Desire Obsolete
12 Briga
Notas iniciais
O resto da minha noite, após a breve discursão com Pollux Black, transcorre na mais perfeita paz. Dorea, com sua doçura e suavidade, passou o resto do jantar me pedindo mil e umas desculpas, às quais eu, categoricamente, lhe disse que não era sua culpa, então, não havia motivo para ela se desculpar. Após isso, o assunto é abandonado.
Voltamos ao dormitório, aonde conversamos até tarde da noite sobre futilidades, e então dormimos.
Pego no sono quase instantaneamente, após deitar minha cabeça no travesseiro.
“A explosão de cores a minha volta me entorpece, o verde se mescla com o azul, o amarelo contrasta com o branco, rosa e violeta parecem disputar por espaço, enquanto o marrom do solo resguarda todas aquelas belezas.
Ternura!
Estou cercada por uma infinidade de cores que vibram à minha volta. Descalça em um encantador campo florido, sinto o vento morno da manhã acariciar minha pele. Me sinto em paz, como jamais me senti antes.
Problemas, aflições, medos, dores; nada disso existe ali, é só calmaria, silêncio e paz.
Amor!
O cheiro de flores, grama e orvalho contrastam com os sons que me cercam; água corrente batendo contra pedras, pássaros alçando voo das árvores, abelhas zumbindo a procura de pólen. Tudo tão singular, tão calmo.
Liberdade!
Todo o meu corpo parece flutuar, quase pairando sobre a terra fofinha e acolhedora. Fecho os olhos e encho meus pulmões com o cheiro adocicado das diversas flores.
Quando volto a abri-los, não estou mais no campo florido, agora me encontro à uma curta distância de uma pequena casinha feita toda em madeira.
Sorrio, contemplando a modesta estrutura, que mais me parece uma casa na árvore que qualquer outra coisa. O cenário a minha volta é verdejante, com árvores altas e bonitas e uma linda passarela ligando a casinha ao resto da floresta. Tudo em perfeita harmonia.
O barulho das ondas batendo contra rochas e o cheiro salgado do mar me indicam que próximo ali há uma praia.
Rindo como uma criança travessa, me ponho a correr de encontro à casa, sabendo que é o certo a fazer, que é onde eu devo estar. Meu longo vestido branco agita-se à minha volta, respondendo aos comandos do vento fraco que sopra.
‘Aqui é o paraíso?' Pergunto-me, intimamente desejando que sim.”
[...]
No dia seguinte, acordo me sentindo descansada, com meu corpo leve e sereno.
Novo dia, novas oportunidades, penso, encorajadora.
Levanto-me primeiro que Dorea e Lena e, então, tomo meu banho preguiçosamente, refletindo sobre o que sonhei naquela madrugada. A água morna lava os rastros de sono que ficam em meu corpo, me despertando por completo.
Que sonho estranho! Esforço-me para relembrar ele, mas aos poucos o mesmo se perde em minha mente.
Visto-me com rapidez, colocando o uniforme da Sonserina e prendendo meu cabelo em um rabo de cavalo.
Volto para o quarto, percebendo que as garotas ainda dormem profundamente.
Vou até minha cama, arrumo-a com esmero e então abro minha bolsinha lateral — que fica dentro do criado muda ao lado da minha cama. Tiro meu outro malão de lá de dentro, o que viera comigo do futuro.
Lanço o contra-feitiço para fazê-lo voltar ao tamanho real e abro, procurando por minhas penas e cadernos de anotações. Dumbledore me providenciou os livros e objetos que eu preciso para as aulas dessa época, mas objetos mais simples como pena, caderno e tinteiro eu disse que não precisava, afinal, eu já os tinha. Retiro tudo de lá e coloco na bolsa marrom que eu usaria para guarda meus materiais.
— Você tem dois malões? – Pergunta uma Lena sonolenta.
Sorrio para ela, vendo-a esfregar seus olhos para desperta melhor.
— Tenho sim – Respondo, fechando e encolhendo-o, para em seguida guardar. Devolvo minha bolsinha para a gaveta e silenciosamente reforço as proteções que coloquei ali – Bom dia!
Eu sei que elas nunca iriam mexer em minhas coisas sem permissão, mas eu não posso arriscar que por algum descuido meu aquele acessório, com meus pertences do futuro, caísse em mãos erradas.
— Bom dia! – Ela sorri pra mim.
Suas madeixas loiras formam um emaranhado de mexas selvagens, mas bem alinhadas.
Algo que nunca vou ter é cabelos bem comportados, penso, pegando minha bolsa para sair.
— Você já vai descer? Está tão cedo... – Diz ela, sentando-se na cama.
— Eu nunca fui de dormi muito – Confesso, envergonhada – E eu gostaria de passar na biblioteca antes de ir para a aula – Ela faz que sim com a cabeça, ainda sonolenta – Nos vemos na aula daqui a 52 minutos?
Confirmando com a cabeça, ela volta a se deitar, claramente, querendo se entregar ao sono.
— Vou dormir mais um pouquinho... Até daqui a pouco, Herms – Murmura, já pegando no sono.
Herms... Sinto meu coração se aperta, fora Gina e meus pais, ocasionalmente, ninguém mais me chamava assim.
Saio do quarto antes de dar vazão ao meus sentimentos e começar a chorar. Passo por um salão comunal quase deserto sem prestar atenção em quem estava ali.
Rumo para fora das masmorras depressa, passando por alguns sonserinos no caminho. Ignoro-os e percebo que eles fazem o mesmo.
A biblioteca está vazia, a não ser por Madame Lucinda que se encontra devolvendo alguns livros para suas prateleiras.
— Oh, bom dia, Hermione! – Ela sorri pra mim, calorosa – Posso te chamar de Hermione, não é?
— Bom dia, madame Lucinda! É claro que você pode me chamar de Hermione – Analiso um pouco a mulher a minha frente, vendo uma sinceridade absoluta em sua saudação amorosa – Meus amigos me chamam de Mione ou Herms, caso a senhora ache Hermione muito grande.
Sinto um aperto no peito ao lembrar dos garotos.
Saudade!
Seus olhos brilham em contentamento.
— Mione é um apelido lindo – Fala, ajeitando seus óculos no nariz.
Sorrio em resposta.
Me aproximo dela, cautelosa.
— Eu preciso pegar um livro na Seção Restrita – Informo, retirando do bolso do uniforme o pequeno papel encantado contendo minha permissão dada por Dumbledore.
Ela assume uma postura seria, formal. Então, pega o papel das minhas mãos quando lhe ofereço e lê. A mulher a minha frente sorri e faz um sinal com as mãos para que eu lhe acompanhe.
Sigo a mesma por dentre as estantes, chegando a uma a área restrita, cercada por uma corrente grossa prendida por um cadeado enfeitiçado.
Lucinda retira uma pequena chave do bolso de suas vestes e abre o cadeado, me dando passagem.
— O livro que procura está na estante à frente – Diz, se afastando – Fique a vontade! E precisando, é só me chamar – Ela vai embora sem dizer mais nada.
Caminho até onde ela me indicou que fica o livro que eu quero. Não demoro a achá-lo. Me detenho um pouco em sua capa de couro grossa, encarando seu título com curiosidade, “Artefatos das Trevas”.
Suspirando, começo a ler.
[...]
Sento-me ao lado de Dorea na sala de poções, com Lena sentada à nossa frente tagarelando sobre Evan Rosier, sua paixão platônica.
É engraçado pensar que eu estiu cercada por parentes e que indiretamente ou diretamente, eles influenciam meu dia-a-dia.
O Rosier em questão, esta sentado ao lado de Pollux no fundo da sala, enquanto Tom e Abraxas estão na primeira fila, conversando entre sussurros. Vez ou outra me sinto sendo observada, mas não consigo diferenciar se é pelo Black ou por Riddle, dois fortes desafetos que eu fiz em menos de dois dias.
Não tinha como você ser mais rápida para fazer inimigos, Hermione. Bravo! Ironizo, mentalmente.
A primeira aula do dia é em conjunto com a Corvinal, tendo Horácio Slughorn como educador. Eu estou ansiosa para ver sua interação com o herdeiro de Salazar, seu protegido, de acordo com informações que Dumbledore me deu no futuro.
Slughorn entra na sala dando um sonoro "bom dia, turma", então se posta no centro da sala.
— Hoje iremos iniciar um novo assunto – Fala, sorridente – Por favor, abram o livro na página 132.
Faço o que ele pede, então volto a encarar o mesmo, que remexe em seus bolsos frenético. Ele sorri quando encontra o que procura e coloca um pequeno vidrinho com um líquido transparente em cima da mesa.
— Alguém sabe o que é isso? – Pergunta, apontando para o frasquinho na mesa. Seu olhar vai direto para Tom, que não decepciona, levantando a mão quase de imediato.
Levanto minha mão, quase por reflexo.
Velhos hábitos nunca morrem, penso, entristecida por me lembrar de como é bom está ao lado de Rony e Harry nas aulas de poção com o Snape.
— Ora, minha jovem, você é a famosa Hermione Granger, a aluna transferida de Salem? – Pergunta ele, atraindo a atenção de todos para mim.
Famosa? Franzo a testa, me arrependendo de ter levantado minha mão. Sinto o descontentamento mal contido de Riddle gelar meus ossos. Ele me lança olhares enviesados.
— Hum... Sou sim, professor – Sorrio sem graça.
— Ótimo, é um grande prazer para mim receber alunos novos. A empolgação do primeiro contato... Ah, jovens mentes brilhantes com tanto potencial... – Ele se interrompe, olhando de esgueirou para Tom, que me encara sério – Por favor, responda-me o que está naquele frasco, senhorita.
— Aquela é uma poção Veritaserum, senhor.
Ele se aproxima a passos rápidos de onde estou.
— Muito bem! E a senhorita saberia nos dizer o quê sobre ela?
Algo me diz que ele está medindo meu nível de conhecimento, para então me classificar. Digna ou não...?
— É uma poção incolor e inodora que obriga quem a bebe a dizer somente a verdade. Leva um mês para ficar pronta e... – Paro, tentando lembrar mais informações – Não é infalível, tem contra feitiços e outras poções que podem inutilizar seus efeitos. Por isso, ela não é usada pelo Ministério da Magia para interrogar prisioneiros.
Ele aplaude, felicíssimo.
— Excelente, senhorita Granger – Sua voz demonstra excitação e contentamento – Vejo que a Sonserina ganhou mais uma mente brilhante... – Comenta, baixinho.
Faço uma breve careta, mas contraio meus lábios em um sorriso falso.
— Muito bem, alguém saberia me dizer qual feitiço poderia ser usado para inutilizar a Veritaserum? – Ele se põe a caminhar pela sala.
Tom levanta a mão, encarando-me irritado. Slughorn, rapidamente, vai para o lado dele.
Dou de ombros.
Eu sabia a resposta, mas não queria atrair ainda mais atenção para mim. Deixaria para confrontar Riddle em outro momento.
Lena me lança um “muito bem, Hermione” e Dorea sorri largamente para mim.
[...]
— De onde você tira tanta inteligência, Hermione? – Me pergunta, Lena, após sairmos da nossa última aula matinal, que fora de Herbologia.
Dorea saiu nessa última aula para outra sala, para ter aula de adivinhação, uma matéria que eu simplesmente não suporto.
— Riddle terá que trabalhar muito para se manter como o queridinho dos professores – Afirma ela, animada.
Mesmo querendo não atrair atenção para mim, não consigo me aquietar quando os professores fazem perguntas. Com isso, as aulas estão se transformando em uma verdadeira batalha por espaço entre Tom e eu. Mas, intimamente, para mim está sendo emocionante ter alguém com quem disputar conhecimento, mesmo que eu nunca vá admitir isso em voz alta.
— Eu apenas leio muito e... Sinceramente, não estou interessada em ser a queridinha dos professores – Digo, despreocupada.
— Mas, bem que você poderia... – Sussurra, conspiratória.
Antes que eu possa falar qualquer coisa, uma algazarra estrondosa se forma a nossa volta, com gritaria e empurra-empurra.
— Oh, Deus! – Exclamo, ao ser empurrada para frente, me separando de Lena, que grita meu nome desesperada.
— Parem de empurrar! – Reclamo, irritada, tentando andar contra a maré de pessoas, sair do turbilhão de corpos que correm e me empurram.
— Briga! Briga! Briga! Briga — Entoam as vozes dos alunos desordeiros, em um claro incentivo.
— Briga? O quê... O quê está acontecendo? – Pergunto, preocupada, tentando me equilibrar na pequena multidão de alunos desenfreados.
Ninguém me responde, apenas continuam sedentos para se aproximar do que percebo ser o centro de toda a comoção. Não consigo fincar meus pés e parar de ser levada pela pessoas. Quando dou por mim, estou quase no centro da briga.
Olho para a cena a minha frente, horrorizada.
Pollux estava com a varinha no pescoço de Charlus, imprensando o garoto na parede, enquanto Dorea chora implorando para o irmão soltá-lo. Seu rosto está retorcido em preocupação e medo, com lágrimas grossas banhando seu rosto bonito.
Empurro os alunos que estão na minha frente, querendo chegar até ela para lhe amparar e tirar a mesma do fogo cruzado.
— Quem você pensa que é? – Rosna, Pollux, apertando ainda mais o braço em torno do pescoço de Charlus, que solta uma exclamação estrangulada – Eu não vou mais te avisar, traidor do sangue... Fique longe da minha irmã!
— Solte-o, Pollux, por favor! – Implora, soluçando – Não o machuque... Eu te imploro, meu irmão!
— Não se meta, Dorea – Ordena, raivoso — Eu ainda não posso acreditar no que vi... — Sua voz sai repleta de incredulidade e nojo.
Quando consigo passagem para chegar até eles, me lanço até ela. Agarrando seu braço para afastá-la deles.
— Por favor, Dorea... – Me detenho, não sabendo o que pedir.
Para ela se afastar? Mas porque ela estava ali, primeiramente?
— Hermione, por favor, me ajude – Implora-me, consternada – Diga a ele... Diga que ele não pode machucar o Charlus, por favor – Ela gesticula freneticamente com as mãos, apavorada.
— Podemos resolver isso de forma civilizada, Pollux – Começa, o avô de Harry, em clara bravura – Eu amo sua irmã, não irei me afastar dela. Você não pode me intimidar ou ameaçar – Diz, convicto – Eu não tenho medo de você, Black.
Pisco, comovida.
Dorea faz um barulho esganiçada de pavor. Quando meu olhar recai sobre o algoz do Potter, entendo o porquê de seu pânico ao ver o rosto de Pollux retorcido de ódio.
Droga, isso não acabará bem, penso, ouvindo os bruxos a nossa volta irem a loucura, incentivando ainda mais a briga.
— Você pagará por sua insolência, Potter – Garante ele, possesso de raiva.
Pollux joga Charlus no chão, que cai em um baque estrondoso. Sacando sua varinha, percebo que se não intervi, algo realmente sério iria acontecer.
— Por favor, garotos, vamos resolver as coisas racionalmente – Intrometo-me, temendo que tudo saísse do controle.
Deixo minha mão vagar até minha varinha, preparando-me para o pior.
— Não se meta, sangue-ruim!
Passando por mim como uma bala, Dorea agarra o braço do irmão, mas ele empurra-a para longe, fazendo Charlie se enfurecer e aproveitar a breve distração do Black para lançar um expelliarmus nele. Pollux é arremessado para a outra extremidade do corredor, batendo na parede e derrubando alguns alunos no processo.
Ele se põe de pé tão rápido quanto caiu, com a varinha em punho e seus olhos nublados de fúria. Charlus levanta-se, mas antes de abrir a boca, seu adversário o põe inconsciente, lançando um feitiço estupore no mesmo.
Dorea corre para socorrer o garoto inconsciente, me junto a ela preocupada, vendo a mesma se debulhar em lágrimas, enquanto acaricia o rosto de Charlus com amor e preocupação.
Nesse momento, um pequeno túnel se forma quando os alunos dão passagem para Riddle chegar no centro da briga.
Ele olha toda a cena impassível, apenas retorcendo os lábios em desgosto ao vê o corpo inconsciente no chão. Seus olhos se detém em mim por alguns instantes, mas ele logo se volta para Pollux.
— Me acompanhe, Black – Ele se volta para dois lufanos que estão comentando entre si toda a situação – Peguem o Potter e o levem para a ala hospitalar – Ordena, frio.
Eles assentem quase imediatamente, submissos.
— Eu te odeio, Pollux – Rosna, Dorea, tomada por uma cólera que nunca pensei ver nela.
— Problema seu, irmãzinha – Devolve, friamente.
“Você só conhece uma pessoa depois de uma briga. Só, então, é possível julgar o seu caráter.”
— Anne Frank
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