Notas iniciais
Enjoy

Desperto, sentido minha cabeça latejar.

Gemo, baixinho.

Minhas pálpebras parecem pesar toneladas e eu posso sentir meus olhos inchados. Quando olho ao redor para me localizar, percebo que estou em meu quarto, deitada em uma posição torta na cama, desenrolada e ainda usando o vestido de festa azul.

Flashes rápidos do que acontecera na noite passada invadem minha mente, piorando meu estado. Pontadas de dor fazem com que eu tenha que fechar meus olhos por alguns minutos.

“- Você é minha filha, Hermione.”

“- Esse foi um ótimo reencontro de mãe e filha, você não acha?”

“- Sinto muito, filhinha, mas eu matei seu papai. Esse reencontro você não terá. – Ela coloca a mão no coração e faz uma cara triste, mas logo cai na risada.”

Sua voz estridente e risada insana ecoam em minha mente. Bellatrix não era uma mulher a qual eu gostaria de rever. Ela sendo minha mãe ou não, eu não queria contato. Isso era um fato.

Suspiro, minha mente a mil.

Mexo-me sob protestos de meus músculos. Olho ao redor, percebendo que pela claridade que entrava pelas cortinas da janela, deveria ser de dia.

Batidas fracas soam na porta, uma cabeça feminina é posta para dentro.

— Você está acorda, Hermione? – Pergunta a mulher que por dezesseis anos achei ser minha mãe.

A Sra. Granger me criara como se eu fosse sua filha, então isso deveria valer de alguma coisa, não era? Eu ainda não sabia essa resposta. Só sabia que por anos eu havia acredito em mentiras, e de repente a verdade fora jogada na minha cara. Sem dó. Sem misericórdia.

“- Esse foi um ótimo reencontro de mãe e filha, você não acha?”

Não, Bellatrix, não fora. Você é horrível! E graças a Merlin não fui criada por você, sua psicopata louca. Grito mentalmente.

Engulo em seco, tentando conter a cólera.

— Sim, pode entrar – Respondo, minha voz saindo baixa. A dor insuportável martela meu crânio.

Ela entra no quarto e para ao lado da cama. Pela sua postura séria, eu sabia que o assunto também seria. Por alguns segundos sou atingida por um pânico avassalador, ao pensar que ela notara que eu havia entrado em seu quarto e descoberto toda a verdade. Mas aí me acalmo lembrando o quão eficiente fui.

Após me recuperar da crise de choro, eu havia organizado tudo de volta ao seu lugar, arrumando a bagunça para que se tornasse imperceptível a minha entrada ali. Eu precisava organizar a cabeça e entender tudo o que havia acontecido e no que isso implicaria na minha vida. Então ajeitei tudo e vim para meu quarto, aonde após uma nova onda de choro, eu adormeci.

— Querida, você ficou de ligar ontem assim que chegasse em casa, mas não ligou. Fiquei preocupada – Diz, em tom de reprovação.

Ah, era isso!

— Eu esqueci – Falo, levantando-me da cama sob protestos do meu corpo dolorido. Preciso de um banho — Desculpe-me – Minha voz sai mais fria no final do que eu gostaria.

Assim que meus pés tocam o piso, um arrepio de frio me atinge.

— Porque você dormiu vestida? – Pergunta, olhando com desgosto para o vestido amarrotado.

Ponho-me de pé e vou até o guarda roupas, a procura de uma muda de roupas para depois do banho.

— Cheguei muito cansada... Dormi que nem percebi – Respondo, distante.

Ouço-a suspirar.

— Tudo bem! Tire o vestido e o coloque no cesto de roupas sujas, para que depois eu possa lavá-lo – Pede, amavelmente.

Faço um barulho de concordância com a boca e logo escuto a porta sendo trancada.

Respiro fundo, tensa.

Não posso esconder que sei da verdade para sempre, penso ao sair do quarto, segurando minha muda de roupas. Preciso conversar com eles, tirar minhas dúvidas, ter resposta e então entender o porquê... Por que nunca me contaram?

Rumo ao banheiro, pronta para um banho e para tomar algum analgésico para a dor. Queria que com a água, escorresse também meus problemas.

[...]

Parada em pé ao lado da porta da cozinha, eu observo o casal que me criará. Uma estranheza a respeito deles havia se apoderado de mim.

Os dois se movem alegremente pela cozinha, preparando o desjejum. Era absurdo o quão rápido as coisas poderiam mudar. Antes essa cena me encheria de felicidade, por ter pais amorosos, mas agora, aquilo tudo me era indiferente. Um abismo havia se formado entre nós, eles só ainda não estavam cientes disso.

Eu fui apenas a substituta convincente para a filha que eles perderam? Perguntou-me, irritada. Era impossível não pensar que, se ela tivesse nascido com vida, eu não estaria aqui com eles. Eu não seria uma Granger, mesmo que eu apenas fosse no nome. Provavelmente eu estaria com alguma família detestável, ou até mesmo sendo criada pela Bellatrix.

Meu estômago se embrulha ao pensar em ser criada por ela.

Endireito a postura, vendo que meus pensamentos estavam tomando proporções sombrias.

— Vou sair – Falo, de súbito.

Eles param seus afazeres, enfim notando minha presença. Minha mãe de criação franze a testa, enquanto o Sr. Granger sorri ao me ver.

— Bom dia, filha – Saúda ele, sorrindo calorosamente.

— Bom dia! – Não retribuo seu sorriso.

Ouvi-lo me chamar de filha faz meu sangue correr mais rápido. Eu não estava pronta para ter essa conversa com eles, ainda não.

— Aonde você vai? – Pergunta a Sra. Granger.

— Biblioteca – Falo a primeira coisa que me vem a mente, me afastando deles.

Caminho a passos rápidos para fora da casa.

— Não seria melhor você comer algo antes? – Pergunta o homem na cozinha.

— Não estou com fome – Respondo.

Saio da casa sentindo meu coração pesar e lágrimas se acumularem nos cantos dos meus olhos.

[...]

Ando por algumas quadras sem realmente ter um destino. Eu poderia ir à biblioteca, mas estava com a cabeça tão cheia que nem os livros iriam me ajudar. Não hoje. Me sinto sem opções de distração, o que só me faz dar voltas e voltas em minha mente perturbada.

Após uma hora andando sem rumo, acho um lugar para ficar.

Paro em frente a um pequeno parquinho quase deserto, a não ser pelas poucas crianças brincando e suas babás vigiando. A tranquilidade que o lugar emana me faz decidir ficar ali.

Sento em um banco de madeira afastado de todos. Talvez observando a vida alheia eu poderia encontrar a coragem que precisava para aborda esse assunto com meus pais adotivos. Nunca fui medrosa, sempre encarei meus desafios como um degrau que me levaria para minha evolução pessoal. Mas essa conversa não iria me evoluir, iria destruir ainda mais tudo que eu pensei saber sobre quem eu era. Iria mudar a forma como todos me viam.

Como Harry e Rony reagiriam se soubessem da verdade?

Bellatrix havia tirado a vida de Sírius, meu pai e padrinho de Harry. O eleito não podia ouvi falar em seu nome, que se enfurecia. Ele provavelmente ficaria consternado, e eu não o culpava. Ela era monstruosa. Rony provavelmente surtaria, como sempre. Apesar de já ter tido uma queda por ele, algo mudará após o fim do nosso quinto ano. Eu já não nutria sentimentos românticos pelo Weasley há um bom tempo.

— Posso me sentar? – Pergunta uma voz feminina calorosa, me fazendo sair da minha linha de pensamentos.

Encaro a mulher a minha frente, pasma por não ter escutado ela se aproximar. A mesma traja um vestido longo cinza, de mangas compridas e sem decote. Seu cabelo era preto como asas de corvo e sua pele pálida contrastava com seus olhos azuis. Era bonita, muito bonita. E misteriosa de uma forma fascinante.

Faço que sim com a cabeça. Ela senta-se ereta ao meu lado, em uma postura digna de uma rainha. A mesma transpira confiança e elegância. Poder.

Fico ligeiramente desconcertada, me sentindo esquisita em meu jeans claro e minha regata lavanda.

— Você me parece perdida – Comenta, encarando-me.

Seu olhar transmite a mesma confiança que sua postura, e também uma genuína perspicácia.

Franzo a testa.

— Desculpe-me, o que disse?

Ela sorri, lentamente.

— Não é da minha conta, mas você me parece perdida. Talvez queira conversar – Fala, serena.

Fico embasbacada por um tempo, sem saber como responder sem parecer mal educada.

— Eu estou bem, obrigada – Digo, por fim.

Ela continua a me encarar, intensamente. Então olha para as crianças que brincavam no playground.

— São seres fascinantes, você não acha?

— Quem? – Pergunto, confusa.

— As crianças. – Começa – Elas tem um poder de resiliência tão formidável que nós adultos só podemos invejar e admirar, tudo na mesma proporção.

Sorrio, concordando com suas palavras.

— Isso é verdade. É impressionante como elas são puras, livres dos problemas mundanos – Meu olhar varre todo o parquinho, analisando as crianças de diferentes tamanhos.

Ela faz que sim com a cabeça, aprovando minha afirmação.

— Você gostaria de ter uma?

Sua intensidade era quase enervante. Ela parecia ver através de mim.

— Futuramente – Digo, olhando para um ponto distante do parque – Não penso muito sobre filhos, quero aproveitar a vida e atingir meus objetivos profissionais primeiro.

— Você está certa.

Ela toca meu braço e uma rápida e passageira pontada de dor atinge o lado direito do meu quadril, bem onde fica minha marca de nascença. A marca Rosier. Prendo a respiração. O que foi isso? A mulher retira a mão, encarando-me com um pequeno sorriso lateral.

De repente ela levanta-se, graciosamente. Seus olhos haviam escurecido, o azul ficando quase negro.

— Foi um prazer te conhecer pessoalmente, Hermione – Diz, com uma excitação mal contida.

Um arrepio de medo se instala em minha espinha.

Pessoalmente?

— Como... Como você sabe meu nome? – Pergunto surpresa.

Me levanto para encará-la de frente. Ela é mais alta que eu bons 10 centímetros, mas não me deixo intimidar.

Sem dizer uma palavra ela desaparece, simplesmente some. Sem fazer barulho de aparatação ou dizer qualquer coisa. Simplesmente se desmaterialização bem na minha frente.

Olho chocada para o lugar onde a poucos segundos ela estava. Então olho ao redor, em pânico, com medo de alguém ter visto o ato sobrenatural. Mas ninguém estava prestando atenção em nós.

Que tipo de bruxo faz isso? Supondo que ela seja uma, penso.

Por alguns minutos fico plantada no mesmo lugar, tentando entender quem era ela e o que acabara de acontecer. Quando não chego a lugar nenhum, descido que era hora de ir embora.

Seria ela uma seguidora do Lord das Trevas? Uma bruxa da Ordem? Como ela me conhecia? E o que foi aquilo quando ela me tocara?

Repleta de perguntas não solucionadas, caminho de volta para casa, sentindo o sol em seu auge aquecer minha pele. Já deveria passar das 11hrs. Intimamente, agradeço a distração que aquilo estava me proporcionando.

[...]

De volta em casa, almoço com meus pais em silêncio. Eles até tentam puxar assunto, mas permaneço vaga e distraída. Quando lavo a louça, me tranco em meu quarto. Coloco todos os livros que eu tenho no quarto em cima da cama, pego também meus pergaminhos com anotações e me ponho sentada na bagunça.

Busco nos livros e em minhas anotações, informações sobre bruxos que não precisavam de varinha para aparatar, ou algo similar. Minhas pesquisas não me levam a lugar nenhum. Eu não tinha ali os livros específicos sobre esse assunto.

Frustrada ponho a mão na cabeça, sentindo a dor de cabeça voltar. Largo tudo e vou até o banheiro para tomar outro remédio, quando volto ao meu quarto, um barulho de bicadas me faz correr até a janela.

Deixo a coruja da família Weasley entrar, ela voa pelo quarto até bater com tudo na parede e cair no chão. Não me abalo, essa não era a primeira vez que ela fazia isso. A mesma tinha um longo histórico de vôos desastrosos. Presa em sua pata estava uma carta para mim.

Pego-a e leio rapidamente.

Querida Mione,

Como você está? Espero que bem, mocinha. Por favor, venha nos visitar antes de ir para Hogwarts. Gina e Rony estão morrendo de saudades e eu também. Venha passar essas últimas duas semanas de férias com a gente. Você faria uma senhora muito feliz se viesse.

Com amor,

Molly Weasley.

O tom carinhoso de suas palavras me faz querer chorar. Se ela soubesse da verdade, esse carinho prevalecia? Guardo a carta junto das demais que eu tinha, em uma caixa média de madeira polida. O que eu respondo?

A coruja pia, parecendo indignada com algo, então, lembro que eu precisava alimentá-la. Sorrindo perante seu ultraje, retiro da caixa um pequeno porte com alguns grãos próprios para ela. Rapidamente ganho a simpatia dela de novo.

Suspiro, sem saber se deveria ou não responder a carta.

“Não poucas vezes esbarramos com o nosso destino pelos caminhos que escolhemos para fugir dele.”

— Jean de La Fontaine

Notas finais
Gostaram? Comentem, por favor. Comentários me são motivadores. Preciso saber se estão gostando ou não, assim posso melhorar o que não estiverem gostando. Obrigada por lerem. Beijinhos saber dark angel!!