Desire Obsolete
40 Despedida (Parte. 1)
Desperto com uma dor lancinante em minhas têmporas, como se alguém estivesse martelando pregos simultaneamente nos dois lados da minha cabeça.
Meu Merlin! Meu coração dispara, assustado.
Permaneço de olhos fechados, deixando minha mente absolver a dor antes de fazer algum movimento que pudesse piorá-la. O silêncio do ambiente me indica que ou dormi sozinha ou as meninas já saíram.
Que horas são? Pergunto-me meio grogue, entre uma pontada e outra de dor.
Abro meus olhos devagar, mas volto a fechá-los no mesmo instante, recebendo a claridade do quarto como uma facada em meu crânio.
O que...
As lembranças do dia anterior me abatem de uma vez só, em uma torrente de pensamentos avassaladores. Reprimo um soluço sôfrego, fechando as mãos em volta do tecido do lençol.
Tom...
Sinto meus olhos marejarem de imediato, minha garganta se enche de nós.
Não, sem mais lágrimas, por favor, imploro, esgotada demais para querer me afundar em desolação.
Respiro fundo uma, duas, três vezes, tentando controlar minhas emoções.
Isso tudo é tão errado, penso consternada, com o aperto em meu peito se intensificando.
Abro os olhos, sendo cegada pela claridade. Pisco várias vezes para me acostumar com a luminosidade, com a visão embaçada também pelas lágrimas acumuladas, que começam a escorrer assim que abro os olhos.
O quarto está claro e vazio, com as camas de Dorea e Lena arrumadas exatamente igual ao dia anterior. O relógio na parede marca 7:34 da manhã.
Levanto-me, cambaleando descalça até o banheiro. E mesmo sendo domingo, não aguento ficar deitada, sentindo meu corpo inquieto.
O piso gélido em contato com minha pele não me incomoda, o vazio em meu peito é doloroso o suficiente para quê eu não me importe com isso.
Fecho a porta de madeira vagarosamente, arrastando-me até a frente do espelho.
Encaro-me, entorpecida. Meu reflexo me saúda com olhos inchados, cabelos desgrenhados, uma palidez mórbida, pequenas manchas arroxeadas aonde Tom me apertou e uma camisola vestida ao avesso.
Curvo-me para frente, apoiando meu peso na pia com as mãos, não aguentando mais me olhar. Sinto as lágrimas escorrerem em abundância por meu rosto, molhando meu colo e camisola vestida ao contrário.
Oh, Deus! O que eu faço agora?
Cubro meu rosto com as mãos, minha respiração saindo ofegante e entrecortada pelos soluços e tremores. Apoio-me na parede oposta ao espelho e escorro até o chão.
Estou perdida, completamente perdida.
[...]
Encaro os parágrafos de palavras sem realmente vê-los, perdida em meus próprios pensamentos.
Você é tão burra, Hermione, mordo meu lábio inferior com força, por que tinha que se apaixonar por ele? Seria tão mais fácil apenas odiá-lo.
Limpo a lágrima que escorre por minha bochecha com a costa da mão direita, usando a esquerda para massagear meu peito no lugar onde meu coração bate descontrolado.
Menos de 24 horas desde o nosso término e eu estou surtando, sem conseguir me concentrar nas coisas ou parar de chorar. Ótimo!
Quero revirar meus olhos para minha estupidez, mas não tenho forças para isso, apenas piscando por entre as novas lágrimas que se acumulam.
— Herms? – A voz de Lena chega até mim como um ruído abafado, saio do meu transe no mesmo instante que percebo sua presença no quarto.
Desvio meus olhos do Pasquim para encarar a loira que acaba de entrar no quarto, ainda vestindo a deslumbrante fantasia de Halloween.
— Oi – É a única coisa que consigo dizer, a única que quero dizer.
Ela se move pelo quarto, alheia ao que a cerca. Suas mãos desmancham com maestria seu penteado, se livrando dos sapatos, e depois das joias.
— Você saiu correndo do baile, Dorea e eu ficamos preocupadas – Comenta, usando sua varinha para se livrar de sua maquiagem e vestido enquanto entra no banheiro.
Fecho os olhos, inspirando e expirando pela boca, lembrando que assim que cheguei em nosso quarto me livrei do meu vestido sujo de terra, enfiando-o de qualquer jeito no malão que veio comigo do futuro.
Gostaria que os meus problemas pudessem ser enfiados em um malão. Guardados e esquecidos.
Agarro o lençol e começo a retorce o tecido entre as mãos, tentando esconder meu nervosismo.
— Você está bem, Hermione? – Pergunta, ressurgindo do banheiro, parando aos pés da minha cama.
Estou? Não.
Encaro seu semblante preocupado, vendo sua boca suja de creme dental e seu pijama de flanela já colocado.
— Estou bem – Murmuro, encarando minhas mãos trêmulas.
— Você não parece bem – Fala, cautelosa.
Lena limpa a boca com as costas das mãos em um gesto atípico, caminhando até mim à passos lentos. Ela senta-se ao meu lado, estudando-me.
— O que aconteceu, Mi?
Balanço a cabeça em negativa, temendo abrir a boca e começar a chorar.
— É tão ruim assim?
Faço que sim com a cabeça, fechando os olhos.
Mesmo a dor de cabeça tendo passado, sinto-me letárgica, apática. Sem conseguir filtrar o que me cerca por estar suspensa em uma névoa de tristeza. Encosto minha cabeça em seu ombro, deixando o silêncio nos embalar.
Eu não sei o que fazer.
Sua mão envolve à minha afetuosamente.
— Quando você estiver pronta para falar, eu estarei aqui para ouvir – Diz, sincera.
Lágrimas enchem meus olhos. Apressadamente, afasto-me dela, lhe dando as costas para que não me veja desmoronar.
— Hermione...
Balanço a cabeça, não querendo ser consolada. Sinto meu rosto ser umedecido por minhas lágrimas.
— Por favor, Lena... Eu só... Só preciso ficar em silêncio por alguns minutos.
Envolvo meu corpo com os braços, apertando-me com força, tentando me manter firme.
— Tudo bem – Ouço-a se levantar da cama, colocando distância entre nós – Estou aqui para o que precisar, Hermione – Diz, suspirando logo em seguida – Hoje é domingo, então, podemos dormi até mais tarde e ainda é... Deixe-me ver... 10:23. Você já comeu?
Limpo meu rosto com as mãos, apagando os resquícios do meu descontrole.
— Não, estou sem fome.
— Você precisa comer – Declara.
— Eu realmente estou sem fome, Lena – Minha voz sai baixa, aguda – Tenho esse embrulho no estômago... Não consigo comer.
Quase posso vê-la cruzando os braços e arqueando a sobrancelha em discordância.
— Tudo bem – Diz por fim, após alguns segundos de silêncio – Mas, você descerá para o almoço.
Meneio a cabeça em concordância. Ela suspira.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, aonde os únicos sons existentes eram os das nossas respirações e de suas pisadas pelo chão.
— O que você estava lendo? É bom? – Pergunta, não querendo deixar o silêncio se prolongar ainda mais.
Capturou O Pasquim com as mãos, trazendo-o para meu colo. Acaricio sua capa com os dedos, quase podendo ouvir em minha mente a voz de Luna explicando o que são Zonzóbulos.
Engulo em seco.
— É uma revista que serve como uma voz alternativa para o mundo bruxo, – Começo, franzindo a testa, tentando lembrar sobre o que cada artigo é – Não consegui me concentrar direito e nem terminar a leitura, mas tem vários artigos sobre diferentes assuntos; criaturas mágicas que nunca ouvimos falar, discursões políticas, conspirações estranhas...
Ouço sua cama afundar quando a mesma se senta nela.
— Isso não me parece algo que você leria pra se distrair.
Um sorriso fraco se instala em meu rosto, feliz por ela me conhecer tão bem.
— E não é – Concordo, ampliando meu sorriso ao olhar para a revista em meu colo – Recebi essa revista há vários dias, mas não tive tempo para lê-la – Massageio minha testa, sentindo minha dor de cabeça voltar – Hoje eu quis me conectar à quem eu era... Achei que seria uma boa ideia ler ela, já que foi o pai de uma amiga quem escreveu.
— Sim, é claro – Sua voz sai condescendente – Bom, se você não se importar, eu gostaria de lê-la depois. Amo revistas estranhas.
Faço que sim com a cabeça, mas só para agrada-lhe. Mesmo não terminando a leitura, sei que muitos dos assuntos ali só surgirão e serão abordados no futuro. Lena não entenderia nada ali.
Abro a gaveta do meu criado mudo e coloco a revista ali, consciente que depois terei que devolvê-la para meu malão do futuro, junto das cartas que recebi dos meus pais e Harry.
— Eu te aviso quando terminar – Minto.
— Você é a melhor, Mi – Elogia, feliz.
Não, não sou. Meu coração sangra de pesar por mentir para ela.
— Veremos Dorea apenas a noite. Ela passará o dia com Charles, se escondendo de Pollux – Comenta, em uma clara tentativa de me manter concentrada nela – Mas assim que ela aparecer, teremos uma noite só de garotas. Só Merlin sabe quanto tempo faz que tivemos uma noite só nossa.
Permaneço quieta, apenas escutando a mesma começar à tagarelar sobre tudo que acontecera após minha saída do baile.
— ... E então, Septimus e alguns amigos apareceram completamente bêbados e confusos, rindo e badernando na festa. Dippet não ficou nada feliz, mas o professor Dumbledore os livrou de uma detenção certeira – Mesmo entorpecida pela tristeza, suas palavras aguçam minha curiosidade – E após isso, Dorea e Charlus sumiram, enquanto Evan e Abraxas reapareceram.
Chamo-a, que para de desdobrar seus lençóis para me dá atenção.
— Septimus e esses amigos... Eles estavam bem?
Minha pergunta a faz franzi a testa em confusão.
— Como assim?
— Eles aparentavam estarem machucados? – Sou direta.
— Não, claro que não. Só estavam alterados pelo álcool, com olhares vagos e esquisitos... Bêbados – Ela coloca uma mecha do cabelo atrás da orelha – Que pergunta estranha, Mi – Um sorriso se forma em seus lábios, mas não chega aos seus olhos – Você tem as perguntas mais inusitadas. É por isso que te adoro.
Sua preocupação comigo é visível pela forma como sua postura tensa se reflete em cada palavra que sai de sua boca, e com sua última afirmação, percebo como meu estado deve está deplorável para ela precisar verbalizar que gosta de mim.
— Tom e eu terminamos – Falo de supetão, mudando de assunto.
Dou de ombros, tentando parecer indiferente. Mas nada em meus olhos inchados e vermelhos e a palidez mórbida do meu rosto indica minha indiferença.
Seus olhos azuis celeste transbordam surpresa e preocupação.
— Eu imaginei que fosse por algo assim que você estivesse triste, mas não queria acreditar – Fala de mansinho, sentando-se novamente na minha cama – Eu sinto muito, de coração. O que posso fazer por você?
— Eu não quero mais chorar – Confesso baixinho, soando quebrada.
Inclinando a cabeça para trás, encaro o teto.
— Desde que sai do baile ontem, passei a noite toda chorando por ele, por mim, por nós – Continuo, não lhe dando espaço para falar, externando meus demônios em pura agonia – Não quero mais chorar. Não aguento mais me sufocar com toda essa tristeza, mas... Eu não sei o que fazer. Não sei como parar de pensar nele.
Seus braços me rodeiam em um abraço consolador, deixo-me ser embalada, não aguentando mais guardar minha dor pra mim.
— Eu estou aqui – Diz, apertando-me com mais força contra si – Você não está sozinha, Hermione. Eu estou aqui. Se apoie em mim, vamos superar isso juntas.
Suas palavras me desarmam, e mais uma vez, caio no choro compulsivamente.
[...]
Ironicamente, eu perdi um namorado e ganhei duas sombras, penso, vendo as garotas encararem as prateleiras de livros com desgosto e até certa raiva.
— Vocês não precisam me seguir para todos os lugares – Falo pela décima vez só nesta manhã – Eu estou bem. – Minto.
Como das outras nove vezes, elas apenas dão de ombros, ignorando-me.
Dorea agarra um livro sobre Trato de Criaturas Mágicas e começa a folheá-lo, fingindo prestar atenção em seu conteúdo. Lena permanece ao meu lado, observando cada movimento meu como um falcão de caça.
As duas se tornaram minhas guarda-costas mais leais, me seguindo para quase todos os lugares, não julgando ou questionando, apenas tentando me distrair. E mesmo após se passar uma semana do nosso término, Tom e eu não tentamos conversar, e fora nas aulas ou ocasionalmente nos corredores, mal nos víamos. Claramente, minha disposição à evitá-lo contribuía para isso.
Passei os primeiros três dias em um angustiante estado de alerta, olhando por trás do ombro a cada passo que dava, com medo de cruzar seu caminho. Medo de fraquejar, de cai aos prantos na sua frente como eu vinha fazendo todas as noites antes de adormecer.
— Alguém aqui está te procurando, Dorea – Sussurro, vendo Charlus se esgueirar mais ao longe, olhando para nós com expectativa.
A Black desvia sua atenção do livro e olha para onde aponto com a cabeça. Um brilhante sorriso desponta de seus lábios.
— Eu já volto – Garante, indo até o mesmo as pressas.
— Eles formam um belo casal – Lena fala, vendo comigo os dois saírem de mãos dadas da biblioteca após uma troca de sorrisos constrangidos.
Faço que sim, voltando-me para a prateleira a minha frente, tentando ignorar a guinada que meu coração deu ao ver a cena fofo compartilhada por eles.
— É uma pena que Pollux não aceite, ele está perdendo a Dorea – Falo, pegando um livro qualquer da prateleira e caminhando em direção a mesa mais ao canto do lugar – Corrigindo, é uma pena que a família Black não aceite. Pollux é só mais um entre milhares.
— É verdade – A loira concordo, sentando-se à minha frente – Minha família não é tão conservadora assim, apesar de que nenhum ancestral meu se casou com um nascido trouxa.
Apenas balanço a cabeça em concordância, não querendo me aprofundar no assunto.
Abro o livro em uma página qualquer, tentando forçar minha mente a se concentrar nas palavras ali escritas. Falho. Tento uma vez mais. Nada. Meus olhos percorrem as linhas, mas nada é filtrado por meu cérebro.
Grunho, fechando o livro com força, assustando Lena.
— Tudo bem, Herms?
— Sim.
Esfrego o rosto com as mãos e ponho mexas do meu cabelo atrás da orelha.
— Apenas estou com problemas de atenção – Complemento, vendo-a me encarar de forma esquisita.
— É compreensível – Seu tom apaziguador me enerva.
Dou de ombros, encarando as mesas vazias a nossa volta.
— Ah não! – Lena atrai minha atenção com sua exclamação exaltada.
Olho para onde a mesma encarava, vendo Abraxas e Evan virem em nossa direção.
Empertigo-me, trincando a mandíbula.
— Oi – Lena os comprimenta de forma nervosa, olhando de seu namorado para mim, tensa.
A verdade é que qualquer coisa que envolve Tom, principalmente seus amigos, reflete nelas a tensão que brota em mim.
Evan puxa a cadeira ao lado da dela e se senta, beijando sua bochecha com carinho, sorrindo em seguida pra mim de forma despreocupada. Ignoro-o.
Olho para Abraxas com desconfiança, que ainda se mantinha em pé, encarando-me.
Mesmo impecavelmente vestido e alinhado, percebo que seus olhos refletem a preocupação que seu rosto não demonstra.
Será que Tom pediu para ele vim falar comigo?
— Posso conversar com você, Hermione? – Pergunta após alguns segundos de um silêncio desconfortável.
Franzo a testa.
Nenhum dos aliados de Tom tentou qualquer aproximação comigo desde que os confrontei na Floresta Proibida. Mas desde que sai do meu quarto um dia após nosso término, sinto seus olhos sobre mim, observando todos os meus movimentos.
Há princípio pensei que era coisa da minha cabeça, no entanto, a sensação persistiu por vários dias a fio. E mesmo nunca os tendo flagrado me observando, em todos os lugares que vou um dos Comensais de Tom aparece magicamente. Coincidência? Acho que não.
— Tudo bem – Me ouço concordando, após mais uma vez o silêncio se instalar – Não precisa me esperar, Lena. Eu vou para nosso dormitório após conversar com Abraxas – Digo para ela, guardando o livro que peguei em minha bolsa – Por favor, avise a Dorea.
Ela acena, ainda me encarando com preocupação.
Sigo para fora da biblioteca sem me preocupar se Abraxas estar ou não me seguindo. Por ser bons centímetros maior do que eu, o mesmo não tem a menor dificuldade em me acompanhar. Lado a lado, caminhos por vários minutos em silêncio.
Tento não deixar minha mente divagar sobre as razões para ele querer conversar comigo, pois todas me levam ao motivo da minha desordem emocional. Tom.
— O que você quer? – Pergunto, virando a direita em um dos corredores do castelo, não aguentando a dúvida.
— Eu estou preocupado com Anelise – Confidencia baixinho, cruzando os braços – Ela anda me evitando, e todas as vezes que pergunto qual é o problema, muda de assunto e se afasta.
Tento não demonstrar minha decepção ao perceber que não fora Tom que o mandara vim falar comigo.
Diminuo o passo, deixando suas palavras serem filtradas por meu cérebro.
— Ela vem agindo assim à semanas, Abraxas – Mantenho minha voz baixa como a dele, não querendo atrair atenções indesejadas.
— Por que você não me falou isso? – Seu rosto demonstra uma visível irritação.
Reviro os olhos.
— Não pensei que você fosse tão lerdo para perceber o óbvio – Rebato, crispando os lábios – E, além do mais, eu tentei descobrir o motivo, mas ela não me contou.
Ele assente, suspirando.
Abraxas coloca as mãos nos bolsos frontais da calça, encarando o chão.
— Você realmente gosta dela, não é? – Pergunto de mansinho, arregalando um pouco os olhos ao reviver todos os momentos em que vi os dois juntos.
Seu relacionamento é tão discreto quanto o que eu tinha com Tom.
— Mais do que já gostei de qualquer outra garota – Confessa, passando a mão pelos cabelos – Estou preocupado, Hermione.
— Então é mais grave do que eu pensava – Comento, mordendo meu lábio inferior.
— Você poderia falar com ela? Tentar de novo? – Seus olhos buscam os meus em expectativa.
Mesmo não querendo ajudá-lo por estar chateada com o mesmo, minha preocupação por Anelise vence.
— Hoje a noite iremos nos reunir na biblioteca para estudarmos juntas – Revelo a contra gosto – Conversarei com ela novamente – Garanto.
Ele sorri.
— Obrigada, Hermione.
— Não me agradeça, não garanto descobrir nada.
— Você vai, eu sei que vai.
Reviro os olhos com sua aparente fé inabalável em mim.
— Posso te acompanhar até o salão comunal da Sonserina? – Pergunta polidamente quando nos aproximando das masmorras.
Dou de ombros, o que faz o mesmo tomar isso como um sim.
Permanecemos o resto do percurso em silêncio, perdidos em nossos próprios pensamentos.
— Ele sente sua falta – Fala de repente, assim que chegamos em frente a passagem para o salão comunal. Uma parede de pedra calcária.
Pisco, tentando processar suas palavras.
— Não que ele me fala isso, mas eu percebo – Continua, encarando-me com perspicácia – Tom sente sua falta, Hermione. Ele está apenas te dando espaço.
Meu coração dispara, e um frio na barriga indesejado aparece para me lembrar o quão facilmente afetada eu sou quando Tom está envolvido.
— Abraxas... – Não termino a fala, não sabendo o que dizer.
Ele muda o peso dos pés, olhando rapidamente ao nosso redor.
— Por que você não contou para ninguém sobre incidente na Floresta Proibida?
Sua pergunta me surpreende e irrita igualmente.
— Incidente? É assim que você chama? Espero que pensar assim te faça dormi melhor a noite – Sou ríspida e sarcástica, irritada com o pouco caso que suas palavras demonstram – Ninguém iria acreditar em mim de qualquer forma – Olho para longe dele, fixando-me na parede à nossa frente.
— Tem certeza que só foi por isso? Por que ninguém iria acreditar? – Ele é cauteloso nas palavras, mas também insinuativo.
Respiro fundo, a conversa não indo do jeito que eu esperava.
— Por qual outro motivo eu não falaria? Medo de vocês? Nunca – Tenho a força de espírito de ser firme em minhas palavras, em parte sendo verdadeira no que falo.
Ele balança a cabeça em negativa.
— Não, medo não. Mas você ama o Tom – Afirma, inclinando a cabeça para o lado, olhando-me malicioso – Acredito que ele sabe disso, e por isso, só pediu para ficarmos de olho em você, e não te obliviar como eu fiz com os sangues-ruins e o Weasley.
Fico tensa com suas palavras.
— Então você confirma que estão me seguindo? – Fecho a cara para ele, que sorri para mim em deleite.
— Seguindo? Não, apenas observando de longe, ocasionalmente.
— Como você não percebe que isso é ridículo?
— Todo cuidado hoje em dia é pouco, Herms – Fala, soltando uma breve risada – Eu senti falta das nossas conversas estranhas.
Coloco minhas mãos na cintura.
— Não estou me divertindo nenhum pouco com essa conversa.
— Eu estou – Rebate, cruzando novamente os braços – E muito.
Reviro os olhos, irritada, lançando-lhe adagas pelos olhos.
— Você é impossível – Falo.
Agora é sua vez de dá de ombros.
Decido não criticá-lo mais, sabendo que não iria adiantar de nada. Abraxas quando quer é mais irritando que Gnomos de Jardim.
Pronta para deixá-lo e ir para meu dormitório, abro a boca para falar a senha. Mas a parede cinzenta se desloca para a direita, surpreendendo-me, revelando um Riddle de cabelos molhados e uniforme perfeitamente alinhado, recém saído do banho e absurdamente lindo.
Ele para no lugar assim que me vê, surpreso. A má iluminação do lugar lhe confere uma aura de perigo.
— Hermione – Profere meu nome com lentidão, se demorando em cada sílaba.
Coro, engolindo um suspiro.
Como ele pode me seduzir só com a voz? Pergunto-me, meu sangue ferve em minhas veias, os nervos formigam.
— Tom – Odeio como minha voz sai baixa e rouca, frágil.
Pigarreio, desviando meus olhos dele para o pequeno túnel atrás de si, esperando que ele me dê passagem. O mesmo permanece imóvel, estudando-me, alheio a presença de Abraxas.
Fico ainda mais vermelha por termos plateia.
— Eu preciso entrar – Falo, voltando-me para ele. Grande erro.
Seus olhos me queimam, roubando o oxigênio dos meus pulmões com sua intensidade. Fico ligeiramente tonta.
Pisco uma, duas, três vezes, abobalhada.
Um lento e sensual sorriso lateral aparece em sua boca. Seus olhos se tornam suaves, e a intensidade dali perde um pouco a força com sua mudança de humor.
— Você me parece meio confusa, Hermione – Comenta afável – Está tudo bem?
Cretino.
— Estou perfeitamente bem – Me ouço falar, erguendo o queixo o mais altiva que consigo.
— Posso ver – Dispara, descendo os olhos lentamente por meu corpo.
Ai Merlin!
Olho para Abraxas, constrangida, só para encontrá-lo encarando-nos com claro divertimento.
Enrubesço, ajeitando os amassados inexistente em minha saia.
Tom ri, uma risada baixa e profunda, que reverbera por todo o meu corpo, atingindo lugares adormecidos há uma semana.
Mordo a parte de dentro da minha bochecha, tentando não ceder as suas visíveis provocações.
Seu cabelo úmido deixa gotículas de água escorrerem por seu pescoço, secando minha boca.
— Com licença – Consigo dizer, engolindo minha vontade de acariciar seus cabelos e secar seu corpo com minhas próprias mãos.
Tento passar pelo mesmo e entrar no salão comunal, mas seu corpo bloqueia parte da entrada. Minha única alternativa é força minha passagem, fazendo assim nossos corpos se roçarem.
Ele vira seu corpo para mim quando passo por ele, só para meus seios se esfregarem em seu peito.
Contenho um gemido de apreciação, sentindo meu corpo responder em contato com o seu. Já ele não contém, suspirando próximo ao meu ouvido de forma luxuriosa.
Arrepio-me da cabeça aos pés.
Quando passo por ele e atravesso a curta distância até o salão comunal da Sonserina, tenho certeza de três coisas: meu desejo por ele continuava absoluto, Tom acabara de flertar comigo e Abraxas se divertira horrores com nossa interação vergonhosa.
***
Retiro uma mecha de cabelo do rosto, fitando a corviniana à minha frente. Seus olhos fundos, palidez e respostas monossilábicas rivalizam com meu próprio estado de espírito.
Não conversamos direito desde o baile de Halloween, e por isso, creio que ela me escolhera para vim a biblioteca estudar. Uma alma destruída não é incomodada por outra.
— Você está bem? – Pergunto, quebrando o silêncio que se perpétua já há vários minutos.
Vejo seus dedos apertarem o pergaminho em suas mãos, mas ela não desgruda seus olhos dali. Ignorando-me.
— Anelise?
— Sim – Responde ríspida, após mais alguns segundos de silêncio.
Não me chateio com sua resposta defensiva. É algo comum e nosso primeiro instinto defensivo. Atacar para não ser atacado.
— Abraxas estar preocupado – Começo, tirando sua atenção dos pergaminhos.
Seus olhos azuis cristalinos me perscrutam acusadoramente. E quase posso escutar as engrenagens de seu cérebro formulando várias teorias mirabolantes em sua mente.
— Antes que você se chateie, eu não o procurei – Me apresso a continuar, sentindo sua tensão irradiar em ondas até mim – Ele veio até mim, está preocupado. Você o está afastando, é normalmente que ele queira saber o motivo.
Ela encolhe os ombros.
— Não a nada para falar, Hermione – Diz, por fim.
Pressiono meus lábios um contra o outro, ponderando se devo continuar insistindo. Seu sofrimento é visível, suas respostas defensivas, sua postura fechada. Ela não quer ser incomodada, isto é óbvio.
E forçá-la a falar não é algo que eu farei.
— Tudo bem você não querer falar a respeito comigo, eu entendo. Mas se não for à mim, por favor, fale com seu namorado. Abraxas está sofrendo, Anelise. Vocês dois estão, posso ver.
Ela larga o pergaminho na mesa e cobre o rosto com as mãos, chorando baixinho.
— Eu sinto muito. Não quis... – Me apresso em começar a me desculpar, consternada.
Ela me para, fazendo sinal com as mãos para que eu me cale. Obedeço.
Levanto-me da cadeira com o coração apertado, ajoelhando-me no chão ao seu lado em seguida. Coloco minha mão em seu antebraço, tentando lhe passar conforto.
— Eu não queria chorar hoje – Sussurra, limpando os olhos com as costas das mãos – Me desculpe.
— Você não tem do que se desculpar – Garanto, tranquilizadora – Estamos sozinha aqui, e por mim você pode chorar o quanto for necessário. Merlin sabe que estes dias foi só o que eu consegui fazer para me manter sã.
Ela funga baixinho.
— As vezes eu esqueço que você e o Tom terminaram. Ninguém comenta a respeito. Nem mesmo obcecada pelo Tom, Amanda McCreary – Diz, segurando minha mão – Sinto muito por isso, Hermione.
Balanço a cabeça em negativa.
— Não, não fique triste por mim. Eu não quero transformar nossa conversa em lamúrias minhas, quero que seja sobre você, e no que eu posso fazer para te ajudar. E poucas pessoas sabem do nosso rompimento. Não somos... Não éramos um casal expositivo — Apresso-me em corrigir meu erro.
Ela sorri minimamente.
— Sim, isto é verdade – Ela inclina a cabeça para o lado, avaliando-me – Vocês sempre foram muito discretos. É provavel que quase ninguém tenha percebido que vocês romperam.
— Sim. – Engulo o bile que se forma em minha garganta, sentindo meus olhos marejarem – Mas... – Respiro fundo, tentando afastar meus próprios fantasmas para longe da minha mente – Como posso te ajudar?
Ela suspira.
— Não existe uma fórmula mágica saudável que possa conserta um casamento fracassado, não é? – Seus olhos voltam a se encherem de lágrimas – Os meus pais estão se divorciando.
Arregalo os olhos em choque.
— Merlin! – Exclamo pasma.
Isso não é o que eu esperava.
— Eu não sei mais o que fazer – Diz, liberando às lágrimas – Já conversei com os dois, mas estão irredutíveis. E meu pai tem uma amante há mais de 2 anos. Ele contou-me por cartas seu desejo de morar com ela em nossa casa de veraneio na Itália. Minha mãe está devastada com isso, não consegue nem ao menos olhar para o meu pai sem querer matá-lo.
Engulo uma torrente de xingamentos, abraçando-a com força, tentando lhe transmitir força.
— Eu sinto muito, Anelise.
Ela retribui ao meu abraço, apoiando a cabeça em meu ombro e chorando na curvatura do meu pescoço. Seu corpo treme com a intensidade de seus soluços.
— Você não precisa se envergonhar disso – Falo, tentando encontrar palavras para confortá-la – Não é normal, mas não é o fim do mundo. Tenho certeza que Abraxas te apoiará. Ele te ama, Anelise. E eu estou aqui. Lena e Dorea também, podemos ser o seu suporte.
Ela se afasta de mim de repente, com o rosto vermelho e molhado. Volto a minha posição anterior, ajoelhada aos seu lado.
— Você não entende, Hermione – Sua voz sobe algumas oitavas, esganiçada – Não sei onde você foi criada, mas aqui no mundo bruxo os casais raramente se separam. É algo impensável, um absurdo. Honramos nossa votos acima de tudo. Eles definem nossa dignidade.
Respiro fundo antes de voltar a falar, tentando me manter calma e lógica.
— No mundo trouxa é assim também, votos matrimoniais são sagrados – Começo, segurando suas mãos trêmulas – Mas, também existe divórcio. É raro, mas é melhor uma vida solitária do que infeliz.
— Não, não, não – Ela balança a cabeça em desaprovação – Você não entende. Meu pai traiu a minha mãe, toda a minha família sabe. Nossos vizinhos sabem!
Vergonha, dor e raiva passam por seu rosto. Meu coração se compadece mais ainda de seu sofrimento.
— Eu não conheço sua mãe, mas sei que mulher nenhuma merece ser traída dessa forma – Afirmo calmamente, limpando suas lágrimas com meus dedos – Além do mais, não importa o que seus vizinhos ou familiares vão falar, eles não pagam suas contas, não vivem suas dores. Não têm o direito de opinar. E se o seu medo for perde Abraxas por isso, não se preocupe. Tenho certeza que ele continuará contigo. Ele não se importa com o fato dos seus pais estarem se divorciando.
Imprudente, eu estou sendo imprudente, constato de imediato. Não posso afirmar algo que não sei de certeza.
Mais lágrimas caem de seus olhos.
— Meu pai está se divorciando da minha mãe para se casar com uma nascida trouxa, Hermione – Declara, arrancando-me uma exclamação de surpresa – Sua amante é uma sangue-ruim. Você acha mesmo que a família Malfoy vai me aceitar? Que Abraxas vai se casar comigo depois que o escândalo vier a tona?
Deixo minhas mãos caírem ao lado do meu corpo, abismada demais para continuar limpando as novas lágrimas que surgiam de seus olhos.
Seus medos e receios se encaixam em minha mente como um quebra-cabeças.
Sua família não tem nada a oferecer aos Malfoy's além de uma linhagem pura, um nome livre de manchas. Mas agora com o escândalo que a separação de seus pais irá causar, da má reputação entre os sangues-puros conservadores que o pai dela está trazendo para à família ao escolher uma nascida trouxa ao invés de sua esposa, os Malfoy’s não aceitaram Anelise. Não aceitaram sua família desonrada.
— Eu sinto muito – Sussurro baixinho, desacreditada.
— Você entende agora, não é? – Sua voz sai rouca e quebrada – Se Abraxas se casar comigo eu vou ter que renegar o meu pai, porque os Malfoy's não o aceitaram. E se ele não se casar... Meu coração será partido ao meio para sempre.
Aceno, não confiando em mim mesma para falar. Puxo seu corpo para um abraço, não sabendo mais o que falar.
Abraxas não se importaria com o escândalo, a preocupação que ele demonstrou por ela é genuína. Contudo, seus pais não permitirão que ele leve o bom nome Malfoy à boca do povo se casando com alguém com conexão tão sujas. E por mais que eu sinta o amor verdadeiro deles, também sinto a prisão enclausurada à qual Abraxas nascerá. Preso para sempre à preconceitos arcaicos.
Como o único herdeiro do império Malfoy, ele nunca teve uma escolha, percebo intensificando meu aperto sobre Anelise. Se casar com Anelise é atesta contra os princípios de sua família. Algo que eu sei que ele nunca fará.
[...]
Volto para o salão comunal com o coração acelerado, sentindo meus músculos tensos e nervosos em ebulição. Preciso corrigir minha direção três vezes até conseguir chegar às masmorras, completamente alheia ao que me cerca.
Entro pela abertura na parede após falar a senha, encontrando o salão praticamente vazio se não fosse pelas únicas duas pessoas que eu não queria ver.
— Como foi? – Pergunto-me assim que apareço no salão da Sonserina, ansioso.
Tom desloca sua atenção da lareira para mim, atento. Evito olhar para ele, não querendo deixar meus sentimentos tão transparentes. Foco-me no Malfoy.
Abraxas se levanta da poltrona e vem em minha direção, agitando as mãos afoito.
— Como foi? O que ela disse? Qual o problema? – Me bombardeia, parando a minha frente e colocando as mãos na cintura, esperando minhas respostas.
Balanço a cabeça em negativa, perturbando-o.
— Isso é entre você e ela agora – Consigo dizer, beliscando a parte interna do meu pulso – Conversei com Anelise e ela concordou em te contar amanhã o que se passa – Revelo, passando por ele e me dirigindo à escadaria dos dormitórios femininos – Vou dormir.
— Hermione.
Paro, meu corpo reagindo ao timbre de seu comando.
— Sim?
Me viro para Tom lentamente, preparando meu cérebro para olhá-lo.
— Você está bem? – Pergunto, levantando-se da poltrona em frente a lareira.
Ele vem até mim, seus passos são felinos e rápidos, predatórios.
Cambaleio para trás até bater contra um dos pilares do ambiente, tentando colocar distância entre nós. Não adianta. Sou encurralada entre a parede e um Tom obstinado. Seu cheiro chega até mim como um bálsamo para meus conflitos internos, apagando todos os problemas da minha mente.
Isso não é bom.
Pressiono meu corpo ainda mais contra a parede, e evitando olhá-lo nos olhos fico na ponta dos pés para ver atrás de Tom, querendo pedir ajuda a Abraxas. Não tenho sorte, apenas pegos duas costas saindo do salão comunal. Deixando-nos a sós.
Então é assim que você me agradece? Seu babaca.
— Hermione? — Meu nome sai de sua boca roucamente, carregado de luxúria.
Engulo em seco, minha pulsação se acelerando.
— S-sim? – Gaguejo.
Chuto-me mentalmente por isso.
Ergue os olhos para encará-lo. Erro fatal. Tom estampa um sorriso lascivo, cheio de dentes e segundas intenções. Prendo a respiração para logo em seguida soltar.
Ele não está jogando limpo, constato afetada. Mas o que ele quer comigo?
— Você está bem? – Repete a pergunta, dessa vez à centímetros do meu rosto.
Fico vermelha.
— Si-sim.
— Tem certeza? Está vermelha e ofegante – Diz, se divertindo com a situação.
Mordo meu lábio inferior, tentando não cai em suas provocações. Ele segue meu ato com os olhos famintos, desmanchando o sorriso. Seu rosto se enuviam de desejo.
— Não faça isso – Rosna, aproximando ainda mais nossos rostos – Você sabe como me deixa quando faz isso – Imediatamente paro com meu tique.
Nossos narizes se encostam, solto a respiração devagar pela boca.
— Tom.
Ele escova seus lábios nos meus com lentidão, parando meu coração. Me arrepio toda, fechando os olhos instintivamente. Espero o beijo que não vem.
Sua risada é como um banho de água fria em meu desejo. Abro os olhos apenas para vê-lo se afastando, sorrindo de orelha a orelha.
— Boa noite, Hermione – Se despede, sumindo pelo corredor que o levaria até seu dormitório de monitor chefe.
Fico para trás, encarando o lugar onde antes ele estava parado. Petrificada.
“Em cada despedida existe a imagem da morte.”
— George Eliot
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