Desire Obsolete
34 Ficar
Assim que deixamos a biblioteca minha barriga ronca, arrancando risadas de Dorea. Faço uma careta.
— Alguém aqui está com fome – Provoca, enquanto usa suas mãos para fazer um coque bagunçado em suas madeixas castanhas, com seus lábios entoando fora do tom uma canção suave sobre amor.
Sorrio, encarando a mesma com atenção.
— O janta já deve está sendo servido – Fala, concluindo sua tarefa e deixando suas mãos descansarem ao lado do corpo.
— Sim, e todos já devem estar lá – Digo sorrateiramente, vendo a mesma pisca por alguns instantes e então corar.
— Si-sim, claro – Concorda, desviando o olhar para o corredor vazio a nossa frente.
Seus olhos brilhantes, bom humor e felicidade nesses últimos dias são mais do que suficientes para me indicar a causa exata dessa mudança. Mas se não bastasse isso, seus sumiços repentinos me davam a certeza do porquê do brilho em seus olhos.
— E como você e Tom estão? – Pergunta, claramente tentando inverter nossos papéis – Vocês tem passado muito tempo juntos... a noite – Sua voz sai sussurrada, deixando suas segundas intenções subintendidas no ar.
Imagens luxuriosas sobre nossas noites juntos passam em minha mente, coro violentamente.
— Bom, nós... Nós só... Eeh! – Me enrolo nas palavras, não sabendo o que responder.
A mesma explode em risos, dobrando-se um pouco para frente. Acompanho-a, meio tímida no começo, mas depois gargalhando com ela.
— Aí estão vocês!
Paramos de ri, nos deparando com um Charles ofegante e despenteado, segurando na mão esquerda uma cesta de tamanho médio.
Sorrio com simpatia para o mesmo, prevendo o desenrolar da conversa em minha mente.
As bochechas de Dorea assumem um tom escarlate quase tão forte quando o dele, enquanto o brilho sonhador em seus olhos se intensifica e suas mãos voam até seus fios achocolatados, tentando arrumar o que já estava arrumado.
— Olá, Charles! — Cumprimento-o – Algum problema?
— Oi! – Exclama Dorea, tímida.
Seus olhos se fixam na Black, sua boca formando um sorriso maroto, encantado com o que via.
— Ãh? Problema? Não, não – Ele balança a cabeça, agarrando a cesta de piquenique com mais força – Eu só... Bem, eu só... Vocês já comeram? – Pergunta para nós duas, mas é claro que ele só me incluindo por pura educação.
Negamos.
— Que tal um piquenique noturno? – Ele levanta a cesta no ar, não desgrudando sua atenção dela em nenhum momento desde que chegou.
— E-eu não sei... Já estávamos indo para o salão principal – Diz ela, acanhada.
— Eu acho uma ideia fantástica – Concordo, fazendo os dois me encararem surpresos – Mas eu não posso lhes acompanhar hoje. Marquei de me encontrar com Tom – Charles faz uma breve careta ao ouvir o nome de meu namorado, mas logo trata de esconder seu descontentamento – Então, por que não vão sem mim? Está uma noite incrível pra olhar as estrelas.
Ele concorda, balançando a cabeça freneticamente, rindo, enquanto Dorea sorri agradecida para mim.
Os dois partem após uma breve despedida nossa. Fico para trás, encarando os dois se afastarem. Me abraço, sentindo meu peito se encher de calor.
A imagem de Harry e Gina me vem a mente, deixando-me desconfortável por alguns instantes.
Solto um suspiro, voltando ao meu percurso.
Empurrar minha outra vida para o fundo da minha mente é o que têm me mantido sã aqui. No começo é estranho deixar os meninos fora dos meus pensamentos, mas agora é tão fácil que me assusta.
Deixo meus pés me guiarem pelos corredores desertos, mergulhando em pensamentos.
A dúvida mais frequente que vem me abatendo desde que me entreguei a Tom, há três dias atrás, é se devo ou não perguntar a Morgana se posso permanecer aqui, e no que isso implicaria para o futuro que conheço.
Cada dia que passo aqui é um dia a mais que me insiro na vida dele, e consequente, mudo o futuro de alguma forma. Mas, minha permanência definitiva alteraria o futuro o suficiente a ponto de torná-lo melhor?
Este é o questionamento crucial que venho me fazendo há algum tempo.
Espero que com minha ida ao vilarejo amanhã, Lefay possa me ajudar. Ou pelo menos, não me enlouquecer ainda mais.
Paro ao ouvir vozes sussurradas escapando pela frecha da porta levemente aberta à minha esquerda.
Olho ao meu redor, a má iluminação do corredor dificulta a minha visão, mas constato que estou sozinha e completamente fora do percurso para o salão principal.
As vozes sussurradas continuam e, movida pela curiosidade, me aproximo com cautela. Mas tão logo quanto escuto os sussurros eles cessam, e o silêncio reina.
Estranho.
A porta é escancarada com brusquidão, me fazendo pular para trás e empunhar a varinha. Em contrapartida, meu oponente já estava com sua varinha em mãos e apontando-a para mim.
O reconhecimento demora a vim de ambas as partes devido a má iluminação do local, mas quando nos identificamos, Abraxas pisca freneticamente para mim, guardando a varinha.
— Ah, é você! – Exclama, surpreso.
Abaixo minha varinha, sentindo meu coração bater descontrolado em meu peito.
— Quem é? – Ouço a voz de Pollux perguntar, sendo seguido por outras vozes questionadoras e familiares.
— Saia da frente para que possamos vê nosso convidado inesperado, Abraxas – Tom ordena, friamente.
Os pelos do meu corpo se erriçam.
— Convidada – O loiro corrige, dando passagem para que eu entre. Permaneço imóvel.
Apoiado em uma mesa ao fundo da sala está Tom, centralizando o ambiente e tendo seus companheiros a sua volta. Altivo e impessoal, frio. A atenção de todos estava em mim.
— Hermione? – Desgrudando-se da mesa ele assume uma postura mais receptiva – O que você está fazendo aí parada? Vamos, entre!
Engolindo em seco, adentro a sala, caminhando a passos cautelosos até o mesmo.
— Oi! – Consigo sussurrar quando chego até ele, sentindo minha boca secar.
— Algum problema? – Pergunta, estudando meu rosto com seriedade.
Desvio meus olhos para os outros, que fingiam não prestar atenção em nós.
— Eu só... Eu estava te procurando – Minto, voltando-me para ele – Você não estava no salão principal, então, pensei que pudesse ter acontecido algo – Suas sobrancelhas se unem, não sei se por duvidar de mim ou se por não ter entendido o que quis dizer.
— Duvido muito que haja algo em Hogwarts que possa me fazer mal – Fala esnobe, com uma superioridade enervante na voz.
— É, eu também! – Concordo baixinho, tensa.
Nos encaramos por alguns segundos que mais pareceram horas. Ele aparentando tranquilidade, mas a intensidade de seu olhar me diz que a minha aparição o aborreceu.
— Vamos jantar – Ele quebra o silêncio, desviando sua atenção de mim para seus capachos – Nossa reunião estar encerrada – Declara, lançando-lhes um olhar sombrio – O resto dos detalhes para o baile de Halloween decidiremos outra hora – Conclui, dispensando eles com um aceno de cabeça.
Assim que todos deixam a sala e a porta é fechada, Tom envolve minha cintura com os braços e me beija com força e urgência. Fecho meus olhos, entregando-me ao beijo, mesmo sabendo que era isso que ele queria; tirar meu foco, mexer com a minha cabeça, me deixar entregue.
Agarro seus ombros com as mãos, tentando não ser consumida pelo meu próprio desejo urgente.
Cessamos o beijo por falta de ar, mas não nos afastamos.
— Dorme comigo está noite de novo – Pede suavemente, acariciando minha bochecha com os dedos.
— De novo? Assim eu terei que me mudar para o seu quarto – Brinco.
— Eu não reclamaria disso – Devolve, para em seguida selar nossos lábios em um selinho demorado.
O mesmo se afasta, mordendo seu lábio inferior.
— Estou ficando faminto – Diz, com seus olhos dilatados de desejo.
Coro, sentindo minha pulsação aumentar.
— Acho melhor irmos jantar – Afirmo, mudando de assunto, tentando acalmar meu corpo.
Seu sorriso lateral surge.
— Se é o que você quer... – O mesmo lambe o lábio inferior e me estende a mão, seguro-a, hipnotizada por seu gesto malicioso.
Saímos da sala de mãos dadas.
Sua nova postura estava mais relaxada e calorosa, diferente da frieza e indiferença do começo. Mas, mesmo tão receptivo e das nossas trocas de carícias, o entendimento do que estava acontecendo me abateu como um soco no estômago.
As conversas sussurras que cessavam quando eu me aproximava eram o prelúdio do que, por puro esquecimento, eu não havia descoberto.
Fecho meus olhos com força, sentindo meu estômago se revirar.
— Você está bem? – Ouço sua voz melodiosa me perguntar.
— Sim. – Respondo, abrindo meus olhos e encarando ele.
Seu rosto angelical esconde uma mente perigosa, e por mais que eu deseje que tudo seja normal entre nós, as coisas nunca saem como o esperado.
— Eu estou bem – Me ouço falar, sorrindo para ele.
Um sorriso verdadeiro. Apaixonado.
[...]
Escondo minhas mãos trêmulas nos bolsos do meu casaco, vendo a paisagem seca de outono passa diante dos meus olhos.
Outubro estava apenas a uma semana de seu fim, juntando isso a reunião suspeita que presenciei, percebo que não descobri o que Tom e seus comensais planejam para depois do baile.
Os acontecimentos seguintes após eu ouvir sobre seus planos de testes e alvos consumiram totalmente minha sanidade, expulsando esse tema da minha mente. E só agora, a poucos dias do evento, é que me recordo disso. Algo tão significativo, mas que fugira completamente da minha mente.
Meu estômago se embrulha de ansiedade.
Burburinhos animados me rodeiam, mas chegam até mim como zumbidos ininteligíveis, sem eu realmente me focar em nada.
Uma carícia leve e despretensiosa em meu ombro me trás de volta a realidade.
Olho para meu namorado, cautelosa.
— Tudo bem? – Tom pergunta, visivelmente intrigado.
— Sim – Sussurro, forçando um sorriso sem graça.
— Você parece tensa – Comenta, estudando meu rosto.
Engulo o nó que se forma em minha garganta. É tão fácil esquecer, esquecer quem somos fora da nossa bolha.
— Nervosa, apenas isso – Tento sorri.
Suas sobrancelhas grossas se unem em confusão.
— Como assim?
Pisco, recordando-me que eu não havia comentado com ele que iria encontrar Morgana em Hogsmeade.
Tendo os últimos dias transcorrido como um verdadeiro sonho, com minhas noites sendo regadas a encontros furtivos e meus dias cheios de conversas maliciosas. Tudo que não dizia respeito a nossa bolha de felicidade fora completamente apagado da minha mente. Bom, até ontem pelo menos.
— Ah, desculpe – Sinto minha bochechas esquentarem de vergonha – Esqueci de falar que vou encontrar minha madrinha hoje em Hogsmeade.
Seu rosto fica subitamente inexpressivo. O ar ao nosso redor gela, carregado de tensão.
— Por quê não me falou isso antes? – Pergunta, friamente.
Suspiro, encolhendo-me.
— Eu esqueci – Confesso, retraindo meus dedos dos pés, tímida – Pensei que Pollux havia comentado com você que eu iria, então...
— Pollux? – Seus olhos voam de mim para o sonserino na outra extremidade da carruagem, conversando baixinho com Nebolus – Do que você está falando? – Sua voz atinge um novo nível de frieza, evidenciando toda a sua raiva — Explique-se! – Ordena, asperamente.
Ele volta-se para mim, prendendo minha atenção em seus olhos nublados de ciúmes. A atmosfera ao nosso redor fica ainda mais sombria, silenciando os demais. Todos se voltam para nós, pressentindo que algo está errado.
Engulo o bile que se forma em minha garganta, entendendo que minha conversa tensa com Pollux na biblioteca não fora informada para Tom.
— Ele apenas me falou que seu pai gostaria de me conhecer hoje, e eu respondi que não poderia vê-lo porque marquei de encontrar Meredith – Começo, baixinho – Então, muitas coisas aconteceram; a carta em meu quarto, Amanda se esgueirando a sua volta, minha preocupação com Anelise e nossa primeira vez juntos... – Tomo fôlego – Tudo isso foi muito para digerir. Acabei esquecendo de te contar. Desculpe-me, Tom – Suavizo minha voz no final, transparecendo o máximo de sinceridade que consigo.
Seus olhos tremulam de descontentamento, mas seu maxilar relaxa um pouco. No entanto, o fogo que arde em seus olhos não extingui.
Seguro sua mão, tentando lhe passar tranquilidade.
Ele suspira e lança um olhar gélido para Pollux, que desvia o olhar e franze a testa, confuso.
Subitamente a carruagem para, indicando nossa chegada ao vilarejo. Sinto meu coração afundar no peito de nervosismo.
— Chegamos. – Dorea fala animada, saindo da carruagem antes mesmo dela parar completamente.
Tom e eu somos os últimos a sair, descendo calmamente de mãos dadas. O ar frio da manhã nos saúda, estremeço.
Retirando seu cachecol cinza, ele envolve meu pescoço com a peça sem dizer nada, evidentemente incomodado com algo.
Sorrio em agradecimento, feliz mesmo sabendo que ele estava chateado comigo.
Abraxas, Anelise, Lena e Nathaniel veem em nossa direção, parecendo terem acabado de chegar assim como nós.
— Não podemos perde um minuto sequer, temos muitos lugares para ir – Declara Lena, imperativa.
— Temos? – Ouço Abraxas questionar, encarando Anelise, que apenas dá de ombros.
Começamos a nos afastar das carruagens que iam parando ao nosso redor, seguindo o fluxo de pessoas que iam para mais ao centro do vilarejo. Tom e eu seguimos a alguns passos mais a frente. E mesmo comigo desejando ficar lado a lado com os outros, sua inerente vontade de se sobressair sempre ganhava a melhor e eu era arrastada junto.
Abraxas aperta o passo até ficar a poucas passadas de nós em busca de explicação.
— O baile é daqui a uma semana e as meninas ainda tem algumas coisas para comprar – Explico, sorrindo ao vê seus olhos arregalarem de pânico.
Alguns muxoxos irritados são disparados, Nebolus e Abraxas encolhem os ombros simultaneamente, assumindo uma expressão quase de dor. Tom permanece quieto, pensativo. Já Pollux se mantém estoico, encarando meu namorado discretamente.
Engulo um suspiro, sentindo-me mal.
Mas, Pollux terá que se resolver com Tom sozinho para o seu próprio bem. Uma interferência minha a favor do Black só despertará ainda mais a raiva dele. E eu preciso escolher bem as batalhas que travarei com Tom.
[...]
Olhando para a parede de tijolos a minha frente, reflito sobre o que me torna tão suscetível a esquecer quem ele é.
São suas palavras gentis? Seus toques sensuais? Ou algo mais... profundo? Talvez, apenas uma paixão torrencial, como um vendaval frio em um deserto; refrescante e encantador, mas passageiro.
Mordo meu lábio inferior, recostando-me na parede oposta a que eu observava com tanta atenção.
Mas, se é tão simples, porque meu peito dói em apenas cogitar em deixá-lo?Perguntou-me, fechando meus olhos com força, sentindo minha garganta doer.
— Nunca é tão simples como queremos – Ouço a voz de Morgana falar, assustando-me – No entanto, a resposta que procuras é complexa, pois... – Enterro minhas unhas na palma de minha mão, esperando suas próximas palavras – Não existe nada de simples no amor. Mas só ele construí pontes indestrutíveis – Finaliza.
Encaro a mesma, sentindo minhas entranhas esfriarem ao ouvir sua resposta para minha reflexão.
— Você n-não pode en-entrar na minha mente – Falo, tentando soar irritada com a invasão – E, amor? Essa é sua resposta? – Tento não me alterar, mas minha voz sai algumas oitavas mais alta.
Ela se aproxima, com seu vestido elegante preto arrastando no chão sujo.
— Sim, Hermione. Está é minha resposta – Morgana fala pausadamente cada palavra, enfatizando sua resposta.
Desgrudo da parede, ficando frente a frente com a mesma.
— Não posso amá-lo – Digo, as palavras saindo rasgando minha garganta, como se centenas de pequenos cacos de vidro cortassem minhas cordas vocais – Estamos juntos a tão pouco tempo e...
— O tempo que o amor leva pra se instalar nos corações das pessoas é relativo — Interrompe-me, ligeiramente divertida – E não é que você não possa amá-lo, e sim que você não queira admitir que o ama – Ela cruza os braços e levanta uma sobrancelha, desafiando-me a contradizer suas palavras.
Desvio meu olhar para as manchas de mofo e sujeira pelo chão, envergonhada por ela me conhecer tão bem. Quando volto a encará-la, sua expressão suaviza.
— Acredito que tenho algo para você – Fala, erguendo a mão vazia com a palma pra cima. Em milésimos de segundos, quatro cartas se materializam em sua mão – As respostas que enviei para eles estão anexadas junto de cada uma.
Com as mãos trêmulas, pego as cartas, segurando-as junto ao coração como se minha vida dependesse disso.
— O quão ruim é? – Me ouço perguntar com a voz temerosa.
Ela dá de ombros, encarando o beco estreito com certa repulsa.
— Depende do ponto de vista, creio eu – Diz passando as mãos pelos fios presos em um rabo de cavalo baixo.
Encaro os detalhes em dourado que circulavam seus seios, punhos e gola do vestido. Reluziam como ouro, mas provavelmente eram de outro material. Ou não. Ela se veste como uma mulher que nunca precisou se preocupar com dinheiro.
— Porque você me trouxe pra cá? – Pergunto, apertando os papéis em minhas mãos com mais força contra meu peito.
— Na verdade, você que escolheu o lugar – Fala, caminhando para mais ao fundo do beco – Como não decidimos onde nos encontrarmos em nosso último encontro, deixei para você escolher. Só não pensei que você escolheria voltar para este beco. Nossa última vez aqui fora tão... dramática – Ela olha para a entrada do lugar, sigo seu olhar esperando encontrar alguém ali, mas não havia ninguém.
Bufo.
— Não foi isso que eu perguntei – Retruco, aborrecida por sua mudança de assunto – Eu não sabia onde poderíamos ir para obter privacidade. O vilarejo está cheio de estudantes curiosos – Defendo-me, cruzando os braços – E você chama muita a atenção para si, Morgana.
Ela ri, uma risada gostosa e cheia de vida.
— Isto é verdade – Concorda, sorrindo – Nunca me foi ensinado a ser discreta.
Mesmo a contra gosto, acabo sorrindo minimamente.
— Eu pesquisei sobre você – Início, fazendo-a franzi a testa – No caso, pesquisei sobre o que é um bruxo atemporal – Me aproximo da mesma, encolhendo-me a medida que a temperatura do beco fica mais fria em seu fim – Não achei muita informações, na verdade. Bruxos como você são extremamente raros, apenas dois registrados pelo Ministério da Magia. E nenhum é você. Mas o pouco que eu achei foi muito educativo – Paro a sua frente, fitando-a diretamente nos olhos – Você nasce sendo um atemporal, e nunca é passado de geração para geração – Faço uma pausa, organizando o que dizer.
Ela me encoraja com o olhar, gostando da conversa que iniciei.
— É uma condição única que a magia bruta que reside em nós manifesta em certos bruxos. E isso permite que o bruxo atravesse as camadas que dividem passado, presente e futuro, mas sem poder interferir em nada – Respiro fundo, destemida – Vocês precisam usar outras pessoas para modificar algo quando não estão em suas épocas de origem – Concluo, vendo a mesma aplaudir com entusiasmo.
— Isso foi realmente lindo – Fala, sorrindo largamente – Isso tudo você encontrou nos arquivos disponíveis para os alunos em Hogwarts? Estou impressionada. O Ministério sempre tentou esconder a existência de atemporais. Por isso, nunca me identifiquei. Não faria diferença de qualquer maneira – Termina, sombriamente.
Sinto minha bochechas ficarem quentes.
— Bem, eu talvez tenha entrado na Seção Restrita uma noite dessas – Falo baixinho.
Ela gargalha.
— Claro, claro – Seus olhos brilham em contentamento – Você é única, Black.
Suspiro.
— Claro, e você é boa em distrair as pessoas – Reviro meus olhos – Se me lembro bem, você me deve algumas respostas.
— E eu irei respondê-las – Afirma, convicta – Mas, algumas das perguntas que fervilham em sua mente, você só entenderá vendo por si mesma.
— Exemplo?
Ela desenha uma com as pontas dos dedos letras no ar, que brilham como vagalumes em chamas e formam o nome que eu já estou familiarizada: Merope Gaunt.
— Quando você me mostrará?
— Logo, não se preocupe, criança. O fim está próximo – Diz, desviando sua atenção de mim e encarando um ponto qualquer a cima de nós – E respondendo sua pergunta inicial, eu te trouxe aqui para estar exatamente onde estamos – Seus olhos me encontram – Nem mais, nem menos. Apenas aqui.
— O que isso significa? – Pergunto, exasperada.
— Me diga você, criança.
— Eu não estou com cabeça para charadas, Morgana – Digo, gruindo de frustração – Seja direta, por favor.
Ela ergue o queixo de forma altiva.
— Você sabe exatamente o que quero dizer, Hermione – Ela me dá as costas – Apenas tem medo de falar em voz alto, porque é a única coisa que te prende a quem você era.
Suprimo um grito exasperado mordendo meu lábio inferior.
— Pergunte – Ordena, pegando-me de surpresa.
— O quê?
Ela se vira para mim, encarando-me intensamente.
— Faça a pergunta que vem rondando sua mente nesses últimos dias – Manda, cruzando os braços na frente do corpo.
Pisco, pega desprevenida.
— Eu não... Não sei mais se vale apena – Confesso, engolindo minha saliva a seco.
— Tem certeza?
Olho para o chão duvidosa.
— Se... Se eu ficar... – Encaro ela, mas desvio o olhar para que a mesma não perceba as lágrimas se formando nos cantos dos meus olhos – Se eu ficar, mudará alguma coisa, positivamente falando?
Sua resposta demora a vim e com isso tenho tempo de me recompor.
— Eu não sei no que isso poderia afetar o futuro, mas... – Seus olhos carregados de sabedoria se voltam novamente para o céu – Você não pode ficar aqui, Hermione.
O peso de suas palavras me deixa sem fôlego. Apoio-me na parede suja em busca de equilíbrio.
— Mas, então... Por que? – Quase não escuto minha própria voz através da dor que me atinge – Porque me trazer aqui se eu não posso ficar? Eu não entendo...
— E você realmente quer ficar? – Seus olhos me perscrutam, mas não tenho forças para me importar com isso.
— Eu não sei – Falo com sinceridade – Eu só... – Minhas lágrimas caem. Não consigo mais segurar o peso dos meus sentimentos.
Deslizo pela parede, indo direto ao chão quando minhas pernas não sustentam mais o peso do meu corpo. Choro baixinho, não me importando de parecer fraca perante ela.
Segurando meu ombro delicadamente com uma das mãos, ela seca minhas lágrimas com um lenço de linho branco.
— Você o ama, criança – Suas palavras saem amáveis e confortadoras – E não tem nada de errado nisso.
Rastejando para perto dela como uma criança que quer colo, eu a abraço, pegando a mesma de surpresa. Quando seus braços me envolvem, choro baixinho em seu ombro, amaçando as cartas entre nossos corpos.
— Eu o amo – Consigo dizer entre soluços, libertando a verdade que tanto eu escondia de mim mesma.
— Sim, você o ama – Concorda, acariciando meus cabelos maternalmente – E tudo ficará bem, querida.
Me afasto o suficiente para encarar seu rosto cheio de bondade e solidariedade.
— Mas eu não posso amá-lo – Elevo as cartas a nível dos nossos rostos – Essas pessoas, meus amigos e familiares... Ele quer matá-los no futuro. E se não posso ficar com ele enquanto posso mudá-lo, como poderei ficar bem ao voltar?
Segurando meu rosto com as duas mãos, Morgana beija minha testa com carinho.
— Você é uma garota inteligente, Hermione — Elogia-me, voltando a limpar meu rosto com o lenço – Eu me vejo em você, sabia? Nascemos para superar as expectativas das pessoas. Somos mulheres fortes e perseverantes – Ela segura minha mão e me puxa para cima, pondo-me em pé – E como eu disse anteriormente, nem mais, nem menos. Você estar onde deve estar.
Ela me puxa para um abraço apertado, aceito-o de bom grado.
Será mesmo? Eu realmente estou onde tenho que estar?
“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”
— Clarice Lispector
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