Desembainhada
1 Início, Livro, Lembrança
Notas iniciais
Naquela casa o sol irradiava em suas paredes violetas, o brilho batendo na janela de vidro ofuscava em meio ao sol forte do início da tarde. Ali morava uma jovem menina de 15 anos, seus cabelos longos avermelhados, pesado, cacheando nas pontas contrastavam com seus grandes olhos verdes amendoados que despontavam em sua pele branca, suave, tinha estatura mediana, magra, seu corpo já despontava beleza, curvilíneo, prezava o uso de vestidos soltos, o que lhe caia bem, já que seu corpo delicado ajudara nisso.
Amamiya Satsuki seu nome, acordava de um fim de semana de árduos estudos, ela entrara em semana de provas. Levantava sonolenta, com os livros ainda sobre a cama, tentava se desvencilhar daquilo e acabava derrubando tudo que estava sobre sua cama causando certo barulho, o que ela tentava evitar. Satsuki vestia seu uniforme de inverno, blusa de manga comprida branca e a tradicional saia pregada preta, ao olhar no espelho tentava se arrumar o mais rápido que conseguia, penteava seu longo cabelo vermelho que batia no meio das costas e amarrava metade com uma fita preta, deixava sua franja desfiada para frente, um pouco bagunçada, pegava rapidamente sua mochila e descia as escadas de madeira de sua casa, ao chegar à cozinha via que sua mãe já deixara seu café da manhã pronto, panquecas, um de seus pratos prediletos, logo percebera que estava um pouco morno, o que significava que sua mãe já tinha saído fazia um tempo.
Mais uma vez não consigo ver minha mãe antes de sair para a escola. Lamentava Satsuki ao se sentar-se à mesa.
Já terminado o café da manhã, Satsuki trancava a casa e caminhava até a escola que ficava apenas seis quadras de sua casa. Sempre tomava cuidado ao deixar a casa, pois moravam somente ela e sua mãe, seu pai havia falecido quando ainda tinha três anos, infelizmente não conviveu muito com ele, e agora não convive muito com a mãe, já que ela vive muito atarefada com o trabalho, assim Satsuki, desde pequena aprendeu a ter responsabilidades e viver sozinha.
Chegando à escola, Satsuki entrou na sala e logo se sentava na antepenúltima cadeira do lado direito, perto da janela, atrás de sua amiga Oosaki Hikari, uma jovem de cabelos médio, castanhos claros, todo desfiado, com sua franja batendo nos olhos de maneira irregular, um pouco menor que Satsuki, magra e de bochechas rosadas que quando viu Satsuki abre um sorriso de boas vindas.
Estudou para a prova? Parece que não será nada fácil as provas desta temporada. Dizia um tanto preocupada, franzindo o cenho.
Nossa, passei o fim de semana todo estudando, ainda mais para Biologia que é a prova de hoje e a matéria não está nada fácil.
Biologia nem estou muito preocupada, quero ver mesmo a de matemática, estou em desespero, essa prova não podia ser hoje! falava mexendo na bolsa procurando seu caderno.
Bom, acho que farei uma boa prova, afinal estudei bastante.
Que bom! Meu fim de semana foi um pouco cheio e estressante, acabei brigando com meu pai, como você sabe, sempre que isso me acontece saio de casa para pegar um ar mais fresco. Dizia olhando para a mesa de Satsuki. Hikari não se sentia muito bem em comentar sobre problemas familiares que geralmente tinha.
Satsuki segurava nas mãos de Hikari -Já falei que quando tiver esses problemas você pode ir lá pra casa, é melhor do que ficar na rua bebendo. Eu sei que não parou de fazer isso, não adianta virar o rosto.
Eu sei, mas... chegar na sua casa no meio da noite... Não me sinto confortável, sua mãe detestaria e ela também não gosta muito de mim. Falava abaixando a cabeça.
Não há problema nenhum e minha mãe quase nem para em casa, não iria perceber que você estaria lá. Aliás, eu e minha mãe nem conversamos direito durante esses últimos meses, anda sempre se esquivando.
É, parece que não sou só eu que ando com problemas familiares. Hikari ao terminar sua fala escutou o professor entrar na sala, fazendo com que as duas se virassem, sentando direito e arrumando suas mesas. Passados 10 minutos do professor em sala ele entregava as provas. Ambas fizeram suas provas em 3h e desceram para o pátio, sentaram perto das árvores, onde o sol não batia com muita intensidade.
Fez boa prova? indagava Hikari.
Sim, acho que sim, não estava muito difícil. E você?
Como sempre matemática é um problema, mas acho que dessa vez consegui me safar.
Que bom né?! Vamos naquela loja nova que abriu? Parece que tem uns artigos interessantes e antigos lá.
Vamos! Hikari prontamente levantou.
As duas saíram do colégio caminhando para a área de comércio que não ficava muito longe. Ao entrarem de fato na área comercial, onde havia qualquer tipo de loja e os carros não tinham acesso às ruas. Elas acharam a tal loja, as duas caminharam até uma rua mais estreita, um beco, onde apareciam só as laterais das outras lojas. Ambas foram para o beco e entraram na loja. Era pouco iluminada, deixava o ar um pouco sombrio, porém eram repletos de artigos antigos, livros, baús, espadas, roupas... Satsuki, curiosa, foi para a sessão dos livros, deixando sua amiga vendo as roupas. Os livros eram bem empoeirados, os temas variavam, ia de histórias até magias. Satsuki dedilhando os títulos sentiu-se atraída por um livro preto sem nome, focou-se no estranho livro, mas receava pegá-lo, curiosa, porém cautelosa. Quando ela estava se aproximando do livro uma senhora se aproximou, seu andar devagar arrastando suas sapatilhas no chão de taco, trajando um vestido largo de algodão salmão, caia-lhe bem, mesmo de idade ela tentava conservar um pouco de sua juventude e conforto, suas feições idosas, mas bem cuidadas transparecia conhecimento e um pouco de mistério, seus olhos um pouco caídos refletiam-se nos óculos redondos e grandes seu interesse pela menina. Olá menina, quer ajuda?
Satsuki pulou para trás assustada, apesar do barulho da aproximação, algo no livro a entreteve que a fez desligar-se da realidade. Ah, oi, este livro parece curioso. Apontava, sem atrever-se a tocá-lo.
A senhora dava um sorriso amarelado. Sim mocinha, ele é curioso. Mais curioso é você tê-lo encontrado!
A ruiva ficou um pouco confusa com a resposta da senhora dona da loja. Mas... Por que é curioso eu encontrá-lo, está bem visível para todos.
Eu sei, mas nem todos são capazes de vê-lo. Você não se sentiu atraída só pelo livro não ter título, ele te chamou, não foi?
Eu não sei. Eu me senti atraída, apenas isso. Satsuki já tentava se esquivar.
E a energia que sentiu?
Foi apenas um arrepio, livro estranho causa estranheza.
Não precisa ter medo, este livro te escolheu. A senhora sorriu ao falar.
Hã? Eu não estou entendendo. Começa a ficar mais assustada. Nisso Hikari, desviou sua atenção das roupas e pedras antigas para prestar atenção na fala de sua amiga. O que foi Sat?
Não fiquem assustadas meninas! Vocês se sentiram atraídas por essa loja e os artigos daqui se sentiram atraídos por vocês. Bom a senhora pega o livro. — Esse livro é um dos mais antigos de minha loja, vem do sec.XV, pertencera a bruxas da época, seus feitiços, ditos, segredos estão aqui. Ele é guardado com um feitiço que só aqueles que forem dignos de obtê-lo poderão encontrá-lo. A maioria das pessoas que vem aqui não o acha, até mesmo aqueles que querem achá-lo não o encontram. Pessoas más querem o poder, problemas virão logo, vocês duas precisam proteger este poder ou coisas ruins acontecerão, o equilíbrio pode ser abalado, criaturas irão aparecer querendo as escrituras deste livro, se pessoas erradas conseguirem causará grandes problemas.
PERA, PERA! A senhora quer dizer que nós temos responsabilidade sobre um livro idiota de bruxas em que pessoas malucas querem, e se deixarmos esse livro nas mãos deles o mundo sofrerá?! -Hikari cética pergunta.
Sim, vocês foram escolhidas para proteger.
Desculpa senhora, mas eu não me senti atraída por este livro, então não tem essa coisa de vocês duas irão proteger o mundo. Vamos sair dessa loja Sat. Hikari sai puxando Satsuki para o lado de fora da loja. Isso é doideira.
Sim, as duas, o poder não vem somente do livro, ambas se sentiram atraídas pelo mesmo poder, vindo de lugares diferentes. A senhora falava em voz amena, não se esforçava a alcançá-las nem impedi-las de sair. Apenas via as duas jovens fechando a porta com ar confuso e irritado.
As duas após saírem da loja, caminhavam desnorteadas e nervosas para fora do beco, a mais ou menos duas quadras de distancia as amigas pararam em uma sorveteria pequena, esta lembrava os anos cinquenta com suas cores vermelha e branca estampando as paredes e sua decoração, pediam dois sundaes de chocolate e ficaram sentadas em uma mesa do lado de fora.
Isso foi muito estranho. Mas eu realmente senti uma energia vindo daquele livro, hum.
Sat, você não está querendo dizer que vai passar a acreditar que existe magia e todas aquelas coisas que a velhinha disse, né?! Isso é loucura.
Eu sei Kari, mas você não acha que seria legal a gente lutando e tendo poderes?! Seus olhos verdes brilhavam na ilusão de lutar um dia.
Acho que esse sorvete está te fazendo mal, vamos embora Sat. — Enquanto Hikari está puxando Satsuki da cadeira um garoto de cabelos meio platinados passava olhando de um jeito analítico para elas. Satsuki percebe e acaba seguindo o garoto com o olhar, mas se perdeu aos puxões de Hikari.
Você viu? pergunta Satsuki como uma expressão de como se tivesse voltado para o mundo real.
Viu o que?
Aquele garoto de cabelos brancos, eu me senti muito estranha quando ele passou olhando.
Se apaixonou? Hikari ria ao falar.
Não é isso! Acho que o sorvete me fez mal mesmo. Saía andando depressa.
Saindo da área do comércio, chegavam a uma rua arborizada, residencial, passava poucas pessoas, era fim de tarde. As duas caminhavam tranquilamente e em silencio, distraídas com a paisagem, até que o garoto de cabelos brancos passava novamente, do outro lado da rua, o que chamou a atenção de Satsuki, ela pensou em correr, mas suas pernas travaram, como se algo a segurasse, como se ela quisesse ficar parada, estática vendo a imagem do garoto misterioso, contudo estivesse com medo de descobrir o que ele significava e se ele significava algo.
Hikari sai andando na frente distraída, depois de estar um quarteirão a frente percebeu que Satsuki estava para trás e via que ela estava olhando de um jeito petrificado para as árvores, Hikari a chamou, porém sem sucesso ela correu até sua amiga e a sacudiu. Está bem?
Satsuki voltou à realidade em um salto, ainda em transe. Estou sim, eu só estava... Hikari a impediu de terminar de falar e saía puxando rua acima. Você está estranha, ficou assim na sorveteria e agora está no mesmo estado petrificado, acho que ficou impressionada com o que aquela dona falou, é melhor te levar para casa.
As duas chegaram à casa de Satsuki, Hikari entrou meio receosa. A casa estava vazia, atravessaram a sala e subiram em direção ao quarto de Satsuki. — Eu vi aquele garoto de novo, a energia foi bem maior que da primeira vez que o vi, eu nunca tinha visto esse garoto pela cidade, e se o que a dona falou for verdade? E se essas magias realmente existirem? E se ele estiver ligado a isso? O que vamos fazer? A ruiva já estava entrando em pânico de tanta preocupação.
Calma Satsuki, a gente nem sabe se isso é verdade. Até porque magia e pessoas correndo atrás desse poder é doideira, muito estilo filme e tal. Mas... Digamos que exista. Ainda não recebemos nenhum sinal e se esse garoto estivesse mesmo atrás do livro ele viria falar com a gente ou nos atacar. Muitas pessoas mudam para cá, Sat. Você está apenas surpresa com a notícia, relaxa.
É, pode ser isso, preciso só descansar um pouco, vou tomar um banho, talvez assim eu relaxe. Ia até seu guarda roupa e pegava um vestido verde puxando para o azul, feito de algodão, com mangas, seu tamanho era médio, batia acima dos joelhos.
Isso, descanse. Eu já tenho que ir, daqui a pouco meu pai chega em casa e não quero arranjar mais discussões.
Ah, queria que ficasse mais um pouco aqui, mas não quero que arranje problemas, o que você tem tido bastante nesses últimos dias. Satsuki ficou com as feições preocupadas.
Ah, Sat, prometo que amanhã passarei mais tempo contigo. Hikari abraçou a amiga com força, deixando transparecer tristeza, preocupação e carinho.
Satsuki retribui o abraço na mesma intensidade, tentando dar aconchego. Está bem mesmo?
Claro, estou. Diz já soltando Satsuki. Tenho que ir agora. Desceu as escadas depressa, saindo da casa da amiga. Começou a correr para casa, que era um tanto longe dali, nisso as memórias com seu pai na infância surgiram, lembrou-se de como era alegre brincar e conversar com ele, era com quem sempre contava quando criança. Os momentos bons vividos trazem lágrimas aos olhos castanhos da menina, correu mais rápido com as lágrimas escorrendo pelo rosto. Chegando ao prédio ela entrou no apartamento escondendo a face triste e se trancou no quarto, ignorando a madrasta na sala.
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