue escorrer pelo local e, então, deixa seu corpo cair no chão. A bruxa se põe de joelho, espalmando o chão.

A água tira tanto o sangue novo quanto o que já secara, sendo o seco vindo de uma tortura praticada por ela em um nascido trouxa no porão de sua irmã.

Por quê não comigo?

Ela fecha seus olhos castanhos, odiando com todas as suas forças a desconhecida que roubara seu grande amor.

Somos perfeitos um para o outro, então... Por quê?

Um grito estrangulado escapa de sua boca, fazendo-as bater com os punhos no chão, não se importando com a dor e o sangue que brota em seus dedos.

Nenhuma puta maldita tirara ele de mim.

E com isso, ela conclui seu banho, determinada a lutar pelo amor de sua vida e matar qualquer um que impeça sua vitória. O primeiro passo é descobrir contra quem está lutando.

[...]

Irrompo no escritório sem pedir permissão, encontrando Tom sentado em uma poltrona de couro em frente à uma grande mesa de carvalho.

Seus olhos voam até mim com irritação, mas logo dão lugar a confusão ao constatar que sou eu que acabara de adentrar seus domínios.

— Algum problema?

Paro à sua frente, coloco minhas mãos em sua mesa para me apoiar – em cima de papeis que nem sei para que servem – e me inclino para ficar a poucos centímetros de distância dele. Seus olhos azuis estão grudados em mim.

— Primeiro você aparece do nada e me sequestra contra a minha vontade – Começo, ofegante por ter andado rápido após escutar as palavras de Narcisa e chamar Mirdy para me indicar o caminho do escritório dele – Depois me intima a aceitar perpetuar a tradição estranha dos Black’s, que sobre isso eu não tenho muito a reclamar. E então, some assim que eu tenho os bebês e passa o dia todo longe – Vejo seus olhos tremularem de descontentamento – Você sequestrou até o meu gato, o meu gato, Tom! Não sei nem o que dizer sobre isso de tão frustrada que estou. Mas, o pior de tudo ainda está por vir... Você anunciou a merda desse noivado aos seus comensais sem antes me perguntar se eu aceito.

Ele abre a boca para falar, mas não permito. Não sem antes externar todos os meus demônios.

— E que bosta de pedido foi aquele? – Estou tão transtornada, que não sinto meu corpo tremer e suar frio – Eu senti sua falta nesses meses mais do que tudo. E entendo que para você foi um choque me reencontrar grávida, mas... Mereço mais do que você está erroneamente tentando me oferecer. Começando por um pedido de casamento decente e por uma conversa sensata entre duas pessoas que se tornaram pais por acidente.

Estou ofegante, mas me parabenizo por não ter gaguejado em minhas palavras.

— Você nem ao menos esperou minha resposta, simplesmente sumiu e não dormiu comigo ou me ofereceu qualquer explicação. Apenas se trancou aqui e me deixou passar a noite em claro desejando descobrir se aceitar sua proposta me machucará mais do que já estou – Concluo, engolindo o nó que se forma em minha garganta.

Ele ergue uma mão, apostando seu indicador para mim. Seu semblante é uma máscara gélida de falsa calma.

— Em primeiro lugar, sente-se na maldita poltrona – Sua voz é fria e rude, sem um pingo de emoção.

— O que?

Ele se levanta, dá a volta na mesa e para ao meu lado. Agarrando meus ombros, ele vira meu corpo com delicadeza para o seu lado e me guia para a poltrona mais próxima. Sento-me a contragosto.

— Você não pode ficar muito tempo em pé, lembre-se disso – Relembra, ainda sem um pingo de emoção na voz.

Pisco, para em seguida bufar de raiva, evitando me sentir feliz por perceber que ele presa por meu bem-estar.

— Em segundo lugar, querida – Ele se senta na poltrona ao lado da minha, encarando-me com altivez – Você sempre foi minha. O titulo que temos não importa, mas quero me casar com você em um ato formal. Meus filhos não serão ilegítimos.

Ele se inclina para mim, sorrindo com escárnio.

— Para finalizar, quero te lembrar que eu não sou mais o jovem que você conheceu, Hermione. O Tom Riddle estúpido que se importava com o que você queria ou não morreu há cinquenta anos. Portanto, saiba as coisas serão do meu jeito, no meu tempo e conforme as minhas condições.

Fecho as mãos em punhos, realmente possessa.

— Não me provoque, querida – Alerta, levantando-se e voltando a se sentar na poltrona atrás da mesa de carvalho – Se lembre que somos uma família agora, Hermione. E que todas as suas escolhas podem refletir em nossos filhos – Ele pega alguns papéis e empilha, sem desviar sua atenção de mim – E você não quer que nada te separe deles, não é?

Meu coração para de bater, meus olhos se arregalam. Tudo à minha volta fica em branco e sem oxigênio, como se todas as cores fossem roubadas junto com o ar de meus pulmões.

— Você... – Paro.

Seus olhos são frios como aço, minhas pernas tremem.

— Você não tiraria meus filhos de mim, não é? – É uma pergunta estúpida, pois sua ameaça é clara. Mas preciso ouvir de sua boca uma confirmação ou recusa.

— O que você acha? – Devolve.

Sob seu olhar penetrante, me levanto. Meu corpo parece pesar uma tonelada, com todos os meus músculos rígidos. Sinto meus olhos embaçarem, mas me viro antes que ele possa ver o efeito que suas palavras tem sobre mim.

Caminho à passos lentos para fora do escritório, mas antes que eu possa sair, escuto sua voz rouca me chamar.

Olho para ele no exato momento em que uma lágrima solitária escorre por minha bochecha.

— Não me teste – Diz suavemente, mas como um pedido do que uma ordem.

Não digo nada, apenas saio pela porta completamente quebrada.

[...] Uma Semana Depois [...]

O sol está alto no céu, indicando a eminente chegada da noite. Inclino-me sobre a sacada, agarrando sua extremidade com força.

Sorrio, deliciando-me com a quentura bem-vinda.

Querido sol, você é meu único amigo fiel agora.

Contemplo o jardim à minha frente, encantada com suas cores e formatos. Variando de narcisos, cravos, rosas, lírios e crisântemos, o jardim oferece um show espetacular. Em pouco tempo se tornou minha parte preferida da mansão e uma das poucas que frequento com regularidade.

Inspiro o aroma adocicado trazido pela brisa, suspirando logo em seguida.

— Você pode ir lá fora, se quiser.

Olho por cima do meu ombro, vendo-o sair do banheiro enxugando os cabelos com uma toalha. Seu peito está nu, exibindo uma estrutura de ombros largos, pele pálida e barriga lisa e definida. O V em seu quadril é ressaltado pela calça de cós baixo pendendo nas laterais pecaminosamente. Seus olhos estão fixos em mim, capturando todas as minhas emoções.

Desvio meu olhar, sentindo meu coração acelerar.

— Muito nobre da sua parte – Digo, tentando recuperar a compostura.

— Não seja mal humorada, Hermione – Seu timbre rouco me avisa que ele me viu o secando.

Me volto para a paisagem linda à minha frente. De onde estou tenho uma vista panorâmica sobre quase toda a frente da propriedade, com minha vista chegando até onde começa uma densa floresta nos cercando.

— Impossível não ser quando estou confinada há uma semana.

Ele não diz nada.

Como em muitos outros dos meus comentários ácidos.

Desde nossa briga em seu escritório, uma semana atrás, ele vem evitando qualquer tipo de confronto comigo, preferindo ficar calado à qualquer retruca irritada que faço. Não sei se isso é bom ou ruim.

Com suas saídas frequentes, nossos momentos juntos são escassos. Por isso, é fácil não iniciar uma discussão com ele. E com sua ameaça implícita queimando viva em minha mente, não o provoco.

Me pego encarando a joia em meu dedo anelar da mão direita, ainda encantada com sua delicadeza e requinte. Passo meu dedo indicador por cada uma das pedras preciosas.

É, sem dúvidas, a coisa mais cara que possuo.

Suas esmeraldas brilham em contraste com luz solar, assim como o grande diamante no centro. Nunca esquecerei o olhar satisfeito que Tom ostentou quando me viu usando o anel, três dias atrás. Foi puro deleite e contentamento.

Suspiro.

Adentro o quarto e caminho até o berço duplo, entrando na área aquecida por feitiços. Alya e Damon dormem tranquilamente, alheios a qualquer problema existente ao seu redor. Seus macacõezinhos brancos estão combinando, sendo bordado em rosa (Alya Diana) no dela e azul (Mizar Damon) no dele, em cima de seus corações com uma letra cursiva e floreada. Um presente que Morgana trouxe hoje mais cedo que não resisti e tive que lhes vestir.

— Quando poderei sair com eles? – Encolho meus ombros – Estou cansada de apenas ficar dentro de casa ou ir até o jardim e a biblioteca.

Um barulho de discordância escapa de sua garganta, mas nenhuma palavra é dita.

— Tom? – Me viro para ele em busca de resposta.

O mesmo está sentado na cama, me encarando com o semblante sério.

— Por que você quer sair? – Pergunta, assumindo uma postura tensa – O lugar foi projetado com tudo que possa te agradar. Temos uma biblioteca enorme e um jardim maior ainda, fora a coleção de arte e o pequeno museu com artefatos raros. Não entendo porque sair quando se tem tudo isso na própria casa.

Massageio minha têmpora.

— Aqui é perfeito, mas eu preciso sair. Ver e conversar com pessoas que não sejam Narcisa, Morgana e você. Estou enlouquecendo, Tom.

Ele balança a cabeça em discordância.

— É perigoso.

Quero retrucar, mas sei que em parte ele tem razão.

— Por favor, Tom.

— Não.

Dou-lhe as costas, voltando-me para nossos bebês.

Me dizer não já está virando rotina em nosso relacionamento, por isso, não me irrita tanto quanto antes. Ajeito a manta cinza de Damon, colocando sua mãozinha descoberta para dentro dela, não querendo que o mesmo fique com seus dedinhos ao vento.

Sinto ele se aproximar, mas não lhe encaro.

Quando seus dedos encontram meu ombros nus, endireito minha coluna, virando meu rosto para o seu lado. Seus toques sempre são íntimos e familiares, mas nem por isso nos deixamos levar. Dormimos na mesma cama, sempre acordando enroscados um no outro. Mas nunca avançado os limites.

Ele captura minha atenção com seus olhos tempestuosos, massageando minha pele com carinho.

— Após nosso baile de noivado, permitirei que você visite alguém da sua escolha.

Pasma, assimilo com lentidão suas palavras.

— Qualquer um?

Seus olhos cintilam com uma emoção que não consigo distinguir.

— Sim.

“É difícil amar aqueles que não estimamos, mas é mais difícil ainda amar aqueles que estimamos mais do que a nós mesmos.”

— François La Rochefoucauld

Notas finais
Mi amores, peço desculpas pela demora. Estou atolada com atividades da faculdade, que mesmo EAD, tá me matando. Desculpem qualquer erro ortográfico também, prometo revisar depois. Sinto que algumas pessoas ficaram levemente chateadas com o Tom neste capítulo. Bom, espero que tenham gostado, fiz com muito amor. Leitores fantasmas, pronunciem-se, amo-vos também ❤️ Beijinhos sabor escolha perfeita!!