Notas iniciais
Enjoy!

Sinto lábios macios deixando um rastro de beijos carinhosos da minha têmpora até o canto esquerdo dos meus lábios. É delicado, doce e, francamente, excitante. Estremeço, uma parte de mim querendo muito corresponder a essas caricias. Mas, o que mais quero é continuar dormindo. Dou um gemido e me aninho no travesseiro embaixo de mim, tentando ignorar seus lábios.

Uma mão experiente se enrosca em meus cabelos, enrolando mexas em seus dedos hábeis. Inspiro profundamente, apreciando o contato. Sua colônia característica invade meus pulmões, intoxicando-me.

— Hermione, acorde – A voz de Tom chega até mim baixa, suave e rouca.

— Não – Gemo, preguiçosamente.

Ele deposita um beijo estalado em minha bochecha esquerda. Pega de surpresa, prendo a respiração.

— Luna chegará aqui em pouco tempo – Murmura próximo ao meu ouvido, mordiscando o lóbulo em seguida.

Arrepio-me, abrindo meus olhos vagarosamente e recebendo a claridade do quarto com desconforto. Demoro alguns instantes para me acostumar, mas quando o faço, sinto meu coração disparar com sua proximidade e beleza.

Tom está sentado ao lado do meu corpo, quase debruçado sobre mim e sem camisa. Seus cabelos estão bagunçados, do tipo pós-foda e seus lábios ostentam um sorriso sacana. Pecaminosamente atraente.

Mordo meu lábio inferior, vagando meus olhos por seu peitoral. É surpreende como ele não faz exercícios e mesmo assim mantêm uma estrutura física livre de gorduras e flacidez. Não é musculoso, mas tampouco magro. É um meio termo interessante.

— Hum...? – Desnorteada com sua beleza selvagem, não processo suas palavras.

Seu sorriso se alarga.

Cretino.

— Percebo que você acordou um pouco atordoada hoje – Caçoa, se debruçando ainda mais sobre mim – Será por minha causa? – Ele finge pensar sobre o assunto, ficando sério. Porém, não demora muito para abrir um amplo sorriso.

Sinto minhas bochechas esquentarem.

Ele delimita a lateral do meu rosto, da têmpora até o queixo, com o indicador, em uma caricia suave.

Isso não é bom...

— Tom! – Exclamo, não sabendo bem se em reprimenda ou desejo.

Seus olhos tempestuosos me avaliam, capturando minhas emoções com facilidade.

Coloco minhas mãos em seus ombros nus e o empurro, não movendo-o nenhum centímetro. Sua pele morna, firme e macia sob minhas mãos é instigante e desconcertante na mesma proporção. Me faz querer mais, algo que venho tentando evitar a todo custo.

Ele ri de forma despreocupada e se afasta, levantando-se da cama e indo até o berço duplo dos gêmeos.

— Você acordou de bom humor – Observo, sentando-me na cama completamente desperta em todos os lugares possíveis. Lugares que não deveriam estar despertos.

Aperto minhas coxas uma contra a outra.

Isso só pode ser castigo.

Ele pega Alya no colo e lhe aninha nos braços, beijando o topo de sua cabecinha. Internamente, derreto. Seus olhos vão de mim para Damon, sorrindo por algo que não consigo ver.

— Tive uma boa noite ontem – É sua resposta, enquanto estica sua mão para dentro do berço e acaricia nosso filho.

Reviro meus olhos, mas por dentro concordo com o mesmo.

Seus músculos se flexionam em todos os lugares possíveis com seu gesto e isso me faz corar, desejando comprovar a solidez que eles aparentam ter.

Nossa atração sexual é intensa, não importa em que época. Ele é como a chama e eu a mariposa.

Suspiro, tentando clarear meus pensamentos.

Mesmo cercada por Comensais, em nenhum momento fui desrespeitada. Na verdade, após o showzinho de Narcisa, declarando nosso parentesco, a atmosfera do lugar passou de tensa para surpresa e depois levemente amistosa. Foram tantas felicitações que mal consegui gravar os rostos das pessoas que nos cercaram a noite toda. Mas, não sou estúpida! Sei que eles foram cordiais unicamente porque Tom estava presente.

Quando chegamos em casa, pouco depois das três da madrugada, as únicas coisas que consegui fazer foi tomar um banho rápido, beijar Alya e Damon e me jogar na cama, esgotada. Tom logo me acompanhou, deitando-se ao meu lado. Adormecemos quase instantaneamente juntos.

— A atuação de Narcisa ontem foi digna de aplausos – Comento, tentando obter uma reação do mesmo e me afasta dos pensamentos indecentes que minha mente teima em querer fantasiar.

Suas palavras não saíram da minha cabeça desde o momento que ela terminou com seu teatro. E, antes mesmo dela se calar, a compreensão de que aquilo era obra de Tom me abateu. Chateou-me por vários minutos sua falsidade, mas não o suficiente para que eu deixasse transparecer.

Ele dá de ombros, voltando sua atenção para mim.

— Por que pressinto que foi ideia sua aquilo? – Pergunto, mesmo sabendo que minhas suspeitas estão corretas.

Estreito meus olhos, vendo seu semblante não se altera com minhas palavras.

— Seu pressentimento está certo – Revela, vindo até mim e me entregando Alya – Damon ainda dorme, mas ela precisa comer – Explica.

Pego-a, sorrindo com o início de seus resmungos irritados. Aconchego seu corpo em meus braços e desço a alça de minha camisola, colocando-a para mamar sob o olhar de falcão de Tom. Seu pijaminha branco é repleto de morangos pequenos enfeitando-o, sendo alguns mordidos e outros intactos. Um presente peculiar de Morgana.

Acaricio sua cabecinha com a mão, sentindo suas sucções esfomeadas. Checo se sua fralda está suja, mas quando constato que não relaxo.

— Então... – Começo, vendo-o desviar a atenção de nossa bebê para mim – Severo Snape?

Seus olhos ficam sombrios de imediato.

— Não irei discutir meus Comensais com você, Hermione – Fala, rudemente.

Chateada, estalo a língua com força.

— Por que não? – Questiono, não alterando minha voz para não assustar os bebês – Ele é meu antigo professor e...

— A única coisa que você precisa saber é que ele é um aliado – Interrompe-me, nenhum pouco paciente.

Fico calada, encarando-o com irritação. Ele não se abala.

A verdade é que ver Snape ali me incomodou por muitas razões. Se ele é um aliado, o lado de Tom está mais bem preparado do que eu podia imaginar, mas, se ele não fosse...

— Você gostou? – Pergunta ele, me pegando de surpresa.

— Como?

— Da festa – Ele se senta no final da cama, encarando-me com atenção – Você gostou da festa?

Passa a língua por meus lábios, em um gesto nervoso. Ele segue meus movimentos com os olhos nublados de desejo.

Engulo em seco, sentindo meu próprio desejo corresponder ao dele.

— Gos-gostei – Gaguejo.

Ele assente, ainda fixado em meus lábios.

O silêncio impera, me levando a mergulhar nas lembranças da noite passada. Não foi uma noite de todo o ruim, consegui conhecer seus comensais mais leais e os vi se curvarem a mim, a garota que julgavam ser mais suja que seus lixos. E tirando o susto de ver meu antigo professor de poções ali, tudo correu tranquilamente.

Morgana se manteve distante e esguia, mas pude notar os olhares das pessoas sobre ela, principalmente quando a mesma conversou comigo e com Tom após nossa valsa. O salão quase ficou em completo silencio, todos querendo escutar sobre o que falávamos e descobrir quem era a mulher que não parecia se abalar com nada do que o grande Lord Voldemort falava. Foi divertido, mas não tanto quando o rosto de surpresa de meus antigos colegas de classe.

O rosto vermelho escarlate de Draco e o horror nos olhos de Pansy quando eles se aproximaram foi realmente prazeroso de ver, embora ambos tenham conseguido nos felicitar com respeito e sem gaguejar. Em contrapartida, Vicente Crabbe e Gregory Goyle não foram tão formais. Seu gaguejar foi tão intenso que seus pais tiveram que intervir e falar por eles, arrastando-os em seguida para longe. Foi o único momento em que ri abertamente na noite passada.

— Por que o sorriso? – Tom me traz de volta ao presente.

Pisco.

— Eu não percebi que estava sorrindo – Digo, não deixando meu sorriso morrer.

Ele arqueia a sobrancelha direita friamente.

— Eu estava me lembrando... – Meu sorriso se alarga – Foi realmente prazeroso vê-los tão surpresos e desconcertados com a minha presença, principalmente determinadas pessoas.

Um rastro de divertimento aparece em seu rosto, mas ele não sorri.

— Quais pessoas? – Pergunta, inclinando-se para mais perto.

Seu perfume me rodeia, impregnando-se em mim. Sua mão direita vai para o topo da cabeça de Alya, acariciando seus fios negros curtinhos.

— Pansy, com seu estupido ar de superioridade. Blásio, com sua pompa de “minha família é melhor que o sua”. Vicente e Gregory, dois paspalhões extremamente desengonçados – Solto uma breve risada pelo nariz, fazendo um pequeno sorriso aparecer em seus lábios – E, com certeza, Draco – Reviro os olhos.

A mudança em sua postura é imediata. Seu sorriso morre e um pequeno vínculo se forma em sua testa, enquanto seus olhos se estreitam para mim e seu dorso fica ereto. Ele retira a mão da cabeça de Alya e trava a mandíbula.

Atordoada com sua mudança, espero suas próximas palavras com cautela.

— Por que com ele não houve descrição?

Demoro a compreender do que ele fala, mas quando o faço um sorriso de escárnio aparece em meus lábios. Não perco o traço de ciúmes em sua voz e isso mexe comigo.

— Draco Malfoy se alto descreve, Tom. Ele é um completo babaca.

— Então, dá próxima vez fale isso quando estiver descrevendo os defeitos de seus amigos – Rosna, levantando-se da cama.

Ele caminha até o berço de Damon e o pega no colo, não se importando de acordá-lo no processo. Ele solta alguns muxoxos irritados, mas vejo Tom embalá-lo contra o peito nu, fazendo-o se acalmar de imediato.

— Seu ciúme é irracional, Riddle – Digo, afastando Alya do meu peito com cuidado, percebendo que a mesma adormeceu mamando.

Ajeito minha camisola para cobrir meu seio babado. Uma risada fria e anasalada se faz presente. Olho para ele com atenção.

— Ciúmes? – Pergunta com ironia, se aproximando a passos largos – Você acredita que tenho ciúmes do fedelho Malfoy? Não me faça rir, Hermione – Ele para bem ao meu lado, usando sua estatura imponente para enfatizar suas palavras.

Bufo, levemente irritada.

E lá se vai os momentos divertidos entre nós, penso, antes de colocar Alya em meu ombro e lhe fazer golfar.

Ela golfa com rapidez, voltando a adormecer pouco tempo depois. Lhe aconchego em meus braços com carinho e volto a checar se sua fralda estar cheia. Novamente, percebo que não.

— Você não tem motivos para se irritar, então – Digo, me levantando da cama com cuidado para não encostar nele ou deixar Alya cair – O mais próximo que cheguei de Draco foi quando o soquei no rosto, no terceiro ano – Concluo.

Ele deita a cabeça para o lado e um sorriso de canto aparece em seus lábios. Passo por ele com rapidez.

— Você o socou?

Faço que sim, não conseguindo evitar o sorriso. Assim que chego ao meu destino, viro minha cabeça para analisar suas expressões.

Tom balança a cabeça em divertindo e segue meus movimentos, me vendo deitar Alya em seu lado do berço duplo. Cubro-a com sua manta e lhe deposito um beijo na testa.

Um resmungo impaciente me faz desviar minha atenção para Damon, que começa a se remexer nos braços de Tom, procurando com a cabeça uma fonte de alimento.

Vejo Tom me olhar com urgência.

Sorrio.

[...]

Sinto minhas mãos trêmulas e suadas, um claro indicativo do meu nervosismo. E, mesmo com a brisa suave de início de tarde entrando pela janela, não consigo me acalmar. Se já não estivesse sentada, com certeza iria ao chão pela forma gelatinosa das minhas pernas.

Mordo meu lábio inferior com demasiada força, procurando falhas na organização impecável que Mirdy fez na biblioteca após minha bagunça para separar as estantes de livros entre bons e maus, digamos assim.

Que Merlin me ajude!

Limpo o suor de minhas mãos em minha calça jeans desbotada, sentindo falta da armação circular que costumo usar no meu dedo anelar da mão direita.

O anel de noivado que já estou acostumada a usar, agora está alojado no vale entre meus seios, preso por uma corrente fina de ouro e escondido dentro da blusa laranja que estou usando. Não quero que Luna o veja e eu tenha que lhe explicar com quem estou comprometida.

Foi ideia minha marca nosso encontro na mansão, por isso, assim que comuniquei a Tom, e ele não apresentou empecilho, mandei uma carta para Luna. Ela não tardou a me responder e isso me deu esperanças de que nosso encontro poderia ser realmente amigável.

Jarros de flores foram colocados em lugares estratégicos para adornar e perfumar o lugar, assim como uma mesa com quitutes e chá fora posta próxima ao sofá onde estou sentada.

Escolher a mansão como ponto de encontro foi uma decisão calculada, não só pensando em meus bebês, pois não pretendo ficar tanto tempo longe deles quanto na noite passada, mas também visando criar um novo laço de amizade com Luna, inserindo-a até onde a mesma pudesse me aceitar em sua vida.

E mesmo Tom não se encontrando na mansão e, provavelmente, só chegando à noite, não quero correr o risco de que aconteça um encontro entre eles. Por isso, escolhi a biblioteca como o cômodo em que ficaremos. É longe o suficiente de tudo para que eles não se encontrem mesmo se Tom chegar.

A localização da mansão é fortemente protegida, assim como os feitiços indetectáveis que a rodeia. No entanto, pedir para Mirdy aparatar com ela me deu ainda mais segurança de que Luna não descobrirá a exata localização do meu paradeiro, pois elfos domésticos tem uma incrível capacidade de se locomoverem sem serem detectados.

Sua resposta à minha carta foi amável, de um jeito bem típico dela – com alusões a criaturas estranhas e perguntas sobre embaralhamentos mentais acometidos por zonzóbulos. Não me surpreendi por Luna não ter questionado o fato de que eu enviaria uma elfa doméstica para lhe buscar até mim, afinal, a mesma é uma das pessoas mais diferentes que já conheci. E uma das poucas que não me julgará abertamente por minhas decisões. Não que eu planeje contar, de qualquer forma. Esse foi um dos motivos que me compeliram a procurar por ela e não por Gina. Sua natureza é gentil e tranquila.

Quando o barulho de aparatação chega até mim, me ponho em pé de imediato. Sorrio com timidez, enquanto minhas mãos se entrelaçam à frente do meu corpo.

— Luna! – Saúdo-a sem jeito, estranhando sua aparência.

Seu vestido verde oliva marcado na cintura com babados na saia e mangas bufantes não é o que me surpreende, muito menos seu colar de rolhas de cerveja amanteigada ou o grande óculos multicolorido que se assemelha a olhos de coruja. Mas, sim seus cabelos soltos cheios de folhas, botas de couro negras até a canela sujas com barro seco e sua grande bolsa velha e empoleirada que um dia foi preta, mas agora está desbotada e de uma cor indefinida.

Ela pisca por alguns segundos, se acostumando a voltar à terra firme. Mirdy se afasta, ficando um pouco mais atrás, olhando para mim com seus grandes olhos gentis.

— Hermione – Luna me cumprimenta, largando a bolsa no chão.

Dou o primeiro passo em sua direção, meio incerta.

Luna sorri, vindo em minha direção. Nos encontramos na metade do caminho e nos abraçamos. É um gesto atípico de nossa antiga convivência, mas não é estranho. Não completamente. Seus brincos de rabanete fazem cocegas em minha bochecha esquerda, mas não me importo.

Inspiro seu perfume familiar, concentrando-me em não estragar o momento deixando transparecer minhas emoções turbulentas.

— Obrigada por vim – Consigo murmurar, me afastando dela e apontando para o sofá de dois lugares ao lado da janela no cômodo.

Dou um breve aceno para Mirdy, sinalizando que ela pode deixar a sala. Ela não se demora a sumir, deixando-nos a sós.

— Fiquei surpresa com o seu convite – Diz tranquila, sentando-se junto comigo, lado a lado – Não pensei que você pudesse já ter voltado de Salem. Eu li que eles oferecem cursos extracurriculares durante as férias que permitem a permanência dos alunos na escola – Ela desvia sua atenção de mim para o que nos cerca – Pensei que você gostaria de fazê-los... Eu teria gostado. – Termina, encarando as estantes de livros a nossa volta com os olhos vidrados.

E aí está! O início das mentiras... penso, tentando engolir o nó que se forma em minha garganta.

Para todos, eu fui para o Instituto de Salem. Algo que foge completamente da verdade. Nunca me permiti sentir mágoa por terem acreditado com tanta facilidade que eu lhes abandonaria, no entanto, machuca saber que me conhecem tão pouco.

— Preferi voltar... – Minha voz morre.

Não quero propagar ainda mais mentiras, mas sei que não posso contar a verdade. Apenas quero uma tarde tranquila, com conversas amenas e me sentir normal. O mais normal possível em meio a uma guerra. E, quem sabe, saber se sou tão odiada quanto me sinto.

— Sua casa me parece ser linda – Fala, olhando a nossa volta com admiração – Não que eu tenha visto por fora, mas... Uau, sua biblioteca é perfeita. Ampla e recheada. Então, é impossível a casa ser feia.

Meio sem jeito, mordo o parte interna da minha bochecha.

— Bom, a mansão não é...

— É uma mansão? Nossa! – Ela joga os cabelos para o ombro direito com a mão – Imagina a quantidade de animais que se pode criar? Você tem carruagens puxadas por Testrálios? O ministério os considera perigosos e alguns bruxos têm preconceito com sua aparência, mas eles são bem tranquilos quando se sabe como conviver com suas particularidades.

Meio perdida, franzo a testa.

— Testrálios? Hum... Não, não tenho.

Ela assente, não se incomodando com minha falta de conhecimento no assunto.

— Você mora aqui há muito tempo? – Pergunta, me encarando com seus grandes olhos azuis curiosos – Onde estão seus pais?

Duas perguntas normais, mas que transformam meu sangue em gelo de imediato.

Limpo a garganta, colocando uma mexa dos meus cabelos soltos atrás da orelha.

— Vivo aqui há pouco mais de um mês – Respondo, medindo minhas palavras – E meus pais vivem na Austrália agora – E não lembram da minha existência, completo em pensamentos.

Passo a língua por meus lábios, sentindo-os subitamente secos.

— E como seu pai estar? Ele é o editor de O Pasquim, não é? Obrigada por me enviar a revista, a propósito – Mudo o foco da conversa para ela – A coluna sobre o Bufador de Chifre Enrugado foi... Fascinante, apesar de não existe provas que comprovem sua existência.

Ela sorri abertamente, começando a me falar sobre seu pai e suas teorias malucas para esta nova edição da revista, enquanto tenta me convencer da teoria sobre o Bufador, alegando que muitas pessoas já o viram. Seus olhos brilham e sua voz demonstram toda a sua admiração por seu pai, assim como para com seus projetos e crenças.

É realmente inspirador, e apesar de não concorda com nada das coisas que Xenofílio acredita, admiro como ele fez Luna confiar nele o suficiente para apenas acreditar em suas palavras, sem precisar de fatos.

— Como sua mãe lida com todas essas teorias do seu pai? – Pergunto, assim que ela para de falar sobre o chifre de Erumpente que tem em casa.

A mudança em sua aura é imediata. Ela passa de sorridente e animada para sombria e distante.

— Morreu — Diz com simplicidade -, minha mãe. Era uma bruxa extraordinária, entende, mas gostava de fazer experiências e um dos seus feitiços um dia deu errado. Eu tinha nove anos.

— Lamento, Luna. – Murmuro.

— É, foi horrível – Continua, informalmente – Eu me sinto muito triste às vezes. Mas ainda tenho meu pai. De qualquer jeito, ainda vou rever minha mãe um dia, não é?

— Sim, você irá – Concordo, sendo sincera.

Ela desvia a atenção para a mesa de doces, desconfortável.

— Minha tia-avó morreu a pouco tempo – Confidencio, sentindo minha garganta se fechar – Ela era muito importante para mim.

— Meus pêsames – Ela endireita sua coluna, ficando ereta – Perde alguém nunca é fácil.

— Obrigada, e sim! Não é fácil... – Deixo minha voz morrer, não querendo prosseguir com o assunto.

Um silêncio necessário se faz presente, levando-nos ao fundo de nossas mentes. Não sei por quanto tempo ficamos assim, mas após um tempo sinto sua mão tocar meu braço.

— Você está diferente. – Observa, voltando sua atenção para mim – Não só fisicamente, mas tem uma aura confusa em torno de você. É como se zonzóbulos não só tivessem entrado em sua mente e embaralhado seu cérebro, mas também tirado algo de dentro dele. E você não parece tão cética quanto antes.

Pisco, sem compreender direito suas palavras.

— Bem, não sei o que...

— Culpa da viagem, presumo – Interrompe-me, serena – Uma vez viajei com meu pai até a Irlanda em busca de pistas sobre uma infestação de narguilês em uma plantação de visgos de um amigo dele – Fala, acariciando o óculos estranho com suavidade – Fiquei confusa por tanto tempo que mal reconheci um agoureiro em seu ninho perto de uma árvore próxima à nós – Ela balança a cabeça em resignação – Eles se alimentam de fadas. Bom, foi alarmante eu quase não ter notado, afinal, eu amo agoureiros e seus aspectos tristes.

Sorrio de lado, ainda conseguindo me impressionar com sua capacidade de acreditar em coisas fictícias como narguilês. E também, por tudo que passei, criaturas fictícias são os menores dos meus males. Na verdade, são até instigantes, pois fogem da minha realidade caótica.

— Espero que a infestação tenha sido contida.

— Ele perdeu todos os seus visgos, na verdade – Fala, inexpressiva – Mas, ganhou um agoureiro de estimação – Ela sorri, um pequeno sorriso.

Franzo a testa.

— Isso é... Interessante.

Ela meneia a cabeça afirmativamente.

— Você gostaria de um pouco de chá? – Pergunto, instigada pelo rumo estranho da conversa.

Ela aceita, mas volta a analisar o que nos cerca.

Levito com magia não-verbal duas xícaras em pires e o bule de chá até nós, fazendo o bule encher as pequenas estruturas circulares com seu conteúdo. É a mistura de ervas que formam esse chá um dos melhores que já provei. Mirdy é fantástica na cozinha.

Pego o pires com a primeira xícara cheia e lhe entrego, pegando o meu momentos depois.

— Você não compareceu ao casamento de Gui e Fleur – Observa, olhando para mim com tranquilidade – Foi uma cerimônia linda. Gina ficou extremamente chateada, mas soube disfarça bem para mim.

Aperto a estrutura em minhas mãos com força, sentindo o tremores passarem para a porcelana.

— Teria sido melhor se não tivesse acontecido a invasão dos Comensais e o anúncio da morte do ministro da magia – Continua, bebericando seu chá – ''O Ministério caiu, o Ministro da Magia está morto. Eles estão vindo. Eles estão vindo." – Fala, com seus olhos vidrados em mim – Foram essas as palavras de Shacklebolt, através de um patrono, antes do casamento ser invadido.

Arrepio-me, sentindo meu coração disparar.

Desvio o olhar, colocando a xicara intocada no colo e respirando fundo algumas vezes.

— Eu não... Não sabia... – Limpo a garganta, inspirando profundamente – Quem é o ministro agora?

— Pio Thicknesse.

Engulo minha saliva com dificuldade.

O que as pessoas pensariam ao saber que o causador de tudo isso flertou comigo poucas horas atrás? Que eu durmo com ele todas as noites... Que temos dois filhos!

— Eu sinto muito. – Murmuro, encarando o conteúdo da minha xicara, sentindo meus olhos lacrimejarem.

— Você não tem do que se desculpar – Ouço-a dizer, mantendo seu tom neutro – Não foi você quem invadiu a cerimônia. Sem contar que, duvido muito que alguém pudesse impedir isso de acontecer. A cabeça do Harry está a prêmio.

Não consigo dizer nada, meu estômago se revirando de ansiedade. Tenho vontade de vomitar, chorar e sumir, tudo isso ao mesmo tempo.

Me levanto, largando a xícara de chá de qualquer jeito no braço do sofá com meu coração à galopes. Vou até a mesa com os doces e começo a encher o primeiro prato que vejo com quitutes de diferentes tamanhos e sabores, tentando esconder meus olhos marejados e minha expressão desolada da mesma.

— Vo-você quer co-mer algo? – Gaguejo, mas não me importo com isso.

Olho para ela quando estou com minhas emoções controladas.

— Na verdade, sim – Aceita com humildade – Passei várias horas procurando a árvore dos Tronquilios que estão comendo os ovos das fadas que residem perto da minha casa – Explica, apontando para os cabelos e para as botas.

Aceno em entendimento e tento sorrir, mas falho.

Suas palavras se enterram fundo dentro do meu cérebro, ecoando por minha mente.

— Acredito que você gostará – Comento, lhe entregando o prato recheado de guloseimas e ficando parada à sua frente – Mirdy, a elfa, é uma excelente cozinheira.

Ela prova o muffin de banana com aveia, soltando vários gemidos de apreciação.

Desta vez, consigo sorrir.

— Isso é maravilhoso, Hermione – Elogia, entre mordidas.

— Sim, é sim.

Meus olhos se enchem de lágrimas novamente, desta vez de uma súbita alegria. Quando a primeira escorre, limpo-a com rapidez, não querendo estragar o primeiro momento verdadeiramente normal que tive em meses com meu sentimentalismo.

— Não se culpe por não está lá – Sua voz chega até mim, me pegando de surpresa – Escolhas são como peças de roupas, algumas pessoas escolhem apenas o que à sociedade acha certo, outras apenas as que lhes valorizam. Poucas escolhem as que amam. Mas, o importante é ser feliz. E todos nós podemos ir além das nossas roupas.

Pisco por entre as lágrimas acumuladas.

— Obrigada, Luna.

Ela me analisa por alguns segundos, parecendo enxergar todos os meus segredos. Me sinto como uma ferida aberta sob seu olhar, exposta e sangrando.

Não controlei os eventos que me aconteceram no passado, mas posso escolher como lidar com eles agora, certo?

— Hermione, – Ela me tira de minhas divagações, colocando sua xicara quase vazia no outro braço do sofá – Posso te pedir algo?

Arregalo um pouco os olhos e inclino minha cabeça para a esquerda, intrigada.

— É claro. – Concordo, sem nem ao menos saber do que se trata.

Apenas quero agradá-la, manter uma amiga que seja da minha idade e que possamos conversar sobre amenidades ou coisas estranhas. Luna é uma das melhores pessoas que já conheci.

— Posso conhecer seu bebê?

Cambaleio para trás, batendo com tudo na mesa de doces. Meus olhos se arregalam e sinto minhas mãos voltarem a tremer.

— Co-como assi-assim? – Prendo a respiração, alarmada.

Como ela sabe?

— Bem, não quero te desconcertar – Afirma, colocando o prato quase vazio ao lado de seu corpo no sofá – Mas, é meio impossível não perceber. E, eu amo bebês!

— Luna, não sei...

Ela balança a mão, pedindo silêncio.

— Se você não se sentir confortável, tudo bem – Profere, nem um pouco abalada – Mas, seus seios aumentaram muito desde a última vez que nos vimos.

Coro violentamente, me contendo para não olhar os meus peitos.

Minha blusa de tecido grosso é tão justa assim? Pergunto-me, consternada.

— Eu posso ter usando algum feitiço de expansão – É estupido, mas é uma explicação igualmente logica.

Não conheço feitiços estéticos fora os de roupa e maquiagem, mas presumo que deve existir algum para aumentar tais coisas nas mulheres.

Ela balança a cabeça, entendendo minha lógica.

— Foi minha primeira conclusão – Confidencia, tranquilamente – Mas, um fator decisivo mudou minha opinião e me fez chegar nessa conclusão.

Cruzo o braço abaixo dos seios, ciente que isso só os faria parecerem maiores.

— Não sei que fator foi esse, mas você está equivocada.

Ela me olha por debaixo dos seus cílios claros, um olhar astuto.

— Você está vazando, Hermione.

Arregalo os olhos, me voltando com rapidez para meus seios.

O que encontro é o tecido grosso da blusa de mangas compridas que estou usando manchado por umidade bem onde o bico dos meus seios ficam. Por não está usando sutiã, devido a sensibilidade dos meus seios, graças as horas que passei ontem enfiada em um corpete apertado, o líquido que vaza dos meus mamilos passou para o tecido e o umedeceu.

— A não ser que você esteja com alguma doença, seus seios estão vazando por excesso de leite materno – Escuto Luna declarar divertidamente.

Fecho os olhos, suspirando longamente.

Quando os abro, encontro ela me encarando com um amplo sorriso no rosto e as mãos unidas em cima do colo, parecendo realmente animada.

— Posso conhecer seu bebê? É menino ou menina? Amo muito bebês – Ela mal se contém de animação.

Relaxo, sendo contagiada por sua aura brilhante.

— São gêmeos, um casal – Cubro meus seios com os braços, escondendo as manchas – E sim, eu amaria que você os conhecesse – Sorrio.

Ela vibra em alegria.

Não posso esconder o óbvio quando meus seios decidem me trair, constato com diversão.

[...]

Me jogo no colchão, sorrindo bobamente.

Foi melhor do que pensei que pudesse ser, digo-me. Obrigada, seios!

Rio.

Meu encontro com Luna durou a tarde toda, com ela agarrada aos meus bebês como se fossem seus. Uma cena de encher os olhos de felicidade. Senti-me o tempo toda conectada a ela.

Sem sombra de dúvidas, nossos laços se fortaleceram após essa tarde de interação.

Meu maior medo agora é saber se nossa amizade pode ser forte o suficiente para ela não me odiar por todos os meus segredos. E mesmo que não tenhamos falado muito sobre tópicos sombrios, isso não significa que esqueci suas palavras e o quanto está guerra está destrutiva. Ela me deu um breve resumo de tudo, inclusive, sobre a morte de Edwiges, os 6 Potter’s e o primeiro beijo entre Harry e Gina, não entrando em detalhes. Tive vontade de chorar em vários momentos, mas me controlei.

Deslizo até está sentada na lateral da cama, com meus pés no chão e de frente para o berço dos bebês, que dormem tranquilamente. Olho o espaço a minha volta.

Estou protegida, assim como meus filhos estão. Mas... Por quanto tempo? Minha prioridade agora deve ser eles. Sempre eles.

Suspiro, capturando de relance o brilho das pedras preciosas em meu dedo.

— Você fez falta. – Murmuro.

Acaricio o anel, saudosa.

O coloquei de volta em meu dedo assim que Luna se foi, 10min atrás. Não acredito que Tom gostaria de me ver sem ele mais. E uma parte de mim sabe que não quero ficar sem ele, só estou medrosa demais para admitir isso.

São muitas coisas para processar, mas a felicidade de nosso encontro ter transcorrido bem e eu não precisar esconder meus filhos dela me acalma. É uma sensação leve e feliz saber que tenho alguém como ela em minha vida.

— Você me parece feliz – Ouço Tom falar, pegando-me de surpresa por sua aparição repentina.

Olho para a região de onde a voz dele vem, encontrando-o encostado no batente da porta de braços cruzados.

— Teve uma boa tarde?

Balanço a cabeça afirmativamente.

— Luna é adorável – Digo, não conseguindo conter o pequeno sorriso que se forma em meus lábios – Eu realmente me diverti.

Ele não diz nada, mas seu rosto está relaxado.

— Ela conheceu nossos filhos – Revelo, pegando-o de surpresa.

Tom ergue uma das sobrancelhas, estreitando os olhos.

— Por quê? – Existe um tom de advertência em sua voz.

Como se não bastasse ser comigo, ele também é possessivo e ciumento em relação ao nossos filhos. O que, querendo ou não, não me surpreende. É um forte traço da sua natureza dominadora.

— Porque meus seios enormes foram um forte indicativo para que ela desconfiasse – Digo, fazendo pouco caso – E, quando eles vazaram, foi a cereja do bolo que faltava para ela concretizar suas suspeitas.

Ele se desgruda do batente e vem até mim como um felino pronto para abater sua presa. Arrepio-me da cabeça aos pés.

— Seus seios vazaram? – Pergunta, parando bem à minha frente e descendo o olhar até meus seios cobertos pela nova blusa que vesti após descobrir o vazamento.

Por estar sentada e ser 15cm menor que ele, minha estatura atinge em torno de seu estômago e peitoral.

Aceno, tendo que erguer a cabeça para fixar minha atenção em seu rosto e não em sua virilha a centímetros de distância de mim. A protuberância que espreita pelo zíper de sua calça é difícil de não olhar, mas faço o meu melhor.

Engulo em seco, sentindo meu corpo corresponder ao seu por nossa proximidade. Inclino-me para trás, usando minhas mãos para me manter arqueada na cama.

— Por que cenas como essas só acontecem quando não estou por perto? – Pergunta-se em voz alta, com seu timbre rouco e com sua atenção fixa no decote em V da minha blusa.

Balanço a cabeça em negativa, não sabendo o que dizer.

Ele inclina seu corpo para junto do meu, metendo seu joelho entre minhas pernas, me fazendo ter que separar elas em um gesto instintivo.

Pega de surpresa e não entendo o que se passa, deixo meu corpo cair na cama, deitando-me por completo enquanto ele se aproxima de mim sorrateiramente. Fico com minhas pernas pendendo para fora e o resto do corpo deitado, encarcerada por sua estrutura óssea e o colchão macio.

Um sorriso malicioso desponta de seus lábios.

Ele agarra meu queixo com a mão esquerda, pairando sobre mim. Seus olhos demonstra toda a malícia que sua boca ainda não falou.

— A cada dia que passa, fica ainda mais difícil de me controlar, Hermione – Murmura, com os olhos injetados de desejo, encarando minha boca. Prendo minha respiração – Por isso, tenha cuidado com o que fala para mim. Eu posso acabar dando vasão aos meus desejos e te foder até nossas mentes vivarem mel.

Meu coração para.

— Eu...

Ele choca sua boca contra a minha.

Fecho os olhos de imediato, recebendo seus lábios como descargas elétricas que partem da união de nossas bocas e se espalham por meu corpo. Tudo desaparece da minha mente, restando apenas ele e eu.

Beijando, estamos nos beijando!

Gemo, e ele usa dessa brecha entre nossos lábios para invadir minha boca com sua língua ávida. Nossas línguas se enroscam, produzindo calor na fenda entre minhas pernas. Não tenho forças para lhe repelir, por isso, me entrego de bom grado ao nosso beijo. O primeiro em vários meses para mim e o primeiro em várias décadas para ele.

Isso está acontecendo mesmo ou é um delírio produzido por meu próprio desejo?

“A vantagem do amor sobre a libertinagem é a multiplicação dos prazeres.”

— Montesquie

Notas finais
Obrigada Alissa por revisar o capítulo ❤️ Eu iria postar o capítulo no começo dessa semana, mas minhas aulas voltaram e isso embaralhou tudo. Sinto muito! Bom, espero que tenham gostado, fiz com muito carinho e dedicação. Obrigada por chegarem até aqui... Dúvidas? Perguntas? Criticas? Estou a disposição para responder tudo. Beijinhos sabor malícia!!