Fico contente de sair do castelo depois da última aula da tarde. A chuva do dia anterior parara; o céu está claro, cinza pálido e a grama parece elástica e úmida sob os meus pés enquanto rumo para próximo do Lago Negro, guardando meu casaco dentro da minha bolsa.

Desvio de algumas árvores em meu trajeto, buscando nosso lugar de descanso.

Quieto e afastado, do jeito que meu namorado gosta, reviro meus olhos com meus pensamentos.

Sento-me ao lado de Tom, embaixo de uma árvore de tronco grosso e curvado, centenária.

Deixo minha bolsa de lado, pegando apenas meu livro de Runas Antigas dela. Sigo seu exemplo, apoiando-me no tronco da árvore e esticando minhas pernas, deixando-as tocarem nas suas.

Ele sorri para mim, beijando minha testa em seguida e logo volta sua atenção para suas anotações.

— Então, você não gosta de Halloween – Comento após vários minutos em silêncio, deitando minha cabeça em seu ombro, deixando meu livro de Runas Antigas de lado sem conseguir me concentrar na leitura.

Arregaço as mangas da minha camisa social branca, esperando sua resposta enquanto pondero suas últimas palavras sobre este assunto.

“Sentada no colo de Tom, encaro o crepitar da lareira, apreciando o silêncio do salão comunal vazio.

Fecho meus olhos e aconchego-me ainda mais nele, sentindo o calor do seu corpo aquecer o meu. Seus braços serpenteiam minha cintura, agarrando-me em um abraço firme.

Seus lábios encontram meu pescoço e ali planta diversos selinhos. Arrepio-me.

Abraxas, Lena e Dorea irrompem pela passagem do salão, sendo seguidos por um Pollux chateado que vinha mais atrás.

Tom desgruda os lábios da minha pele, soltando um suspiro de frustração.

Ao nos ver, as meninas sorriem vindo em nossa direção, já os garotos empertigam-se. Provavelmente, por saberem o quanto isso chateia Tom.

— Ai! Eu ainda não posso acreditar que você não irá nos mostrar sua fantasia, Herms – Lena fala, fingindo chateação – Isso é tipo, quase uma traição – Suas mãos voam para sua cintura fina, enquanto balança a cabeça em reprovação.

Sorrio.

— Você precisa superar isso – Digo, só para irritá-la.

Abraxas se joga na poltrona a nossa direita, enquanto Pollux se senta ao lado de Dorea em um sofá de dois lugares mais ao longe. Lena permanece em pé.

Ela faz biquinho, cruzando os braços para enfatizar sua chateação.

Dou de ombros, tentando não ri da mesma.

Pelo canto dos olhos vejo Dorea morde o lábio inferior para não ri também. A mesma sabia qual seria minha fantasia e a de Tom, já que tinha partido dela as ideias. Manter Lena no escuro não era nossa intenção, mas chatear a mesma era um caminho vicioso. No entanto, eu lhe contaria mais tarde.

— Não sei por que toda essa comoção, o baile será como qualquer outro – Tom dispara, atraindo a atenção de todos – O Halloween para os trouxas é só uma desculpa para colocarem máscaras e esconderem sua verdadeira podridão – Conclui friamente.

Pollux prontamente concorda, já Abraxas apenas acena com a cabeça em concordância. Lena e Dorea ficam em silencio, encarando-me sem saber o que dizer.

Suspiro.

— Bem, eu acho que todos merecem a chance de escolher entre gostosuras ou travessuras – Falo para ele, dando de ombros novamente, sendo seguida por seus olhos afiados.

Tom inclina a cabeça para trás e fecha os olhos, ignorando todos a sua volta. Seus braços em volta de mim me apertam, deixando-me saber que não estou incluída nisso, e que ele quer se manter consciente da minha presença ali.

O silencio a nossa volta impera por alguns minutos, até que Dorea muda de assunto falando sobre o quão difícil o trabalho de Feitiços está sendo para ela. Todos engatam no assunto, falando sobre suas respectivas duplas. Tom e eu permanecemos em silêncio, perdidos em pensamentos.”

A brisa refrescante de fim de tarde bate em meu rosto, me fazendo sorrir enquanto observo as águas calmas do Lago Negro serem perturbadas por uma mariposa sedenta que pousa na água para saciar sua sede.

— Não – Diz, folheando seu caderno de anotações, compenetrado – É apenas um feriado trouxa estúpido. Não tem o menor significado para mim – Acrescenta, com falsa indiferença.

Seu humor não está dos melhores. Suspeito que o motivo é o baile de Halloween que acontecerá amanhã.

Reviro meus olhos.

— Não é um dos meus feriados favoritos – Digo, beliscando o interior da minha mão esquerda – Mas, reconheço sua magia e o que trazer esse feriado para cá tenta unificar – Desgrudo minha cabeça de seu ombro, encarando-o.

Vejo-o travar a mandíbula, olhando para seu material com frieza.

— Não comece, Hermione – Diz, irritado.

Ele retira de dentro de sua bolsa uma pena e um tinteiro, rabiscando furiosamente palavras no caderno.

— Eu só não entendo – Disparo, cautelosa – Seu ódio por eles... Eu só não consigo entender. Existem trouxas bons, você não pode só ter encontrado às maças podres.

— De novo com isso? – Seu rosto assume uma expressão assustadoramente neutra, mas ele não me olha – Pensei que nossa última discussão tivesse sanado esse assunto.

Flashs de nossa última discussão me vem à mente.

“Ele se aproxima ainda mais de mim, dessa vez sorrindo.

— Sangue-ruins não recém compartilhar da nossa magia. Não merecem estar entre nós. Eles são a escória, Hermione – Indaga para mim, enquanto os seus dedos traçam um caminho sedutor do meu ombro até minha mão, aonde entrelaça nossos dedos. O calor de sua mão em contraste com a minha gélida me faz arrepiar.”

Sua manipulação física não me passou despercebida. Tom sabe o poder que exerce sobre mim, e isso me assusta, porque nem eu consigo mensurá-lo. E ele não tem medo de usá-lo ao seu favor.

“Ele se aproxima de mim, volta a pegar meu rosto em suas mãos e prende meus olhos aos seus.

— Você é tudo pra mim – Fala pausadamente, dando ênfase em cada palavra.

— Tom...

Ele me beija, arrancando o pouco de sanidade que ainda me resta.”

Sua declaração ainda queima em meus ouvidos, retumbando em mil intensidades diferentes, principalmente à noite, quando me deixo envolver por nossos momentos para buscar uma esperança fugaz de que tudo terminará bem. Para todos.

Encaro o mesmo com atenção, me deixando ser capturada por seus olhos intensos.

Emburrá-lo até a borda não é uma atitude inteligente, mas considerando que só assim para obter alguma reação do mesmo em relação aos nascidos trouxas, é minha única alternativa. Tom nunca se dispõe a falar comigo voluntariamente sobre esse assunto. É como se fosse o tabu do nosso relacionamento.

— Onde você quer chegar com tudo isso? – Pergunta, olhando-me com desconfiança.

— Você nunca... – Paro, ponderando se realmente vale apena iniciar um assunto que sei que não irá nos levar há lugar nenhum.

— Continue – Ordena, virando-se totalmente para mim.

Entrelaço meus dedos nos seus, em busca de contato.

— Você nunca encontrou alguém que te fizesse desejar não odiar os nascidos trouxas? – Questionando, meus olhos não o abandonando em nenhum momento.

A surpresa em seus olhos é verdadeira. Saboreio o momento, sabendo que é raro um momento assim.

— Não – Diz, curto e grosso, afastando sua mão da minha.

Ele da de ombros, encarando o lago a nossa frente.

Murcho.

O que você esperava? Que ele disse que você o fez questionar suas convicções? Não seja boba, Hermione, meu subconsciente me repreende.

— Não custava nada pergunta – Sussurro baixinho para mim mesma.

Um barulho de descontentamento escapa de sua garganta. Olho para o mesmo, vendo seu perfil se destaca em beleza e simetria.

— Espero que este assunto tenha acabo aqui – Diz, voltando-se para mim.

Seus olhos demonstram tudo o que sua boca não fala.

Dou de ombros, encerrando o assunto. Por enquanto.

— Você está tenso – Comento, mudando minha posição na grama, ficando sentada sobre minhas pernas, de joelhos.

Passo minha mão direita sobre a superfície verde e viscosa, tentando afastar meus pensamentos do baile que sucederá os planos dele. Planos que não descobri, que ninguém comenta e que não a resquícios de sua existência. Se eu mesma não tivesse escutado ele falar sobre eles, diria que não existiam.

Até uma busca em seus pertences pessoais eu fiz está manhã, e nada fora encontrado. Fora seu diário em branco, provavelmente enfeitiçado para tal e alguns livros da Seção Restrita, nada fora do comum.

E não orgulhosamente assumo, que invadi a mente de alguns dos seus comensais, Pollux e Evan, por breves segundos usando a Legilimência. Mas nenhum deles me deu resposta alguma. Ou sequer percebeu, o que agradeço a Merlin.

— É apenas o estresse das responsabilidades que tenho – Diz, enigmático.

Capturo sua aura sombria com os olhos, vendo como sua postura mudou sutilmente.

— Se você precisar de ajuda... – Paro, vendo um sorriso de escárnio surgi em seus lábios.

— Não acho que você iria querer me ajudar no tenho que fazer – Me corta, friamente.

Seus olhos buscam os meus, sou arrastada para uma tempestade conflitante.

O que você quer de mim, Tom?

Alarmes soam em minha mente.

— Você só terá certeza se me falar do que se trata – Rebato, inclinando-me em sua direção.

Ele nega, encarando-me com atenção.

— Tom...

— Não importa.

— Pra mim importa sim – Digo, soando quase histérica.

— Por que?

Porque se tiver uma parte de você, por menor que seja, que queira desistir, que queira ser normal, eu preciso saber. Preciso de esperanças, Tom.

— Porque você é meu namorado, e eu me importo com você – Digo por fim, olhando para seu belo rosto.

— O quanto você se importa comigo? – Pergunta, com um brilho diferente no olhar.

Pisco, um pouco aturdida.

— É difícil expressar, não inventaram uma unidade de medida suficiente ainda – Digo sorrindo, sendo verdadeira mas sem responder sua pergunta diretamente. Não da forma que eu gostaria.

Falar em voz alta o quão profundo ele chegou em mim, não só fisicamente, mas também emocionalmente, abriria brechas que eu nunca mais conseguiria fechar. Palavras tem poder. E mesmo sabendo o quão errado é estarmos juntos, se tornou existencialmente doloroso demais não ter ele por perto. Comigo.

Isso é tão errado, mas ao mesmo tempo tão certo.

Minha resposta por mais evasiva que fosse, o agradou. Seu sorriso de menino me fez sorrir também. Sua mão direita voa até meu rosto, acariciando minha bochecha com as pontas dos dedos.

Suspiro.

— Você é incrivelmente irritante e amável, sabia? – Pergunta, ainda sorrindo – Nunca pensei que apreciaria essas características em alguém... Até você aparecer – Ele segura meu rosto com as duas mãos, olhando-me diretamente nos olhos – Tão minha! – Sussurra, aproximando seu rosto do meu.

Tremo, afetada por sua intensidade.

— Desde que nasci, eu senti que nunca encontraria alguém que estivesse à altura de desbravar a eternidade comigo, e eu estava bem com isso. Todos sempre foram tão lentos, atrasados – Hipnotizada por seus olhos, apenas sinto seus lábios escovarem os meus e uma corrente elétrica atravessar minha espinha – Mas então, te conheci. Tão petulante, inteligente e destemida – Sua palavras produzem fogo em minhas veias – No momento em que te beijei, eu senti. Tudo o que eu não sabia que queria tinha me encontrado. Eu só preciso te manter comigo.

— Tom! – Suspiro seu nome, quase em reverência.

— Eu amo a forma como você me olha quando estou dentro de você – Diz, arrancando-me mais tremores – E eu mataria para te manter comigo para sempre.

Sua declaração é amenizada pelo meu cérebro quando seus lábios se chocam contra os meus, produzindo quentura e umidade em mim. Tom me puxa para seus braços, abraçando-me com força. Me aconchego ali, retribuindo aos seus beijos e desejando congelar o tempo.

[...]

Girando o vira-tempo entre os dedos, Morgana encara o retrato vazio a sua frente, esperando seu dono se deslocar entre as conexões abertas por ela.

Sair do castelo e atravessar as brechas entre seu reino e o mundo bruxo era um processo demorado, ainda mais para um fantasma. Por isso, preferia trazer Hermione enquanto ela estava inconsciente, era mais fácil. Mas seu amigo tinha determinação e força o suficiente para conseguir chegar até ela sem nenhum problema.

Quando Salazar Slytherin aparece em seu campo de visão, a bruxa logo percebe que há algo errado. Sua testa esta franzida, marcada por desconfiança.

— Algum problema? – Pergunta, levantando-se de sua poltrona e indo até o mesmo.

— Dumbledore veio até mim – Diz, carrancudo.

— E o que o velho queria?

— Saber se ainda mantenho contato com você.

— Ah, é? E o que você falou?

Ele dá de ombros, irritado.

— Que desde que morri, séculos atrás, perdemos total contato – Fala, sorrindo com desdém – Ele suspeita que tenho algo a ver com a vinda da garota para cá, que estamos em contato ainda.

— Ele falou isso?

— Não, mas pude ler nas entrelinhas.

Ela revira os olhos, desdenhosa.

Morgana caminha até o criado mudo ao lado da poltrona onde antes estava sentada, abre a gaveta de madeira e retira de lá uma foto antiga, bruxa.

Na imagem, Merope Gaunt está com seus oito meses de gestação, sentada na varanda da mesma casa que Lefay habita, esperando o pôr do sol acabar enquanto acariciava sua barriga.

— Eu prometi a Merope em seu último suspiro que não deixaria Tom ter uma vida miserável como a dela foi – Diz, recordando-se de sua promessa, feita quando a bruxa estava quase morrendo – E prometi a você que ajudaria um dos seus descendentes a triunfar sobre os nascidos trouxas – Seus olhos se voltam para o feiticeiro no quadro – Eu mantenho minhas promessas, Salazar. E nem mesmo a desconfiança de um bruxo como Alvo Dumbledore me parará.

Ele sorri, sabendo que nunca poderia ter feito aliada melhor que Morgana Lefay.

— Deixe-o desconfiar, fazer suposições e especulações – Diz, colocando a foto de volta na gaveta – O fim está próximo, e logo Hermione Black terá que escolher um lado.

Seus olhos migram para a lareira a sua frente, vendo o fogo vermelho ficar azul.

— E será o nosso.

[...]

Engulo um suspiro de apreciação, sentindo seus dedos afundarem em meus cabelos enquanto me aconchego ainda mais em seu peito, tentando estabilizar minha respiração.

Deixo meus dedos passearem por seu estômago nu, escutando seu coração martelar sob meus ouvidos. O calor pegajoso de sua pele contra a minha após transarmos me acalma, assim como nosso cheiro pós-coito impregnado no ar. Nossa respiração se estabiliza com o tempo.

— Iremos abrir amanhã o baile de Halloween com uma valsa – Fala, quebrando o silêncio – É um dos deveres de ser monitor-chefe.

Solto um gemido em concordância, sonolenta.

— O gato comeu sua língua, Granger – Provoca, migrando seus dedos para acariciar minhas costas nuas – Não gosto quando não me responde eloquentemente.

— Uhum!

Seu peito vibra com sua risada curta. Sorrio, completamente desperta de meu sono.

— Você é jovem para ser monitor-chefe – Falo, levantando minha mente para encará-lo – Eu li que, normalmente, só a partir do sétimo ano isso acontece, e você ainda está no sexto – Completo, lembrando-me disso.

— Slughorn – Diz, à guia de explicação.

— Como assim?

Seus dedos param de se mover, ele sorri de lado.

— No final do ano passado, Horácio me procurou e perguntou se eu estava interessado em ser monitor-chefe da Sonserina, e como não declinei de sua oferta, ele me falou que conversaria com o diretor. – Seus dedos voltam a se mover por minhas costas, dessa vem em círculos e, como consequência, causam-me arrepios – Ele convenceu o diretor Dippet de que não existia ninguém mais capacitado para essa tarefa do que eu. E ninguém se opôs quando Armando aceitou. Slughorn me enviou uma carta antes do ano letivo começar com felicitações logo após Armando aceitar. Então, aqui estou eu... Sou ótimo em comandar, e desde que assumi o posto, raríssimos foram os pontos que a Sonserina perdeu – Diz, sem modesta alguma.

Solto uma breve risada.

— Seu jeito intimidante não tem nada a ver com isso, posso garantir – Digo, sarcástica.

Ele revira os olhos para mim, ainda sorrindo de lado.

— Slughorn parece gosta muito de você – Comento, acariciando a penugem negra de seu peito – Eu percebo como ele fala sobre você para as outras pessoas.

Seus olhos se reviram nas orbes.

— Ele gosta de qualquer um que tenha um cérebro e saiba usá-lo – Diz, desdenhoso – Slughorn é movido a conexões, e quanto mais o aluno possa obter prestigio com elas e sua mente, maior é seu interesse por ele ou ela. E é apenas isso.

— Quanto a isso tenho que concorda – Digo, sabendo que o mesmo está certo – Mas, eu ainda acho que ele tem um carinho especial por você.

— Se você diz... – Seus olhos demonstram toda a sua descrença.

Beijo sua garganta, vendo-o estremecer.

— Não brinque comigo, miss Granger.

— E por que não?

Ele não me responde, apenas gira seu corpo com rapidez para ficar por cima de mim. Grito, pega de surpresa.

— Tom!

Seus lábios encontram meus ombros enquanto ele se acomoda entre minhas pernas. Seu pênis saciado começa a enrijecer de desejo novamente.

Gemo quando sua língua encontra meu pescoço e ele começa a me chupar com força ali.

— Você me pertence – Diz, elevando-se sobre mim, seus olhos flamejando de luxúria.

— Sim – Arquejo, com seu quadril empurrando-se em mim.

Agarro seus ombros, enlaçando sua cintura com as pernas.

— Boa menina – Sussurra, beijando-me com força.

Suspiro em sua boca.

Deitada embaixo do mesmo consigo me desligar, entregando-me aos seus cuidados. Deixo minhas preocupações longe da minha mente. É apenas nós, dois jovens, dois corpos, uma cama.

[...]

Lena termina de por a última flor encantada em meu penteado, dez minutos antes do horário marcado para me encontrar com Tom.

Sorrio, encantada com o resultado.

— Você será o centro das atenções – Fala, sem maldade nenhuma.

— Espero que não – Digo, retirando meu robe para colocar meu vestido – Não gosto de ser o centro das atenções.

Ela ri, afastando os cachos que se desprendem de seu coque bagunçado da testa.

— Você também está deslumbrante, Lena – Digo, usando minha varinha para me vestir, não querendo estragar o penteado que Lena fez, e nem a maquiagem que Dorea trabalho em mim.

Ela sorri, alisando o vestido longo de seda branca, de um ombro só. Sua cabeça estava adornada por uma tiara de ouro, simbolizando como seria a coroa da deusa grega Afrodite, sua inspiração para este Halloween.

Quando sinto vestido se ajustar ao meu corpo, sei que o feitiço que usei para me vestir deu certo.

Suspiro com minha imagem refletida no espelho.

— Você ainda tem dúvidas de que terá todos os olhos voltados para ti?- Pergunta, aparecendo ao meu lado.

— Obrigada, Lena – Sussurro, ainda aturdida.

— Me deixe orgulhosa está noite, Primavera – Diz, sorrindo genuinamente.

Quando em uma determinada noite Dorea comentou que Tom e eu parecíamos como o inverno e a primavera, eu ri, achando sua alusão engraçada. Mas aquilo ficou na minha cabeça por horas a fio. E parando para analisar, faz sentido.

O inverno antecede a primavera, e é a época mais fria do ano, já a primavera é a época das flores desabrocharem, ganharem vida. Eu me sinto como uma flor desabrochando para infinitas possibilidades. Nem todas boas, mas infinitas. E Tom, com sua personalidade fria e impessoal, com certeza remete ao inverno. Um não progride sem o outro.

— Vamos, se não nos atrasaremos – Lena me traz de volta a realidade.

Sigo a mesma para fora do quarto, alisando o tecido rosado e macio. As flores que adornam meu corpete tomara que caia e um pouca da lateral do vestido foram encantadas para desabrocharem intercaladamente, fazendo-as parecerem vivas. Já as flores que compõem meu penteado, emitem um cheiro floral delicado, para lembrar a vastidão de opções das flores do campo.

Chegando ao salão comunal da nossa casa, as conversas cessam. Todos se voltam para nós, ou melhor, para mim. Tento não tropeçar na barra do vestido enquanto me digiro até Tom.

Cercado por seus comensais, ele se destaca ao meus olhos em beleza, graça e altivez. Seu terno branco com detalhes em azul marinho o tornam ainda mais elegante do que normalmente ele é. Mas são os flocos de neve enfeitiçados para não derreterem em seus cabelos e roupa que o destaca ainda mais dos outros.

Sorrindo para mim como se eu fosse a única pessoa da sala, ele oferece-me seu braço. Os demais fazem o mesmo, enlaçando-se com seus pares.

Agarrando-me ao mesmo, caminhamos para fora das masmorras.

— Você está absolutamente deslumbrante – Diz próximo ao meu ouvido, quando nos distanciamos dos demais.

— Obrigada, Tom – Agradeço, sorrindo – Você esta de tirar o fôlego – Aproximo minha boca do seu ouvido – Devo me preocupar?

— Oh, com certeza! – Diz, em tom provocador – Serei o objeto de cobiça de todas jovens esta noite.

Reviro meus olhos, fazendo-o bufar.

Rio.

— Então, ainda bem que você é meu. Eu poderia ficar com ciúmes se não fosse.

Ele inclina a cabeça para o lado e me dá um sorriso sacana.

— Em minha defesa, você será a mulher mais desejada desse baile. E como tal, terei muito trabalho em manter meu ciúmes controlado.

— Você sobreviverá a essa provação, tenho certeza disso.

Ele ri, balançando a cabeça em concordância.

[...]

A valsa transcorre de forma lenta e sincronizada, com todos os monitores chefes e seus pares, incluindo Tom e eu, dançando por três minutos inteiros.

Sorrindo e fazendo comentários maliciosos, tudo a nossa volta desaparece. Sendo só ele e eu, presos em nossa bolha. Fingimos não notar todos os olhares que são lançados em nossa direção, apenas nos concentrando um no outro.

Quando a música para, Armando Dippet e Dumbledore sobem ao palco, prontos para discursar.

Tom me arrasta para onde seus companheiros e as meninas estão, mal filtrando as palavras que são ditas pelo diretor.

Anelise está radiante ao lado de um Abraxas sorridente. A mesma está fantasiada de ninfa do bosque, sendo seu vestido em tons terrosos brilhantes e alguns pontos verdes que simbolizam árvores. O smoking de Abraxas é verde escuro, com alguns detalhes em marrom, para combinar com ela.

Pollux está ao lado de Matilda Wrong, uma sonserina nada simpática que nunca conversei, mas já ouvi muito falar do seu desafeto por nascidos trouxas. Ela trajava um vestido verde esmeralda, que combinava perfeitamente com seus olhos verde-oliva, e ele trajava um smoking preto. Nada de fantasias para os dois mal humorados.

— Onde Dorea está? – Pergunto a Anelise e Lena, baixinho.

As duas se entreolham, parecendo só perceber agora o sumiço da Black.

— Não sei – Diz Anelise, varrendo o salão com o olhar – Não a vi desde que a valsa começou.

Lena afirma com a cabeça.

Nathaniel que estava ao seu lado, inclina-se para ela, perguntando algo em seu ouvido.

— Algo errado? – Tom me pergunta, trazendo sua boca para meu ouvido.

Estremeço quando o mesmo puxa o lóbulo da minha orelha com os dentes.

— Não. – Gemo.

Ele sorri, travesso.

Fecho a cara, sabendo que o mesmo estava apenas me provocando. Ele engata uma conversa sussurrada com Abraxas, que apenas assentia sem parar. Tento escutar o que é falado, mas Anelise desvia minha atenção, apertando minha mão com força.

Antes que eu possa perguntar a ela o que tentava me dizer com seus os olhos arregalados, a mesma apenas aponta na direção oposta de onde estávamos. Sigo suas instruções e olho para onde ela designou.

Minha boca vai ao chão ao ver Dorea e Charlus seguindo para o centro do salão, dispostos a dançar a música que se iniciava.

Pelo cantos dos meus olhos, vejo o exato momento em que Pollux percebe a cena a nossa frente. Seu corpo trava, enquanto seus olhos ficam sombrios de uma forma que nunca vi.

Ele dá um passos para frente, disposto a ir até eles.

— Não ouse fazer isso, Pollux – Me ouço dizer, atraindo a atenção de Tom para nós.

O Black me encara, repleto de descrença e raiva.

— Não se meta na minha família, Granger – Meu sobrenome trouxa deixa sua boca com asco.

Não me intimido com isso, mas Tom se empertiga ao meu lado.

— Cuidado, Pollux! – Ouço-o advertir friamente, fazendo o mesmo recuar em sua raiva.

— Ela tem o direito de se apaixonar por quem quiser – Prossigo, não me alterando – Você não manda em seu coração.

Tom agarra minha mão, olho para ele.

— Não interfira – Diz próximo ao meu ouvido – Isso não é problema seu, Hermione. Dorea tem que arca com suas escolhas, e é melhor que elas venham pelas mãos de seu irmão.

— Não, isso é errado – Digo.

Ele me adverte silenciosamente com os olhos. Não me abalo, voltando-me para Pollux.

Seus olhos negros se reviram, enquanto ele passa a mão pelo cabelo, despenteando-o. Ele queria me mandar calar a boca, ou coisa pior, mas por Tom está ali, o mesmo se contem.

— Você foi criada por trouxas, então não entende o que aquilo – Ele aponta para os dois, que dançavam em sincronia, sorrindo um para o outro – Pode fazer com uma família como a minha.

— Família é mais que sangue e tradições – Falo, tentando não deixar transparecer o quanto o assunto me abalava.

— Não para nós – Devolve, afastando-se com Matilda em seu encalço.

Suspiro, sabendo que por hora, Dorea não precisaria enfrentar as consequências de ter assumido publicamente seu relacionamento com Charlus.

[...]

Tom e eu ficamos à maior parte do tempo juntos, dançando ou conversando com os demais. Em nenhum momento penso em me afastar, sabendo que a qualquer momento ele tentaria pôr em pratica seu plano. E que eu precisava está atenta para impedi-lo.

Eu só não sei como farei isso ainda, já que nem o plano em si conheço, penso amarga.

As meninas desaparecem com seus pares, indo dançar enquanto nós dois ficamos para aproveitar o ponche sem álcool e a companhia um do outro.

— Mal posso esperar para tirar este vestido de você – Diz, malicioso.

Sorrio, docemente.

— Você só precisa dizer a hora e o lugar, e estarei lá.

Ele ri.

— Oh, sim! Com certeza estará.

Ele me puxa para um abraço apertado, retribuo seu abraço colocando minhas mãos por dentro de seu smoking, deixando uma das flores do meu vestido presa ali.

Ficamos nos braços um do outro por vários minutos, apenas escutando a música agitada a nossa volta ser substituída uma após a outra.

Quando Tom é convocado pelo professor Slughorn para ajudá-lo com um problema técnico nos bastidores do evento, não vejo nada de estranho nisso. Até que se passam meia hora e o mesmo não volta.

Procurando ao meu redor alguém que pudesse me indicar seu paradeiro, percebo que nenhum de seus comensais estão a vista, e que as meninas estão na mesa de doces trouxas.

Me aproximo delas com o coração acelerado.

— Onde estão os garotos? – Pergunto, tentando não transparecer o meu pânico.

— Saíram faz quase vinte minutos – Lena fala, pegando uma fatia de torta – Foram ajudar Slughorn com algum besteira que um garoto da Lufa-Lufa veio informar que deu errado. Não prestei muita atenção.

— Não te chamamos porque pensamos que Tom estava contigo e que vocês queriam privacidade – Anelise completa, enfiando um caramelo açucarado na boca.

Um mal estar se apodera de mim, enquanto abandono as meninas sem me despedir. Ouço elas me chamarem, mas não paro, seguindo para fora do salão quase correndo.

Corro pelos corredores do castelo sentindo meu corpo dormente.

Não, não, não.

Retiro minha varinha das vestes, segurando na minha mão direita a flor gêmea da que escondi na roupa de Tom.

— Inveniet – Murmuro o feitiço, vendo a flor brilhar e começar a levitar a minha frente, disparando logo em seguida para longe.

Corro em seu encalço, saindo do castelo e sendo recebida pelo ar frio da noite. Não me surpreendo ou vacilo quando a flor me leva para dentro da Floresta Proibida.

[...]

O aperto em minha garganta cresce à medida que me aproximo das vozes eufóricas, com minha pulsação ecoando em meus ouvidos. Pela distância, não consigo distinguir o que é falado, mas pelos grunhidos e ruídos distorcidos, sei que não é nada bom.

A flor enfeitiçada volta para minha mão quando a pego do ar. Murmurando o feitiço que encera sua tarefa, eu a vejo se despedaça. Deixo a mesma cair no chão, seguindo meu trajeto sem auxilio agora.

O vento gélido arranha minhas bochechas, mas é a escuridão a minha volta que me faz tremer. E mesmo tendo enfeitiçado meus pés para não emitirem ruídos, caminho hesitante. O farfalha do meu vestido arrastando pela grama e folhagem é o único som que me persegue no breu da noite.

A má iluminação que surge à minha frente vem de um feitiço lumos que não consigo distinguir quem o lança. Mas é tão fraca sua luz que mal se pode ver o que, supostamente, é pra ser iluminado.

Aperto minha varinha entre os dedos, ignorando o arrepio que sobe pela minha espinha. Meus instintos gritam para que eu ilumine meu caminho e fuja. No entanto, resisto para não ser descoberta.

Não pense, se mova! Não pense, se mova! Ordeno-me, mentalmente, sentindo minhas pernas perderem a resistência à medida que chego ao meu destino.

Mais um arrepio indesejado atravessa minha espinha, gelando meu sangue.

O ar frio do outono chicoteia minha pele violentamente, mas os arrepios em meu corpo eu sei que são consequência do medo que se apodera de mim. Medo do que encontrarei no final da trilha escura.

Engulo o carroço em minha garganta, soltando o ar em seguida pela boca.

Quando as vozes distorcidas se transformam em súplicas chorosas, estagno no lugar. Paralisada de horror.

Por favor, não! Me ouço implorar, entorna uma prece baixinho em minha mente, desesperada. Meus pés percorrem o resto do caminho de modo automático. Não isso, por favor! Oh, Merlin!

— Já chega, Black – A voz fria e cortante de Tom atravessa meu sangue como gelo. Instantaneamente, as súplicas cessam, deixando para trás suspiros aliviados e gemidos dolorosos.

Paro, atingindo meu destino.

Encoberta por sombras, deslizo meus pés até está protegida atrás de uma frondosa árvore de tronco grosso e copa espessa. Agarro-me a madeira oca em busca de estabilidade.

Pollux abaixa sua varinha, um sorriso diabólico estampado em seu rosto, e se afasta de suas presas.

Aperto minha varinha com mais força entre meus dedos, sabendo que os mesmos deveriam estar brancos pela pressão que faço. Raiva flui pelo meu corpo em forma de eletricidade, com descargas curtas e dolorosas. No entanto, é o gosto amargo da decepção que predomina em minha boca.

— Agora é sua vez, Lestrange – Ele fala, afastando-se dos feridos.

Não, por favor, Tom! Não!

Em puro horror, encaro o meio círculo composto por Comensais da Morte trajados com longos mantos pretos e chapéus pontudos. Tom se destaca entre os demais, não usando chapéu, e concentrando todos a sua volta, sendo o único a falar.

Aos seus pés estão oito jovens ajoelhados, ensanguentados e chorosos, completamente aterrorizados. Mesmo a alguns metros de distância e com pouca iluminação consigo ver, brilhando como água cristalina, as lágrimas que descem de suas bochechas vermelhas.

Meu coração se parte, trazendo consigo náuseas de repulsa.

Um dos feridos engue-se sobre os demais, para estampo meu e irritação dos demais. Encoberto por sombras e pela distância, não o reconheço de imediato, mas sei que é um homem. Todos ali são.

— Qua-quando ela descobri-ir, – Sua voz chega até meus ouvidos rouca e sofrida, fazendo-me cambalear para trás em pura descrença, reconhecendo de imediato o seu dono – Você a perderá, Riddle – Diz, mal se aguentando em pé e tropeçando nas palavras – Hermione merece alguém melhor, melhor que o lixo imundo que você é.

Com o coração disparado, minha garganta se aperta em um nó doloroso. Não sinto as lágrimas escorrerem por meus olhos, apenas minha visão turvando por elas.

— Septimus! – Seu nome deixa meus lábios em um sussurro choroso.

Tom para Lestrange com um aceno de mãos, que se aproximava de Septimus pronto para torturá-lo.

— Ele é meu. – Decreta para os demais, que sorriem diabolicamente.

Tom se aproxima do ruivo, fazendo os outros prisioneiros rastejarem para longe.

— Você é o único sangue-puro entre minhas cobaias, sabia? – Pergunta, calmamente.

Septimus rosna, tentando se lança sobre Tom, mas é rapidamente impedido pelo mesmo, que lhe lança um Alarte Ascendere, fazendo Septimus ser lançado ao ar e cair em um estrondo.

Cubro minha boca para não gritar.

— Normalmente, eu ignoro a existência de traidores do sangue desde que não entrem em meu caminho – Fala, caminhando em volta do mesmo com altivez – Mas você, você se meteu no meu caminho pela ultima vez, Weasley.

Ergo minha varinha em sincronia com a sua, e assim que ele profere a maldição imperdoável da dor, disparo meu feitiço.

— Crucio!

— Expelliarmus!

"Não sei o que mais dói: a dor quando se perde alguém querido ou quando se perde alguém que continua vivo."

— Agatha Sthefanini