Desire Obsolete
53 Inesperado
Notas iniciais
A alegria do ambiente é contagiante. Sorrisos e risadas são disparados o tempo todo, se sobressaindo em relação à música alta e vozes eufóricas. Lágrimas de felicidade também são derramadas, um bálsamo para os tempos sombrios em que o mundo da magia se encontra.
Casais, de todos os estilos, dançam em meio à grande tenda erguida para a ocasião. Em especial, os recém casados são os que mais se divertem, rodopiando por entre as pessoas, trocando sorrisos amorosos.
Existe uma atmosfera poderosa no local, sendo a apreensão pelos tempos difíceis a última preocupação de algumas mentes. Exceto, do garoto com um raio na testa e seu amigo inseparável, ambos sentados mais afastados dos demais.
Harry Potter e Ronald Weasley estão felizes por presenciar o enlace entre Gui Weasley e Fleur Delacour. É um momento especial a celebração de um casamento. No entanto, para os dois garotos é impossível relaxar e aproveitar o momento, principalmente, para o sobrevivente da maldição da morte. Com sua cabeça a prêmio e devido as muitas perdas em sua vida, o eleito não tem motivos o suficiente para se deixar alegrar.
— Ela não veio – Harry ouve Rony comentar.
Ele não precisa perguntar de quem o amigo se refere, pois só em ouvir a mágoa e a raiva presentes em sua voz, a resposta é óbvia: Hermione Granger.
— Não, não veio.
Pelo tom cansado e desestimulante de Potter, o Weasley deveria ter entendido que ele não quer insistir neste assunto novamente. Mas, assim como em vários outros momentos, Ronald não é adepto a perceber as sutilezas nos comportamentos alheios.
— Qual é a merda do problema dela? – Rosna, levando seu hidromel aos lábios – Gina está tão puta que nem pode ouvir seu nome ser pronunciado.
— Eu não sei e já desisti de entender.
— Você deveria ter me deixado ir contigo encontrar ela – Ralha o ruivo, ainda irritado por não ter sido incluído no encontro entre eles, meses atrás – Eu teria lhe dito poucas e boas.
Harry é impedido de retrucar suas palavras acidas pela chegada da convidada mais excêntrica do casamento.
— O que estão fazendo aqui no canto? – Luna pergunta, parando em frente a eles.
— Fugindo de atenções, eu acho – Harry tenta sorrir, mas falha.
O ruivo se limita à grunhi em resposta, terminando seu copo de hidromel com poucas goladas.
— Meu pai se empolgou demais com você, Harry – Ela diz, mencionando o encontro de mais cedo na festa entre Xenofílio e Harry, aonde precisou salvar o garoto das investidas de seu pai – Ele é um grande fã seu.
— Eu agradeço por isso – Fala, não sabendo bem o que dizer.
Ela coça a orelha, evidenciando seus brincos de rabanete.
— Onde está a Hermione? Não a vi ainda – Ela vasculha o lugar com os olhos por breves instantes – Gostaria de saber se os Zonzóbulos lhe incomodaram muito em sua viagem.
Harry abre a boca para lhe responder que Hermione, provavelmente, não apareceria no casamento. Mas quem toma a palavra é Rony, movimentado por sua raiva.
— Os Zonzóbulos devem ter embaralhado tanto a mente dela, que se perdeu no caminho para cá. É a única explicação aceitável – Diz, soltando uma risada sem humor logo em seguida – Preciso beber mais – Avisa, se afastando sem dizer mais nada.
Um silêncio desconfortável se instala por poucos minutos. Os dois mergulhando em pensamentos enquanto veem de longe Ronald tomar dois copos seguidos de whisky de fogo.
— Me desculpe por isso, Luna. Ele não anda nada bem – Potter quebra o silêncio – Mas não posso culpá-lo. Eu mesmo não consigo entender...
— Eu sei que não ajudara muito, mas... – Começa ela, passando os dedos pela barra do vestido amarelo-gema – Minha mãe sempre me dizia que, a verdade é como um objeto perdido que sempre encontra seu dono – Ela sorri de modo saudoso – Hermione é este objeto. E ela irá voltar.
— Mas, voltará da forma como queremos?
A corviniana balança a cabeça em negativa.
— Ela precisa voltar da forma que lhe for melhor. Não podemos controlar as pessoas ou o destino, ou por nossas expectativas nelas. É injusto para com o outro.
— Obrigado, Luna.
Ela acena e, então, ver seu pai lhe chamando.
— Até depois, Harry.
— Até, Luna.
O depois não chegou.
Pouco tempo após o breve diálogo entre os dois, o patrono de Kingsley Shacklebolt irrompe pela tenda, causando pânico nos presentes e terminando com o momento de descontração e alegria.
''O Ministério caiu, o Ministro da Magia está morto. Eles estão vindo. Eles estão vindo."
[...] Dia Seguinte [...]
Meus dedos raspam pelas laterais dos livros enfileirados na estante, deslizando por entre seus diversos materiais com facilidade. Os cheiros de livros novos e velhos se misturam, trazendo-me um pouco da tranquilidade que tanto busco.
Aperto meus olhos em fendas, lendo os títulos mais de uma vez, com minha mente dispersa demais para filtrar as palavras.
Seus conteúdos variam de como usar maldições avançadas a metodologias disciplinares sobre como preparar poções. É um acervo diversificado, sem restrição alguma sobre magia negra.
Afasto-me da estante e vou até a mesa de estudos posta no centro da sala, pego minha varinha de cima de um dos livros que há poucos minutos estive lendo. Com um simples aceno de mão, faço os livros que quero deslocarem-se de seus lugares e virem flutuando até a mesa. São muitos deles levitando por toda a sala, saindo das diversas estantes. Eles empilham-se uns sobre os outros.
Observo tudo um pouco inquieta.
— Achei você.
Narcisa irrompe pela entrada da biblioteca, segurando Bichento nos braços. Ela para à poucos passos da porta, encarando o balé de livros no ar com a testa franzida.
— Algum problema?
Balanço a cabeça em negativa, mas uma irritante voz em minha mente lembra-me do que perdi ontem.
— Alya e Damon acordaram? – Pergunto, vendo-a soltar Bichento no chão e ele começar a pular pelo cômodo, tentando alcançar os livros flutuantes.
Cruzo os braços.
— Não, apenas vim te trazer ele – Ela meneia com a cabeça para o gato – Milord chegou e Bichento não deixou Nagini em paz. Ela está estressada hoje. Então, ele me pediu para tirar o gato do quarto para que os dois possam descansar. Se os bebês acordarem, ele chamará.
Suspiro, vendo o último livro flutuar até a pilha imensa na mesa.
Não é incomum Tom ficar a sós com Alya e Damon. Na verdade, está se tornando bem frequente. Ele gosta de tê-los para si, mas está é a primeira vez que Nagini está com eles sem a minha presença.
Coloco minha varinha em cima da menor pilha de livros da mesa e estalo o pescoço, arregaçando as mangas de meu cardigã preto.
Preciso me focar em algo que eu possa controlar.
— Bichento ama importunar Nagini – Comento, balançando a cabeça em desaprovação.
Não consigo enxergar Nagini como um réptil normal e, quanto mais tempo passo em sua presença, mas percebo que a mesma tem uma personalidade própria interessante de observar. Sempre que estamos no mesmo cômodo, me pego desejando ser ofidioglota e poder conversar com ela.
— Isso é verdade – Concorda ela – Nagini tem uma paciência invejável – Brinca.
— Realmente.
A natureza da relação entre Nagini e Tom é um mistério para mim, mas desde o momento em que coloquei meus olhos nela, sinto que ela não é uma serpente normal. Seus olhos me encararam tão profundamente, que senti como se minha alma estivesse sendo desnudada. Foi estranho, mas não incomodo. Não mais, pelo menos.
***
“Arranco a última haste de tulipa roxa, ajeitando-a em meu buquê colorido, entre rosas, cravos e lírios.
— Mirdy terminou, senhora – A pequena elfa vem em minha direção, segurando um buquê duas vezes maior que o meu e muito mais organizado.
Sorrio.
— Perfeito, Mirdy.
Ela para à minha frente, seus olhinhos amendoados piscando freneticamente. Receber elogios não lhe é habitual, mas quero mudar isso. E não me importa que Tom não concorde com meus métodos, achando-me de sentimental demais. O importante é que ele entenda que em nossa casa não há punições.
Como minha fiel escudeira, Mirdy me acompanha em quase todos os momentos do dia, sempre solicita e disposta a agradar. Em minha busca por um buquê de flores para adornar nosso quarto, não poderia ser diferente.
— Mirdy fica feliz em agradar minha senhora – Diz, esticando sua mão para pegar o buquê que fiz.
— Não precisa, eu mesma levo – Falo, começando a me mover de volta para a mansão.
Ela me segue, ficando alguns passos atrás. Quando lhe questionei, dois dias atrás, o porquê de sempre me seguir ficando alguns passos atrás, ela me respondeu que é uma distância respeitosa. E que não se sente digna de andar ao lado de seus senhores.
— Você pode andar ao meu lado, sabe disso – Digo, fechando a porta do hall de entrada assim que Mirdy passa por ela, o que a faz arregalar os olhos.
— Eu não poderia fazer isso, senhora. Mirdy deve conhecer seu lugar.
— Seu lugar, Mirdy, é onde seus senhores determinam, certo? – Pergunto, fazendo-a balançar a cabeça lentamente em concordância, temerosa.
Sorrio.
— Muito bem, então – Lhe entrego minhas flores antes de começar a escuta passos se aproximando – A partir de agora, você andara ao meu lado, entendeu?
Ela pega as flores de minha mão e une com as dela, mas seus olhos estão fixos em mim, meio arregalados, meio chorosos.
— É uma ordem, Mirdy – Completo, suavemente.
Ela acena, mas seus olhos refletem muitas emoções conflitantes. Acaricio o topo de sua cabeça, levando-a a ficar imóvel.
— Hermione.
Endireito minha postura, encarando Tom parado próximo a entrada da sala de estar. Seus olhos estão grudados em mim, analisando meus movimentos.
— Algum problema? – Pergunto, enquanto Mirdy faz uma reverencia desajeitada e depois vai embora com minhas flores.
Ele segue-a ir embora, e só quando some é que me responde.
— Venha até meu escritório comigo, quero que conheça alguém.
Tombo a cabeça para minha direita, surpresa.
Sem esperar uma confirmação de minha parte, Tom me dá as costas e segue adiante, passando pela escada que leva ao primeiro andar e entrando no corredor da biblioteca e do escritório dele. Sigo-o em silencio, minha mente não conseguindo imaginar quem ele pode querer me apresentar.
‘Será algum comensal? Não, ele não traria um comensal aqui.’
O mesmo abre a porta e entra, esperando-me ao lado dela. Só quando passo por ele é que o cômodo é fechado. Tom se encosta de braços cruzados na porta, encarando-me intensamente.
Vasculho o lugar em busca de outra alma viva, mas não encontro ninguém.
— Não entendo... – Volto-me para ele.
Ele se mantém em silêncio, me encarando com uma das sobrancelhas arqueadas e um repuxar no lábio, em um meio sorriso zombador. Um frio incomodo em meu estômago se instala.
— Tom...
Um sibilar preenche o ambiente, gelando meu sangue. Vasculho novamente o lugar, dessa vez olhando para o chão com o coração acelerado.
Saindo de debaixo do sofá de três lugares, à minha esquerda, uma serpente de três metros de altura desliza em minha direção. Em um gesto instintivo, levo minha mão até minha varinha presa em minha cintura.
— Ei, calma! – Tom segura meu braço, colando a frente de seu corpo em minhas costas – É quem eu quero te apresentar.
— Como?
Uma pequena parte do meu cérebro consegue detectar nossos corpos colados, suas mãos deslizando por meus ombros para me acalmar e sua respiração fazendo cócegas em meu pescoço. Mas, minha atenção está totalmente focada no réptil se movendo para próximo de nós.
Estou hipnotizada por suas escamas escuras em tons terrosos. O farfalhar de seu rastejar preguiçoso no piso produz um som suave no ambiente. Sua aproximação é calculada e cuidadosa. Não é ameaçadora, e sim curiosa. E, assim como eu, ela está inquieta. Percebo isso pelo modo como sua língua aparece e some rapidamente.
A serpente para bem à nossa frente, erguendo-se com seu corpo viscoso na altura de meu quadril e me encarando diretamente nos olhos, com sua língua bifurcada saindo de sua boca esporadicamente. Outro sibilar escapa dela, mas dessa vez Tom solta uma breve risada.
Engulo em seco, tentando conter meu impulso de tocar nela.
Tom sussurra algo em língua de cobra, me fazendo arrepiar por seu hálito quente bater contra à base de meu pescoço desnudo. Ela acena, voltando ao chão e se enroscando, quase ficando como uma bolinha, mas mantendo a cabeça arqueada.
— O que você disse?
— Que você está nervosa, por isso, está tremendo.
Ele desliza seus dedos por meus antebraços até para com as mãos abaixo dos meus seios, fechando meu corpo em um abraço frouxo.
— Eu não percebi que estava tremendo – Consigo dizer, deitando minha cabeça em seu ombro, recuperando meu equilíbrio – Confesso não ser fã de cobras, elas me assustam.
— Ela é especial – Diz, intensificando seu aperto sobre mim – É minha amiga – Noto um tom de carinho genuíno em suas palavras.
Fecho os olhos, apreciando nosso contando íntimo mesmo sabendo que estamos sendo observados.
— Qual seu nome?
— Nagini.
Sorrio.
— É um belo nome – Abro meus olhos e encaro Nagini, que nos observa atentamente – Você me contará como se conheceram?
— Foi há muito tempo, em uma floresta na Albânia – É tudo que ele diz sobre o assunto.
Aceno com a cabeça, observando Nagini se desenrolar e começar a rastejar para longe de nós.
— Ela mora aqui conosco, tem seus próprios cômodos – Informa, colando sua boca em minha orelha esquerda – Não se preocupe com Nagini, Hermione. Confie nela. Ela é parte de mim.”
***
“Ela é parte de mim.”
Suas últimas palavras sobre sua relação com ela martelam em minha mente. Não é o tipo de coisa que se fala em vão, principalmente, alguém como Tom. Minha curiosidade em relação a Nagini só aumentou com isso.
— Bom, vamos deixar que eles descansem – Digo, me voltando para a pilha de livros na mesinha – Tenho que organizar estes livros antes de subir.
Ouço Narcisa se aproximando, com seus saltos fazendo click no piso.
— Por quê?
Encolho meus ombros.
— Todos estes livros são sobre Magia Negra – Explico, pegando um da pilha e apontando para sua capa de couro, onde se lê “Encantos Fatais” – Não posso permitir que livros de artes das trevas fiquem de fácil acesso para Alya e Damon. Quando adolescentes, eles terão curiosidade sobre magias avançadas e perigosas. Mas, enquanto crianças, não permitirei que tenham acesso a esse tipo de magia. Por isso, criarei uma área restrita aqui.
Seus olhos circulam do meu rosto para o livro em minhas mãos, depois para a pilha na mesa e de volta ao meu rosto. Suas sobrancelhas se unem e ela franze a testa.
— Milord sabe disso?
Dou de ombros, devolvendo o livro para a pilha.
— Ainda não – Digo, pegando minha varinha – Mas, isso não é um segredo, e tampouco da conta dele.
Ela não diz nada, mas sinto seus olhos em mim enquanto uso minha varinha para afastar estantes e movê-las para o lado direito da sala, tirando um sofá e uma poltrona do meio.
[...]
Entro no quarto, fazendo o mínimo de barulho possível para não perturbar seu sono ou o dos gêmeos. Tom está deitado na cama de barriga para cima, com o coberto cobrindo até sua cintura. Percebo, encantada, que ele não está deitado sozinho.
Um lento sorriso desponta em meus lábios.
Alya e Damon estão deitados em seu peitoral desnudo, com suas cabecinhas deitadas próximas ao seu queixo e virados de barriga para baixo, dormindo profundamente.
Algo dentro de mim aquece, mas ignoro esse sentimento e me aproximo deles. Assim que chego perto da extremidade da cama, sinto a variação de temperatura cercar-me. Enquanto o resto do quarto está ligeiramente frio, em volta da cama a temperatura é intercalada entre morna e refrescante, com brisas suaves rondeando o local sem a presença de ventos.
Magia, presumo.
Tom está de olhos fechados, respirando tranquilamente. Alya solta alguns barulhos de sucção com a boquinha, já Damon está imperturbável em seu sono.
— Onde você estava? – Sua voz rouca de sono me assusta.
— Eu te acordei?
— Não.
Subo na cama, me aproximando deles com cuidado. Tom abre os olhos e vira a cabeça em minha direção, tomando cuidado para não se mover muito e acordar os bebês. É engraçado e fofo seu modo protetor. Às vezes, enervante também.
— Estava na biblioteca – Respondo, deitando-me de lado, com meu corpo virado para eles – Pensei em mudar algumas coisas por lá. Eles precisão ser trocados? – Acaricio os fios negros do cabelo de Damon, fazendo-o mover sua mãozinha até o rosto e soltar um grunidinho.
— Não, Narcisa me contou que você os trocou pouco antes de eu chegar.
Alya se remexe, mas seu corpo se acalma quando Tom coloca a mão em suas costas e lhe faz carinho.
Sorrio.
— Sim, antes de descer eu lhes dei de mamar e troquei – Seguro a mãozinha de Alya, acariciando seus dedinhos com delicadeza – Já sei quem quero encontrar após a festa.
Seus olhos, que encaravam os gêmeos, se voltam para mim com astúcia.
— Você me contará quem é, ou prefere que eu adivinhe? – Seu tom é zombador, mas posso perceber um leve toque de irritação.
Continuo massageando seus dedinhos com minha mão, tentando não transparecer minha ansiedade.
— Não irei escolher Harry ou Ronald, se é isso que te incomoda – Falo, olhando-lhe nos olhos.
Não depois de tudo que disse ao Harry em nosso último encontro e de ter faltado ao casamento de Gui e Fleur.
— Nem por um momento pensei que fosse – Rebate, arqueando um dos lados da boca em desprezo – E, eles desapareceram. Ninguém sabe do seu paradeiro... ainda – O ainda é acompanhado por uma nota de ameaça.
Meu estômago se retorce, minha boca seca.
— Se desapareceram é porque alguém está os caçando.
Seus olhos tremulam de raiva, mas finjo não notar.
— Além do mais, se eu os escolhe-se, você tentaria os capturar – Afirmo.
Ele move sua atenção para o teto, passando a língua pelos lábios.
— Você está certa – Concorda, nem um pouco culpado por isso – E você não me respondeu quem é que quer encontrar.
Suspiro.
— Luna Lovegood – Revelo, pegando-o de surpresa, acredito.
Suas sobrancelhas se juntam e sua testa se franze.
— Por que ela? – Questiona, virando sua cabeça para o meu lado – A revista de seu pai, Xenofílio Lovegood, é definitivamente o que se tem de pior no jornalismo bruxo. O Pasquim é um completo desastre.
— Você fala isso por ele se opor aos seus ideais, ou por realmente achar O Pasquim ruim?
Ou por que foi através dele que descobriu que sou do futuro? Completo em pensamentos.
— Não responda uma pergunta com outra, Hermione. Odeio isso – Fala, crispando a boca – E sim, ele não é um apoiador da causa, mas isso é um dos menores dos meus problemas. Não me oferece risco algum. E não, não tenho a menor simpatia por quem acredita em criaturas fantasiosas como Zonzóbulos, Heliopatas e Bufadores de Chifre Enrugado. O homem é louco, e pelo que sei de sua filha, é igualmente perturbada. Não entendo o motivo de você querer contato com pessoas assim.
Sento-me na cama, jogando meus cabelos por cima do ombro.
— Eles não são loucos, apenas excêntricos – Devolvo, realmente irritada – Pare de ser tão preconceituoso com quem é diferente, Tom. Você vive enclausurado em convicções que te sufocam e não tem a menor empatia pelas pessoas. É frustrante e aterrador.
— Não seja tão condescendente com as pessoas, Hermione. É um grande erro – Aconselha, com sua voz inalterável – Nem sempre o que é diferente me desagrada, apenas o que beira à loucura. E não, não comece uma briga em que você não tem chances de ganhar. Nunca mudarei minhas convicções em relação aos sangue-ruins, você sabe bem disso. Cheguei longe demais para voltar atrás.
— É impossível te mostrar a razão enquanto você se negar a ver outro lado que não seja o seu – Balanço a cabeça em descrença – Não sei nem porque perco meu tempo tentando, você é uma causa perdida.
Alya solta um resmungo, remexendo suas pernas e bracinhos, como se quisesse se virar. Ficamos em silêncio, observado seus movimentos desajeitados e resmungos impacientes. Ela não abre os olhos e, tampouco, acorda Damon. Lhe viro de barriga para cima enquanto Tom mantém Damon no lugar. Ela logo volta a cochilar, dessa vez, com seus lábios entreabertos e soltando leves ressoares.
— Vê-la não te trará benefício algum, na minha opinião – Solta, me fazendo encarar seu rosto com a testa franzida – Mas, se é isso o que você quer, assim será.
Dou de ombros.
— Será nos meus termos e onde eu quiser – Exijo, encontrando desaprovação em seus olhos – Não aceito menos que isso, Tom. Estou presa há tempo demais – Rosno à última parte baixinho – Não pense que esqueci sua ameaça.
Ele desvia o olhar para nossos filhos em seu peito.
— Você jogando com minhas emoções e fragilidades eu posso suportar – Digo, trazendo sua atenção de volta para mim – Mas nunca ameace tirá-los de mim de novo, Tom. Para me afastar deles, você terá que me matar. E, eu garanto, não sou considerada a melhor da minha geração atoa.
Ele me avalia por alguns segundos, meditando algo.
— Você é uma catástrofe em contenção, Hermione – Não existe traços de ironia ou sarcasmo em sua voz, por isso, não entendo bem suas palavras.
Tom se volta para o teto novamente, acariciando a cabecinha de Damon com a ponta dos dedos. Seu rosto é uma máscara de indiferença fingida, mas o fogo em seus olhos é forte.
Volto a me deitar ao seu lado, tomando cuidado para que nossos corpos não se toquem. Deixo minha atenção fixa em seu rosto por alguns instantes. Estudo seu perfil, memorizando a tonalidade de sua pele, o formato de sua boca e suas expressões contrariadas, que variam de acordo com o grau da raiva.
Não sei em que pé anda a guerra ou quem está ganhando, mas a julgar por suas saídas frequentes e demoradas, sei que Tom está se empenhando muito em ser o lado vencedor. Não sou burra, sei que minha posição é incerta, mas que posso escolher um lado.
Venho evitando isso por medo, pois sei que seja qual for o lado que eu escolher, o outro poderá perder e me arruinar para sempre. E, também sei que meus filhos não terão o mesmo direito à escolha que eu. Só em serem reconhecidos como filhos de Voldemort, suas vidas sempre serão marcadas por isso. É como um rótulo amaldiçoado que terão que levar para a vida toda.
De um lado tenho amigos, inocentes e família, o lado certo a escolher. Mas do outro tenho o homem que detém meu coração, meus filhos que são meu tudo e minha família biológica – que simplesmente não serve para nada terem o mesmo sangue que eu. O lado errado.
Parece uma escolha fácil, logica, mas não é. Minha vida e a de meus filhos será determinada por isso. Não posso errar, não terei uma segunda chance. É tudo ou nada.
Estou entre a cruz e a espada.
[...]
O salão está silencioso, com os presentes encarando o ofidioglota parado à sua frente. Trajando vestes negras e com Nagini ao seu lado, Voldemort encara seus servos com a mandíbula travada. Muito irritado.
Ninguém se atreve a falar, imersos em apreensão.
— Como até agora ninguém descobriu o paradeiro do Potter? – Rosna a pergunta, estreitando seus olhos carmesins – Vocês são estúpidos ou o que?
Todos se mantêm em silêncio, inflamando ainda mais a raiva de Voldemort.
Tom leva os dedos esqueléticos a nuca, dando as costas para seus servos mais devotos. Quase pode escutar o bater frenéticos de seus corações amedrontados, mas isso não lhe causa satisfação alguma no momento, muito imerso em raiva até para saborear seus medos.
— Nós o pegaremos, Milord – A voz de Bella se faz presente, fazendo o ofidioglota se voltar para ela – Potter não desapareceu deste mundo, apenas está rastejando por algum lugar. Mas, tudo que é vivo pode ser rastreado.
— É nisto que eu acredito, Lestrange – Concorda, fazendo-a quase arfar de felicidade – Por isso, eu sugiro que vocês o capturem rápido, para o bem de todos.
Todos entendem a ameaça implícita em suas palavras, por isso, assentem prontamente.
— Nós conseguiremos – Voldemort ouve Nagini falar, enroscando-se em suas pernas – Não se irrite, conseguiremos pegá-lo.
— Eu queria que este problema fosse solucionado antes do baile – Confessa em ofidioglossia – Mas, estes imbecis só me decepcionam.
— Acalme-se, mestre. Tudo ocorrerá bem em seu noivado.
O homem respira fundo, tentando controlar sua frustração.
— É o que eu espero, Nagini — Rebate, vendo vários pares de olhos encarando sua interação com sua serpente – E para o bem deles, é bom que assim seja.
Remexendo-se em sua cadeira, Lucius atrai a atenção de Tom.
— Milord – Sua voz é baixa, rouca – Todos os comensais que farão a guarda da mansão no dia de seu noivado já estão devidamente informados e preparados. Tudo ocorrerá como o planejado.
— Assim espero, Lucius.
O loiro engole em seco, sabendo que qualquer falha nesta noite recairá diretamente sobre seus ombros.
— Estamos ansiosos para conhecer sua noiva, meu senhor – Rodolfo solta, não conseguindo se aguentar.
Bellatrix, que está ao seu lado, trinca a mandíbula, sentindo seu sangue gelar de ódio.
Foda-se, Rodolfo, pensa.
Voldemort estreita os olhos, mas nada diz. Ele dá as costas a todos e sai da sala com Nagini em seu encalço. Assim que a porta é fecha, a tensão se dissipa e todos conseguem respirar novamente.
Avery é o primeiro a quebrar o silêncio que se instala.
— Ninguém aqui sabe a identidade dessa mulher? – Pergunta, encarando os presentes – Vamos lá, alguém aqui precisa ter algum palpite ou saber de algo.
Todos se voltam para ele, interessados pelo assunto.
— Não tenho a menor ideia – Diz Rookwood, girando a varinha entre os dedos – Até anúncio deste baile eu nem ao menos sabia que Milord pretendia se casar.
Rabastan Lestrange analisa seus companheiros com interesse, meditando sobre o assunto em questão.
— Só sei que é alguém que não conhecemos, e pra mim isso basta – Afirma Dolohov – Mas, creio está curioso sobre ela.
Decidindo testa a sanidade de sua cunhada, Rabastan atrai a atenção de Bella para si. Seus olhos achocolatados se chocam com os dela. Eles nunca foram amigos, mas sempre se trataram com cordialidade. Mas, algo que o homem nunca respeitou, é o fato dela está apaixonada por alguém que não é seu irmão.
— Quem você acha que poderia ser a felizarda, Bella? – Pergunta, não escondendo a pitada ácida em sua voz.
Rodolfo lança um olhar de advertência para o irmão, que ignora prontamente.
— Não faço menor ideia, Bastan – Ela usa propositalmente o apelido que ele odeia para lhe alfinetar – Mas, se está tão interessado... Ou melhor, se todos aqui estão tão curiosos, por que não perguntam diretamente ao Lord?
— Guarde suas garras, Bellatrix – Mulciber aconselha, se pronunciando pela primeira vez – Não seja tão extremista.
Ela ri alto, um riso cruel e raivoso.
— Extremista? – A morena passa a língua pelos lábios – Andou brincando com o dicionário, Mulciber? Logo você... O imbecil.
— Não me provoque, sua louca – Grunhe, rangendo os dentes.
— Cuidado, Mulciber – Rodolfo se intromete – Você não gostará de onde suas ofensas te levarão.
— Não preciso que você me defenda, Rodolfo.
— Pelo amor de Merlin, Bella – É tudo que o homem murmura.
Ela balança a cabeça em negação, fria como gelo.
— Por que tudo entre vocês precisa acabar em briga? – É a vez de Avery falar, usando seu tom mais entediado.
— Não seja esnobe, meu caro – Se interpõe Rabastan, achando a cena toda muito engraçada.
— Merlin, vocês parecem crianças – Lucius passa as mãos pelo rosto, sentindo o começo de uma poderosa dor de cabeça.
E assim se seguiu pelo resto do tempo que ficaram juntos na sala, com alfinetadas e provocações. O assunto noivado é esquecido, por hora.
[...] Uma Semana Depois [...]
Entro na cozinha só para encontrá-la vazia. Impecavelmente arrumada, mas deserta.
Que estranho.
Refaço o caminho que fiz até chegar à sala, não encontrando Mirdy lá também. Sigo para a biblioteca, entrando e saindo de corredores. Nada.
— Mirdy? – Me ouço lhe chamar, sabendo que se ela estivesse na mansão, apareceria.
Diferente do previsto, ela não aparece na minha frente.
Será que saiu para buscar Narcisa?
Fora Tom, Mirdy é a única quem tem livre acesso para sair e entrar a hora que quiser na mansão. Morgana também o faz, mas com muito esforço, pois Tom não lhe deu passe livre para entrar aqui.
Volto para a sala e vou até a janela, vasculhando o jardim à procura dela. Nada.
Bom, Morgana deixou com ela minha última poção cicatrizante, então, terei que lhe esperar.
Suspiro.
Caminho para fora da sala até escutar um barulho de aparatação as minhas costas. Viro-me com rapidez, pronta para saudar Narcisa e Mirdy. Quem encontro parada na sala de estar faz meu coração parar.
Ao lado de uma Mirdy de olhos opacos e um semblante atordoado, provavelmente por está sob o efeito da maldição imperius, quem está é Bellatrix Lestrange.
Seus olhos não demoram a me encontrar, mas quando o fazem, as mudanças em sua postura e face são nítidas. Choque, descrença, raiva e... ódio. Sim, muito ódio.
— Hermione?
“O encontro inesperado, as situações inusitadas, o que não foi combinado, mas tinha que acontecer.”
— Rubem Alves
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