Notas iniciais
Lembrando que a história não foi betada. Nesse capitulo as frases em negrito corresponde aos itens obrigatórios que deveriam acompanhar a história. Boa leitura.

— Podemos ir? – Shibi averiguou. A expressão em seu rosto era enigmática e os óculos escuros, tão semelhantes aos seus, impedia-o de lê-lo.

Shino desviou o olhar, pois sentiu-se incomodado.

—Tenho que fazer uma ligação particular. Um minuto e irei encontrá-los no térreo.

— Melhor irmos no carro da empresa, assim vamos todos juntos. O que acha?

— Como o senhor preferir.

— Aguardo-o no Hall de entrada, então?

— Okay.

Enquanto o pai deixava a sala com Naruto e Sasuke, Shino pediu reforços. Ligou para Yamanaka Ino, amiga de longa data, dona e chef de um famoso restaurante na cidade.

— Quem é vivo sempre aparece – Ino era só entusiasmo do outro lado da linha.— Ou melhor, sempre liga! – gracejou e riu alto.

Os amigos iniciaram um breve e objetivo bate-papo, onde Shino implorou por sua ajuda e prontamente foi atendido. Tinha certeza que a amiga não o deixaria na mão, ainda mais numa circunstância como aquela, onde a reputação da família Aburame entrava em jogo. Entretanto, para aceitar o trabalho a chef impôs uma hilária condição: "...te ajudo, desde que não seja preciso assar nenhuma ave descomunal. Peru então, nem pensar. No meu cardápio o peru não entra…"

A Yamanaka colocou a estranha objeção, e mesmo estando sob pressão, foi impossível não se divertir. Conhecia os traumas da amiga em relação a "aves gigantes" como costumava chamá-las, especialmente perus. Há dois anos Ino teve sérios prejuízos após aceitar organizar uma ceia de Natal para um cliente brasileiro. A loira chorou por meses depois do ocorrido, pois perdeu um forno novinho em folha depois que o peru entalou na câmara elétrica. Um acontecimento que rendeu inúmeras piadas de duplo sentido e péssimo gosto, entre os velhos amigos e também entre os funcionários do estabelecimento...

Resolvido a problemática da ceia, que Ino prometeu preparar em tempo recorde e mandar entregar na sua casa. Shino instruiu Tamaki que solicitasse algumas tábuas de petiscos e cervejas importadas, no serviço de buffet delivery que atendia a ABE, em eventos pequenos ou recepções de última hora.

Inclinou a cabeça para um lado e depois para o outro, dando-se conta da tensão na área do pescoço. Se o namorado estivesse ao seu lado já estaria lhe fazendo uma massagem… o pensamento fez seu peito apertar. O quão Kiba foi altruísta no último ano? O estudante abriu mão de tantos projetos pessoais em prol do namoro deles. E ele, do que abriu mão? Aquela constatação o fazia ter vontade de largar suas responsabilidades e ir atrás dele, mas precisava ser realista. Embora fosse um dos herdeiros da ABE, também era um funcionário da empresa, e como tal devia honrar os compromissos assumidos. Chutar o balde na vida real, não era tão glamoroso como se via nos filmes.

Conformado com sua situação atual, pegou o smartphone no bolso do sobretudo. Não havia nenhum sinal de Kiba. Line, mensagem de voz ou texto, ligações perdidas. Nada. Por fim, destravou a tela do aparelho e discou o número do Inuzuka. Mesmo tendo vacilado feio, não queria levar adiante o desentendimento entre eles, em especial por ser véspera de Natal, data que para o povo japonês (diferente de outros países de maioria cristã), era destinada às comemorações românticas e encontros de casais.

"o número chamado encontra-se indisponível ou fora da área de cobertura"

Droga. – resmungou. Os dedos indo em direção à têmpora no intuito de massageá-la, a enxaqueca começava a incomodá-lo.

— Está tudo bem?

Shino assustou-se quando a voz grave do pai chegou aos seus ouvidos. Assumiu a habitual postura profissional ao deparar-se com o mais velho escorado no batente da porta, observando-o, como fez durante boa parte do dia. A quanto tempo ele estaria lá?

— Tudo. Acabei de falar com Ino, tenho certeza que os convidados irão gostar da ceia que ela está preparando.

— Não tenho dúvidas, mas não estou preocupado com a ceia, estou preocupado com meu filho. Está tudo bem com você?

— Sim. Eu estou bem, por que não estaria?

Shibi meneou a cabeça em um gesto negativo, afastou-se da porta e entrou na sala.

— Não sei, me diga você.

— Pai, não há com o que se preocupar – Shino levantou e passou a colocar alguns documentos em sua pasta executiva – Se era só isso, podemos ir. Naruto e Sasuke estão nos aguardando…

— Um de nossos estagiários está apresentando nosso centro de pesquisas a Sasuke – Seu pai ignorou sua pressa, do mesmo modo o encontro que ambos tinham a seguir – Foi só o Uchiha só descobrir que o centro ficava neste andar, que seus olhos brilharam. Seu assistente não ficou muito satisfeito, mas… paciência.

Shibi agiu como se nada estivesse acontecendo e sentou-se na cadeira da presidência, um sinal óbvio para que o filho o imitasse, porém Shino se manteve de pé.

— Pai é deselegante deixá-los nos esperando.

– Sente-se.

Obediente, Shino sentou-se diante dele e permaneceu sob sua mira analítica. Para o mais novo, foi impossível não admirar a figura altiva do outro lado da mesa, acomodado à vontade no lugar reservado à autoridade máxima da empresa. Aburame Shibi combinava tanto com a imponência daquele móvel, na realidade aparentava ter nascido para sentar-se ali

— A resiliência é uma virtude traiçoeira. — Shibi disse, após um tempo que mais parecia uma eternidade.

— Hã? – Shino não entendeu o propósito do provérbio fora do contexto.

— Estas foram as últimas palavras que sua mãe me disse antes de assinar o divórcio. Foi um conselho na verdade – Shibi olhou-o com carinho – Me pergunto como seria se fosse mais parecido com ela que comigo – Todavia, havia algo mais naquele olhar que Shino não conseguiu captar – Sua mãe sempre foi a mais corajosa na nossa relação — segredou.

Seu pai tinha recém-feito cinquenta e oito anos, era um homem muito bonito, ninguém dizia ter aquela idade, no entanto sua aura em alguns momentos ficava triste e solitária, mesmo quando ele estava rodeado de pessoas. Shino julgava ser pelo término do casamento, ocorrido quando ele era novo demais para recordar dos motivos que levaram seus pais a se divorciarem, mas…

— Pai, onde quer chegar com esse discurso?

— Ela se referia ao fato de sermos o que nossas famílias esperavam que fôssemos... Eu e Naoto nos casamos em uma época onde era comum os pais escolherem por seus filhos, inclusive com quem eles se relacionariam no futuro.

Aquilo não era novidade. No Japão, até os dias atuais ainda era comum existirem casamentos por conveniência, imagina na época dos seus pais, contudo porque trazer aquele assunto a tona numa hora tão inoportuna?

— Por que se lembrar de mamãe, agora, após tanto tempo que ela o deixou? Além do mais, estamos na empresa.

—Demorei para compreender o que sua mãe quis dizer com aquelas palavras, mas hoje, com a experiência a meu favor, tudo ficou mais nítido, mas não é sobre sua mãe que quero falar.

— Não?

— Não. Gostaria de lhe falar um pouco sobre mim.

—Sobre você? – Shino ficou realmente surpreso, tanto que deletou a preocupação com Naruto e Sasuke. Toda tensão sobre seus ombros desapareceu como num passe de mágica.

— Antes de sua mãe existir – A frase ganhou toda a atenção do rebento – eu conheci alguém muito especial. Um encontro único, desses que irrompe a vida da gente e deixa a certeza que jamais acontecerá de novo. – A fisionomia de Shibi mudou, um sorriso genuíno iluminou suas linhas de expressão – Nós éramos dois jovens estudantes em um país estrangeiro, onde eu não era o próximo a ter que me sentar nessa cadeira e meu nome não tinha peso ou prestígio algum... Foram os três anos mais felizes da minha vida.

— E o que aconteceu após esses três anos? – A pergunta surgiu baixinha, contudo curiosa. Shino nunca soube daquela história perdida em algum lugar do passado de seu pai. Não sabia o que pensar, nem o porquê de sentir-se triste no momento.

— Terminei minha graduação e retornei ao Japão para assumir a vice-presidência da ABE, esse era o acordo que fiz com meu pai antes de deixar o país. Quando voltei para casa, mesmo sem a conhecer, eu já tinha um compromisso firmado com sua mãe e entre nossas famílias. Nos anos que se seguiram, dediquei-me a ser um bom companheiro para Naoto, e ela me presenteou com o bem mais precioso que tenho nesta vida.

Permaneceram no mais profundo silêncio, Shino em choque e o pai esperando mais perguntas que permaneceram presas na garganta do filho.

— Pai… – a voz de Shino travou.

– Curvar-se frente às mudanças, adaptar-se às circunstâncias adversas que enfrentamos diariamente, sem se posicionar, negociar ou até mesmo por algumas vezes dizer não, nem sempre é tão belo como nos livros. A resiliência é uma virtude traiçoeira... Talvez você possa fazer bom uso desse conselho agora, visto que já é tarde para mim. – Shibi riu sem humor – Como eu disse antes: sua mãe sempre foi a mais corajosa dentre nós dois.

Aburame Shibi ergueu-se da cadeira, aparentava estar cansado, como se carregasse o peso do mundo sobre suas costas, algo que Shino jamais percebeu antes (seu olhar sempre esteve condicionado a figura altiva do presidente da ABE) e deu as costas para o filho, finalizando aquela conversa esquisita. A Shino restou somente seguir seu encalço, pois os dois ainda tinham o fechamento de um grande negócio para comemorar.