Notas iniciais
Enjoy ❤️

Existem momentos que nos fazem questionar nossas ações, que nos atingem com tanta força, que é impossível avaliar e classificar o grau de intensidade com o qual nos desarmam. Estou presa em um desses momentos, encarando uma parte de quem fui e não sei se ainda sou. A intensidade é tanta que, simplesmente, petrifico no tempo. Sem reação.

Mexa-se. Sorria. Cumprimente-os. Ordena-me meu cérebro, sem sucesso.

Não sei como classificar o que sinto ao vê-los parados à minha frente depois de mais de um ano sem nos vermos. Existe uma tela em branco, uma barreira invisível que não me deixa agir.

Suas fisionomias são as mesmas, mas os sentimentos mudaram, é obvio. Não existe calor em seus olhos ao me encararem, assim como nos meus também não existem. É uma situação estranha, em que ninguém sabe como agir. Tudo é confuso.

Fecho minhas mãos em punhos, ferindo a parte interna com minhas unhas em busca de controle.

— Vejo que vocês não combinaram de se encontrarem aqui – A voz do sr. Lovegood quebra o silêncio que se instala – Que surpresa agradável deve ser – Existe um toque de insensibilidade em suas palavras. Ele sabe que a situação é estranha.

Pisco, saindo do meu transe.

Agradável...?

— Harry... Rony... Oi – Minha voz soa estranha até para os meus próprios ouvidos, saindo afável e educada demais. Falsa.

Tento sorri, mas minha boca se retorce mais em uma careta do que propriamente em um sorriso.

— O que você está fazendo aqui? – Harry pergunta, seus olhos fixos em meu rosto – Por que agora?

— E por que aqui? – Intervém Rony, duramente – Você teve mais de um ano para voltar.

Desvio o olhar para a pilha de papéis em cima de uma mesinha no recanto mais escuro do cômodo. Um aperto se constrói em meu estomago, retorcendo minhas entranhas.

— Vim ver Luna – Digo, um pouco abalada por seus questionamentos – E vocês?

Eles se entreolham, e isso basta para que eu entenda que seus segredos não são mais meus. Dói, mas não tanto quanto pensei que doeria não fazer mais parte do Trio de Ouro. É como ter que constatar o obvio, enfrentando-o na própria pele. Em meu encontro com Harry, tive um breve gostinho de como seria nossa relação dali por diante. Agora, tudo é claro e vívido.

Um pigarro me faz encarar Xenofílio.

— Vou preparar chá – Fala, com sua voz denunciando impaciência – Sintam-se em casa, vocês podem se sentar em qualquer lugar – Ele gira o punho no ar, mas não aponta para lugar nenhum.

O sr. Lovegood nos dá as costas e vaga até pela cozinha, pegando ervas e pós estranhos. Em um fogão preto ao lado da pia, algo ferve em uma panela de tamanho médio.

— Você está bem – Harry fala, me fazendo encará-lo em confusão.

— Perdão?

Ele dá de ombros.

— Você está bem – Volta a dizer, terminando de descer a escada e seguido para ficar ao lado de Rony – Está diferente, mais... radiante. Salem te mudou. Não sei como falar, apenas sei que você está... bem!?

Troco o peso dos pés.

— E isso é ruim? Eu está bem?

— Não – Responde com rapidez.

— Devidos as circunstâncias? É de se admirar – Ron diz, cruzando os braços – Mas, ele ainda não chegou nas Américas, não é? – Existe asco em sua voz.

Seus olhos transmitem raiva e mágoa. Ele me considera uma traidora, é sufocante absorver isso.

Mas, eu sou? Sou uma traidora...?

Vejo o pai de Luna parar para nos observar, parecendo consternado com nossa interação.

— Rony, não vimos aqui para isso – Harry bate de leve com o ombro dele, acertando seu braço – Estamos com pressa, então... – Prossegue, dizendo diretamente para mim isso.

Balanço a cabeça em concordância, nenhum pouco surpresa. É sua forma de dizer que não quer ficar muito tempo em minha companhia.

— Sr. Lovegood, a Luna irá demorar? – Pergunto, dando as costas para eles. A atmosfera da casa é aconchegante e quentinha – Mandei para ela algumas cartas, mas nenhuma foi respondida. E, quando enviei para o senhor uma carta mais cedo, não consegui esperar por uma resposta. Bem, eu apenas gostaria de saber como ela estar... Fiquei preocupada – Digo a última parte baixinho.

Ele tira o cabelo de algodão do rosto, jogando-o para trás da orelha.

— Minha filha... Luna... – Seus olhos se fixam na porta, ansiosos – Ela logo chegará – Afirma vagamente – Não respondi sua carta porque não tive tempo, senhorita. Perdão por isso.

— Tudo bem, não se preocupe. Eu entendo.

Cruzo os braços, sentindo um pouco da minha própria ansiedade se dissipar.

Graças à Merlin ela está bem.

— Preocupada? – Rony se faz presente, repleta de zombaria, atraindo a atenção de todos para si – Sua preocupação é bem restrita e seletiva, não é? Onde você estava quando Hogwarts foi infestada por Comensais? Onde estava sua preocupação quando tivemos que abandonar o castelo em buscar das malditas...

— Ron! – Harry lhe repreende, não deixando que ele termine sua frase, ajeita os óculos e dando um olhar arrependido para o sr. Lovegood – Sinto muito...

Franzo a testa, atordoada.

Busca?

Xenofílio ergue o indicador e balança-o para os lados, pedindo para que Harry não fale.

— Não... Não quero saber – Ele se volta para a chaleira – Não quero saber de nada.

Ele vai ao fogão, pega um pano de aparência suja em cima da pia e agarra a panela pelas alças usando o mesmo, jogando a água fervente dentro da chaleira. Suas mãos tremem enquanto ele adiciona ervas e alguns pós estranhos no preparo do chá.

— O que vocês procuram? – Pergunto, não conseguindo me conter – Termine sua frase. O que vocês estão procurando?

Harry abre a boca para responder, mas Rony se adianta, dando um passo à minha frente, seus olhos brilhando de irritação.

— Você nem ao menos se explica! – A exclamação indignada de Ronald ecoa pela casa – Por Merlin! Como você pode ser tão egoísta e fria?

Deixo minhas mãos caírem ao lado do corpo, sentindo meu sangue esquenta.

— Fria? Egoísta? – Quero arrancar seus olhos, realmente furiosa – Como ousa, seu imbecil! Você não sabe de nada. Nada do que passei, do que perdi. Quem você é? – Não quero gritar, mas minha voz se eleva pelo tamanho da minha raiva.

— Sou alguém que está tentando salvar pessoas – Grita, suas bochechas ficando escarlate, assim como suas orelhas – Nascidos trouxas como você, sua ingrata.

Meus olhos marejam, mas não me permito chorar. Desvio minha atenção para Harry, que está me encarando inexpressivamente. Percebo que ele não quer me acusar de nada, mas também não vai me defender.

— Você não contou a ele – Minha voz sai embargada pelo choro mal contigo.

Ele balança a cabeça em negativa.

— Não é da minha conta... não mais – Afirma, cansado.

Suas palavras me atingem como um soco no estomago. Prendo a respiração, sustentando seu olhar.

Ele não se importa que sou filha de Sirius? Ou não quer se importar?

— Do que ela está falando, Harry? – Ron quer saber, olhando de mim para ele.

Engulo meu choro, erguendo o queixo.

— Não, não é mais da sua conta mesmo – Concordo, desviando meu olhar para Xenofílio.

Ele me encara, levemente solidário. Mas, então, está emoção se esvai de súbito, restando apenas uma profunda angústia que ele tenta esconder nos oferecendo um sorriso.

Meu pressentimento ruim volta com força total.

— O chá está pronto, vamos subir? Minha sala de leitura é mais confortável para conversarmos – Fala, apontando para a escada de ferro fundido.

— Bom, como agora eu sei que a Luna está bem...

— Ela não precisa ficar – Rony me interrompe, friamente – O que temos para tratar com o senhor é confidencial. Ela não deve ficar.

Minha primeira reação é querer estuporá-lo, mas percebo que realmente não quero ficar. Não quando minha presença é indesejada e existe tanto rancor acumulado entre nós.

— Creio que minha Luna ficaria feliz em encontrar a sra. Granger aqui – Xenofílio diz, encarando Rony – Por isso, vamos todos subir – Não existe margem para discursão.

Ele guia-nos pelo caminho, subindo a escadaria por onde vi Harry descendo ao chegar.

Seguimos ele em silêncio, comigo logo atrás deles três.

Ele enche três canecas com o chá fumegante e nos entrega, antes de apontar para poltronas em pontos distantes umas das outras, sentando-se na única que é de frente para todas as três. Sento-me na mais afastada, enquanto Harry e Ronald se senta à minha frente, de costas para mim.

Quero ir embora, voltar para meus filhos, mas também desejo encontrar Luna. Algo não está certo, mas não sei o que é, e isso me assusta.

Levo o chá ao lábios, tomando um gole generoso para me aquecer um pouco. O gosto amargo e nodoso me atinge assim que minha língua encontra o líquido. Forço-me a engolir, ciente de que se beber mais, irei vomitar. Deixo a caneca repousar em meu colo, segurando-a com as duas mãos.

— Seu anel é muito bonito, senhorita Granger – Comenta o sr. Lovegood, pegando-me desprevenida.

Todos os olhos da sala se voltam para minha mão direita, aonde meu anel de noivado reluz timidamente com sua esmeralda solitária e seus vários diamantes pequenos.

Cubro-o com minha outra mão, desconfortável.

— Obrigada – Murmuro sem jeito.

Merda! Xingo em pensamentos, estarrecida por ter esquecido de tirar o meu anel do dedo antes de vim para cá.

— Você estar noiva? – Rony pergunta, sua voz subindo várias oitavas.

O choque no rosto de Harry só não é maior do que o de Rony. Seu rosto fica tão escarlate quanto um tomate maduro. Seria engraçado se não fosse trágico.

— Bom, eu... – Pigarreio, constrangida – Eu estou.

Por favor, não perguntem com quem. Por favor, não perguntem com quem. Por favor, não perguntem com quem.

— Com quem? – Harry pergunta, me fazendo desejar desaparecer instantaneamente.

— Salem é um instituto só para garotas, como você ficou noiva por lá? – A pergunta de Ronald faz o clima esfriar ainda mais na sala.

— Não é da conta de vocês – Consigo dizer, tentando não aparentar meu desespero – E, além do mais, vocês não o conhecem – A mentira sai fluida.

Eles me olham com espanto e algo mais, uma emoção indistinta.

— A vida pessoal de uma pessoa cabe apenas a ela – A voz de Xenofílio se faz presente, enquanto ele bebe um generoso gole de seu chá.

Ele se ajeita na poltrona, atraindo nossa atenção para si.

— Então, como posso ajudá-los? – Pergunta ele, direcionado aos meninos.

Os dois se entreolham, olham para mim por mais tempo do que eu gostaria e depois se voltam para o pai de Luna.

— Bem, queria saber sobre uma coisa que o senhor estava usando no pescoço no casamento. Era um símbolo – Harry fala.

Xenofílio tira uma corrente de dentro da blusa, com três símbolos interligados formando um pingente. Não vejo muito bem o objeto, mas tenho a leve impressão de já ter visto algo semelhante em algum lugar.

— Está falando disto? – Pergunta, seus olhos buscando algo no rosto de Harry.

— Sim, exatamente – Harry toca o colar com delicadeza – O que eu queria saber é, o que é? – Ele solta o objeto, mas não deixa de encará-lo.

— O que é? Ora, é o símbolos das Relíquias da Morte, é claro.

— O que é? – Nós três perguntamos em uníssono.

— As Relíquias da Morte. Suponho que conheçam O Conto dos Três Irmãos – Fala.

— Sim.

— Não.

Harry desvia sua atenção para nós, balançando a cabeça em negativa. Ele é o único que nunca ouviu falar desta história. Isso não me surpreende, é um conto infantil. Sua história está presente no livro que Dumbledore me deu no passado. Nunca entendi a finalidade daquele livro, mas as histórias são divertidas e passam ótimas lições de moral. O li em apenas uma tarde, ainda enquanto vivia com Morgana em Avalon.

Um silêncio estranho impera por poucos segundos, com o sr. Lovegood encarando Harry como se realmente não o visse.

De súbito, ele se levanta e vai até uma escrivaria empoleirada no recando oposto a janela, tirando de dentro de uma de suas gavetas um exemplar de Os Contos de Beedle, o Bardo. Ele para, vira sua cabeça para mim e me estende o livro.

— Leia, por favor – Pede, entregando-me o livro e voltando a se sentar sem esperar uma resposta.

Inspiro fundo, abrindo-o, e então o folheio até encontrar o conto dos irmãos. Todos me encaram com atenção, esperando que eu comece a ler. Posso sentir o olhar de Ronald intercalando entre meu rosto e meu anel, mas não comento nada.

Pigarreio.

— Era uma vez, três irmãos que estavam viajando por uma estrada deserta e tortuosa ao anoitecer.

— À meia noite – Ronald me corta com frieza – Era como a mamãe contava.

Irritada, lhe lanço um olhar gélido.

— Mas, ao anoitecer está bom – Diz, parecendo entender seu erro ao ver como todos nós lhe encaramos.

Idiota, penso.

— Você quer ler no meu lugar? – Pergunto, vendo Xenofílio se levantar e ir até a janela, dando-nos as costas.

— Não – Grunhe.

Recomeço a ler, nenhum pouco disposta a mudar minha forma de contar. O silêncio impera, com todos escutando cada palavra que sai de minha boca.

— E aí estão, essas são as Relíquias da Morte – O sr. Lovegood diz assim que concluo minha leitura, ainda de costas para nós.

— Me desculpe, senhor, ainda não entendi direito – Harry fala, fazendo o pai de Luna o encarar.

Ele se afasta da janela, apressado.

— Eu... Preciso de um pedaço de papel e uma pena – Fala, parando em uma pilha de livros cobertos de poeira e pegando um papel amarelado e o que um dia fora uma bela pena – Agora vou poder desenhar.

Nos aproximamos quase que em sincronia, comigo ficando no lado oposto ao deles, no lado direito de Xenofílio. O mesmo começa a desenhar, explicando os símbolos do colar. Primeiro, a varinha de sabugueiro (a reta), o círculo (a pedra da ressureição) e a capa da invisibilidade (o triangulo).

Engulo em seco, olhando de relance para Harry.

Merlin, as relíquias são reais. Harry tem a capa...

— Juntas, formam as relíquias da morte – Sr. Lovegood diz, nos encarando – Unidas, fazem de seu dono o senhor da morte.

— Esse símbolo estava em um tumulo em Godric’s Hollow – Rony comenta, lançando um olhar estranho para Harry – Senhor, a família Peverell tem alguma ligação com as Relíquias da Morte?

Ele passa por nós e se afasta, indo até o bule de chá falando sobre como acreditava-se que eles foram os primeiros portadores das Relíquias da Morte. Ignoto, Cadmo e Antíoco Peverell, as inspirações para o conto.

— Mas, o chá vai esfriar – Fala, um pouco desconcertado, com seus cabelos balançando a sua volta – Eu já volto, já volto – Ele desaparece no lance de escadas.

— Vamos embora, Harry. Não bebo mais um gole desse troço, quente ou frio – Ronald diz olhando para Harry e pegando sua bolsa, ajeitando-a no ombro.

Os dois me encaram, esperando que eu fale algo.

— Espero que você encontrem o que tanto buscam e não podem me contar – Digo, dando-lhes as costas e seguindo para as escadas – Boa sorte.

Antes que eu possa alcançar o primeiro degrau, uma mão se fecha em meu braço. Olho para trás, encontrando Harry.

— Horcruxes – Fala, seus olhos analisando meu rosto – Estamos em buscas das horcruxes de Voldemort.

Confusa, pisco os olhos por alguns instantes.

— Não entendo... Horcruxes?

Merlin, o que são horcruxes? É tão ruim quanto soa?

Harry solta meu braço e dá um passo para trás, ficando ao lado de Rony.

— São objetos feitos com pedaços da alma dele – Diz, soando enojado – Voldemort é imortal até que todos os objetos, que não sabemos quantos são, sejam destruídos. A maldição da morte que ele lançou em mim quando bebê ricochetou de volta para ele e não o matou justamente por isso.

— Até que todos os pedaços de sua alma sejam destruídos, aquele monstro é invencível – Ronald completa.

E então, lá vem, a sensação de tudo desabando à minha volta. Pedaço por pedaço, tudo caindo por terra em câmera lenta. Minha garganta se fecha automaticamente, assim como tremores atingem meu corpo.

Não, não... Não.

Abraço-me com força.

Tom, o que você fez?

***

Narcisa encontra sua irmã parada em frente ao seu quarto quando sai do mesmo para fazer seu desjejum, na véspera de natal. Com a mansão, particularmente fria, a mesma traja um de seus vestidos mais quentes, assim como meias negras de tecido grosso.

— Algum problema, Bella?

A Lestrange olha para a irmã mais nova sob o emaranhado de fios desgrenhados. Seu rosto está com os ossos das bochechas proeminentes, denunciando sua má alimentação, assim como sua boca está levemente rachada em alguns pontos e suas unhas estão mal cortadas e sujas nas bordas.

— Não aguento mais, Cissa – Diz, sua voz rouca e desesperançada – Não aguento mais ser tratada como estúpida, mandada apenas para as missões mais baixas e participando somente de interrogatórios inúteis. Milord está me matando aos poucos, humilhando-me. As pessoas comentam as minhas costas, chamando-me de imprestável e descartável – O toque esganiçado de sua voz não escapa a audição da caçula Black.

Suspirando, Narcisa se põe a caminhar, tendo sua irmã em seu encalço. Elas seguem pelos corredores desertos da grande mansão Malfoy, tendo somente a companhia uma da outra.

— Você deveria ter pensado nisso antes de atacar Hermione – Exprimi, nenhum pouco intimidade pelo assunto – Você sabia o quão preciosa ela era, sabia que enfeitiçando sua elfa iria encontrar a noiva de Milord. O que você esperava? Atacá-la e ser tratada com seda e flores? Por Merlin, Bellatrix. Eu posso curar suas feridas, mas nunca remediar seus erros.

As bruxas param, encarando-se com hostilidade.

— Eu estava pronta para matar a mulher que tirou meu homem de mim – Rosna, eriçada de raiva – Não para encontrar minha própria filha, uma adolescente, servindo de... de... cortesã. Ela não passa de uma prostitutazinha.

Perplexa, Narcisa agarra o braço da irmã e lhe emburra para o primeiro cômodo que encontra, fechando a porta assim que passam pela mesma.

— Não seja estúpida – Grunhe, abismada com o quão descontrolada sua irmã age sobre este assunto – Hermione é a noiva de Milord, Bella. Se ele te ouvir chamando-a assim... Lembre-se que ele só não te matou porque você não conseguiu feri-la, mas ele deixou bem claro que se te visse desrespeitando-a, você morreria da pior forma possível. Pense, minha irmã, pense.

E a verdade é que, como Bellatrix não sabia sobre os bebês e não chegou perto deles, Voldemort não sentiu necessidade de matá-la, apenas torturar e humilhar, brincando com seu psicológico já afetado. Afinal, Hermione mostrou-se mais do que apta em se defender, nocauteando uma das melhores duelista dos comensais sem se machucar.

— Eu não devo respeito nenhum aquela traidorazinha – Devolve, andando pelo quarto de visitas, transtornada – Ela não merece tamanha honra. Vejam só, uma fedelha noiva de Voldemort. O que ela pode lhe dar que eu não posso duas vezes melhor?

É uma pergunta retorica, formulada no calor do ciúmes, e Narcisa percebe isso. Mas, a loira não consegue se calar, mesmo sabendo que isso desencadeara o pior de sua irmã.

— Amor, Bella – Fala, sem misericórdia.

Parando de transitar pelo quarto, a morena encara sua irmã com os olhos em fendas, completamente intrigada ao que sua resposta quer dizer.

— Amor? – Ela repete a palavra, enojada.

— Sim, amor – Narcisa se aproxima de Bellatrix, olhando dentro dos olhos da outra – Você não o ama, Bella. O que você sentia era uma fascinação que, agora, se transformou em obsessão. Milord sabe disso, ele jogou com isso por vários anos. Mas, quando ele encontrou Hermione... É amor, puro e simples. O mais simples que o amor possa ser, na verdade.

Uma risada escandalosa e debochada escapa da boca da Lestrange.

— Você está me dizendo que ela o ama, e é por isso que ele quer se casar com ela? – Veneno escorre por suas palavras.

— Não, eu estou dizendo que os dois se amam, por isso, vão se casar.

Trincando a mandíbula, a mais velha das irmãs Black aproxima seu rosto ao da caçula.

— Não seja uma tola sentimental, Narcisa – Fala por entre os dentes – Milord, assim como eu, é incapaz de amar.

Sem se intimidar, Cissa balança a cabeça em negativa, erguendo o queixo desafiadoramente.

— Um dia, talvez ele tenha sido incapaz de amar, mas... não mais. O passado foi mudado, Bellatrix – Dando as costas para a irmã, Narcisa caminha em direção a saída.

Segurando o braço da irmã com um aperto de ferro, Bella gira Cissa em sua direção, ficando cara a cara com a mesma. Com o ato abrupto, os instintos de sobrevivência da loira são disparados, por isso, ela agarra a varinha presa em sua cintura.

— O que você sabe que eu não sei? – Pergunta, não se importando com os olhos semicerrados ou a careta de dor que a Malfoy fez ao ser abordada com tanta agressividade.

— Solte-me, Bellatrix – Exige, fechando seus dedos com força envolta de sua varinha – Acordei particularmente estressada hoje, não irei tolerar suas merdas. Se tem dúvidas sobre a origem do relacionamentos deles, questione Milord, não a mim.

Soltando sua irmã e se afastando, Bellatrix deixa sua mente trabalhar, juntando pedaços de informações avulsas. Quando sua mente formula uma teoria, seus olhos se arregalam, fazendo Narcisa questiona-se se acabou revelando mais do que devia.

— Você disse “o passado foi mudado”... e falou sobre “a origem do relacionamento deles” quando te perguntei sobre o que você sabe que eu não sei – Sua voz é analítica, com sua mente juntando avalanches de possibilidades. Ela desloca-se pelo entorno da sala, olhando para todos os recantos sem realmente vê-los – Não existia sentido em eles terem começado um relacionamento agora. Isso era a única coisa que não se encaixava nesta história de noivado. Ela é jovem demais e a melhor amiga do Potter, fora que até poucos dias atrás era considerada uma suposta sangue-ruim.

O clarão do entendimento é certeiro em sua mente.

— Ela viajou no tempo, conquistou Milord quando ele ainda não era Voldemort – Fala, mas para si do que para sua irmã – Provavelmente, ela o conquistou em Hogwarts. Ele era só um adolescente, assim como ela.

— Bella, você está indo por um caminho perigoso – Alerta Narcisa, tentando não transparecer seu desespero por ter influenciado está descoberta em sua irmã – Viagens tão longas no tempo são impossíveis e perigosas demais.

— Diga-me, Narcisa... – Bellatrix encara sua irmã, os olhos dançando em uma seriedade não natural – Eu estou certa, não estou?

— Bella...

— Responda-me! – Grita.

A porta é aberta com brusquidão, e um Draco de aparência lívida entra, nenhum pouco feliz com a forma como sua tia está falando com sua mãe.

— A conversa acaba aqui, tia – Fala, apontando sua varinha para a mulher que aprendeu a odiar – Não admito que você fale assim com a minha mãe.

— Ora, seu moleque... – Ela solta o braço da irmã para pegar sua varinha.

Antes que qualquer ato drástico venha por parte da Lestrange, Narcisa lhe desarma, conjurando um accio não verbal e pegando sua varinha. Ela se afasta logo em seguida, ficando ao lado do filho.

Os olhos achocolatados da bruxa se arregalam.

— Nunca ameace o meu filho, Bellatrix. Nunca! – A voz fria e autoritária da loira é forte, não vacilando em nenhuma palavra – Irei dizer isto apenas mais uma vez... Desista dessa história, fique longe de Hermione e pare de fantasiar teorias que justifiquem o fato de que Milord nunca te amou e nunca, repito, nunca te amará – Se existe uma coisa que Narcisa Malfoy nunca perdoará, é ameaçarem seu filho. Seu instinto materno é maior que sua vida – Não irei mais te proteger, Bellatrix. A partir de agora, você está sozinha.

Ela joga a varinha de sua irmã aos seus pés, puxando seu filho para fora da sala e deixando uma Bellatrix consternada para trás.

Eles seguem pelos corredores frios da mansão lado a lado, nenhum pouco animados com o começo desastroso da manhã.

— O que ela falou é verdade, mãe? – A voz de Draco quebra o silêncio.

— Draco, por favor...

— Hermione viajou no tempo?

A mulher fica em silêncio, e isso é o bastante para confirmar ao seu filho que sim, é verdade.

— Ouvir atrás da porta é errado – Diz ela, assim que chegam ao topo da escadaria que os levará para o luxuoso hall de entrada – Pensei ter te ensinado bons modos, Draco.

Ele sorri de lado, descendo o lance de degraus.

— Bom, eu vi a senhora empurrando tia Bella para dentro daquela sala... Fiquei curioso.

Sem conseguir ficar com raiva, Narcisa para, fazendo seu filho parar um degrau abaixo de si. Ela beija a bochecha de seu herdeiro com carinho.

— Obrigada por me defender, querido – Diz, levando a mão a bochecha que beijou para apagar a marca de batom que ali ficara – Você é um bom filho, Draco.

Ele lhe puxa para um abraço, envolvendo sua estrutura delicada com seus braços.

— Eu sempre vou te proteger, mamãe – Murmura.

Passos se aproximando fazem com que eles se separem, quebrando o momento íntimo entre mãe e filho. Os dois terminam de descer a escadaria, menos estressados com os últimos acontecimentos.

— Aí estão vocês – Lucius surge, se aproximando com longas passadas – Preciso que você me ajude em um interrogatório, Draco.

A confusão no rosto de ambos é imediata.

— Interrogatório? – Questiona Narcisa, confusa – O elfo e Olivaras já foram interrogados.

Lucius assente.

— Sim, mas tem a garota.

— Que garota? – Draco e Narcisa perguntam em uníssono, se entreolhando após isso.

Nenhum dos dois está ciente de mais um prisioneiro em sua casa, apenas do elfo e do fabricante de varinhas.

— Lucius, como temos mais um prisioneiro e eu não fui informada disso? A casa é minha também – Existe uma grande censura na voz da mulher, levando seu marido a desviar o olhar – Quem é essa garota? E por que eu não sabia dela?

Um suspiro escapa do homem.

— Amico e Alecto trouxeram ela poucos dias atrás, pega no expresso de Hogwarts enquanto ia para casa, mas... Não era ela quem Milord queria, o que deixou as coisas interessantes – Fala, sorrindo ao lembrar da tortura que os dois sofreram, atiçando a curiosidade de Narcisa e Draco – Ginevra era quem deveria ser sequestrada, tanto por seu envolvimento com o Potter quanto por estar com a Armada de Dumbledore ativa e ser uma das líderes. No entanto, quem os Carrow’s trouxeram foi Luna Lovegood.

A cor sumiu instantaneamente do rosto de Narcisa, assim como a boca de Draco foi ao chão e seu coração disparou. Nenhum desses detalhes foi observado por Lucius, ainda preso nas lembranças da raiva com a qual Voldemort recebeu a notícia de que a Lovegood fora capturada ao invés da Weasley.

— Preciso que você me ajude a obter informações da garota, Draco – Lucius prossegue, alheio ao estado de sua mulher e filho – Milord deixou explicitamente claro que a garota não deve ser ferida, por isso, tortura está fora de questão – Ele revira os olhos, não gostando desta parte – Ela está recebendo um tratamento diferenciado, em uma cela só dela, com cama, refeições três vezes ao dia e em uma absoluta paz, algo que não entendo o porquê. Mas, Milord sabe o que faz – Ele dá de ombros – Como vocês são quase da mesma idade e você deve conhecer a garota, quero que você me ajude a interrogá-la.

Se existe uma palavra para descrever resumidamente o que se passa em frenesi na cabeça de mãe e filho é: Fodeu!

***

Eles pensam que meu silêncio é de horror, e não porque estou surtando com a descoberta das horcruxes.

— Como... Como... – Respiro fundo, buscando me controlar – Como uma horcruxes é feita?

— Magia das trevas, e matando um ser humano – Harry responde, sucinto.

Agarro o corrimão da escada com força, tentando segurar-me em pé.

Eles não podem perceber. Controle-se, Hermione. Quero me manter estável, mas meu mundo desaba aos poucos mais uma vez.

— Ele deve realizar algum ritual macabro que não quero nem saber como é – Ron prossegue, nenhum pouco abalado – Mas, temos a espada de Godric Gryffindor agora – Revela, animado.

Não entendo suas palavras, mas sei que são importantes, por isso, filtro-as lentamente.

— Pre-precisamos descer – Digo, não querendo mais prosseguir com o assunto – Luna já deve estar chegando – Lembro-os.

Eles balançam a cabeça em concordância. Lidero o caminho, descendo a escada em caracol lentamente.

— O engraçado é que quando fui ao banheiro, logo quando chegamos, eu passei pelo quarto de Luna – Ouço Harry dizer para Ronald atrás de mim – E estava tão empoeirado que parecia que ninguém ia nele há vários dias.

Isso me faz parar, consequentemente, parando-os também.

— Como assim? – Pergunto, confusa.

Harry está no meio, entre Rony e eu.

— O quarto estava coberto de poeira, com pó nos lençóis e móveis – Explica, olhando do ruiva para mim – Achei estranho, mas... não sei.

— Você tem certeza de que era o quarto da Luna e não um de hospedes, Harry? – Ron pergunta, olhando Harry com desconfiança.

— Tenho – Diz convicto – Tinha provas de que é o quarto dela.

— Que provas? – Ron quer saber.

Harry dá de ombros, limitando-se a ficar calado sobre esse assunto.

— Acho que é melhor irmos embora, Harry – Ronald diz, tocando no ombro de Harry – Não podemos vacilar – Seus olhos se voltam para mim – Espero que seu noivo valha a pena você não nos procurar – Fala acidamente, sem piedade alguma – Gina não te considera mais uma amiga, caso isso te importe.

Abro e fecho minha boca, não sabendo o que falar. Harry concorda, e os dois me olham com desconfiança.

— Tudo bem – Digo, me sentindo destruída – Irei ficar e esperar Luna. Espero... Espero que... Bom, boa sorte.

Voltamos a descer sem mais palavras trocadas, encontrando Xenofílio perto da escada, em frente à janela. Estou sangrando em sofrimento, sentindo meus nervos à flor da pele. Há qualquer momento percebo que começarei a chorar, mas não quero fazer isso na frente de ninguém.

— Obrigada, senhor – Harry fala, assustando-o.

Ele nos olha com espanto, como se não esperasse que descêssemos.

— O senhor esqueceu da água – Rony fala.

— Água? – Sr. Lovegood franze a testa.

— Pro chá – Completa.

— Eu... Eu esqueci? – Ele solta uma risada constrangida – Que burrice a minha – Ele se afasta, indo até a pia no lado oposto ao nosso.

— Não se preocupe, já temos mesmo que ir – Harry diz, aproximando-se um pouco dele.

— Mas eu fi...

— Não podem ir! – Seu grito pega-nos de surpresa, cortando-me no meio da minha frase.

Ele desloca-se como um tornado até a porta, bloqueando nossa saída. Seu corpo treme violentamente, indicando seu desespero.

Alarmes soam em minha mente.

— Não podem... tem que ficar aqui... tem que ficar! – Seus olhos desesperados encontram os nossos.

Engulo minha saliva com dificuldade, sentindo minha garganta secar.

— Você é minha única esperança – Fala para Harry, após alguns segundo em silêncio – Eles ficaram furiosos com o que eu andava escrevendo... Eles a levaram... Eles levaram a minha Luna.

Sinto meu coração falhar, o chão desaparece sob meus pés enquanto meu sangue gela nas veias.

Não, não, não.

— A minha Luna... – Ele cambaleia para frente, suplicante.

Suas mãos afastam os cabelos mal cortados de Harry para cima, revelando sua cicatriz.

— Mas, quem eles querem é você – Fala, sombriamente.

— Quem a levou, senhor? – Harry pergunta.

Não consigo escutar a resposta do sr. Lovegood, mas vejo seus lábios se moverem, formando o nome que tanto assusta as pessoas: Voldemort.

O caos explode instantaneamente à nossa volta, não me dando tempo de pensar em nada. Por instinto, jogo meu corpo no chão quando uma chuva de feitiços e fumaças pretas começam a nos circular. Vidro quebrado, móveis explodidos e pedaços da madeira do teto me atingem. Ponho-me de joelhos e bloqueio os escombros mais pesados de nos atingirem, parando-os com um poderoso escudo não verbal, sem usar minha varinha.

Merda, isso não é bom, não é bom.

Ouço Xenofílio gritar a plenos pulmões que está com Harry, enquanto vejo meus ex’s colegas rastejarem no chão, se aproximando um do outro. Eles me olham quando estão à centímetros de distância um do outro, esperando que eu me aproxime de seus corpos.

— Vão! – Grito por entre o barulho.

Papéis rasgados de todos os tamanhos voam pelo ar, misturando-se a pedregulhos, vidros e madeiras lascadas. Tento não ser atingida por nada cortante, colocando meus braços defensivamente em cima de minha cabeça. Meu escudo é poderoso, mas não o conjurei para impedir tudo de atravessá-lo, pois sendo assim eu gastaria mais energia do que estou disposta. E sem saber contra quem e quantos estou lutando, é primordial que me mantenha com o máximo de reserva possível.

— Você pode vir com a gente, Hermione – Harry diz, estendendo sua mão para mim.

Balanço a cabeça em negativa.

— Vão sem mim, eu ficarei bem – Garanto, vendo a destruição em massa de feitiços batendo nas paredes e móveis da casa.

Preciso pará-los, mas...

— Hermione... – Rony para, não sabendo o que dizer.

— Vão! – Grito, ainda mais alto.

— Por quê? – A voz de Harry chega até mim como um zumbido irritante – Por que você não vem com a gente? Se eles te pegarem, vão te matar. Eles não sabem que você não é uma nascida-trouxa.

— O que!? – A voz esganiçada de Ron se perde em meio ao barulho de explosões – Como assim?

Os milhares de pedaços de papéis que caem do teto formam uma nuvem espessa.

Merlin, por favor... Preciso que pelos menos um deles me conheça, imploro ao divino, idealizando o que tenho que fazer em minha mente.

— Não é hora para se provar, Granger – Ronald grita, encolhendo seu corpo quando pedaços de vidro acertam seu rosto – Venha conosco.

Meneio em discordância, vendo sua bochecha atingida sangrar.

— Não é a mim que eles querem – Argumento, olhando para a saída, aonde a porta se encontra aberta e disponível – Vão embora, garotos. Eu ficarei bem.

Levanto-me em meio ao caos, e corro para fora da casa, escutando meu nome ser gritado e logo o som familiar de aparatação acontecer.

Eles se foram!

Saio para fora, encontrando frio e neve e o pai de Luna encolhido nos degraus de entrada. Fumaças negras pairam no ar, atingindo velocidades alarmantes enquanto feitiços são lançados. Ele balbucia coisas incoerentes, desesperado.

— Eles não me escutam... Não me escutam... Potter está aqui, está aqui.

Seguro o braço do sr. Lovegood, vendo seu rosto me encarar com surpresa e medo. Puxo-o para longe da casa em destruição, impedindo que tijolos e vigas nos atinjam com magia elementar, controlando o ar a nossa volta de forma expansiva.

— Senhorita...

— Não, agora não – Digo, concentrada em nos afastar da zona de perigo.

Me vejam! Me vejam!

Estancamos no lugar quando cinco comensais bloqueiam nossa passagem, revelando-se. De imediato, reconheço três da minha festa de noivado. Dois homens e uma mulher. Amico e Alecto Carrow e Rabastan Lestrange. Os outros dois homens que restam, nunca os vi.

Obrigada, Merlin.

Solto o braço de Xenofílio, deslocando-me para sua frente.

Seus rostos estão chocados, enquanto os dois que não reconheço me encaram com hostilidade, também não sabendo quem sou.

— O que... O que... Minha senhora? – A voz de Alecto transborda confusão e descrença.

Ela lembra quem sou, constato, um pouco aliviada.

— Senhora? – A voz de um dos desconhecidos se faz presente, repleta de descrença, enquanto ouço Xenofílio se engasga com a própria saliva e tossi descontroladamente atrás de mim, incrédulo – Essa é a noiva de Milord? – Questiona o comensal que não conheço, seus olhos se arregalando.

— Noiva? – O sussurro perplexo do pai de Luna comprime meu coração.

O cunhado de Bellatrix dá um passo para frente, encarando-me com atenção. Sua varinha ainda está empunhada, mas ele a mantem abaixada. Rabastan sabe quem sou, sabe que seu irmão foi traído por Bellatrix. Ele estava na primeira fila de comensais quando Narcisa fez seu showzinho de tia emocionada.

Seja firme, decidida e inabalável, recito para mim, ciente de que as coisas podem ficar feias. Um contra cinco é uma desvantagem grande demais para que eu facilite. Não posso me confiar no fato de que eles sabem que sou noiva de Tom, ou isso pode me custar muito caro. Olho de relance para trás, vendo Xenofílio de olhos arregalados. Mesmo sendo um bruxo, não o vejo duelando ao meu lado. Não quando a vida de sua filha está em jogo.

Tento lhe passar tranquilidade, mas com a quantidade de comensais que nos cercam, varinhas empunhadas e sendo só nós dois, isso não é nada animador.

— Sim, é ela – Rabastan responde, curvando-se ligeiramente para frente em uma breve reverencia, mas sem tirar seus olhos de mim – Perdoe-nos, senhora, não sabíamos que estaria aqui – Informa, polidamente.

Ele me avalia da cabeça aos pés criticamente, provavelmente tentando entender a natureza da minha aparição na casa de Luna. Seu rosto não demonstra nenhuma preocupação por ter quase me matado soterrada, e isso é o suficiente para que eu entenda que ele não se importa com meu bem estar.

Isso não é bom!

Não me intimido por seu olhar inquisidor. Mas, o ouvir me chamando de senhora é estranho, por isso, luto para deixar meu rosto em branco.

— A visita não foi premeditada – É tudo que digo, sendo o mais fria que consigo. Vejo seus olhos se estreitarem e o fogo que aparece ali é inconfundível, raiva. – Vocês devem ir embora, a situação está sob o meu controle – Não é um pedido, mas minha voz sai educada e suave demais para que eles entendam isso.

Eles se entreolham, confusos e indecisos.

Não fraqueje, mostre-se firme ou eles nunca se curvaram, digo-me, sentindo meu coração disparar.

Existe uma cautela grande vinda por parte dos Carrow’s, provavelmente, por temerem a irá de Tom. Os dois que não conheço, e passaram a saber quem sou, me olham como se não pudessem acreditar que sou mesmo a noiva de Voldemort. Minhas roupas informais e pouca idade em comparação a eles não ajudam muito neste caso.

Receber ordens de uma adolescente para eles deve ser tão estranho quanto eu lhes ordenar.

— Senhora, nossas ordens são... – Paro Amico levantando minha mão.

— Não me importa suas ordens, Carrow – Minha voz sobe algumas oitavas, denunciando minha impaciência – Eu sou a autoridade máxima aqui. Vocês fazem o que eu mando, e eu estou mandando vocês irem embora.

— Perdão, minha senhora – Rabastan dá duas passadas em minha direção, sinto meu sangue gelar – Mas, as ordens são claras.

— Elas partiram de Tom? – Pergunto, sabendo que sua resposta me ferira.

Não aguento mais...

— Quem é Tom? – O comensal até então calado fala, não entendo minhas palavras.

Reviro os olhos.

— Voldemort.

Ele franze a testa.

— Sugiro que não o chamem de Tom, só eu posso fazer isso – Não quero me gabar, mas é impossível não expor esse fato sem sentir uma leve pontada de apreciação.

Suas cabeças balançam, assentindo positivamente.

— Então?

— Bellatrix. – Amico toma a palavra – Bellatrix nos mandou vim aqui e destruir a casa dos Lovegood’s. Mas, recebemos o chamado dele – Ela aponta com o queixo para Xenofílio.

É minha vez de franzir a testa.

— Bellatrix? – A surpresa na voz de Rabastan me faz ciente de que ele não sabia desse fato – Vocês me disseram que a ordem vinha lá de cima – Dispara, olhando com repreensão para seus companheiros – Pensei que vocês se referiam a Milord.

— Bom, ela é uma das comensais do topo da hierarquia – Explica-se Alecto, inquieta – Quando ela me abordou, falou que tinha uma missão para nós. Recebemos as instruções e te procuramos para nos guiar quando o Lovegood nos convocou – Ela troca o peso dos pés e se volta para o sr. Lovegood – Ele é um maldito traidor do sangue que escreve idiotices em um jornal de merda, não é ninguém. No entanto, ficamos curiosos para saber o porquê do chamado urgente. Você encontrou o Potter?

Empertigo-me.

— Aconselho que vocês saiam daqui o mais rápido possível – Digo entre dentes, furiosa por vê-los chamarem o pai de Luna de ninguém.

Rabastan se volta para mim, ainda furioso pela falta de comunicação entre eles sobre essa missão.

— Bellatrix é louca, mas ela nunca repassaria uma missão que o Lord não aprovou. E, o traidor nos chamou, então...

Recebo suas palavras como um soco no estômago.

Eles estão se vendo? Ele e ela... Não, não pense nisso. Não agora.

— Nossas ordens foram claras – Volta a dizer.

— As minhas também, Lestrange – Munida de coragem, dou um passo na sua direção, ficando a pouco mais de três metros longe dele – A menos que vocês convençam meu noivo a vir aqui, sugiro que façam o que estou mandando. Mas, lembrem-se de que vocês me atacaram, e que Voldemort não é piedoso – Olho para a casa destruída atrás de nós – Vocês ainda não conheceram o lado protetor dele em relação a mim – Um sorriso lateral desponta em meus lábios quando me volto para eles – Querem conhecer? – Minha ameaça é lançada de modo inocente.

Suas reações são mistas, variando entre surpresa, descrença, medo e raiva, está última partindo de Rabastan.

— Potter não está aqui – A voz de Xenofílio se faz presente, atraindo nossa atenção para si – Eu os chamei para implorar – Mente, ajoelhando-se à nossa frente.

Meu coração para, completamente tomado de empatia e angústia. Volto-me totalmente para ele, imersa em seu desalento.

— Por favor, por favor... eu te imploro – Ele fixa sua atenção em mim, suas mãos se arqueando no céu de forma suplicante – Minha Luna... devolva minha Luna para mim, por favor – Seus olhos se enchem de lágrimas – Ela é tudo o que eu tenho... por favor... sem ela, eu não sou nada... por favor...

Meus olhos transbordam e, sem conseguir me conter, deixo minhas lágrimas caírem.

Merlin, o desespero de um pai... Respiro fundo, meus lábios tremendo pelo choro que não consigo conter.

Levo as mãos ao rosto e limpo minhas lágrimas, tentando recuperar o controle. Sinto meus nervos em ebulição.

— Vocês devem ir. Eu lidarei com a situação a partir de agora – Falo, soando afetada demais.

Inspiro e expiro fundo, antes de voltar a encará-los. Meu rosto deve denunciar meu choro, mas não me importo que eles me considerem fraca. Meu sentimentalismo é o que me faz ser quem sou, mesmo quando tudo desaba ao meu redor. E tudo está desabando.

— Vão!

Há um momento de dúvida e indecisão, mas logo eles se entreolham e algo é decidido. Sei que a decisão é favorável a mim por suas expressões contrariadas e amedrontadas. Quero sorrir e me parabenizar, mas não consigo digerir metade das coisas que aconteceram, então, mantenho-me impassível.

Eles fazem uma breve reverência, antes de desaparecerem em uma aparatação menos chamativa do que seu desdobrar de mais cedo com a fumaça preta.

— Eu sinto muito por tudo isso – Murmuro, virando-me para encarar o homem no chão – Eu sinto muito, sr. Lovegood.

Ele limpa os rosto com a manga da blusa.

— Minha Luna...

— Irei trazê-la de volta para o senhor – Garanto.

Ele se levanta, agarrando meu ombros com desespero.

— Você promete? Promete trazer minha Luna de volta? – Seu rosto está tão próximo do meu que consigo sentir seu hálito se chocar contra meu rosto – Por favor, eu faço qualquer coisa... Só quero a minha Luna de volta.

Coloco minha mão em sei peito, aonde seu coração bate freneticamente.

— Eu prometo, sr. Lovegood – Deixo meus olhos transparecerem toda a sinceridade do meu coração – Luna é minha amiga, e ela não deveria ter sido sequestrada. Não sei por que isso aconteceu e sinto muito por não ter impedido – Falo com calma, não querendo que ele perca minhas palavras – Saiba que irei trazê-la de volta para o senhor, sã e salva.

Ele chora, caindo de joelhos enquanto abraça minha cintura.

— Obrigado, obrigado, obrigado – Agradece, seu corpo se sacudindo de alívio.

Acaricio o topo de sua cabeça, sentindo a maciez de seus fios.

— Preciso ir – Digo, minha voz saindo chorosa.

Ele se levanta, se separando de mim e ficando com os joelhos sujos de neve. Seu rosto reflete toda a esperança de que o mesmo ainda não havia se permitido ter, com seus olhos me dando mais crédito do que mereço ter.

— Sim, sim.

Desvio minha atenção, tímida.

Eu não sou uma heroína.

Olho para a construção destruída, vendo o fogo se apagar com os flocos de neve que caem do céu. A destruição é quase total, sobrando apenas as paredes do térreo e sua fundação. Consigo ver de onde estou, o que antes foi uma escadaria em caracol de ferro fundido, ser apenas alguns destroços retorcidos agora.

Ela merece voltar para um lar intacto.

Caminho a passos rápidos para a construção, sendo seguida por Xenofílio.

— Minha Luna amava nossa casa – Sua voz é baixa, é um comentário tímido, mas posso sentir o desespero e a tristeza ao ver sua moradia acabada.

— Não é o fim.

— Sim, é claro. Você está certa! O importante é que terei minha filha comigo – Se apressa em dizer, não entendendo minhas palavras e pensando que estou lhe repreendendo de alguma forma.

Sorrio, gentilmente.

— Não é o fim para sua casa, sr. Lovegood – Explico, vendo seus olhos crescerem de tamanho – Luna voltará para seu lar e o encontrará intacto – Desvio minha atenção para a construção em pedaços.

Reúno toda a concentração que consigo, sentindo meu cabelo chicotear com o vento quando começo a libertar minha magia.

Fecho os olhos, entregando-me a ela.

— Prorsus reaedificabo – Murmuro, recebendo a queimação da magia céltica atravessar meu corpo devido ao quão poderosa ela é.

Ouço seu arfar de surpresa no mesmo instante que barulhos de vidro, madeira, ferro e outros materiais que não distingo começam a retumbar à nossa volta.

O feitiço é um condutor de restauração, conseguindo restaurar grandes quantidades de coisas, sejam materiais ou imateriais desde que partes delas ainda se encontrassem intactas. Mas, ele não serve como um feitiço curador, apenas restaura o que ainda mantém alguma parte preservada.

Enquanto me ensinava, Morgana me avisara o quão poderoso e perigoso ele é, que apenas em uma necessidade muito grande eu deveria o utilizar, pois está magia me esgotaria quase que por completo.

Abro os olhos, tendo dificuldade em focar minha visão devido a vertigem que me atinge. Consigo distinguir a forma da casa erguendo-se para o céu, mas não a vejo muito bem.

Cambaleio para trás, sendo amparada por Xenofílio. Cansaço e sono me atingem com força, fazendo com que eu me perca em uma nevoa branca.

— Senhorita... Senhorita... – Sua voz não passa de um sussurro distante em minha mente.

Pisco freneticamente, tentando me recuperar.

— Eu estou bem – Murmuro, firmando-me no chão com ajuda de seus braços – Obrigada, sr. Lovegood.

Suspiro, afastando-me de seus braços.

Meu corpo pesa uma tonelada e minha mente está levemente dispersa, não filtrando direito as palavras que ele jorra para mim.

— Preciso ir... – Engulo em seco, passando uma das mãos pelo rosto para clarear minhas ideias.

— Você não me parece bem.

Um sorriso pequeno desponta em meus lábios enquanto tremo pelo frio que penetra minhas vestes.

— Digo o mesmo.

Uma breve risada anasalada escapa dele, enquanto o mesmo desvia sua atenção para sua casa reconstruída.

— O que você fez foi incrível – Diz, realmente impressionado – Obrigado, sra. Granger.

Me limito a balançar a cabeça, não me sentindo digna de nenhum agradecimento.

— Preciso ir – Volto a afirmar.

Ele tira algumas mexas do rosto, olhando-me em expectativa.

— Trarei Luna ainda hoje para você – Prometo, nenhum pouco duvidosa de minhas palavras.

Ele sorri, seus olhos marejando.

— Ficarei ali, sentado, esperando minha Luna voltar – Ele aponta para a escadaria de entrada reconstruída, apressando-se em se sentar.

Ele se abraça, tentando se esquentar do frio.

Quero chorar, vendo seu estado envelhecido pela dor da saudade e o medo da perca. É uma visão desoladora, que me destrói completamente.

— Mirdy – Chamo-a, minha garganta se fechando pelo choro contido.

Minha elfa aparece de imediato.

Seus olhos me avaliam minunciosamente, encontrando algo que a faz agarrar minha mão com força.

— Minha senhora está pálida e tremendo – Diz, sua voz denotando preocupação – Precisa deitar-se, voltar para casa e...

— Leve-me à mansão Malfoy – Interrompo-a, vendo o sr. Lovegood acompanhar nossa interação.

— Mas...

— Mirdy, por favor... É importante.

Ela hesita, seu rosto tomado por apreensão, mas acena positivamente. Seu corpinho se põe ao meu lado e ela afrouxa o aperto de sua mão na minha, mas não o suficiente para que algum acidente na aparatação pudesse acontecer. Sua preocupação por minha segurança é o que mais aquece meu coração.

— Você é mesmo a noiva dele? – A voz de Xenofílio chega até mim baixa e séria.

Sua pergunta abrupta me pega de surpresa, mas não é de se estranhar. Olho para ele, vendo seu rosto inexpressivo.

Não tenho como mentir, controlei cinco comensais bem à sua frente por usar da minha autoridade como noiva dele. E agora, estou indo libertar Luna de um sequestro que ainda não sei se Tom está completamente envolvido.

Passo a língua por meus lábios secos, meu coração disparando-se.

— Sim, eu sou – Confesso.

Seu rosto não se abala com minhas palavras, se mantendo com sua expressão inalterada.

— Esperarei minha Luna aqui – Diz, encarando o chão e se encolhendo pelo frio.

Olho para Mirdy, que me encara com aflição. Sorrio minimamente e aceno positivamente, indicando-lhe que é hora de irmos.

Aparatamos para a mansão com meu coração à galopes.

“Jamais se desespere em meio as sombrias aflições de sua vida, pois das nuvens mais negras cai água límpida e fecunda.”

— Provérbi

Notas finais
Um tiro doeria menos na Hermione do que a quantidade de informações que ela teve que absolver neste capítulo. Em “Aflição”, deixo em linhas turvas o desfecho final do nossa casal. É o meu ponto de partida para o tão esperado ‘gran finale’. Por favor, me deixem saber o que esperam, o que entenderam e como veem o final de Desire Obsolete. Suas opiniões e comentários são muito importantes para mim ❤️❤️❤️ Bom, eu venho pensando nisso há algum tempo... Quero deixar aqui duas indicações de Tomione’s para que vocês possam apreciá-las tanto quanto eu. São as únicas que estou lendo no momento, mas isso não significa que não existam mais Tomione's maravilhosas (Quem tiver alguma para me indicar, estou aceitando e ficarei muito feliz). Tomione's: — A Herança da Raposa, autora: Bruxa_Arcana (Presente no: Social Spirit e Nyah! Fanfiction) O que tenho para falar sobre essa fic? É puramente encantadora. O enredo prende sua atenção do começo ao fim e te faz sempre querer mais. É muito bem escrita e tem uma coerência extraordinária. — Venenum, autora: Koryander (Presente no: Nyah! Fanfiction e Wattpad) Definitivamente, uma das Tomione’s mais intensas que já li na minha vida. Tirando o enredo impecável, a escrita muito bem trabalhada e os mistérios de alucinar, Venenum me apresentou um Tom Riddle tão fascinante e poderoso, que sou completamente louca por ele. Concluindo, quero que vocês passem pelas mesmas emoções que eu passei com essas histórias (garanto a vocês que serão muitas). Não estou fazendo isso somente pq aprecio essas duas Tomione’s, mas também pq acredito que o que é bom, precisa ser divulgado. Dá mesma forma que vocês me incentivam com seus comentários e favoritos, quero que mais autores se sintam assim ❤️ Sem mais delongas, finalizo pedindo: Se lerem as fics que indiquei, no próximo capítulo deixem-me saber o que acharam, e se por acaso já leram, comentem o que acham delas. Desde já, agradeço por terem tirado um pouco do seu tempo para ler o meu capítulo e também essa nota gigante que escrevi kkkkkk. Beijinhos sabor aflições passageiras!!