Desire Obsolete
64 Fôlego
Notas iniciais

Você me fez experimentar algo
Que não posso comparar a nada
Que eu já conheci, e tenho esperança
Que depois dessa febre eu sobreviverei
— Selena Gomez (The Heart Wants What It Wants)
[...] Janeiro de 1998 [...]
Não existem palavras o suficiente que possam expressar o horror e nojo estampados em seus rostos pálidos. Folhas de jornais são amassadas em fúria por mãos trêmulas, enquanto meia dúzia de grifinorianos entreolham-se sem reação. O retumbar de seus corações é audível, e o gelo que petrifica suas espinhas, silencioso.
Parvati Patil e Lilá Brown são as primeiras a saírem do estupor causado pelas recentes revelações do Profeta Diário, movendo-se em volta de seus companheiros de casa. Pela primeira vez em um longo tempo, suas mentes não conseguem trabalhar em motivos para a manchete ser falsa.
— Isso só pode ser piada! – Lilá exclama, passando as mãos pelos cabelos negros.
— E uma de muito mal gosto – Parvati complementa, fechando as mãos em punhos – Ela não pode... Como eles ficaram... – Seu corpo estremece de nojo – Ele tem idade para ser o avô dela. E não tem nariz!
Cátia Bell teria concordado com as garotas prontamente, se seu cérebro não tivesse liquidificado com o noivado mais inesperado e horripilante da história.
— Isso é... Não... Isso não pode ser verdade! – A voz de Neville Longbottom quebra novamente o silêncio enquanto ele abandona o jornal em cima da mesa de centro – Não é possível... É? – Seus olhos buscam a negação que tanto seu coração implora nos olhos da caçula dos Weasley’s – Noiva de Você-Sabe-Quem...
Ele recebe o silêncio como resposta, agoniando ainda mais seus nervos. A segunda descoberta impactante da vida de Hermione não é nem ao menos cogitada ser citada, pois a suposta mãe da castanha é um assunto muito além do que o Longbottom pode suportar. A maldade presente naquela mulher lhe dá arrepios.
Ginevra não sabe o que dizer, não consegue pensar em nenhuma negação plausível para a bomba jogada em seus colos. Há muito tempo perderá contato com sua antiga melhor amiga. Agora, tudo é possível, e a grifinoriana sabe disso. Só nunca imaginou que isso poderia significar ter que reaprender tudo o que imaginou saber sobre sua antiga companheira de casa.
Em sua mente, Hermione Granger escolheu ir embora de livre e espontânea vontade, escolheu abandoná-la no momento em que mais a ruiva precisava de uma amiga. Para Gina, só isso qualifica a ex-amiga em uma traidora descarada. Mas, as recentes revelações comprovam que Hermione não só podia trai-la abandonando-a, como também escondendo coisas. Segredos terríveis, que destruíam a já manchada imagem da castanha.
— Se for... Se for verdade... – Simas Finnigan gagueja, não conseguindo formular bem seus pensamentos – O-o que isso sig-significa? Ela... Hermione... Ela está contra nó? Não é possível...
— Não acredito nisso – Bell se pronuncia, mudando o peso dos pés – Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado nunca ficaria com uma adolescente, muito menos uma criada por trouxas, e que passou a maior parte de sua vida acadêmica agindo contra ele.
— O que você sugere? – Lilá quer saber, aproximando-se da outra com cautela – Você acha que é algum tipo de plano para desestabilizar o Harry?
Cátia acena positivamente, tentando transparecer confiança.
— E se não for? – Patil interpõe-se, trazendo a atenção de todos para si.
Ela garra o jornal jogado na mesa, folheia-o até a página 08 e os mostra, de forma frenética, a imagem distorcida de um casal valsando no meio de vários outros. A mulher se destaca por seu vestido vermelho vibrante e sua caba esvoaçante. Ninguém na imagem está focado o suficiente para se revelar, são apenas um emaranhados de corpos valsando em todo do casal central, os noivos.
— Mesmo que não dê para ver com clareza, é a Hermione aqui – Fala, apontando para a imagem – E, se vocês se esqueceram, as informações complementares são explicitas demais para serem inventadas:
“...Nascida da união não planejada de Sirius Black e Bellatrix Lestrange, Hermione foi abandonada por sua tia, Narcisa Malfoy, aos cuidados dos trouxas Granger’s após a trouxa sofrer um abordo (de uma menina) e não poder mais gerar filhos. Um ato de bondade da caçula Rosier Black? Com certeza!
Hermione só veio a descobrir a verdade sobre seu nascimento conturbado no ano passado, após ser procurada por sua tia, que lhe pediu para abandonar seus antigos companheiros (O Eleito e Ronald Weasley) e ir embora, já que até aquele momento, Você-Sabe-Quem não sabia da linhagem mágica da garota.
Em um ato de rebeldia, a jovem abandonou todos e sumiu alegando ter recebido uma bolsa de intercambio no prestigiado Instituto das Bruxas de Salem, em Massachusetts. Aos entrarmos em contato com o instituto, foi descoberto que Hermione nunca foi para lá, mesmo realmente tendo recebido está bolsa (a pedido da sra. Malfoy é importante frisar).”
Parvati termina de ler um dos trechos da matéria, arrepiando-se com todas as informações ali contidas.
— É inegável que existe algum fundo de verdade nessas informações – Brown murmura, encolhendo os ombros – São muito precisas e envolve muitas pessoas para serem mentira.
“Como Voldemort e ela iniciaram seu romance, não sabemos. Mas, sabemos que seu baile de noivado foi um evento elegante, pomposo e cheio dos mais mortais e poderosos Comensais da Morte.
Bellatrix não estava presente no baile, assim como seu marido, Rodolfo. E, é importante salientar que, não existe afeto ou proximidade nenhuma entre mãe e filha. Na verdade, soubemos por fontes seguras que Hermione Rosier Black odeia sua mãe biológica.”
Patil prosseguiu com a leitura, mas o embrulho em seu estômago lhe fez abandonar o jornal de novo na mesa.
— Não consigo ler mais nada – Diz, a voz demostrando todo o seu nojo – Essa história é repugnante.
Dino Thomas irrompe pela curta passagem, ofegante. Em suas mãos, um exemplar do Projeta Diário jaz amassado. Suas pernas bambeiam e seu coração retumba em seus ouvidos, mas nada disso lhe incomoda mais que as recentes notícias divulgadas.
— É-é ver-verdade? – Pergunta com a voz entrecortada, colocando as mãos nos joelhos enquanto tenta recuperar a compostura.
— Não sabemos – Responde Parvati, cruzando os braços abaixo dos seios.
— Hermione não faria isso – Diz Dino ainda ofegante, voltando a ajeitar sua postura – Nunca fui íntimo dela, mas creio que ela não faria isso. E... Filha de Bellatrix!?
— Não fale o nome dela! – Neville ladra, endireitando sua postura – Nunca fale o nome dela na minha presença. – Seu corpo se ergue do sofá de dois lugares em que está sentado.
Neville resfolega, sentindo seu corpo estremecer em fúria só em ouvir o nome da causadora da morte de seus pais. Um monstro nascido no corpo de uma mulher, é isso que a Lestrange é para ele. Em agonia por seus pensamentos, seu corpo começa a se mover pela sala, alheio ao que o cerca.
Gina se levanta da poltrona em um salto, caminhando para fora do salão comunal da Grifinória com o estômago embrulhado.
— Gina? – Seus companheiros a chamam em uníssono.
Ela para, seu corpo tão rígido quanto em uma partida de Quadribol, olha para trás e acena negativamente para todos.
Sua mente não filtra que, por ter sido uma das melhores amigas de Hermione, ela é uma das únicas e poucas pessoas que lhes podem dar uma negação ou confirmação.
— Não podemos nos desviar de nosso foco principal, estamos cercados de Comensais. – Lembra-os, sua voz soando firme e baixa – Luna foi sequestrada, mas conseguiu fugir... – Ela se detém, não sabendo muitos detalhes do ocorrido, apenas uma pequena nota explicatória que recebeu após a volta as aulas da corviniana – Ela não voltou para Hogwarts porque não consegue ficar aqui. Pessoas como Harry e Luna precisam de nós, não Hermione. Ela não é problema nosso, não mais. – E com isso, deixa-os para trás, segundo para fora do salão comunal da Grifinória com seu coração à galopes.
Ela quer acreditar que Hermione não é mais problema seu, mas a verdade é que, se as informações do Profeta Diário forem verdadeiras, a balança que conduz o lado vencedor não está pendendo para seu lado.
Merlin, pobre Harry.
***
Sei que estou agindo feito louca
Estou presa, me sentindo chapada
Com a mão no coração, estou rezando
Para sobreviver a isso tudo
— Selena Gomez (The Heart Wants What It Wants)
Naquela tarde, enquanto as recentes informações bombardeiam os corredores de Hogwarts com cochichos, exclamações e desespero, a pequena cabana de formato triangular no meio da floresta de Epping, entre Londres e Essex, está em perfeita harmonia, com seus dois moradores transitando pacificamente por sua minúscula cozinha.
— Os bolinhos ficarão prontos em poucos minutos – Luna diz, retirando suas luvas de couro de dragão e colocando-as em cima da mesa curva no centro do cômodo – Não demorarei muito na casa de Hermione, apenas tomaremos chá.
Ao seu lado, em uma pequena pia de granito, a louça se lava magicamente sem o auxílio de ninguém. Seu pai, criador e editor do Pasquim, acena em demonstração de entendimento, mesmo não tirando os olhos do legume em suas mãos.
— Ótimo, ótimo – Xenofílio aprova sem emoção, retirando os cabelos do rosto para que possa examinar melhor a beterraba em suas mãos – Está é uma de nossas melhores beterrabas, veja – Ele mostra-a o legume orgulhosamente.
Sorrindo, Luna se aproxima e inspeciona, sabendo que precisa manter seu pai distraído de toda a atenção que seu sequestro lhe causou. E, mesmo que os pesadelos a noite lhe fizessem não querer dormir, nada podia lhe tirar a satisfação de ver seu pai tranquilo novamente. O cultivo de beterrabas no quintal improvisados deles se tornou seu novo vicio, já que ele não escrevia mais matérias para O Pasquim desde que sua filha fora sequestrada.
— É grande e suculenta, dará uma ótima sopa – Diz, confiante, inclinando-se para frente para olhar melhor.
Mesmo ainda não tendo recuperado o peso que perdeu com seu cárcere, Luna esforça-se ao máximo para comer o suficiente por duas pessoas em cada refeição, sabendo que isso agradava seu pai. Tirarem férias da casa cilíndrica em Ottery St. Catchpole foi uma tentativa de retomarem as rédeas de suas vidas enquanto a guerra eminente não se estingue, e também de manterem sua localização em segredo, aliviando o coração de Xenofílio, já que a ideia partira dele.
— Sim, sim – O sr. Lovegood deposita a beterraba no cesto de palha na mesa, ao lado de outras 4 de tamanhos diferentes.
Luna captura com a mão esquerda uma das beterrabas, dessa vez, uma pequena e disforme. Não se demora muito analisando-a, sabendo que quanto mais cedo ir para casa de sua amiga, mas cedo poderá retornar.
Ela coloca o legume na cesta e ajeita sua postura, ficando ereta.
— Eu preferia que você não fosse – Murmura cabisbaixo, travando seus olhos azuis em sua única herdeira – Tenho medo, Luna – Revela, sabendo que não poderia deixá-la ir sem antes lhe dizer o que pensa sobre o encontro.
Engolindo o nó em sua garganta, a corviniana sorrir.
— Nada me acontecerá, papai – Garante, tranquilizadora – Hermione não é uma má pessoa, ela é minha amiga.
— Mas, o monstro a quem ela é afiliada é o próprio mal encarnado – Retruca de imediato – É ele quem me preocupa, Luna.
— Tenho certeza de que ele não estará lá, e que nada me acontecerá.
Ela coloca uma das mechas de seu cabelo atrás da orelha, ciente da preocupação estampada no rosto de seu pai.
— Eu decidir não voltar para Hogwarts porque sei que o senhor precisa de um tempo para absolver tudo o que aconteceu – Começa, tentando esconder seu próprio medo da situação – E que minha volta para lá só lhe causaria transtornos. Mas, preciso que o senhor entenda que meus amigos também precisam de mim – Suspirando, a loira assume um semblante sério, não natural de sua personalidade – Ela, Hermione, não tem ninguém. E, por mais que eu não concorde com a situação em que ela se encontre, não posso deixar de pensar que... Sem ninguém ao seu lado, nada poderia sobrar.
— Sobrar?
— Sim, sobrar – Ela desvia a atenção para a pia – Nada de quem ela foi poderia sobrar.
Lágrimas se acumulam nos cantos dos olhos do homem.
— Oh, minha doce Luna!
Em poucos segundos, Xenofílio dá a volta na mesa e abraça a garota, apertando-a contra seu corpo com força.
— Você não precisa se preocupar comigo, e tão pouco com a garota. As escolhas dela lhe trouxeram para onde estar – Diz, com sua voz embargada pelo choro mal contido – Preocupe-se consigo mesma, querida. Seu bem-estar é a minha única religião.
Ela retribui o abraço, apertando-o com igual intensidade. Os dois permanecem juntos por alguns minutos, escutando as batidas frenéticas de seus corações.
O barulho inconfundível de pássaro pousando lhes tira de seu momento afetuoso. Olhando para a janela da cozinha, uma grande coruja negra pia, anunciando que traz algo consigo para eles.
Luna se adianta para interceptar a carta e o jornal preso nas patas da ave, mas seu pai é mais rápido, atravessando seu caminho e agarrando o envelope médio branco e o Profeta Diário.
— Não reconheço a letra – Diz ele, após alguns segundos de análise da carta – Você contou a alguém onde estamos? – Pergunta, ligeiramente preocupado.
Ela balança a cabeça em negativa, pegando a carta para poder analisar a caligrafia. Assim que seus olhos batem na letra arredondada, claramente masculina, a compreensão vem de imediato.
— Reconheceu a caligrafia? – O sr. Lovegood pergunta, desembrulhando o profeta com lentidão, sem realmente gostar de fazer está tarefa, e muito mais interessado na carta nas mãos de sua filha.
Sem responder seu pai, ela rapidamente rasga o envelope e começa a ler seu conteúdo.
Admirável Luna,
Nunca te escrevi e realmente não queria ter que o fazê-lo nessas circunstâncias, mas, eu preciso saber... Você teve algo a ver com as notícias no Profeta? Por favor, me diga que não. Nem a Hermione poderia te salvar se a resposta for sim. Mas, se você a resposta for não, desconsidere minha preocupação.
É inegável que quem divulgou a verdade tem um forte desejo de morrer. E não podemos salvar quem se alto condena, não é mesmo? Hogwarts se tornou um inferno, principalmente, agora que todos descobriram... Você fez certo em não voltar, mas... Sinto falta de te ver usando aquela juba de leão esquisita e falando sobre assuntos que só você entende. E a propósito, os pudins não têm mais o mesmo sabor de antes.
Bom, a comunidade magica está desesperada, tudo gira em torno da verdade agora. Estamos mais perto da vitória do que nunca, por isso, fique onde estar. É o certo a se fazer. Não espero que nos apoie, mas, quero que fique segura, você e seu pai. Você merece o melhor...
PS: Descobri seu paradeiro através de um primo de terceiro grau da sua mãe (o da Cornualha), o qual acabou mencionando está cabana como o único lugar onde vocês poderiam estar. Disse-lhe que eu era seu amigo, que estava preocupado por você não ter voltado para Hogwarts (por isso, ele me passou o endereço). Não se preocupe, não divulgarei sua localização. Para ninguém.
Atenciosamente.
D. Malfoy
A leitura da carta é rápida, confusa e muito intensa. A cada palavra lida, sensações estranha brotam pelo corpo da jovem garota, partindo de mãos suadas e tremulas, até chegarem a um rubor rosado em suas bochechas pálidas. Luna não sabe o que pensar ou sentir, a carta de Draco lhe pegara completamente desprevenida.
— Merlin! – A exclamação de Xenofílio tira os olhos de Luna do papel.
— Pai? – Sua voz sai embargada de sentimentos.
Ele balança a cabeça em negativa, descrente dos notícias em suas mãos. O papel é amassado quando ele aperta o jornal entre os dedos.
— Isso não é bom, não é bom – Murmura, seus olhos atingindo um tamanho alarmante.
— Do que...? – Ela deixa suas mãos caírem ao lado do corpo, sem soltar a carta.
Ele deixa seu corpo desabar na cadeira mais próxima, ainda com o Projeta em mãos. Com os olhos arregalados, a tez franzida e uma estranha palidez, Luna sabe que o conteúdo do jornal é poderoso.
O sr. Lovegood lhe estende o jornal, tendo seus pensamentos povoados por várias teorias mirabolantes. Todas ruins.
— Se pensarem que fomos nós... – Ele não completa a frase, ciente das consequências que palavras negativas podem causar.
Antes mesmo de começar a ler, Luna sabe que não gostará do que irá encontrar. E novas emoções lhe abatem com sua nova leitura, nenhuma tão boa quanto as palavras preocupadas e gentis de Draco Malfoy.
[...]
A cama está ficando fria e você não está aqui
O futuro que temos é tão incerto
Mas eu não vivo enquanto você não me ligar
E vou apostar, contra tudo, que dará certo
— Selena Gomez (The Heart Wants What It Wants)
Encaro meu reflexo no espelho.
Olhos inchados, nariz vermelho, rosto cansado, bochechas rosadas, tez pálida. Estou uma completa bagunça novamente, moldada em sofrimento. É estranho, mas não consigo sentir pena de mim.
Você fez a cama, deite-se nela agora, diz-me uma vozinha irritante no fundo de minha mente.
Existe um milhão de razões para minhas várias horas perdidas, chorando ruidosamente entre os lenções de minha cama. Mas, nenhuma tão forte quanto o fato de que, não existe mais escapatória para mim.
O mundo sabe com quem me envolvi, eles sabem quem me tornei. Sou sua traidora n° 1 agora.
Fecho os olhos, me apoiando na penteadeira com as duas mãos. Inclino meu pescoço para baixo, quase em reverencia ao meu sofrimento.
Desmarquei meu compromisso de mais cedo com Luna, sabendo que não poderia correr o risco de tê-la em minha casa quando Tom parecia tão inclinado a acreditar que fora ela quem contribuiu para a matéria ser feita. Após passar meu estupor momentâneo ao ler a notícia, tive que dissuadi-lo de ir imediatamente até os Lovegood’s, alegando que Luna nunca faria algo assim, ainda mais usando o Profeta Diário, principal concorrente do jornal de seu pai.
O barulho de passos chega até mim. Prendo a respiração, permanecendo imóvel.
— Você passou o dia todo chorando, passará a noite também? – Pergunta-me Tom, nenhum pouco sensibilizado por meu estado.
Ótimo, eu não preciso da sua piedade.
Abro os olhos e levanto minha cabeça, vendo sua imagem refletida no espelho atrás de mim.
— Você descobriu? – Pergunto, sem rodeios.
Viro-me para ele, não me importando em retrucar sua provocação.
— O redator da matéria está morto – Fala, retirando o sobretudo preto e o jogando em cima da poltrona – Quem o induziu a escrever e postar ela, o matou assim que o trabalho foi feito. Havia traços de magia negra no local.
Merlin, o que eu temia!
— Nenhuma pista de quem pode ter sido?
Ele balança a cabeça em negativa, jogando-se na cama em seguida, suspirando longamente. Vejo sua blusa social preta subir, expondo seu abdômen pálido.
— Pensei em ter uma conversinha com os vizinhes dele, mas todos sumirão – Um sorriso macabro desponta em seus lábios – Pessoas inteligentes, presumo.
Reviro os olhos.
— Você não me parece incomodado por isso – Disparo, com um toque de irritação presente em minha voz – Mais cedo você estava mais que disposto em crucificar Luna por isso.
Ele não se abala por minha provocação.
— Tive tempo para pensar e uma hora ou outra as pessoas iriam saber – Ele cruza as mãos atrás da cabeça, encarando o teto – A única coisa que me incomoda é que não foi por ordens minhas que a notícia foi publicada. E, venhamos e convenhamos, sua amiga não está do nosso lado. É natural que o primeiro suspeito seja ela.
— Não, não é.
Ele não retruca, se limita a ficar em silêncio.
Desvio minha atenção para a varanda, vendo a luz do luar entrar pelas portas abertas. Está uma noite linda lá fora, com uma lua cheia de tirar o folego. É uma pena que o retorce em minha entranhas não me permita apreciar este fato.
— Não mencionaram nossos filhos – Digo, vendo as cortinas balançarem ao ritmo da brisa suave – É estranho, não é? Foi falado de tudo, menos dos nossos filhos na matéria.
Por minha visão periférica, vejo-o se mover, se sentando na cama com fluidez. Às vezes, tenho a impressão de que Tom foi um felino em outra vida, pois não é possível que alguém consiga ser tão fluido e altivo assim.
— Não falaram porque não sabiam – É sua resposta. – Quem matou o redator do Profeta não sabia dos gêmeos, o que só me intriga ainda mais – Não existe irritação em sua voz ao dizer isso.
— Por que isso não te incomoda?
Um lento sorriso aparece em seus lábios.
— Não me entenda mal, querida, mas... Sendo assim, você não poderá se aliar a eles contra mim. Bom, não depois de todos saberem que você esteve em minha cama. Por isso, após alguns minutos de reflexão, a situação parou de me irritar.
Minha boca vai ao chão.
— Merlin! Você ainda consegue me surpreender com sua estupidez – Rosno, ficando de pé em um salto.
Ele revira os olhos.
— Você não irá me deixar, e isso é obvio – Existe arrogância em suas palavras – Mas, é bom que as portas que possam levar por este caminho sejam fechadas – Ele se levanta, começando a desabotoar a blusa – E, antes que sua mente ligeira comece a pensar que tive algo a ver com a publicação da matéria, saiba que há qualquer momento eu poderia ter divulgado isso. Só não o fiz porque não vi necessidade, e contínuo não vendo. Não existem benefícios, fora os pessoais, que saberem que você é minha noiva possam causar.
Passo a mão pelo rosto, extremamente lívida.
— Você não existe. – Murmuro com os dentes trincados – Seu babaca.
Vejo-o rumar até o banheiro, nenhum pouco preocupado com minha raiva.
— Me acompanha em um banho? – Pergunta descaradamente, parando no batente da porta.
— Não.
Dou as costas e saio do quarto sem olhar para trás.
[...] Fevereiro de 1998 [...]
Guarde seu conselho porque eu não vou ouvir
Você pode até estar certo, mas eu não ligo
Há um milhão de motivos para que eu desista de você
Mas o coração quer o que ele quer
O coração quer o que ele quer
— Selena Gomez (The Heart Wants What It Wants)
De todos os meses que sucederam à minha chegada ao futuro, fevereiro fora o que se passou mais rápido. Em um piscar de olhos já estávamos no dia 28, último dia do mês. Mal filtrei o passar do tempo, presa em tentativas de investigação para encontrar possíveis suspeitos da matéria no Projeta Diário e acompanhando o crescimento rápido dos bebês, agora com 6 meses de vida.
Minha busca por suspeitos fora precária, com apenas 3 saídas da mansão até agora. Na primeira, para entrar na casa do redator da matéria, cujo nome Tom me disse ser Bartolomeu Morvik, um ex-aluno de Hogwarts pertencente à Lufa-Lufa. Na segunda, para ir até seu trabalho colher informações, e na terceira para descobrir sobre seu repentino interesse pela Travessa do Tranco. Em todas as minhas escapadas, tomei cuidado para que Tom não soubesse que era por isso que eu estava saindo. O que não fora nada fácil, já que enganá-lo é como tentar juntar água em uma peneira.
Para me locomover sem ser detectada, precisei usar os artifícios do feitiço de distorção de imagem que Morgana me ensinará há alguns dias. Um poderoso encantamento que reflete em mim a aparência que menos atrai quem me olha, fazendo assim com que eu passe despercebida. As pessoas que olharem para mim, verão a versão feminina que menos lhe agradam em uma mulher, com rosto, cabelo e olhos de formatos e cores que não lhe atraem. Por isso, mal olharão em minha direção. É menos eficaz do que a poção Polissuco, pois dura apenas meia hora e só pode ser usado uma vez por dia por ser um feitiço que requer uma quantidade exorbitante de magia e concentração.
No começo de minha investigação, em minha ida até sua residência, consegui encontrar rastros do núcleo magico que fora usado pela varinha que o assassinou. Com isso, consegui descobrir que a varinha usada para disparar a maldição da morte tem núcleo de fibra cardíaca de dragão. Não foi uma grande descoberta, mas me norteou um pouco para os passos seguintes, já que todas as varinhas deixam impressões diferentes. Sendo este um dos fatores para que Morgana deteste o uso de varinhas e prefira a magia céltica, que não pode ser rastreável.
Também fiquei a par de seu estilo de vida simples, com uma estranha inclinação para invenções luminosidade trouxas. Poucos móveis completam os espaços amplos de sua casa, muitos livros sobre diferentes temas (nenhum relacionado a magia negra) preenchem as superfícies planas, assim como muitas mensagens de alto ajuda estão pregadas em suas paredes e vários pôsteres de times de Quadribol. Sua incansável coleção de lamparinas, lampiões, lanternas, lâmpadas rústicas e abajures são sua obsessão de iluminação trouxa, com cada uma etiquetada por data de fabricação.
Uma semana depois, em minha segunda saída, investiguei os arredores da casa dele. Em 10min gastos não encontrei nada minimamente suspeito, então, migrei para seu local de trabalho, onde consegui entrar me passando por sua prima francesa, Keira Angelle (descobri sua existência ao encontrar cartas dela na casa dele).
No Profeta Diário, descobri que no dia de sua morte Bartolomeu parecia disperso e inquieto, saindo meia hora antes do horário habitual. Alguns juram tê-lo visto saindo acompanhado por Seren Durant, sua colega de seção. Mas, ao falar com ela, a mesma jurou não ter encontrado o sr. Morvik naquele dia, ficando o tempo todo dentro de sua sala particular. Não captei mentira em sua voz, e muito menos em sua mente. Antes de sair, me inteirei de qual é o núcleo de sua varinha. E não me surpreendi quando ela me falou, um pouco desconfiada, que era de pelo de unicórnio.
Três semanas depois, em minha terceira saída, falei com uma de suas vizinhas (Zalina Thrusdath), uma senhora baixinha e atarracada, que me abordou assim que me viu parada em frente à casa de Bartolomeu. Descobri que mesmo ele tendo saído meia hora antes do horário previsto, só chegou em casa 2hrs depois de ter abandonado o trabalho, e de acordo com Zalina, chegou acompanhado por uma mulher trajando uma longa capa negra com capuz que impossibilitava a visualização de seu rosto. Antes de chegar em casa, de acordo com ela, ele passou pela Travessa do Tranco, já que em suas mãos carregava uma sacola de papel com o slogan da Borgin & Burkes.
Ele visitar a Travessa do Tranco, local mais do que suspeito para alguém com uma vida tão monótona (palavras da sra. Thrusdath), e que nunca nem ao menos escreveu sobre artes das trevas, é no mínimo intrigante. Mas, a mulher em sua companhia é quem merece minha atenção, por isso, em minha quarta saída, programada para a segunda semana de março, irei até a loja Borgin e Burkes.
***
Você me deixou em pedaços
Brilhando como estrelas e gritando
Me iluminando como Vênus
Mas então você desaparece e me deixa esperando
— Selena Gomez (The Heart Wants What It Wants)
Estalo meu pescoço, tentando liberar a tensão do meu corpo enquanto tento pegar os frascos de sabonete líquido para bebês na prateleira ao lado do guarda-roupas branco.
Assim que pego, me volto para os gêmeos sorrindo. Em um piscar de olhos, meu sorriso morre.
— Damon, não! – Exclamo, jogando de qualquer jeito os recipientes em minha mão na poltrona do quarto.
Corro para agarrar o copo que flutua acima de Alya, que dorme tranquilamente ao lado do irmão. Um barulho nada feliz escapa de sua boca.
Com o copo em mãos, coloco-o de volta na cômoda.
— Você não pode derrubar coisas em cima de sua irmã – Ralho, tirando-o do berço duplo e aconchegando seu corpo em meus braços.
Ele pisca os olhinhos para mim, parecendo arrependido. Ou, o mais arrependido que um bebê de 6 meses possa parecer. Beijo o topo de sua cabeça, voltando a pegar os sabonetes líquidos para preparar seus banhos.
— Você precisa de ajuda?
Suprimo uma maldição, sobressaltando-me. Encaro Morgana parada no batente da porta, trajando um de seus costumeiros vestidos longos cinza.
— Você me assustou – Digo, tentando acalmar meu coração.
Ela sorri, entrando no quarto.
— É um dos meus hobbies te assustar – Brinca, aproximando-se com lentidão – Posso? – Pergunta, apontando para Damon.
Faço que sim, entregando-lhe meu menino.
— Hora do banho? – Ela aconchega ele nos braços, apontando com a cabeça para os sabonetes em minha mão.
— Sim, sim – Coloco os produtos de higiene em cima da cômoda.
Abro o guarda-roupas e apanho de lá dois macacões, um roxo com detalhes brancos e outro azul pálido com bolinhas cinzas.
— Alya ainda dorme. Mas logo, logo ela irá acordar, por isso, irei dar banho em Damon primeiro – Concluo.
Coloco as roupas na mesa branca acolchoada que uso para os trocar, tomando cuidado para não esquecer de meias e luvinhas.
— Posso te ajudar – Diz, pegando duas toalhas felpudas brancas de cima do encosto, equilibrando Damon em um dos lados do corpo.
Sorrio em agradecimento, pegando de dentro da cômoda dois pares de luvas e dois pares de meias. Deposito-os junto aos macacões, retiro da prateleira em cima da mesa talco para bebês, fraldas e quando estou prestes a retirar as loções, ouço Morgana falar.
— Gostaria de conversar com você.
Com minha mão pairando no ar, viro-me para ela lentamente.
— Tenho medo de nossas conversas – Revelo, deparando-me com seu semblante sério.
Ela joga as duas toalhas sobre um dos ombros e balança Damon de um lado para outro, ninando-o suavemente.
— Uma vez te contei que Tom nascerá em Avalon – Começa, nenhum pouco abalada por minhas palavras – Você quis saber mais, só que eu adiei a história. Bom, chegou o momento de você saber, já que só mulheres deveriam entrar na ilha, mas Tom foi a única exceção, e por pouquíssimo tempo.
Balanço a cabeça em entendimento, lembrando-me que ela não falará mais sobre o assunto.
— Não abordei novamente o assunto porque julguei que você havia encontrado uma forma de burlar tal regra.
— De certa forma, encontrei uma forma – Morgana se torna misteriosamente interessada no papel de parede branco neve que recobre a parede atrás de mim – É engraçado como boas ações podem destruir pessoas – Ela para de balançar Damon.
Franzo a testa.
— Do que...?
— Só concordei com o pedido de Mérope em ver Thomas Riddle uma última vez, pouco antes de parir, porque julguei como sendo uma boa ação que eu poderia fazer por ela – Um sorriso triste aparece em seu rosto, assim como uma boa dose de arrependimento – Meu amargo engano, Hermione. Vê-lo bem, seguindo em frente sem ela, destruiu tudo o que trabalhei incansavelmente para curar, e isso foi minha culpa. Nem sempre o que julgamos como sendo bom para nós, realmente é.
— Você não sabia o que isso iria causar nela – Apresso-me em dizer – Não pode se responsabilizar por isso, Morgana.
Ela balança a cabeça, não aceitando minhas palavras.
— Você não sabe... – Vejo-a engolir em seco parecendo, pela primeira vez desde que à conheci, devastada – Vê-lo tão feliz, iniciando um novo romance e tentando apagar de sua vida qualquer vestígio da existência de Mérope, mato-a lentamente. Ela não comia, dormia ou bebia direito. Estava vivendo uma vida pela metade, apenas existindo em agonia.
É minha vez de engolir em seco, lembrando bem de sua imagem apática.
— Seu estado se tornou tão decadente, doentio, que nem teletransportá-la da ilha de forma segura eu podia – Revela, crispando os lábios – Tom nascer na ilha não foi uma decisão minha, e muito menos dela. Simplesmente era a única opção para que ele sobrevivesse. E, por este ato, ainda estou pagando o preço.
— Como assim?
— Tom ter nascido na ilha desequilibrou o ciclo estrutural de Avalon, corrompeu os princípios que a fundaram – Prossegue, voltando a balançar Damon de um lado para outro – Assim que Mérope pariu, Avalon tentou matá-lo.
Cambaleio para trás, olhos arregalados e boca entreaberta, perplexa.
— O que?
Morgana caminha até o berço, parando em frente à Alya, de costas para mim. Sigo-a de imediato, parando ao seu lado.
— Quando descobri que ela estava grávida, rezei para que fosse uma menina – Sua mão voa até o topo da cabeça do meu filho, acariciando seus fios pretos com carinho – Após descobri que meu maior medo se tornou realidade, busquei formas de aplaca os danos, mesmo ciente de que eu teria que tirá-la da ilha antes de ter o bebê.
Agarro a extremidade do berço, absolvendo suas palavras com avidez.
— Ver Thomas destruiu sua vontade de viver e, consequentemente, todas as suas forças – Seus olhos encaram Alya sem realmente vê-la, percebo – Por está fraca demais eu não podia tirá-la da ilha sem provocar um abordo nela – Sinto meu coração acelerar, enquanto reprimo a vontade de chorar mordendo meu lábio inferior – Tentei lhe dar um pouco de minha força vital para conseguir lhe tirar de lá em segurança. Mas, como punição, Avalon vetou meus esforços.
Merlin!
Ela volta-se para mim, fixando sua atenção em meu rosto.
— Avalon fez isso porque sabia que, sendo assim, Tom teria que morrer – Seus olhos demonstram sofrimento, angústia – Era um castigo mais do que satisfatório para mim e para Mérope. Uma foi sentimental demais e a outra, fraca demais – Ela não especifica quem foi o que, percebo – Quando percebi isso, sabia que não poderia deixar acontecer.
Ela se afasta, indo sentar-se na poltrona em que outrora jogou as toalhas. Morgana ajeita Damon em seu colo, vendo-o tentar brincar com suas madeixas soltas.
— Existe um ritual de ligamento muito antigo, mais antigo que a fundação de Hogwarts – Conta, tirando seus cabelos dos pequenos punhos cerrados dele – Foi criado por minha antecessora, por isso, foi difícil para mim achá-lo. Com esse ritual Mérope daria sua vida em prol da ilha, e como recompensa Tom viveria feliz e saudável.
— Ma-mas? – Gaguejo.
— Mas, Avalon matou Mérope antes que ela iniciasse sua parte no ritual, destruindo completamente qualquer possibilidade de Tom ficar na ilha e também de ter uma família – Existe tanto rancor em sua voz que é impossível não estremecer – Em um ato desesperado e emocional demais da minha parte, vinculei uma parte da ilha, a mesma parte que é vinculada a mim pelo juramento que fiz no passado de servi-la, à Tom. Isso não daria a ele a oportunidade de ficar, mas garantiria que ela não o matasse também.
Perco as forças nas pernas, chocada demais com todas as revelações.
— Meu Deus! – Exclamo, agarrando-me ao berço em busca de equilíbrio – Morgana, eu não... eu não sei... não sei o que dizer... Merlin!
— Não precisa dizer nada. Sei que o que fiz foi estúpido, mas não me arrependo – Diz, suspirando pesadamente.
— Você não tem do que se arrepender – Apresso-me em dizer, vendo-a pisca lentamente para mim, ansiosa – Tom era um bebê! Mérope era apenas uma mulher desesperada... Avalon foi injusta e cruel!
Um pequeno sorriso aparece em seu rosto.
— Você nunca me decepciona, Hermione – E com isso, se levanta da poltrona – Mas, você precisa entender o parâmetro geral da situação.
Ainda tem mais coisas? Oh Deus!
Fico em silencio, esperando as próximas bombas.
— Quando vinculei Tom à Avalon, eu não sabia o quão catastrófico isso seria – Continua, seria – Não imaginei que se Tom morresse, a parte de Avalon que vive nele também morreria e que com isso, o mundo magico seria desestabilizado. Tudo foi criado em perfeita harmonia, Hermione, qualquer mudança de rota provoca uma cadeia de acontecimentos irreparáveis – Seus lábios se unem com severidade. Damon solta um grunidinho impaciente, cansado de ficar quieto – Se a magia de Avalon que vive em Tom morrer, abortos nascerão aos montes em famílias de puros-sangues. Nascidos trouxas? Não existirão. Avalon? Ruirá aos poucos até que se alto consuma.
Engulo minha saliva com dificuldade, não percebendo as lágrimas que escorrem pelo meu rosto.
— Tom não pode morrer.
[...] Março de 1998 [...]
E cada segundo é uma tortura
Esse inferno vai acabar, então
Estou encontrando maneiras de deixar você ir
Amor, amor, não, eu não posso escapar
— Selena Gomez (The Heart Wants What It Wants)
Estou semiconsciente, deitada confortavelmente de lado, cercada pela quentura gostosa dos lençóis sobre meu corpo nu. Braços rodeiam minha cintura, me puxando para a muralha de músculos atrás de mim, descansando sua mão em meu ventre. Desperto com cada celular do meu corpo pegando fogo.
— Tom. – Gemo, sentindo seu pau se alojar entre minhas nádegas.
Estou completamente nua devido as nossas atividades físicas de ontem à noite, por isso, quando sua mão escorre para meu sexo, estremeço em excitação. Arrepio-me.
Com a palma da mão aberta sobre meu sexo, Tom acorda meu clitóris adormecido com toques quentes. Ele toca meu botão pulsante com o dedão e começa a massageá-lo com movimentos circulares lentos e precisos. Sinto meu corpo se enrijecer e se contorcer, causando ainda mais fricção entre seus dedos e minha vagina. Seu pau se desloca ainda mais para dentro, escorregando por minhas dobras úmidas, ficando alojado na repartição de minha bunda.
Tão duro e pulsante, penso em agonia.
Tom começa a fazer uma trilha de beijos pela minha nuca e clavícula, chupando ocasionalmente. Meus dedos dos pés se encolhem, jogo minha cabeça para trás, voltando a gemer seu nome. Descanso minha bochecha em seu ombro, inspirando seu cheiro almiscarado.
— Eu quero você. – Sussurra em meu ouvido, mordendo em seguida o lóbulo.
— Você já me têm.
Ele grunhe, faminto.
Sua mão abandona meu sexo, agarrando minha garganta em um aperto firme. No segundo seguinte, seus lábios estão sobre os meus famintos, exigentes. Sua língua vasculha cada recanto de minha boca, se enroscando avidamente na minha. Sinto uma espécie de vazio dentro de mim, ansiosa por mais contato.
Encerro nosso beijo, virando meu corpo completamente para ele. Passo meus braços em volta se seu pescoço, distribuindo beijos molhados por sua bochecha, pescoço e boca.
— Vou gozar muito em sua bucetinha apertada – Rosna, com um sorriso sacana aparecendo em seus lábios.
Coro violentamente.
Não espero um convite, jogo nossas cobertas para o lado e monto em seu pau. O choque que percorre meu corpo é imediato, partindo do encontro entre nossos sexos e percorrendo todo o meu corpo. Seu pênis duro produzem um contraste libidinoso com minha entrada encharcada.
Inclino minha bunda para cima, deslizando minha mão por entre nossos corpos. Ele enrijece quando o tomo com os dedos e o posiciono, ajustando seu membro grosso à minha abertura sedenta. O cheiro de tesão carrega o ar de umidade, uma mistura sedutora de feromônios que despertam todas as células do meu corpo. Minha pele está arrepiada, vermelha e alerta, e meus seios, inchados e sensíveis.
— Minha nossa, Hermione – Ele geme, perdendo o fôlego enquanto me abaixo sobre seu corpo.
Suas mãos voam até minha cintura, apertando minha carne com severidade. Fecho os olhos, respirando fundo. Minhas dobras se abrem conforme insiro Tom dentro de mim, centímetro por centímetro.
— Aaaahh!! – Gememos em uníssono quando estou completamente preenchida.
Sou capaz de sentir sua euforia, sei que ele está tão fora de si quanto eu.
— Você é tão apertadinha – Suas palavras saem abafadas, com um toque delicioso de agonia.
Ele vai um pouco além, penetrando ainda mais fundo. Inspiro uma grande lufada de ar, sentindo-me ligeiramente alargada. Meus primeiros movimentos são tímidos, apenas arrebitares de bunda sem muita coordenação, mas quando ganho confiança, deslizo para cima e para baixo com precisão, rebolando em seu pau com força.
Suor brota em nossa pele.
Deixo um grito abafado escapar quando ele sai e entra novamente em mim. A penetração é tão profunda que mal consigo suportar, forçando-me a me segurar em seu peitoral, tentando amenizar aquele inesperado toque de desconforto. Meu corpo, porém, não se importa com seu tamanho avantajado e movimentos brutos. Está estremecendo em torno dele, apertando-o, estremecendo à beira do orgasmo.
Minha nova posição inclinada, faz com que eu me abra ainda mais para ele, aceitando-o por inteiro dentro de mim. Tom solta diversos palavrões, tomado pelo prazer. Imediatamente, a temperatura do seu corpo sobe. Sinto seu tórax irradiando ondas de calor.
— Segure-se em meus ombros – Manda, a voz entrecortada.
— O que?
Ele senta-se comigo ainda rebolando em seu colo, não nos separando e não esperando uma resposta minha. Agarro seus ombros para me equilibrar, escutando-o suspirar entre dentes. Com cada uma das minhas pernas de um lado do seu corpo, completamente preenchida por ele, engasgo com minha própria saliva ao tentar engoli-la.
— Quero gozar assim, com você sentada em meu colo – Fala a guia de explicação.
Nossos olhos se encontram, e o prazer se espalha pelo ar com a familiar conexão que sempre nos ligou. É mais que tesão, é amor.
Sedenta por Tom, grudo minha boca à dele, agarrando com os dedos as raízes de seus cabelos úmidos de suor. Beijo-o e remexo meus quadris, cavalgando no ritmo dos movimentos circulares enlouquecedores de sua língua, sentindo meu orgasmo se construir ao redor de seu membro longo e grosso no meu ventre em ebulição.
Deixo que minha consciência seja absolvida pelo instinto primitivo e permito que meu corpo assuma o controle por completo. Não consigo pensar em mais nada além do desejo de foder, uma necessidade feroz de cavalgar em cima de seu pau até que toda a tensão causada por meu despertar abrupto se desfaça em um grande orgasmo.
— Como isso é bom – Suspiro, entregue a ele – Está sentindo? Ah, como é bom.
Usando ambas as mãos, Tom comando o ritmo, curvando-me em um ângulo que faz com que a cabeça de seu pau se esfregue no ponto mais sensível que há dentro de mim. Meu corpo endurece e eu começo a tremer, sentindo que irei gozar só de sentir suas estocadas precisas dentro de mim.
Ele agarra minha nuca quando o orgasmo explode dentro de mim, lançando espasmos de êxtase que se irradiam pelo meu corpo, fazendo-me estremece compulsivamente. Tom observa enquanto desmorono diante dele, mantendo meus olhos abertos apesar do meu desejo de fechá-los. Dominada pelo seu olhar, gemo e gozo ruidosamente, sentindo meu corpo se contorcer a cada pulsação de prazer.
— Caralho, caralho, caralho – Ele urra, batendo seus quadris nos meus, apertando-me ainda mais contra si, a fim de fazê-lo ir de encontro a suas estocadas punitivas.
Seus olhos estão arregalados de vontade, e seu belo rosto, contorcido pela brutal corrida em direção ao clímax.
— Hermione!
Ele goza emitindo um poderoso som de êxtase selvagem, uma libertação subida de energia que me deixa fascinada por sua ferocidade. Tom treme ao sentir o orgasmo percorrer seu corpo, aliviando a expressão de seu rosto por um instante e demonstrando uma inesperada vulnerabilidade.
Envolvo seu rosto com as mãos e junto meus lábios aos dele, tentando confortá-lo enquanto sua respiração agitada faz inchar minhas bochechas.
— Hermione. – Ele me envolve com seus braços e me aperta contra si, pressionando seu rosto úmido contra meu pescoço.
Retribuo ao seu abraço, fechando os olhos com força escutando as batidas descompensadas de seu coração se igualarem as minhas.
Eu sei como se sente. Entregue. Sem defesas.
Ficamos assim por um longo tempo, abraçados, absorvendo os tremores pós-orgasmo. Tom vira a cabeça e me beija suavemente, aplacando meus sentimentos exaltados com o carinho de sua língua na minha boca.
— Nossa! – Respiro fundo, abalada.
Seus lábios se curvam para cima.
— Pois é.
Sorrio, acariciando seu rosto corado.
— Amo você – Murmuro, nenhum pouco tímida.
Ele afasta os fios de cabelos úmidos de suar das minhas têmporas, percorrendo meu rosto com os dedos de maneira quase reverente.
— Eu também te amo – Sussurra baixinho, parecendo me confessar um segredo.
Presa em seus braços, cercada por nosso amor, eu me questiono: como é possível que alguém tão mal posso me fazer tão bem?
***
Esse é um conto de fadas moderno
Sem finais felizes, sem vento soprando em nossas velas
Mas não imagino minha vida sem
Os momentos de tirar o fôlego acabando comigo
— Selena Gomez (The Heart Wants What It Wants)
Borgin & Burkes é uma lojinha rustica, com um pequeno letreiro fixado na lateral da parede sul com seu título em letras uniformes. Em suas vitrines, é notável o grau de objetos que são vendidos ali, desde mãos em potes de vidros, até livros com aparências degradantes. Quando Harry mencionara no segundo ano que, por acidente, acabará estando ali, não me importei em me inteirar melhor sobre a loja. Mas, agora, arrependo-me disso.
Suspiro, munindo-me de coragem.
O tempo não está ao meu favor, mas tenho certeza que consigo.
Assim que passo pela porta, um sino é ouvido, indicando minha entrada. Vasculho o local, vendo armaduras enferrujadas nos cantos das paredes, potes com objetos estranhos dentro e alguns livros manchados com o que me parecia ser sangue.
Sinto meu estômago embrulhar.
A atmosfera do lugar é fúnebre, densa. Cheiros pungentes de poeira, sangue e poções conservantes impregnam o ar, fazendo-me retorcer meu nariz. As paredes são cinzentas e repletas de objetos estranhos: colares com ossos humanos, livros presos por correntes, taças lascadas, lanças e escudos enferrujadas. Uma variedade de objetos horripilantes.
Merlin, que lugar deprimente!
— Com licença, senhorita – Um homem magro de aparência suspeita e vestes negras me aborta, sorrindo macabramente para mim – Posso ajudá-la? – Seus olhos astutos me avaliam da cabeça aos pés.
Não sei qual aparência ele ver em mim, mas sei que não demonstra seu desagrado, o que é uma surpresa, já que todos que olham para mim e veem a versão feminina que menos lhe atraem sempre viram o rosto para o lado oposto e seguem reto.
Coisa de vendedor, deduzo.
— Ah, bom... – Pigarreio, cruzando minhas mãos à frente do meu corpo – Estou apenas de passagem, vim visitar um conhecido aqui em Hogsmeade e... Bom, me interessei pelos conteúdos expostos em sua vitrine. Entrei para dar uma olhada descompromissada.
Seus olhos brilham em interesse, farejando uma potência presa.
— Ah, deixe-me dizer que estou extremamente honrado em receber-lhe em minha loja, senhorita...?
— Bennet, Meghan Bennet.
Ele faz uma breve mensura cavaleiresca, um pouco duro demais. Seus olhos capturam meu anel de noivado, e logo seus modos ficam ainda mais formais.
— Bem-vinda, senhora, sou o sr. Borgin.
— É um prazer conhecê-lo.
Agarrando um pesado livro, um pouco empoeirado demais, ele prostra-se ao meu lado, adquirindo uma distância respeitosa. Lê-se “Como Transformar o Depois em Agora” na capa. Não posso deixar de achá-lo interessante.
— Fora muito usado antigamente para aliviar assuntos do coração – Explica, folheando suas páginas amareladas – Principalmente por mulheres como a senhora... Singulares.
Franzo a testa, demorando a entender suas palavras.
— Ah, não! – Rio sem graça, sentindo minhas bochechas pegarem fogo – Não estou à procura de artifícios para adiantar meu casamento. Estou segura de que meu noivo não irá fugir com outra – E volto a rir, uma risada anasalada e estranha.
Que conversa bizarra, não deixo de pensar.
Ele fecha o livro na mesma hora, jogando de qualquer jeito em um suporte de livros pregado na parede.
— Claro, claro, se a senhora diz... – Sua voz é uma mistura de ‘tanto faz’ com ‘pobre coitada’.
Oh meu Deus, ele acha que pela minha aparência ser desagradável aos seus olhos, estou desesperada para adiantar meu casamento. Isso é humilhante, reprimo um gemido sôfrego.
— Por favor, deixe-me lhe mostrar minhas mais recentes aquisições – Pede, esperando uma confirmação com seus olhos inquisidores.
Balanço a cabeça prontamente.
Ele some por entre as várias estantes, dando-me a oportunidade que desejo.
— Velox testimonii – Murmuro o feitiço, sentindo de imediato o chicoteamento do despertar céltico dentro de mim.
Concentro-me em absorver a energia do lugar, fechando os olhos e erguendo um escudo de filtração, onde capturo todos os tipos de magia negra, mas apenas correspondo à magia presente em uma única impressão.
Varinhas deixam impressões ao utilizarem feitiços, algumas impressões são mais fortes que outras, e isso depende exclusivamente do feitiço utilizado. Para minha felicidade, a varinha que procuro utiliza magia negra pesada, o que deixa um rastro muito específico e poderoso, que me norteia sem problema algum.
Travo a mandibular, deixando meu corpo ser guiado pelas diversas correntes magicas que atravessam meu escudo, vindas de todos os lados. É um mar revolto, mal consigo filtrar suas impurezas.
Suor brota em minha testa, mas não me permito fraquejar.
Quando meu corpo para de se movimentar, abro os olhos. Estou parada na extremidade oposta à porta de entrada, de frente para uma estante curva e abarrotada de caixas pequenas fechadas. Variando entre tamanhos e formatos, todas parecem abrigar joias.
Capturo um espaço vazio entre o amontoado de formatos. Onde antes deveria ter estado uma caixinha de colar, agora estava uma resta de poeira ao redor, deixando apenas o formato da caixa livre da sujeira.
— Aqui está você – Ouço o sr. Borgin falar, fazendo-me olhar para trás – Trouxe todas as minhas mais recentes compras. Tenho certeza de que algo aqui te agradará – Ele deposita uma grande caixa de papelão em cima do balcão, sorrindo predatoriamente – São peças únicas e extremamente valiosas.
Sem me importa com suas palavras, aponto para o espaço vazio entre as caixas.
— O que tinha aqui? – Pergunto sem rodeios.
Ele tomba a cabeça para o lado, intrigado.
— Você tem certeza de que nunca entrou aqui antes? – Pergunta, seus olhos analisando-me com atenção.
Ele não é estupido, mas não estou disposta a jogar conversa fora.
Dou de ombros.
— Nunca, mas já tive conhecidos que sim – Passo meus dedos pelo pó em volta da marca que ficará sem o objeto quadrado no lugar – Então, o que tinha aqui, sr. Borgin?
Ele vem até mim, parando ao meu lado.
— Um virá-tempo muito raro e poderoso – Começa, sem nem ao menos olhar para a estante de objetos. Totalmente fixado em mim – Diz a lenda que, por ser tão poderoso, sua fabricação foi proibida pelo Ministério da Magia e apenas um exemplar existe no mundo. Exemplar este que pode voltar décadas no passado.
Encaro o homem sem realmente vê-lo.
— Vendi-o há pouco mais de um mês, para um casalzinho muito simpático – O adjetivo é usado com desdém, claramente denunciando sua mentira.
Ele logo ri, deixando ainda mais evidente que seu sarcasmo foi proposital.
— Como eles se chamam?
— O nome dela eu não sei, mas ele se apresentou como Bartolomeu Morvik – Fala, afastando-se com rapidez até o balcão com a grande caixa – Mas, tenho certeza de que algo aqui em meus objetos, conseguirá prender seus pensamentos.
Aproximo-me dele, passos lentos e calculados, e cruzo os braços.
— Tenho certeza de que algo aí possa me interessar, mas eu realmente estou curiosa agora... Eu soube por alto que Morvik foi morto em sua casa, então... Não sei, talvez a mulher esteja interessada em vender o virá-tempo, já que perdeu seu marido.
Ele solta uma breve risada.
— Tenho certeza absoluta de que eles não eram casados, sra. Bennet, e ele até estava enfei... – Ele pigarreia, percebendo sua gafe – Bom, meus clientes são singulares.
Crispo meus lábios.
— Eu realmente gostaria de conhecer tal mulher – Insisto, tentando manter minha voz neutra – Me interessei por tal objeto, gostaria de tentar negociar com ela.
Ele balança a cabeça em negativa.
— Você não irá querer atravessar seu caminho – Garante, assumindo uma expressão séria.
— Você me disse que ela não se apresentou, mas falando assim parece que você a conhece muito bem, sr. Borgin – Sou direta, mostrando que não sou a moça estúpida que ele me julga ser.
Seus olhos brilham, mas ele fica calado.
Coloco minha mão no ar, palma para cima e, sem dizer uma palavra, um saco de tamanho médio cheio de galeões de ouro aparece. Seus olhos se arregalam, mas ele sorrir, um amplo e largo sorriso.
— Tem certeza de que deseja saber quem é ela? – Pergunta, agarrando o saco e abrindo-o para contar a pequena fortuna ali dentro.
Mudo o peso dos pés, sentindo a familiar pulsação da adrenalina em meus sangue se construir aos poucos.
— Sim, diga-me.
Seus olhos travam-se nos meus. Seu sorriso se torna doentio, dentes reluzindo diabolicamente para mim.
Prendo a respiração ao vê-lo se aproximar devagarinho. Ele para a meros centímetros de mim, deita a cabeça para a esquerda e coloca sua boca quase colada ao meu ouvido, sussurrando o nome da mulher com um leve toque de apreciação.
— Cadela maldita! – Exclamo, filtrando com lentidão todas as silabas que formam o nome da mulher.
Ele se afasta de mim com rapidez, rindo macabramente enquanto sacode o saco de moedas de um lado para outro, feliz.
Sem nenhuma troca de palavras à mais, teletransporto-me para longe do lugar com meu coração à galopes e uma estranha sede de sangue. Só um nome povoa meus pensamentos, o único nome que odeio pronunciar.
Bellatrix.
O coração quer o que ele quer
— Selena Gomez
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