Notas iniciais
Enjoy

O mundo gira ao meu redor em câmera lenta, enquanto meu cérebro processa suas palavras.

Estreito meus olhos, incrédula.

— O quê você disse? – Pergunto, minha voz saindo baixa e contida. Mas por dentro eu fervo de cólera.

Era surreal demais o que acabara de sair de sua boca.

O olhar mortífero que ela me dá, me diz que realmente ela levava a sério isso de nunca repetir nada uma segunda vez. Mas ela só poderia estar brincando, não era mesmo? Era algum tipo de plano sórdido do Lord das Trevas?

Ela aproxima seu rosto do meu, nossos narizes quase se tocando.

Mordo meu lábio inferior, irritada.

— Eu não repito duas vezes minhas palavras, filhinha – Sua voz é sinistra.

Ela se afasta de supetão e solta uma estrondosa gargalhada.

— O que é tão engraçado? – Pergunto, confusa.

— Sua cara, ratinha – Diz entre risos.

Franzo a testa, atordoada.

— Esse foi um ótimo reencontro de mãe e filha, você não acha? – Me Pergunta, eufórica.

A mulher a minha frente começa a saltitar pela sala cantarolando, sem ritmo, o que me parecia ser uma canção de ninar. Indignada, observo enquanto ela rodopia ao redor dos móveis, em uma coreografia desajeitada.

Essa mulher é tão louca quanto eu pensava, decreto mentalmente.

Ao piruetar uma vez mais, ela para de repente e encara algo à sua frente. Estando a mesma na frente do objeto de sua análise, não consigo ver o que chamara sua atenção. Então, em um golpe ligeiro, Bellatrix derruba todos os portas retratos que ficavam em cima da mesinha do abajur preferido da minha mãe, levando o mesmo junto. Assim que tudo bate no chão, um baque estrondoso reverbera pelo cômodo.

— Você é louca! – Exclamou, indignada.

Ela vira-se em minha direção. Seu rosto apresentando uma máscara perfeita de descontrole, enquanto seus olhos desfocados me fitavam com asco. Tento dar um passo para trás, mas minhas panturrilhas dão de encontro com a poltrona, impedindo-me de me afastar.

Era como se ela tivesse perdido momentaneamente as faculdades mentais, e então recuperara-se, e voltara a sorrir largamente como se nada tivesse acontecido.

Eu preciso me livrar dela, penso.

— Você não parece acredita em mim – Diz com a voz, propositalmente, arrastada.

— E eu não acredito – Rebato.

Seu sorriso se alarga.

— Eu já esperava por isso – Diz, naturalmente – Contudo, isso não muda o fato de você ser minha filha.

Dou de ombros, friamente. Eu precisava ser lógica para desmentir suas palavras.

— Não sei como isso pode ser possível. Eu tenho provas de que sou filha de Jane e Arthur Granger; fotos da gestação, certidão de nascimento, ultrassonografia...

Ela solta um suspiro de tédio.

— Claro, claro. E você acredita nisso, não é? Até porque nada disso pode ser forjado aqui em seu mundinho asqueroso – Interrompe-me, com descaso.

— Eu realmente não sei se no mundo bruxo pode se fingir uma gravidez, mas aqui? Isso é praticamente impossível. Além do mais, que provas você tem de que sou sua filha? – Tanto ser friamente calculista, mas minha voz sai mais alterada do que eu gostaria.

Ela suspira, como se estivesse entediada.

— Eu nunca disse que a gravidez da sua mãe foi fingida. Ela realmente ficou grávida – Começa, inclinando a cabeça para frente, como se fosse me contar um segredo – A criança morreu após o parto. Era uma menina – Fala, sussurrando baixinho.

Em seguida cai na gargalhada, em um riso histérico.

Minha boca se abre e fecha várias vezes, enquanto procuro lógica no que ela dissera.

— Isso não é...

— Escute-me, criança – Me interrompe, abruptamente – Eu não tenho tempo ou paciência para suas negações – Afirma, balançando as mãos dramaticamente – Contarei como as coisas aconteceram e você ouvirá calada e, então, você buscará por suas provas.

Olho-a sem piscar por segundos.

Tudo bem, eu posso fazer isso. Era só escutar suas mentiras e esquecer. E então fazê-la ir embora, de um jeito ou de outro.

Fico em silêncio, esperando ela começar.

A comensal anda até a lareira, aonde para e encara as fotos que ali ficavam.

— Antes de tudo, Rodolfo Lestrange não é seu pai – Fala, sem me encarar. Prendo a respiração, enquanto escuto meu coração disparar. Ela fora adúltera? – Nunca amei ele, na verdade. Nosso casamento foi pura conveniência. Um acordo selado para perpétua o que mais acreditamos, a pureza do sangue. – Seu olhar estava distante.

Uso sua breve distração para apanhar minha varinha, sou rápida e silenciosa. Segurando-a com a mão atrás do meu corpo. Ela move-se, indo de encontro a janela que ali tinha. Por um instante penso que ela vira meus movimentos.

— Ele sempre fora um fraco, sabia? – Diz, amarga – Nunca pôde me dar um herdeiro por ser estéril – Ela se vira e sorrir pra mim – Mas isso não importa.

Bellatrix muda o peso dos pés e cruza os braços. Ela me parecia tão pacífica, não uma louca psicótica. Mas aparências enganam.

— Em virtude da nossa causa, eu precisei tentar fazer um recrutamento indesejado a mando de Milord. Não era para eu me envolver fisicamente com ele, não estava nos planos. Mas achei que isso daria um incentivo a mais para que ele abraçasse a causa – Seus olhos brilham com malícia. – Não me entenda mal, criança... ou me entenda, fica a seu critério. Mas eu nunca amei seu pai também. Ele me foi apenas uma ferramenta, apenas uma missão falha que teve consequências desastrosas – Sua voz sai com certo rancor.

Encaro-a sem saber o que dizer. Ela tinha tanta convicção no que falava, mas não podia ser verdade.

— Enfim, com o tempo acabou que seu pai não se aliou a nós. Então, o abandonei, encerrando minha missão fracassada e voltando a minha rotina – Ela revira os olhos com algum pensamento que passa em sua cabeça – Após algumas semanas, descobri está grávida. E como Rodolfo não podia ser o pai, só podia ser dele – Bellatrix dá alguns pequenos passos em minha direção, ficando a menos de um metro de mim. Seus olhos estavam sombrios – Eu te odiei desde o primeiro momento que soube da sua existência, criança.

Pisco algumas vezes antes de processar suas palavras cheias de desgosto e raiva.

— Eu realmente pensei em te abortar, — Prossegue, fazendo biquinho, como uma criança manhosa – Mas Narcisa descobriu tudo e me ameaçou, dizendo que se eu atentasse propositalmente contra a vida de um bebê inocente, ela me delataria para Rodolfo e depois para o Lord Voldemort. – Sua voz sai infantil e repleta de indignação. – Eu não me importava com o palerma do Lestrange, mas Milord ficaria decepcionado comigo – A mesma suspira – E eu lutei tanto para me torna seu braço direito... Narcisa sempre foi a Black com o maior instinto maternal. E após Draco nascer, isso triplicou. Minha única solução foi esconder minha gravidez o máximo possível, até que Cissa acertasse todos os detalhes de seu plano; o qual a mesma se recusava a me contar. Injusto, não? – Me pergunta retoricamente.

Ela se afasta sem esperar uma resposta e vai de novo para perto da janela. Fica olhando a rua por alguns segundos, contemplativa. Eram tantas as suas mudanças de humor, que estava sendo difícil acompanhar.

— Antes de seu nascimento, ela convenceu a todos que uma missão de recrutamento na França era essencial para nos fortalecer ainda mais. No dia seguinte a isso, eu e mais cinco comensais fomos enviados para lá. Me afastei deles e fui encontrar Narcisa, que já tinha uma casa arrumada para o seu nascimento – Ela franze a testa – Fora ela quem fizera seu parto. Lembro-me que Draco se encontrava com quase três meses na época, e que por isso, ela o manteve no quarto durante todo o processo. Mesmo ele dormindo o tempo todo, Cissa teve que enfeitiçar o berço para que ele não escutasse nenhum dos meus gritos de dor. E então, após eu parir e desmaiar de exaustão, ela sumira com você – Conclui, dando tanta importância a isso quanto daria ao contemplar um rato morrendo à sua frente.

Fico parada, apertando firmemente minha varinha contra meus dedos, atrás das minhas costas.

— S-sua história é interessante... Mas até agora é só isso, uma história. Não explica nada – Me chuto mentalmente por gaguejar.

Ela parece não ter escutado o que digo, pois não esboça reação.

— Mesmo não querendo ter nada a ver com você, te procurei no mundo bruxo. Queria saber para qual família você tinha sido mandada e se isso oferecia risco a mim. – Fala, pensativa – Mas não havia registro de nenhum casal ou família que tivesse surgido com uma criança na mesma época de seu nascimento. Então presumi o pior... Que você estava no mundo trouxa. – A Lestrange se volta pra mim – Foi difícil, mas convenci Narcisa a me contar onde você estava. E então ela me falou da história desses trouxas nojentos; um jovem casal que queria ter filhos, mas que não estava conseguindo. Até que a mulher engravidou, mas vivia doente, fraca demais para ao menos se mexer – Ela pausa seu relato e então prossegue usando um tom cínico – Cissa me relatou que assim que viu a mulher Granger, percebeu na hora que não tinha condições da criança nascer viva. Narcisa é medibruxa, caso se pergunte como. E em um lapso de generosidade, ela decidiu que você ficaria com eles.

Com o coração a galopes, sinto minhas pernas fraquejarem. Alguns fatos que eu sabia sobre a gravidez que levou ao meu nascimento era que, Jane Granger passou a maior parte do tempo doente, fraca demais para fazer qualquer coisa.

— Então os observou por meses e uma semana antes de mim, ela pariu a bebê morta – Fala, com a voz monótona – Narcisa foi até o hospital vê-los, e usando de sua persuasão e do desespero deles para ter um filho, ela fez a proposta de te dar para eles. Houve relutância, mas quando receberam a notícia de que a mulher não poderia mais gerar filhos no ventre, eles aceitaram. Após me recuperar, eu consegui obter dela o endereço daqui, então vim algumas poucas vezes te ver – Diz, casual – Eu sempre ia embora com a dúvida de que se deveria ou não voltar e te matar ainda bebê.

— Você é monstruosa! – Disparo – Um bebê nunca tem culpa de nada. Se você não a queria, porque nunca cogitou dar para o pai? – Pergunto, confusa.

— Ele nunca soube que teve uma filha. E nunca tive a intenção de dizer, é claro – Confessa.

Ela me da um sorriso largo.

Pisco repetidas vezes, sem saber o que dizer. Meu estômago embrulha e minha mente ferve.

— Você que provas? – Me pergunta de repente.

Pulo de susto, quase deixando minha varinha escapar de meus dedos.

— O quê? – Pergunto, com o coração acelerado.

Ela me fita por alguns segundos.

— Uma vez Narcisa me disse que ao te dar banho, percebeu que na lateral direita de seu quadril, você tinha a marca de nascença Rosier; uma pequena rosa sem caule, ainda desabrochando. Cissa, minha mãe, minha avó e bisavó eram as únicas que já tiveram ela. É uma marca passada apenas para as mulheres Rosier, os homens nunca tiveram – Explica.

Meus olhos se arregalam conforme suas palavras me atingem. Eu tinha essa marca no mesmo lugar que ela falará e, definitivamente, isso era algo que só meus pais e eu deveríamos saber.

Não pode ser... Meus olhos marejam enquanto um nó se forma em minha garganta. Isso não pode está acontecendo comigo.

Ela não se compadece de meu estado transtornado, continua cuspindo suas palavras para mim.

— A manta em que você fora enrolada ao ser trazida pra eles é verde e com o brasão da família Black bordado nela – Relata – Como sua mãe me parece do tipo que guardaria algo assim... Procure a manta! – Manda – E depois, fale com eles, e se preciso vá fundo em suas mentes. Você obterá as respostas certas.

Fico piscando com a boca aberta, enquanto ela olha fundo nos meus olhos, que já estavam turvos pelas lágrimas acumuladas.

E então suspira, decepcionada.

— Você me lembra ele... É sentimental, e isso te torna fraca e patética – Comenta, friamente.

Mordo meu lábio inferior com demasiada força, para não gritar de raiva. Logo sinto um gosto metálica se espalha pela minha boca. Sangue.

— Bom, meu trabalho aqui está feito – Diz, assumindo uma postura altiva. Sem demora, ela deixa a sala a passos rápidos, indo de encontro a saída.

Quase tardiamente, vou atrás dela segurando minha varinha, trêmula. Eu tinha uma pergunta que não podia ficar sem resposta.

— Bellatrix – Chamo-a, com a voz embargada por um choro reprimido.

Ela para ao lado da porta já aberta, virando-se para me encarar. Em seus olhos posso ver o quanto aquela situação a divertia.

Respiro fundo, tentando conter a tsunami de emoções que ameaça me afogar.

— Ele... O seu amante... Sua missão... Aquele que você nunca contou...? Quem... Quem ele era? – Eu não estava conseguindo ser muito coerente, minha mente girando como um redemoinho.

Um lento sorriso zombador se forma em sua boca. Ela saltita para fora da casa, recitando seu bordão macabro: “Eu matei Sírius Black!” Fico mortificada, olhando ela entoa aquela frase como uma cantiga.

Ela para e olha para trás uma última vez, rindo loucamente.

— Sinto muito, filhinha, mas eu matei seu papai. Esse reencontro você não terá. – Ela coloca a mão no coração e faz uma cara triste, mas logo cai na risada.

Paralisada, olho para ela e desejo acordar daquele pesadelo.

Sírius e ela... Meus pais?

Sem dizer mais nada, vejo-a aparatar bem na minha calçada, a vista dos vizinhos. Me deixando destroçada para trás.

Em um súbito rompante de raiva, fecho a porta com toda a força que consigo reunir. As dobradiças tremem com o golpe. Eu queria quebrar alguma coisa, mas antes, eu precisava descobri a verdade completa.

Marcho descalça pela escadaria que levava ao primeiro andar. Entro na suíte dos meus supostos pais adotivos como um tornado, derrubando tudo. As palavras da comensal queimam em minha mente. Jogo minha varinha na cama, precisando das mãos livres.

Vou em direção ao guarda roupas. Derrubo todas as caixas que consigo alcançar com as mãos de lá de cima, abrindo uma por uma e depois jogando-as no chão com seus conteúdos, sem me importar em danificá-las. Aquela estava sendo a primeira vez que eu entrava ali sem eles saberem, e também a primeira vez que eu mexia em suas coisas.

Álbuns antigos, sapatos, cartas, joias, desenhos meus de quando criança, recibos de pagamento, de quase tudo tinha ali naquelas várias caixas de diferentes cores e tamanhos, menos o que eu procurava.

Abro o guarda roupas e começo a abrir espaço no amontoado de peças femininas e masculinas que ali tinha. Procuro vestígios de algo suspeito, mas nada. Olho embaixo de sua cama, mas também não encontro nada. Verifico o criado mudo e todos os recantos do quarto sem sucesso.

Onde poderia estar? Questiono-me. Eles não podiam não serem meus pais, minha vida não podia ser baseada em mentiras. Não podia... internamente eu pirava.

Rumo ao banheiro, sendo o único lugar dali não inspecionado. Ligo a luz, meu reflexo no espelho me saúda mostrando o quão perturbada eu parecia: pálida, desgrenhada, bochechas vermelhas, olhos turvos por lágrimas acumuladas e um lábio inferior machucado. Ignorando minha aparência, começo a vasculhar tudo. Em menos de cinco minutos, percebo que não estava ali também.

Saindo do banheiro, paro na porta, com o quarto escuro e tendo a luz do banheiro clareando diretamente a cama, percebo algo que nunca vi antes. Uma das tábuas do piso que ficava em baixo da cama tinha a coloração diferente das outras, como se fosse de outro tipo de madeira.

Me aproximo da cama, ficando de joelho para analisá-la. Assim que toco, ela se desloca para baixo. Fico estática por alguns segundos, até que, usando minhas duas mãos, cuidadosamente tiro o pedaço de madeira solta. O buraco médio quadrado que havia se formado estava escuro, mas mesmo assim enfio meus dedos ali, tocando algo macio e que rapidamente puxo para mim.

Não preciso levá-la para a luz para distinguir sua cor, ou até mesmo o que estava bordado ali. O brasão da família Black era inconfundível até mesmo no escuro.

Quando a primeira lágrima cai, ali no chão me permito extravasar a dor. Cubro meu rosto com a manta grossa de bebê e grito a plenos pulmões.

"Você é uma boa pessoa, por isso coisas ruins acontecem com você."

— Harry Potter

Notas finais
Gostaram? Comentem, seus comentários são um grande incentivo para mim. Obrigada por lerem. Beijinhos sabor bom reencontro!!