Desire Obsolete
36 Descontrole
Ligo a ducha e deixo a água quente escorrer por meu corpo, levando consigo os resquícios de sono que ainda restavam em mim. Meus cabelos grudam em minha testa e ombros como macarrão escorrido.
Fecho meus olhos, tentando relaxar sob a quentura bem-vinda, respirando com cautela pela boca para não engoli água.
Faltam apenas três dias para o Halloween, me lembro enquanto retiro a barra de sabonete de cima da prateleira de produtos de higiene. E não descobri nada sobre os planos de Tom.
Reprimo um gemido de frustração.
Segui-lo às cegas nesses últimos quatro dias não surtiu resultado algum,constato aborrecida, apertando a barra entre meus dedos. Sua rotina é comum. E nenhuma outra reunião secreta fora feita entre ele e seus comensais. Nada. Absolutamente nada fora do normal foi feito.
Esfrego meu corpo com o sabonete em mãos, criando uma camada cheirosa e branca sob minha pele; pescoço, braços, axilas, parte íntima, coxas, panturrilhas e pés, nada escapa. O cheiro de lavanda e verbena incensa o cômodo.
Volto a me por embaixo da água quente, retirando o sabão de meu corpo com rapidez.
Tenho apenas três dias para descobrir o que Tom planeja, constato com tristeza, enquanto limpo meus cabelos com meu shampoo de frutas vermelhas. Ou terei que improvisar no dia para atrapalhar seus planos.
Engulo o bile que se forma em minha garganta, sentindo meu coração aperta quando seu rosto angelical me vem à mente.
Dá adeus ao que temos não será fácil. E por mais que estejamos juntos a pouco tempo, ele se infiltrou em recantos do meu coração que eu não conhecia.
Fecho os olhos com força, tentando evitar chorar.
Tudo dará certo. Tem que dá! Não tenho tempo a perder.
[...]
— ...Então, desse modo podemos criar o feitiço “Noctambulo” e lançar o oponente em um transe profundo, aonde seus maiores sonhos e desejos o prende em tipo de looping temporal – Concluo, pragmática.
Coloco minhas anotações da noite anterior sobre a mesa, encarando Septimus.
Ele coça o queixo, pensativo.
A biblioteca a nossa volta está silenciosa, com poucos estudantes ocupando suas cadeiras. Pela grande janela ao meu lado direito posso vê o dia se esvaindo, com suas cores quentes se misturando com as frias da noite.
— Eu realmente achei sua ideia genial – Confessa, sincero. – E acredito que é exatamente isso que fará o professor nos dá uma nota excelente – Ele ri de modo divertido – Provavelmente, está será a maior e única nota excelente que tirarei em Feitiços – Um sorriso maroto se instala em seus lábios, enquanto o mesmo se perde em pensamentos.
— Mas?
Ele suspira, voltando a si.
— Esse feitiço é... Complicado – Diz, receoso – Não sei se consigo cria-lo. E pelo que você disse, é preciso um domínio excepcional em magia para isso.
Franzo a testa, não lembrando em que momento falei em domínio excepcional como forma de criar este feitiço.
Sorrio.
— Oras, é claro que você consegue – Começo, encorajadora – Já te vi duelando nas aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas, e você é muito bom. E não é tão complicado assim criar um feitiço como o nosso.
Ele cora, envergonhado.
— Você me observa duelar? – Seus olhos brilham em êxtase – Pensei que só... Deixa pra lá – Ele balança a cabeça, dissipando seus pensamentos.
Começo a recolher meus materiais da mesa, tentando ignorar seu olhar penetrante.
— Hermione?
— Sim?
Seu semblante é sério, com seus ombros curvados para frente e sua boca apertada em uma linha rígida.
— Eu... – Ele toma fôlego, mexendo suas mãos sem parar.
Prevendo suas palavras, me adianto.
— Tudo bem, Septimus. Eu não estou mais com raiva – Tento sorri, mas apenas acabo enrugando o nariz de modo estranho.
O mesmo passa as mãos pelos cabelos, suspirando.
— Você não precisa ser gentil comigo, Hermione – Fala, humilde – As coisas que te falei da última vez que nos vimos... Por mais que eu o odeie, não tenho o direito de me intrometer nas suas decisões, ou questiona-las. Eu realmente sinto muito – Ele cruza os dedos e repousa as mãos na mesa – Mas as vezes eu não consigo me controlar. Esse sentimento quente e borbulhante me cega. Acabo sempre falando a coisa errada.
Ciúmes, ele acabou de admitir indiretamente que tem ciúmes de mim. Oh Merlin! Como chegamos a esse ponto?
Escondo minhas mãos embaixo da mesa para que ele não me veja tremer.
— Septimus, eu... realmente não sei...
De súbito ele se levanta, olhando para além de mim com os dentes trincados e a mandíbula travada. Sigo seu olhar, encontrando Tom vindo em nossa direção.
Meu coração dispara, enquanto minha pulsação se acelera. Suas vestes da Sonserina estão impecavelmente alinhadas, assim como seus cabelos. Tom exala solidez e altivez em seu caminhar até nós, mas algo na dureza de seu olhar o tira dessa postura impenetrável.
Seus braços rodeiam minha cintura quando ele se põe ao meu lado. Sua clara demonstração de posse faz Septimus recuar um passo, evitando olhar para nós. Em um gesto atípico de Tom de quando estamos em público, ele beija minha bochecha.
Fecho a cara, incomodada com seu gesto provocador.
— Weasley – Cumprimenta ele, encarando Septimus com falsa cordialidade, enquanto seus dedos apertam meu quadril com força.
— Riddle – Devolve o cumprimento com frieza.
— O que você está fazendo aqui? – Pergunto, encarando seu rosto. Minha voz sai baixa e aguda.
— Estava te procurando – Diz, com sua atenção presa em Septimus, que fingia não notar – Temos a próxima aula juntos – Fala à guia de explicação, após alguns segundos em silêncio.
— E você não poderia me encontrar na sala de aula?
Seus olhos voam até mim.
— Poderia, mas eu não queria – Curto e direto, arrogante.
Estreito meus olhos, mas me controlo para não causar uma cena.
— Hum... Preciso resolver algumas coisas – Diz o ruivo atraindo nossa atenção para si. Ele encara as estantes de livros atrás de nós, com suas orelhas vermelhas como pimenta – Depois continuamos, Hermione – O mesmo apanha suas coisas na mesa com rapidez e dispara pra longe, ignorando minha mão estendida para me despedir.
Suspiro, deixando minha mão cair.
— Você não pode vim há onde estou e intimidar os meus amigos, Tom – Digo, colocando distância entre nós, tentando sufocar o mal estar que me abate.
Começo a recolher minhas coisas de cima da mesa, guardando minhas anotações com cuidado para não amassar.
Pobre, Septimus.
— Não entendo seu ciúmes – Disparo, me voltando para ele com minhas mãos ocupadas por penas e pergaminhos – Septimus e eu somos apenas amigos. E eu não deixarei de conversa com ele só porque você não gosta disso.
Sua língua estala em sua boca. O peso do seu corpo é trocado de pé, enquanto sua atenção se desvia de mim para a cadeira aonde antes Septimus sentou.
— Pelo que ele sente muito, Hermione? – Pergunta, sem cerimônia.
Meu cérebro leva alguns instantes para processar sua pergunta, mas quando o faz, engulo em seco.
— Você estava nos escutando? – Minha voz sobe algumas oitavas, fazendo o mesmo me lançar um olhar de advertência.
Tom se aproxima, toma de mim minhas penas e pergaminhos e guarda ele mesmo em minha bolsa, roçando seu corpo em mim.
— Eu irei perguntar apenas mais uma vez a você – Dispara, friamente próximo do meu corpo – Do que ele sente muito?
Seus olhos me queimam, irados.
— Não acho que isso seja da sua conta – Consigo dizer, tentando parecer impassível.
Seus olhos reviram nas orbes.
— Tudo que diz respeito a você é da minha conta – Rebate, segurando minha bolsa pela alça – Vamos conversar em outro lugar.
Ele segura minha mão com firmeza e, então, saímos da biblioteca sobe o olhar dos poucos alunos dali.
[...]
Existe apenas uma definição entre bem e mal que possa descrever com clareza Narcisa Malfoy.
Equilíbrio.
Sempre movida por amor, seja por sua família ou por seus ideais, a caçula dos Rosier Black’s se doa completamente ao que acredita. E mesmo tendo a balança de sua moralidade danificada pelos costumes tradicionalistas que lhe foram impostos, seu espírito puro e leal nunca foram corrompidos.
Criada para ser a filha perfeita que Bellatrix e Andrômeda não foram, a bela mulher reúne em si as melhores qualidades de suas irmãs, assim como uma personalidade refinada. Destemida como Andrômeda, forte como Bellatrix e leal como só ela pode ser, Narcisa é inigualável na sociedade em que vive.
E mesmo agora, parada em frente a imensa porta de carvalho com seu coração vacilando algumas batidas, sua lealdade em nenhum momento da para trás. Seja qual for o motivo que a levou à ser chamada ao escritório do Lord das Trevas naquele noite, os segredos familiares que guarda tão profundamente não escaparam de sua boca ou mente. Não hoje.
Hesitante, ela bate na porta. E espera.
Mas nenhuma resposta vem do outro lado, fazendo a bruxa franzi a testa e bater de novo, estranhando a demora. Mais alguns minutos se passam e nada.
Será que ele saiu? Se pergunta ela.
Após mais alguns segundos esperando, a mesma toma coragem e decide girar a maçaneta, surpreendendo-se pela porta está aberta e nenhum feitiço impedi-lhe de entrar. Sendo recebida pela quentura do lugar, logo percebe que se não fosse pela lareira acessa, nenhuma outra fonte de luz se encontraria presente ali.
— Milord? – Chama-o, apenas para receber o silêncio como resposta.
Ele não está aqui, constata, apertando os olhos para tentar enxerga melhor.
Sua mente cogita usar Lumos para iluminar sua visão, mas desiste logo ao lembrar que se a sala está escura é porque o Lord assim quis, e longe dela contrariar suas vontades. Principalmente, porque necessitava de sua boa vontade para ter seu marido de volta.
Suspira.
Olhando saudosamente para o local, Narcisa lembra-se da época em que outrora aquele escritório pertenceu a Lucius e sua entrada ali era de livre acesso.
Bons tempos, pensa, engolindo o gosto amargo que se forma em sua boca.
A mesma vira-se para sair, mas para ao ouvir um miado choroso vindo da parte mais escura da sala.
Não se contendo, a bruxa se aproxima de onde o miado vem, chegando até a grande mesa que mandara esculpir especialmente para o escritório do marido.
— Lumos – Murmura, iluminando o espaço a sua frente.
Preso em uma gaiola de tamanho médio, um gato alaranjado com cara amassada e grandes olhos amarelados arranhava suas grandes, irritado por sua prisão injusta. Seu rabo de leão agitava-se furioso por todas as direções.
— Um meio-amasso – Sussurra para si, encarando o gato com desconfiança – Você é o próximo jantar de Nagini? – Pergunta, recebendo um miado rancoroso como resposta.
Sentindo uma breve tristeza pelo infeliz fim do animal, a mesma suprime seu impulso de solta-lo.
— Eu sempre quis um amasso, sabia? – Fala, não entendendo muito bem o porquê de querer compartilhar isso com o felino – Mas como precisava de licença para sua criação e eles tem aparências não muito agradáveis, meus pais decidiram que não valia o esforço – Ela passa os dedos pelo metal das grades, sendo seguida atentamente pelo gato – Qual o seu nome, querido? Ou seria querida? — Um riso frouxo escapa de seus lábios, mas logo cessa.
Volta a suspirar, vendo o gato caminhar até a lateral da gaiola e miar, arranhando sem parar.
— Vamos, fique calmo. Se serve de consolo, Nagini não brinca com presas pequenas. Você morrerá rápido – Diz, usando seu tom mais animador, o que devido as circunstâncias do mamífero, não serve de nada.
Quando suas reclamações aumentam e suas garras começam a arranhar a superfície da mesa, Narcisa aproxima sua varinha do animal ameaçadoramente, que encantado com o brilho que emana de sua ponta, muda seu foco para tentar pega-la com as patas ligeiras.
Ela sorri, mas por um breve desviar de seus olhos, captura um pequeno porta retrato de madeira escondido por um livro grosso. Movida por curiosidade, a mesma retira o livro e pega o objeto.
Trazendo sua varinha para mais perto, deixando o meio-amasso desconsolado com o afastamento do ponto luminoso, a primeira coisa que lhe salta a vista na imagem é que é uma fotografia trouxa – não se move. Logo em seguida é a garota sentada na cadeira de balanço.
Com um livro aberto em seu colo e sorrindo para o gato alaranjado que estava sobe as duas patas traseiras pedindo sua atenção, ela é a personificação da serenidade.
Seus cabelos sempre revoltos, estão presos em um coque bagunçado, dando passe livre para a Malfoy olhá-la bem. O que não faz a menor diferença, já que Hermione Granger era alguém que Narcisa nunca teria dificuldade em reconhecer.
— Merlin! – Exclama ao perceber que o gato na gaiola é de sua sobrinha.
Justamente nesse instante as luzes são acessas e a figura imponente do ofidioglota toma a entrada da sala.
Não demora muito para Voldemort entender a situação a sua frente.
— Vejo que você está bisbilhotando minhas coisas, Narcisa – Fala friamente, adentrando o lugar e sendo seguido por sua fiel escudeira. Nagini.
Quando o baque da porta sendo fechada é ouvido, ela retoma o controle de si, coloca o porta retrato na mesa e reverência seu senhor com rapidez, quase caindo com a repentina perca de força nas pernas.
— Perdoe-me, Milord – Pede, curvando-se ainda mais para baixo – Eu não quis mexer em suas coisas. Eu só...
— Não se aguentou de curiosidade – Completa de modo irônico, fazendo o sangue da mulher gelar.
Caminhando até a poltrona perto do fogo, ele senta-se olhando para o gato, que lhe dá as costas, claramente ignorando-o.
Tem o gênio da dona, pensa, revirando seus olhos carmesim.
— Milord, eu peço...
— Cale-se – Ordena, fazendo a bruxa acatar sua ordem no mesmo instante.
Segundos passam e nada é dito. O crepitar do fogo aliado ao rastejar da cobra pelo chão são os únicos sons presentes no ambiente.
— Você já deve ter descoberto que o gato na gaiola pertence a Hermione – Diz roucamente, fazendo um corpo de whisky de fogo aparecer em sua mão direita – E se você bisbilhotar mais um pouco... – Ele para, fazendo suspense com suas próximas palavras – Descobrira que dentro do livro que você retirou para pegar o porta retrato tem um bilhete do seu filho alegando que ela estar no Instituto de Salem.
Naquele momento, não existia uma única celular do corpo da mulher que não estivesse congelada de pânico e temor.
— Mas eu sei que isso não é verdade – Fala, bebendo o líquido âmbar de uma só vez – E foi por isso que te chamei aqui – Ele se levanta, anda até sua bar particular e serve-se de mais whisky – Sei que você tem influência sobre Mabelle e Annette Salem, e que se especializaram para serem medibruxas juntas. Por isso, quero que você descubra para mim o porquê delas mentirem sobre isso. E se não cooperarem... Traga-a uma delas para mim.
Paralisada no lugar, a loira demora para processar as palavras de seu mestre, mas quando o faz seu coração afunda no peito.
— Você já pode sair – Diz ele, lançando-lhe um olhar impaciente.
Ela o reverência mais uma vez, seu corpo duro como uma rocha, recebendo a tensão que seu medo lhe causa.
Movendo-se com lentidão, ela caminha para fora da sala de cabeça baixa.
— Narcisa.
A mesma para com a mão na maçaneta, esperando de olhos fechados as próximas palavras dele.
— Se você voltar a mexer nas minhas coisas... Não acho que preciso terminar, não é? – A ameaça visível em sua fala não precisava ser terminada. É simples e objetiva. Se você voltar a mexer em minhas coisas, morre.
— Sim, Milord – Concorda, agarrando a maçaneta com mais força, sem se virar – Eu realmente sinto muito. Isso não voltará a se repetir. Com licença!
Ela se lança com rapidez para fora da sala, caminhando pelos corredores as cegas, apenas querendo colocar distância entre si e o bruxo a que serve.
Assim que chega ao seu quarto, tranca a porta e cambaleia até a parede mais próxima, tentando não vomitar quando o pânico a assola. Primeiro seu marido é mandado para Azkaban, depois seu filho recebe uma missão suicida, e agora suas amigas estão na mira do Lord por sua culpa. Tampando sua boca, ela abafa seu grito esganiçado.
Quando recebera de Draco à informação de que Hermione não cursaria o sexto ano lá, e sim em Salem, Narcisa deu graças aos céus por sua sobrinha ter acatado sua sugestão. Mas aos enviar uma carta de agradecimento à Mabelle por ter aceitado Hermione em seu Instituto, ficara horrorizada ao saber por ela que a garota não fora pra lá. E em uma réplica confusa, citara a carta que Salem enviou a Hogwarts.
No entanto, para a sua descrença total, a carta que Hogwarts recebera fora forjada por alguém. E Mabelle não tinha conhecimento disso. A bruxa americana ficara ultrajada e decidida a mandar uma carta para Hogwarts desmentido tudo. Mas Narcisa viu nessa situação a chance de tirar o foco de Voldemort da adolescente e manter o seu segredo e de Bellatrix à salvo, pois longe de Londres, a Granger não poderia ser encontrada. Então, decidira acatar a mentira que se espalhara, torcendo para que Hermione tivesse sumido de vez de suas vidas.
Convencer Mabelle a deixar a situação como estava foi difícil, mas a loira sempre soube dobrar suas amigas à sua vontade. E como promessa, Narcisa garantiu que nada se voltaria para elas. Mas agora, encostada na parede fria, respirando com dificuldade, ela soube que sua promessa se quebraria.
Lágrimas se formam em seus olhos ao perceber que condenara suas amigas a finais infelizes por um erro seu. E que quando o Lord descobrisse a verdade, seu filho pagaria por isso.
[...]
A não ser pelos pergaminhos jogados em cima da cama, seu quarto está impecável como sempre. E cheira bem, muito bem. Madeira, livros velhos, laranja, orvalho molhado e morango (sendo este último um cheiro que eu impregnei em seus lençóis).
— Vamos, diga-me o que aquele traidor do sangue quis dizer ao seu desculpar – Ordena, fechando a porta – E não minta para mim, porque sei que era de nós que ele se referia – Uma risada rouca e sarcástica sai de sua boca – “Por mais que eu o odeie...” – Tom tenta imitar a voz de Septimus, se derramando em nojo – É até irônico termos isso em comum... Ele quer você – Diz com os dentes trincados, andando inquieto pelo quarto.
Fecho os olhos, concentrando-me em suas pisadas pelo chão.
— Como ele ousa insinuar que sente ciúmes de você? – Pergunta-se em voz alta – Você é minha.
— Eu não sou sua posse, Tom – Digo, controlando-me – Você não manda em mim. E Septimus e eu somos amigos. Ele apenas expressou sua opinião sobre nosso relacionamento.
— Claramente, ele quer ser mais que seu amigo – Rebate, friamente – E se ele anda te envenenando contra mim, eu quero saber – Suas mãos despenteiam seus cabelos – Então, quais opiniões não solicitadas, ele tem sobre nós?
Viro-me para olhar em seus olhos. A intensidade que o mesmo exala abafa o quarto.
Algo mudou entre nós após nossa discussão. E não só o sexo ficou mais intenso, como também sua personalidade volúvel se descontrolou. Ele passa de um cara gentil e carinhoso para um homem controlador e possessivo em segundos. As amarras que o seguravam não o impedem mais de me mostrar seu lado descontrolado.
E mesmo nunca tendo sido agressivo comigo, suas ações se tornaram menos cordiais em relação aos outros. Segui-lo deixou isso bem claras para mim inúmeras vezes.
— Tom, por favor! – Minha voz sai cansada, mas firme.
Ele se aproxima de mim e segura meu rosto, olhando-me com determinação.
— Você odeia quando Amanda se aproxima de mim – Diz, sorrindo de lado – Então não haja como se em nossa relação só eu sentisse ciúmes.
— Uma coisa não tem nada haver com a outra – Disparo, me afastando de suas mãos.
— Não?
Balança a cabeça freneticamente, fechando as mãos em punho.
— Eu nunca dormi com Septimus, já você com ela... – Trinco meus dentes.
Ele cruza os braços, divertido.
— Você parece andar bem informada da minha vida sexual, querida.
Abro a boca para replicar, mas decido ficar calada, não querendo dar munição a ele para se aprofundar nessa história.
— Não gosto de te ver com o traidor do sangue – Diz, suspirando – Ele te contamina com as imundícies dele.
Bufo.
— Pelo amor de Deus! O nome dele é Septimus e não traidor do sangue – Brado, irritada – Pare de julgar as pessoas pelo seu sangue ou por quem elas se relacionam, Tom.
Seus olhos se estreitam em fendas, enquanto sua boca se aperta em uma linha rígida.
— O mundo bruxo pertence aos dignos da magia, Hermione – Fala, aproximando-se – Sangues-ruins e traidores do sangue são manchas na nossa história.
— Não, Tom – Sussurro, tentando não demonstrar o quanto suas palavras me machucaram – Isso não é verdade, a magia é para todos. E é incontrolável.
Ele se aproxima ainda mais de mim, dessa vez sorrindo.
— Sangue-ruins não merecem compartilhar da nossa magia. Não merecem estar entre nós. Eles são a escória, Hermione – Indaga para mim, enquanto seus dedos traçam um caminho sedutor do meu ombro até minha mão, aonde entrelaça nossos dedos. O calor de sua mão em contraste com a minha gélida me faz arrepiar.
O então azul profundo de seus olhos, olhando-me maliciosamente envia uma poderosa dose de excitação para o meu corpo. Uma nuvem de desejo ameaça tirar meu foco.
Afasto-me dele, indo para a outra extremidade do dormitório ficando de costas para o mesmo. Eu preciso ser forte e alto consciente de tudo a minha volta. Muitas vezes ficar perto dele me tira a concentração e a lógica. Faz surgir em mim instintos que eu pensei nunca ter.
Encaro sem realmente vê a pequena bagunça de pergaminhos em cima da sua cama impecável. Uma efêmera bagunça em meio a sua ordem absoluta. Sempre tão meticuloso e controlador.
— O que você prega não é certo. Essa escória que você abomina são pessoas, crianças inocentes que não tem culpa de ter, de acordo com você; “nascido com o privilégio da magia que não mereciam.” – Rebato, citando a odiosa frase que havia me dito há algum tempo. – Você também me acha escória, Tom? O que eu sou para você? Não minta pra mim, eu saberei. – Concluo em um sussurro.
Viro-me para encará-lo nos olhos. Ele estava parado no mesmo lugar, encarando o chão. Seu semblante me dizia mais do que eu gostaria de saber. Ele estava pensando, articulando suas ideias para contrariar, sem realmente entrar em uma briga, tudo o que eu havia dito. Desde que começamos a namorar era quase sempre assim.
Quando ele volta a me encara, vários segundos haviam se passado. Seu corpo assume uma postura altiva e ele me dá aquele olhar de superioridade que tanto me enraivece. Antes mesmo dele começar a falar, eu sei que tudo o que sairá de sua boca são palavras vindas do Lord das Trevas. Persona que ele não mais tentava esconder de mim.
— Não seja boba, Hermione – Começa, sorrindo com candura – Você pode não estar familiarizada ainda com sua verdadeira linhagem, mas você não é uma sangue-ruim – Ele passa a língua pelos lábios rosados, me fazendo perder um pouco meu foco – Nada em seu corpo pertence a escória. Nada – Ele faz uma pequena pausa escolhendo as próximas palavras – E você é tudo para mim.
Meu corpo reage automaticamente a suas palavras. Meu coração dispara, minhas pernas tremem e meus pensamentos se esvaem.
— O que?
Ele se aproxima de mim, volta a pegar meu rosto em suas mãos e prende meus olhos aos seus.
— Você é tudo pra mim – Fala pausadamente, dando ênfase em cada palavra.
— Tom...
Ele me beija, arrancando o pouco de sanidade que ainda me resta.
“Quanto ao amor e o ódio, os riscos são os mesmos, se intensificar até que se torne doentio.”
— Murillo Leal
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