Desire Obsolete
29 Dupla
Notas iniciais
— O que há com ela? – Ouço Lena perguntar quando me sento ao lado dela no fundo da sala.
— Quem? – Pergunto, retirando o pergaminho que continha minhas anotações da aula anterior de feitiços.
— Anelise – Ela responde, atraindo minha atenção para a corviniana sentada a poucas bancas à nossa frente. Eu não a via desde o jogo de Quadribol, no sábado passado.
Seus cabelos sempre impecáveis estavam bagunçados para todas as direções, suas vestes amarrotadas e seus ombros curvados para baixo lhe davam um ar desolado.
Sua aparência desleixada não era o único indicativo de seu estado conturbado, quando seu rosto vira em nossa direção, provavelmente sentindo o peso de nossos olhares sobre si, posso detectar traços de lágrimas em suas bochechas rosadas. A opacidade de seus olhos me assusta.
A nossa volta todos estavam alheios ao seu estado caótico, concentrados demais em torno de si para nota as nuances de uma garota deprimida.
Ela sorri pra nós, tentando máscara seu sofrimento. Sorrio de volta, pretendendo ir até a mesma e a consolar por seja lá qual for o motivo da sua tristeza. Tão logo quanto nos olhou, ela se volta para a frente, encarando a parede a sua frente fixamente.
Sinto um aperto no peito por vê-la tão deprimida.
— Ela me parece desolada – Sussurro.
Franzo minha testa, deixando minha bolsa de lado para me levantar e ir até ela, aproveitando que o professor ainda não tinha chegado.
A sala estava quase cheia, mas completamente silenciosa, pois os demais alunos estavam concentrados em terminar a dissertação que Anael passou. Por ter se ausentado nas últimas aulas que teve conosco, ele não selecionou as duplas para seu trabalho, mas nem por isso nos deixou sem nada para fazer.
— Sim – Lena se remexe ao meu lado, olhando para a outra loira com tristeza – O que será que houve? Devemos perguntar? – Sua apreensão é perceptível.
— Sim, devemos – Falo com convicção – Se não perguntarmos ela não vai nos falar, e consequentemente, não poderemos ajudar.
Me encaminho rapidamente até Anelise, enquanto Lena hesita um pouco antes de me seguir.
— Anelise? – Minha voz sai baixa para não assustá-la e não atrair atenção indesejada.
Ela se vira em um sobressalto, assustada por estamos tão próximas dela. A garota sentada ao seu lado nos olha feio, mas logo volta a escrever ferozmente em seu pergaminho.
— Oi – Ela nos cumprimenta em um fio de voz.
Seus olhos vagueiam para todas as direções, evitando nosso olhar. Algo estava terrivelmente errado, eu sentia isso com cada osso do meu corpo.
Pela minha visão periférica eu podia vê Lena inquieta ao meu lado, não sabendo como proceder. Eu também não sabia, mas não podia ficar de braços cruzados.
— Você está bem? – A pergunta é estúpida, pois claramente ela não estava, mas sendo dominada pela apreensão eu não sabia o que dizer.
— Sim, claro. E vocês? – A mentira sai fluida de seus lábios. E apesar de usar um tom falsamente alegre, sua inquietação era visível. Ela não nos queria ali.
Um mentiroso reconhece o outro, penso amarga.
Coloco minha mão em seu ombro, ela se retrai sob meu toque, surpresa. Fico ligeiramente desconfortável com isso.
— Você pode desabafar com a gente, Anelise. Somos suas amigas – Complementa Lena ao meu lado.
Há um momento fugaz de incerteza, aonde penso que ela contará para nós o que a aflige. Mas é tão breve esse momento que me deixa em dúvidas sobre se realmente aconteceu.
— Eu estou bem, garotas – Volta a dizer, evitando olhar para nós – Não se preocupem comigo – Ela amplia seu sorriso, mas ele não chega aos seus olhos – Vocês estão ansiosas para o Halloween?
Lena e eu trocamos um breve olhar desconfortável.
Sua brusca mudança de assunto só serviu para aguçar ainda mais minha curiosidade. Ela estava tentando desviar-nos do tópico principal da conversa por algum motivo. E por mais que eu quisesse saber, eu entendia o quão ruim era ser pressionada á algo. As palavras de Pollux e Morgana ainda estavam indo e vindo em minha mente, em um lembrete amargo do que eu renegava.
— Eu não estou muito ansiosa – Falou Lena, entrando em seu jogo – Evan odeia essa festividade.
As duas olham para mim, esperando que siga o protocolo da boa educação.
Dou de ombros.
— Nunca foi minha época do ano preferida – Digo, encarando a porta e me perdendo em pensamentos. Quando Tom e Abraxas irrompem por ela, demoro um pouco a distinguir suas identidades.
Assim que me vê seu inebriante sorriso lateral surge, fazendo meu coração palpitar mais forte. Meus olhos automaticamente vagueiam por seu corpo, me trazendo a deliciosa imagem de nós dois juntos em uma cama. Sinto minhas bochechas esquentarem com o teor indecente dos meus pensamentos.
Tom percebe e alarga seu sorriso, aumentando o meu constrangimento. Deixando seus materiais em suas respectivas mesas, os garotos vem em nossa direção.
— Senhoritas – Nos saúda o loiro, beijando a bochecha de Anelise com carinho.
Ao vê seu namorado, um genuíno sorriso aparece nos lábios dela, tirando um pouco da aura triste e melancolia que havia se projetado em torno de si. Meus medos sobre um possível rompimento deles se esvaem, deixando um gosto amargo de dúvida.
O que aconteceu?
Tom enlaça minha cintura com o braço, colando a lateral do seu corpo em mim.
— Pensando em mim, miss Granger? – Ele lança a pergunta próximo ao meu ouvido, agravando a quentura em meu rosto.
— Não seja convencido – Devolvo, tentando esconder meu embaraço.
Ele estala a língua para mim em desaprovação. Mas seus olhos refletem todo o seu divertimento com a situação.
Bufo, aborrecida por ele está se divertindo as minhas custas.
— Okay, isso é muito fofo, mas eu estou sem meu namorado aqui, então, não me coloquem como castiçal – Ouço Lena reclamar, atraindo nossa atenção para ela.
— Castiçal? – Abraxas franze a testa, confuso.
— O correto é vela, Lena – Anelise corrige, baixinho.
Apesar de sua postura ter mudado, ocultando seu sofrimento, eu ainda podia perceber traços de sua tristeza sombreando a atmosfera a sua volta, mesmo ela tentando omitir isso.
Lena faz uma careta brincalhona ao perceber seu erro e em seguida cai na risada. Tom suspira ao meu lado, provavelmente, achando toda a situação tediosa.
Ele nunca implicara com nenhuma das garotas, mas eu sentia que ele dava tanta importância para elas quanto dava para uma colher de chá. Ou seja, importância zero.
— Não entendi nada – Resmunga o Malfoy, confuso.
— É apenas uma expressão trouxa ridícula – Tom desdenha, friamente.
— Onde está seu senso de humor? – Pergunto, batendo meu cotovelo de leve em sua barriga.
Tom não tem tempo de rebater minha pergunta, pois o professor Boarthy adentra a sala rapidamente, pedindo logo em seguida para que tomemos nossos lugares, pois a seleção de duplas para seu trabalho iria começar.
Antes de voltar ao meu assento, aperto o ombro da corviniana novamente, tentando lhe transmitir sem palavras todo o meu apoio. Dessa vez ela não se retrai, apenas me lança um olhar conformado.
[...]
Ao decorrer da aula vários nomes são selecionados, mas estou concentrada demais em criar teorias sobre o porquê de Anelise está triste para prestar atenção em todos. Apenas alguns poucos indivíduos me tiram de meu estado analítico e me fazem prestar atenção na seleção a nossa frente. Anelise ficou com Rachel Barthes da Lufa-Lufa, Abraxas com Nicolai Petrovich da Grifinória, Lena com Lorenzo Gomez da Corvinal, Pollux com Irma Snow da Grifinória e Dorea com Agnes Sabart da Lufa-Lufa.
O professor estava usando uma urna mágica com o nome de todos os alunos do sexto e do sétimo ano, a qual ele enfeitiçou para selecionar cada dupla por níveis diferentes de habilidades. Ele falava o nome do aluno em voz alta e a urna cuspia seu parceiro ideal.
Ele quer um equilíbrio perfeito entre as duplas, nem mais inteligência nem menos. Resumindo, a urna fora enfeitiçada para colocar um aluno excelente com um mediano ou ruim.
Quando meu nome é chamado desperto para o que estava acontecendo a minha volta. Lena ao meu lado arfava baixinho.
Pisco um pouco, atordoada.
— Desculpe, professor. Eu não escutei – Falo, constrangida, fazendo algumas cabeças virarem em minha direção.
Transfiro minha atenção para Lena buscando entender o que estava acontecendo. Seus olhos arregalados e sua boca ligeiramente escancarada me faz presumir que o que ele dirá não me agradará nem um pouco.
Mordo meu lábio inferior, ansiosa para saber o que o professor dissera para deixar ela tão surpresa.
Boarthy balança a cabeça em sinal de desaprovação diante da minha falta de atenção.
— Eu disse, senhorita Granger, que sua dubla par o meu trabalho será Septimus Weasley – Diz, pragmático.
Ah, merda!
Meus olhos automaticamente voam para Tom, que estava sentado bem a minha frente, de costas para mim. Eu só conseguia enxergar o seu perfil de onde estava, mas isso era o bastante para que eu pudesse vislumbrar uma parte da sua irá. Sua postura estava tensa, seu rosto sério e pelo seu perfil consigo vê que o mesmo trincava a mandíbula com força.
Quando sua atenção se desloca do professor a nossa frente para mim, suas íris estavam dilatadas de cólera. Sua expressão assustadoramente concentrada em mim me diz que ele queria matar alguém. E lentamente.
Engulo em seco, sentindo meu coração retumbar em meus tímpanos e minha pulsação se acelerar.
— Tom Riddle – Anunciou o professor para a urna, atraindo nossa atenção para si.
Rapidamente um papel é cuspido para cima, caindo inocentemente nas mãos de Anael. Ele lê o nome ali escrito e volta-se para Tom.
— Você ficará com a senhorita Amanda McCreary – Fala, despreocupado.
Meus pelos se eriçam ao ouvir tal nome.
Solto vários muxoxos, não contendo minha raiva.
O sangue em minhas veias gela por conta do ciúmes que turva minha racionalidade ao constatar que Tom terá que passar algum tempo com a desmiolada da McCreary.
Lançando para ele um breve aceno de entendimento Tom se volta para mim. Uma batalha silenciosa é travada entre nós. Ele está irritado por eu ter que fazer com Septimus o maldito trabalho, mas não tão irritado quanto eu estou por ter que suporta dividi-lo com ela.
Eu nunca me considerei uma pessoa ciumenta, mas suas palavras cruéis ainda estavam armazenadas em meu cérebro, instigando meus instintos mais primitivos. E eu tenho plena convicção de que tudo o que estiver ao seu alcance ela irá fazer para tirá-lo de mim. E isso eu não iria permitir. Nunca.
— Você é minha – Profere, se inclinando em minha direção, com seus olhos tempestuosos em chamas.
Eu deveria ficar assustada com a intensidade de suas palavras, mas não fico, agitada demais pelo meu próprio ciúmes.
— E você é meu – Consigo dizer, tentando acalmar minha respiração descompassada – Só meu.
Nossas declarações de posse um sobre o outro criaram uma atmosfera estática a nossa volta. E o peso dessas palavras me assombrariam para sempre, eu só não sabia disso. Ainda.
[...]
— Quanto tempo mais isso irá durar? — O homem quebra o silêncio confortável da sala, com seu costumeiro tom impaciente — A garota que você escolheu é a certa? Não me parece grande coisa.
Morgana não se altera com a visita inesperada. Seus olhos permanecem fixos nas chamas crepitantes da grande lareira a sua frente.
— Não há juiz mais justo e mais severo que o tempo, meu caro — Fala, perdida em pensamentos — Não tente apressar a colheita antes das frutas estarem maduras, ou você perderá a plantação toda.
— O que isso significa? Não estou com paciência para suas charadas.
Levantando-se da poltrona a qual permaneceu sentada a tarde toda, a bela feiticeira se aproxima do quadro quase sempre vazio, mas que agora continha uma imponente figura masculina inquieta.
— Apenas é o que é, e isso é tudo que tenho para falar — Diz, encarando os olhos azuis gelo com serenidade — Você terá o que quer, e então, nosso acordo terá sido comprido. Até lá, não me apresse ou duvide dos meus métodos — O tom de advertência presente em sua voz faz o homem semicerra os olhos — E a garota foi a melhor escolha possível. Confie em mim, ninguém amará mais ele do que ela.
— Você está certa disso?
— Sim.
— Então, eu confiarei em seu julgamento — Declara, antes de sumir por completo da moldura.
— Você sempre o faz, meu caro — Sussurrou ela, sorrindo amplamente para onde antes Salazar Slytherin estava.
“Aquele que não tem ciúmes, até mesmo das calcinhas da bem-amada, não está apaixonado.”
— Cesare Pavese
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