Desire Obsolete
28 Família
Notas iniciais
Ele corre os dedos de cima a baixo em minha coluna enquanto nós encaramos, deleitando-nos na felicidade pós-amasso intenso. Estamos deitados juntos, eu, de bruços, abraçando o travesseiro, ele, de lado.
— Então, você é o pacote completo – Murmuro.
Ele franze a testa, confuso.
— Como assim?
— É capaz de ser delicado e agressivo na mesma proporção – Explico, sorrindo travessa, e me referindo ao fato de que a poucos minutos atrás estávamos nos beijando e tocando desesperadamente. Mas agora, ele suavemente passava seus dedos sobre minha coluna.
— Hum... É o que parece, miss Granger – Sua voz sai baixa e rouca, evidenciando seu constrangimento.
Ele recolhe seus dedos e se senta, encarando todos os recantos da Torre de Astronomia.
— Você não gostou de ser chamado de delicado, não é? – Pergunto, me sentando também.
— Não conheço nenhum cara que iria gostar de ser chamado assim – Seus olhos perscrutam os meus.
Engulo um risada.
— Homens e seus egos frágeis – Balanço a cabeça fingindo descaso.
Ele permanece estudando meu rosto, procurando algo. Seu silêncio e a forma como suas sobrancelhas estavam curvadas me diz que ele debatia sobre algo em sua mente.
— Tudo bem? – Aproximo meu rosto do seu.
Ele sorri minimamente e balança a cabeça positivamente.
Tom me puxa para seus braços, envolvendo-me junto ao seu corpo. Me aconchego ali sem protestar, inalando seu cheiro e deliciando-me com seu calor.
A luz que penetrava através das janelas o cômodo estava alaranjada, denunciando que o sol estava se pondo e que logo teríamos que voltar para o mundo esterno. Sendo a primeira vez que usávamos a Torre de Astronomia como refúgio, aquele indicador natural de horários estava sendo de grande ajuda para nós.
— A próxima reunião do Slughorn será na quarta – Comenta, despreocupado.
Arqueio minha cabeça para encará-lo.
— Mal posso esperar – O sarcasmo nítido em minha voz o faz sorrir.
Ele une nossos lábios em um rápido selinho, me pegando de surpresa.
— Você é adoravelmente provocativa.
— É parte do meu charme – Afirmo sorrindo.
Tom concorda e deitada a cabeça para o lado, voltando a sonda meu rosto.
— Tom, qual é o pro...
— Você gostaria de dormir em meu dormitório após a reunião? – Pergunta, interrompendo-me.
Me afasto dos seus braços, aturdida.
— Como assim?
— Dormir, Hermione, apenas dormir comigo em meu dormitório – Fala brandamente, acariciando meu braço com sua mão.
Pisco freneticamente, deixando suas palavras se alojarem em meu cérebro. Meu coração dispara com as possibilidades que se abrem com esse convite despretensioso.
Certo, ele falou dormir. E isso é bom, não é? É só chegar lá e dormir. Não é como se isso fosse um tipo de codinome para sexo. É dormir. Não é?
— Terra chamando Hermione – Ouço ele dizer, atraindo minha atenção para si.
— Desculpa, eu estava um pouco... longe.
— Eu percebi – Afirma, segurado minhas mãos entre as suas – Ei, nós nunca faremos nada que você não queira. E se você quiser só dormi, iremos só dormir – Sua convicção me acalma.
— Tudo bem, acho que consigo fazer isso – Falo baixinho, mas para mim do que para ele.
Seu sorriso largo me contagia. E então, acabo voltando a me aconchegar em seus braços.
Segui-lo para a Sala Precisa ou qualquer outro lugar aonde eu sabia que teríamos uma sessão de amassos alucinantes era uma coisa, agora ir deliberadamente dormi com ele, em uma cama, era um passo totalmente novo e desconhecido. Algo fora da minha zona de conforto.
Que Merlin me dê forças.
[...]
Ainda aérea pelo convite inusitado que Tom me fez, não noto estar sendo seguida até que chego ao meu destino e ouço meu nome ser chamado. Olho para trás, surpresa, reconhecendo de imediato quem me chamava.
— Pollux? – A confusão em meu rosto provavelmente é nítida.
O sonserino estava a poucos metros de mim, de braços cruzados e postura ereta, ele me encarava com altivez. Seus olhos não refletiam nada, mas a linha rígida em sua boca me dizia que ele estava ali contra sua vontade. E isso o aborrecia, e muito.
— Podemos conversa? – Sua voz sai baixa, mas é firme, determinada.
Debato internamente sobre se devo ou não aceitar. Mas minha curiosidade em saber do que se trata vence meu receio.
— Claro – Respondo, apesar de sentir que vou me arrepender depois – Vamos nos sentar ali – Aponto para as mesas mais ao fundo da biblioteca, que estavam completamente vazias.
Não espero uma resposta, apenas sigo a passos largos para a última mesa encostada com a parede e deslizo sobre um de seus bancos. Pollux senta-se de frente para mim, ainda de braços cruzados.
Ficamos nos encarando por alguns instantes, verdadeiramente desconfortáveis um com a presença do outro.
Desde que fora descoberto que sou uma Rosier Black, eu sinto que ele e Evan queriam falar comigo. Mas, provavelmente, por ordens de Tom eles se manterão afastados, apenas me julgando e condenando em suas mentes malucas. Eu não os culpo, e também não simpatizo com eles. Apenas almejo ser deixada em paz.
Ele não queria está tendo que falar comigo, e isso era bem óbvio por sua postura estoica. Mas algo o obrigava a isso, e apesar de até agora Pollux está sendo incrivelmente educado, eu devo me preparar para qualquer coisa. Suas ofensas e olhares enojados ainda queimavam vívidos em minha mente.
— Meu pai quer te conhecer – Fala, quebrando o silêncio.
Levo alguns segundos para processar suas palavras, mas quando o faço, congelo no lugar.
Ai que merda!
— Por que? – Consigo perguntar, tentando conter o meu pânico.
Isso só pode ser piada.
— Eu lhe enviei algumas cartas falando sobre você e ele ficou interessado em te conhecer pessoalmente – Fala, naturalmente, como se estivéssemos comentando sobre o clima – Parece que ele conheceu seus avós, Indus e Phoebe Black – Revela, depositando as mãos na mesa – E também conhecer a família é algo que prezamos muito – A última parte sai mais como uma ameaça do que um comentário qualquer – Então, ele e minha mãe irão a Hogsmeade no nosso próximo passeio e eles gostariam de te encontrar no Três Vassouras.
Seus olhos achocolatados, quase negros, me encaravam com atenção demasiada.
Engulo em seco, consternada.
— Bom, eu não sei se temos a mesma noção de família – Falo, tentando conter minha respiração que ameaçava se descontrolar – Eu considero os trouxas que me criaram como meus pais, então, devido ao seu histórico e do que já escutei sobre seu pai, eu não acredito que esse encontro seja benéfico para nós.
Vejo seus olhos tremularem de raiva, mas o mesmo se contém fechando as mãos em punho. Um sorriso desdenhoso se desdobra em sua boca.
— Sabe, Black – Ele enfatiza o sobrenome para me aborrecer – Quando descobri que você não era a repugnante sangue-ruim que eu acreditava, te odiei mais ainda. Sabe o porquê?
Não respondo, apenas mantenho meus olhos grudados nele.
— Porque se você fosse apenas uma sangue-ruim petulante e metida que necessita se destacar por estar em uma casa predominante sangue-puro, eu poderia entender e até respeitar a sua determinação. Mas a verdade é bem menos interessante – Ele faz uma pausa, me diminuindo com o olhar – Você é apenas uma garota fraca que não aceita a verdade sobre quem realmente você é. Sua choradeira patética e alto negação sobre suas origens mostram que você é insegura e medrosa demais para merecer qualquer piedade da minha parte.
Suas palavras são como um soco no meu estômago, fico ligeiramente sem ar. Pollux se levanta de súbito, me pegando de surpresa. Sinto meus olhos marejaram, mas tento segurar minhas lágrimas, não querendo parecer mais fraca do que ele me achava.
— Você não sabe nada sobre mim – Falo com a voz embargada pelo choro contido – Não fale como se soubesse ou me conhecesse – Levanto-me, trêmula, ficando cara a cara com o mesmo – Você não tem o direito de falar essas coisas para mim – Coloco meu dedo em seu peito, irada – Que moral você têm? Pollux, você é um prisioneiro do seu próprio sangue, fraco demais para se rebelar contra um sistema opressor e desigual que afasta as pessoas de você.
Ele segura meu pulso com firmeza. Tento puxar minha mão, mas ele não larga. Seus olhos estavam injetados de raiva e dava pra vê que ele fazia um esforço sobre-humano para não apertar demais meu pulso.
— Tudo o que eu faço é para proteger a minha família, para transformar esse mundo de merda em um lugar melhor. Eu tenho um objetivo. Mas e você? Quem você é? Por quem você luta? – Suas perguntas retumbam dentro de mim, paralisando todos os meus sentidos – Você fala que os sangue-ruins são seus pais, mas quando chegou aqui e fora perguntada se era ou não uma trouxa, você se calou – Ele aproxima seu rosto do meu – Granger, você nem ao menos sabe quem é, usa apenas o sobrenome que lhe foi ensinado a usar e não porque você o considera parte de si. Sua lealdade à família é mais baixa que meu apreço por sangue-ruins imundos. Então, me diga, quem é prisioneiro do sangue aqui?
Ele solta meu pulso e se gasta, lançando-me adagas com o olhar.
— Eu não me importo se você vai ou não para esse encontro de merda – Fala, passando a mão pelos cabelos – Apenas me faça um favor – Sua voz suaviza e seus olhos buscam os meus – Não aja como se fosse melhor que nós. Todos temos cicatrizes e um passado de merda, você não é melhor que nós só porque é uma sangue-puro que foi criada por trouxas. Lide com sua crise existencialista antes de tentar dá lição de moral em alguém – E com isso ele vai embora.
Encaro o chão, sentindo minhas lágrimas escorrerem por meu rosto.
“- Quem você é? Por quem você luta?”
Antes que meus joelhos fraquejem eu me apoio na mesa, escorregando até me sentar no banco e apoiar minha cabeça em minhas mãos. A torrente de lágrimas que me abate trás consigo soluços incontroláveis. Deito minha cabeça na mesa e me entrego a avalanche de emoções que me assola.
Eu não consigo distinguir o que doía mais em mim, meu coração, minha alma ou meu orgulho que fora estraçalhado por suas palavras.
“- Você é apenas uma garota fraca que não aceita a verdade sobre quem realmente você é.”
[...]
“O som calmante das ondas se quebrando na praia despertam meus sentidos. Quando levanto minha cabeça sou cegada de repente pela claridade do sol, mas quando me recomponho me deparo com a imensidão azulada do mar e a areia clarinha da praia de Avalon.
Prendo a respiração, chocada.
‘Eu dormi? Mas...'
Procuro pistas de que estou no corpo de Merope, mas para a minha totalmente descrença, reconheço minhas mãos e consigo fazer meu corpo me obedecer conforme minha vontade. O vestido delicadamente bordado prende minha atenção por alguns instantes. Ele era branco, longo e bordado em renda por flores belíssimas, sua transparência só não revelava nada constrangedor porque um tecido cor bege estava por baixo. Macio, leve e delicado.
— Você me parece triste, Hermione – Ouço uma voz familiar comentar ao meu lado.
Encaro Morgana com descrença, pasma por sua presença ali e por ela está falando diretamente comigo.
Ela estava ao meu lado, sentada na areia assim como eu estava. Seus longos cabelos negros estavam soltos e balançando ao ritmo da brisa marítima, já seu belíssimo vestido longo de cor lavanda estava sujo de areia na barra, mas mesmo assim ela ainda estava estonteante.
— Eu estou sonhando? – Pergunto, não lembrando de ter adormecido.
— Sim, criança – Responde, sorrindo se leve – Apenas em sonhos eu posso te trazer para cá.
Suspiro.
— É, eu já imaginava – Falo, acariciando a areia fofinha em baixo de mim, fazendo círculos e desenhos disformes – Por que eu não posso vislumbrar as lembranças de Merope fora do corpo dela? Seria mais fácil. Eu sinto as emoções dela. E são conflitantes.
Ouço Morgana ri baixinho ao meu lado, atraindo minha atenção para si.
— Qual é a graça?
— É justamente esse o propósito, você sentir tudo que ela sentiu. Isso cria um vínculo entre vocês que ela gostaria de ter tido enquanto viva, afinal, você é sua nora agora – Diz, com seus olhos azuis brilhando em divertimento.
Sinto minhas bochechas corarem.
— Mas se você quiser, eu paro de lhe mostrar suas lembranças – Comenta, despreocupada.
— Não – Respondo quase de imediato – Eu quero vê o que ela viu. É... fascinante pode sentir o que outra pessoa sentiu. É confuso e agoniante às vezes, confesso, mas igualmente fascinante.
— Eu imagino que seja mesmo – Diz, alargando seu sorriso – Você foi uma ótima escolha – Diz a última parte mais para si do que para mim.
— Por que me trouxe aqui? – Pergunto, tentando não pensar no que suas palavras significavam – E porque da última vez que vim, eu me senti tão mau?
— Erro meu, querida – Responde, esmorecendo seu sorriso – Te trazer aqui suga um pouco da sua energia vital, mas nada drástico, não se preocupe. Enfim, se eu te mantenho por muito tempo em Avalon, seu corpo perde energia, e consequentemente, você fica fraca. Desculpe-me – A humildade com a qual ela me pede desculpas me surpreende.
— Tudo bem, eu não estou chateada – Falo para tranquilizá-la.
Entramos em um silêncio confortável, apenas apreciando a vista. O sol estava alto no céu, mas sua luz não me incomodava. O som do mar era reconfortante e apaziguador. Permito-me esquecer de todos os meus problemas e deixar de lado o monte de perguntas que eu ainda precisava fazer para ela.
— Eu te trouxe aqui porque senti sua tristeza, criança – Fala, quebrando o silêncio – O que te aflige? Você estava tão bem.
Franzo a testa.
— Como você sabe dessas coisas? – Minha voz denotava mais irritação do que eu gostaria.
— Você lembra que quando te toquei pela primeira vez sua marca de nascença doeu? – Pergunta, atentamente me encarando.
“Ela toca meu braço e uma rápida e passageira pontada de dor atinge o lado direito do meu quadril, bem onde fica minha marca de nascença. A marca Rosier.
Prendo a respiração.
‘O que foi isso?'
A mulher retira a mão, encarando-me com um pequeno sorriso lateral.”
Faço que sim com a cabeça, lembrando com clareza do breve momento.
— Eu me liguei a você com um pequeno feitiço que criei. Não me permite ler sua mente ou viver com você suas experiências, apenas posso sentir se você está bem ou em perigo – Sua voz sai cautelosa, como se ela temesse minha reação – E bom, como a viagem no tempo consumiria muita energia de você, também precisei te emprestar um pouco da minha força vital, querida.
— Ah. – É tudo o que consigo dizer.
Ela sorri pra mim com candura.
— Então conte-me, criança, o que te atormentou tanto para você se entregar a tristeza de forma tão profunda.
Permaneço em silêncio por um tempo, mas então começo a falar, sabendo que eu precisava dividir isso com alguém, mesmo que esse alguém fosse a causadora da maioria dos meus problemas, inclusive, o problema em que todos descobriram que sou sangue-puro. Quando termino, ela estava compenetrada.
— Você sabe o que penso sobre o assunto – Começa, serenamente – Acreditou você deve superar isso e aceitar que você é uma sangue-puro – Quero discordar da mesma, mas permaneço calada – Existem todos os tipos de bruxos neste mundo, criança, e nem todos são ruins. Lyra Black não era e sofreu por isso, assim como Raphael Rosier que se sacrificou por um amigo. E apesar dos antepassados deles, os dois encontraram seus próprios caminhos – Ela faz uma pausa, olhando para o céu – Você deve honra aqueles que vieram antes de você e merecem ser honrados. E aqueles que não, apenas deixe que eles sejam ofuscados pelo brilho da sua bondade. A vida é curta demais para crises existenciais.
Fico calada, deixando suas palavras entrarem em minha mente. Encaramos juntas as ondas baterem nas pedras e se dissiparem, encontrando a areia clarinha da praia sem muita violência.
Quando a paisagem começa a desfocar a minha frente, eu sei que estou sendo mandada de volta para meu corpo. Olho uma última vez para Morgana, que sorria para mim com bondade. Me pego retribuindo ao seu sorriso antes de acorda na biblioteca do castelo.”
“A recusa da existência é ainda uma maneira de existir. Ninguém conhece, enquanto vivo, a paz do túmulo.”
— Simone de Beauvoir
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