Desejos Primitivos
7 Ritual dos Guerreiros da Morte
Notas iniciais

''Espero que isto te dê motivação para escolheres o que é mais adequado para todos, Theon.’’ Um tufo de cabelos brancos caiu na mão do garoto. Incrédulo sentiu a sua mão tremendo. Theon soube imediatamente quem teria sido a pessoa que conseguira esses pedaços de cabelo sem qualquer dificuldade, o guerreiro mais perigoso e mortífero da tribo. Ninguém aproximava-se do guerreiro enquanto ele estava caçando, homem ou animal que atravessasse no caminho dele teriam o mesmo destino, a morte.''
Os olhos de Theon abriram-se quando sentiu uma mão no seu ombro e a voz do seu filho. Reviver o mesmo pesadelo vezes sem conta ao longo dos anos não era benéfico para a sua mente.
— Acorda pai. — Saxon tentava despertar o seu pai com pena. Ele parecia que estava precisando dormir mais, o rosto marcado pelos círculos escuros em redor dos olhos denunciavam que dormia pouco, e muitas preocupações.
— Já estou acordado. — Theon espreguiçou-se bocejando. Fora para o seu lugar preferido para descansar um pouco, mas acabara por dormir demais.
O lugar perfeito do líder para ficar sozinho era um precipício com vista para o vale, a erva verde cobria todo o chão, formando um manto confortável para estender o copro.
A serenidade do sítio possuía um efeito relaxante e soporífero para aqueles que não dormiam muito, como ele. O sol já estava desaparecendo no horizonte, querendo dizer que Theon estava atrasado para os preparativos do ritual. Sem perder mais tempo levantou-se e dispôs-se a regressar para a aldeia. Acabar por adormecer ao ar livre só significava que estava ficando velho.
Bagunceou os cabelos de Saxon em forma de carinho. O seu caçula gostava dos carinhos, mas não demonstrava isso abertamente, contudo o brilho nos olhos castanhos demonstravam o quanto o gesto era apreciado. De todos os três filhos, Saxon — o mais novo — era o mais difícil de decifrar, mostrava-se maduro demais para alguém com apenas doze outonos.
Definitivamente era mais maduro e responsável que o irmão mais velho, de certa forma isso preocupava tanto Theon quanto Nala, porque Saxon deveria estar correndo fazendo imbecilidades e caçando aventuras com as outras crianças, não passando o tempo todo com os adultos ou sozinho. Não ia condenar o comportamento do filho, todas as pessoas tinham uma personalidade, e nenhuma forma de ser era errada. As pessoas só teriam que aceitar como cada um era.
Quaisquer maus-tratos ou chacota a qualquer membro da aldeia por ser diferente seria severamente punido.
A Tribo do Lago prezava pela diversidade individual, e ninguém tinha o direito de fazer outra pessoa sentir-se mal na sua pele. Contudo nem sempre fora assim, a tribo nas mãos do seu pai e do pai dele, sofrera bastante. A aldeia fora um verdadeiro inferno de bestas selvagens. Houvera pessoas que degolaram outras por causa de um pedaço de carne. O seu pai e avô prezavam mais a ferocidade dos guerreiros, do que a união e boa harmonia da tribo.
Saxon ainda aceitava demonstrações de afeto dos pais, por isso não incomodou-se quando o seu pai colocou o braço dele em cima dos seus ombros, enquanto regressavam para a aldeia. Era reconfortante e gostava de carinhos, não iria ficar embaraçado, nem fazer uma tempestade como o idiota do seu irmão mais velho.
Quanto mais olhava para Kain mais vontade tinha de enfiar a cara dele na lama, por causa da maneira como ele tratava Caja. O futuro líder da tribo era um caso perdido. Saxon sendo o filho varão mais novo, não tinha inveja do cargo que o irmão mais velho iria ocupar, muito pelo contrário, estava muito aliviado por não ter nascido em primeiro. O fardo de líder era muito pesado e sufocante.
O garoto empurrou esses pensamentos assombrados para o fundo da sua cabeça, aproveitando que estava sozinho com o seu pai, para aliviar outras dúvidas que possuía. O seu pai sempre lhe dissera que poderia falar com ele sempre que precisasse, sobre qualquer coisa. Então não viu motivo para ficar tímido com o que iria perguntar.
— Pai, sexo entre homens dói muito? — Olhou para Theon com espectativa.
Theon parou abruptamente a sua marcha e olhou para o seu filho, pasmo. — O quê? — Sabia que Saxon não tinha qualquer problema em ser direto, o garoto podia ser muito reservado e de poucas palavras, mas não tinha problema em ser muito direto e franco quando queria.
Contudo não esperava que ele fizesse uma pergunta desse género, talvez dali a um ou dois anos… Sexo entre homens?
O líder tentou recuperar do choque e responder com naturalidade, não iria dizer algo que desse a entender que ele não devesse fazer perguntas desse tipo. Ficou feliz por ver que Saxon procurara sanar essa dúvida com ele, por isso iria responder naturalmente, como se o seu garoto não tivesse perguntado sobre sexo.
— Depende do teu parceiro, se ele for gentil não vai doer tanto, mas certamente vai doer um pouco mais na primeira vez. Ele precisa preparar-te para não sentires desconforto, e ser paciente também vai ajudar.
— Não pai, eu vou ser aquele que vai penetrar. — Saxon não tinha complexos com a sua estrutura física, ele ainda estava em crescimento, por isso ser magro e um pouco baixo não o envergonhava nada. Ser paciente era uma virtude.
O garoto mal podia esperar para atingir os treze outonos, para poder entrar para o treinamento dos guerreiros, em especial para ficar perto de uma certa pessoa.
Theon ficou estupefacto, cada vez que Saxon abria a boca dele, era para deixar os outros boquiabertos. A firmeza com que o garoto dissera que seria o dominante, não deixou margem para dúvidas de que seria mesmo.
A personalidade calma e reservada camuflava bem o jeito dominante dele, Theon orgulhou-se do fato de que o seu filho não precisava reafirmar a sua masculinidade e dominância a cada instante, entre brigas ou aventuras perigosas. Mais uma vez Kain perdia para o irmão mais novo.
O líder sorriu e abraçou o filho, beijou o topo da cabeça dele, percebendo de como ele estava crescendo em altura e amadurecendo em mentalidade. — Podes ser o que quiseres Saxon, o meu orgulho de pai permanecerá igual. — A preferência por homens parecia correr no sangue da sua família.
— Obrigado pai. — Saxon abraçou-o, o apoio dele era o mais importante.
— Vamos para a aldeia depressa, senão o ritual vai ficar agoirado. — Theon sorriu e desfez o abraço retomando o caminho.
ººº
Kain já soprava de irritação, ter as mãos da Xamã e dos ajudantes a tocarem no seu corpo era irritante. As pinturas tribais pareciam não ter fim. Pela primeira vez o filho do líder iria tomar a liderança do ritual, a dança dos guerreiros Maza.
O guerreiro principal tomava a liderança na dança, exatamente como faziam numa caçada, o líder escolhia a presa e comandava os seus guerreiros.
O guerreiro líder das caças mais importantes normalmente seria o líder da tribo, quando a estação mais ríspida e estéril aproximava-se, os guerreiros da tribo preparavam-se para uma grande caçada, onde dois ou três dinossauros de grande porte seriam abatidos, servindo de reserva de alimento para toda estação fria.
A caçada precisava ser feita antes dos animais migrarem para zonas mais quentes, se essa caçada falhasse muita gente da aldeia morreria por fome, pois era impossível cultivar legumes e as frutas desapareciam durante o inverno. Basicamente a alimentação consistia em carne, cereais e farelos.
A dança dos guerreiros Maza — Espírito da Água — era uma oferenda ao Deus da Tribo do Lago, mas com toda a humildade humana, todos os espíritos eram venerados no mesmo ritual.
O tempo para a grande caça estava se aproximando. Todos os guerreiros em perfeitas condições físicas sairiam da segurança da fortaleza da aldeia, e partiam à caça que poderia demorar várias semanas. Percorriam grandes extensões de terreno, onde a cada instante o perigo assombraria os homens.
O mais longe que os guerreiros precisaram viajar para conseguirem um animal grande que estivesse doente ou fraco, fora ao Vale dos Ossos, um lugar arenoso e estéril cheio de carcaças e ossadas de animais. Os guerreiros enfrentavam muitos obstáculos durante essa viagem, conseguirem matar dois animais ao mesmo tempo, carrega-los até à aldeia quando cada animal devia pesar toneladas, e os possíveis predadores que poderiam aparecer devido ao cheiro de carne e sangue, e reclamarem as presas.
Era impossível defender a caçada ao mesmo tempo em que os guerreiros defendiam as próprias vidas.
O ritual dos guerreiros Maza era para dar sorte e prosperidade aos guerreiros que iriam sacrificar as suas vidas para o bem de toda a aldeia. Houvera vezes em que as outras aldeias da Tribo do Lago vieram mendigar alimento à aldeia do líder, porque as caçadas deles falharam, e a comida tornara-se obviamente escassa. Por isso a aldeia do líder teria que ter muito sucesso na caça custasse o que custasse, muita gente dependia da aldeia principal.
Os cânticos sussurrados da Xamã enquanto pintava os elementos dos espíritos, os ajudantes prendiam as penas coloridas — azul, vermelho, castanho e branco — à tanga de couro preto de Kain.
As pernas e braços de Kain estavam pintados em forma de labaredas vermelhas de Lutshazi, — o Espírito do Fogo, representando as labaredas de fogo encurralando a presa sem meio de fuga. Nas costas encontravam-se desenhadas correntes de vento, Mutu — o Espírito do Vento, representando a rapidez e agilidade —, na parte do abdómen o castanho simbolizava a terra, Lwena — Espírito da Terra e Natureza, tudo o que precisarão matar para sobreviver regressaria à terra com as pessoas quando morressem. Tudo voltaria para o seu lugar, onde Lwena receberia todos com a sua terra, completando o círculo da vida.
As ondas azuis no peito de Kain exibiam a imponência de Maza, — Espírito da Água e vida, sem a água de Maza não era impossível haver vida. O elemento água merecia todo o respeito da Tribo do Lago, pois foram abençoados por terem diversos cursos naturais de água essencial para a vida.
O rosto do filho do líder foi decorado com tinta preta, formando linhas e formas irregulares, representando a morte. Pulseiras e colares de couro, pedras e conchas completavam as pinturas no corpo dele. Quando a Xamã terminou com as pinturas sagradas entregou uma máscara feita de ossos, com um formato meio animal e meio humano. Morte seria a última coisa que as presas veriam.
Enquanto crescia, Kain vira o seu pai liderando o ritual dos guerreiros Maza, não era permitido que se ensinasse ao sucessor da tribo a dança dos guerreiros, o dom da liderança precisava ter nascido com o filho do líder. Por isso o filho do líder apenas observara todas as danças desde de pequeno para ter uma noção.
O jovem guerreiro não iria enganar-se a si mesmo, dizendo que não estava nervoso, ele estava bastante mas precisava ter confiança em si. Kain estava louco para ir para a sua primeira grande caça! As histórias que os guerreiros contavam quando regressavam, sempre alimentavam a sua vontade de sair para explorar o desconhecido, o gosto desmedido por aventuras fora incentivado desde pequeno pelas histórias das grandes caçadas. Essas histórias sempre influenciaram Kain a ir para além da fortaleza, às escondidas.
Agora chegara a sua vez de provar o quanto ele era merecedor de liderar, e de provar realmente o valor dele. Finalmente chegara a hora de provar o que valia para os outros e para ele mesmo, mesmo sendo somente no ritual, esse seria o primeiro passo.
ººº
No centro da aldeia três grandes fogueiras formavam a sagrada trindade — os Espíritos, os Ancestrais e os homens —, as oferendas de alimentos, artesanato e qualquer coisa que as pessoas quisessem oferecer aos espíritos, tudo era bem-vindo. Todas as pessoas da aldeia teriam que fazer uma oferenda, desde crianças a velhos debilitados, se quisessem receber teriam que dar algo em troca primeiro.
Caja sentiu-se nervoso pela grandiosidade da cerimónia, ele próprio estava faltando ao ritual da Tribo da Floresta. Normalmente o guerreiro líder do ritual — o mais forte — que tivesse contribuído mais para a tribo era o escolhido. A liderança nos últimos anos estava nas mãos de Targus e do filho dele, Yvell. O seu pai confiava totalmente neles para garantir a subsistência da tribo. O garoto jamais participaria numa caça dessa importância, não queria trazer mais embaraço para si e envergonhar o seu pai.
Ouvira dizer que seria Kain o líder do ritual, o garoto-flor ficara nervoso pelo outro. Não viu o guerreiro durante o dia inteiro, a aldeia ficara numa correria com os preparativos do ritual daquela noite, por isso só era lógico que Kain estivesse ocupado.
Theon, Saxon e Caja vestiram-se na cabana do líder. Os padrões dos desenhos eram desconhecidos para Caja. Na sua tribo usavam outros símbolos para venerar os espíritos, mas deduziu que tudo teria o mesmo fim, a prosperidade das tribos. Os espíritos aceitariam as diferentes formas de homenageá-los.
Caja sempre adorara ver o seu pai dançando nos rituais, o orgulho e admiração transbordavam do peito dele cada vez que via Rhea iniciando o ritual, movendo-se com elegância. Mesmo não fazendo parte das caçadas, o líder entrava nos rituais para dar força moral para os guerreiros.
A vestimenta de Caja fora uma tanga de pelo branco, curioso perguntara de que animal era. Explicaram-lhe que a pele vinha de um animal que tinha umas orelhas alongadas até ao chão, o corpo dele era redondo e conseguia saltar a grandes alturas. Achara estranho, nunca vira um animal como esse, mas o pelo dele era muito fofo e macio ao toque.
Linhas curvas brancas e verdes foram desenhadas no corpo dele, pulseiras nos tornozelos e colares adornavam os braços e pernas de Caja. O cheiro das tintas não era o mais agradável, suco de frutas e insetos triturados misturados não combinavam muito bem, mas tolerava-se.
O garoto ficou bastante impressionado com a aparência do líder, a pintura tribal de linhas curvas e traços retos azuis e pretas demonstrando a sua posição de líder ficaram perfeitas. A tanga de pele escamosa azul e preta, braceletes de couro preto nos pulsos e tornozelos fazia trespassar uma imagem ameaçadora. A coroa de penas azuis e pretas, os colares de dentes de animais — simbolizando quantos líderes a tribo já tivera — enfeitavam Theon, destacando o líder da Tribo do Lago dos demais.
Se Caja não soubesse que era o pai de Kain, diria com toda a certeza que seria o Espírito de Maza encarnado, o cabelo castanho-claro só acrescentava força a esse fato.
Saxon era uma versão mais nova do líder, excepto a coroa e os colares de dentes. O garoto podia não ter os olhos verdes nem o cabelo castanho-claro, mas herdara muitos traços de Theon.
— Estão prontos? — Nala entrou na cabana do líder com a filha, Lila, atrás dela.
A ocasião exigia um pouco mais de esmero na aparência, as duas estavam muito bonita. Os peitos delas estavam confortavelmente atados com tecidos macios, fazendo conjunto com as tangas femininas. Os cabelos e a decoração com acessórios estão soberbos, o sabão de flores que usaram exalava um perfume muito agradável.
Lila aproximou-se de Caja toda risonha, observando a figura dele da cabeça aos pés. — Caja! Estás lindo! Tão branco e puro! — A garota andou à roda dele inspecionando. — Ancestrais sejam glorificados! Nunca vi nada assim, nem pareces humano! Dá vontade de te morder!
Cabelo sem cor, pele pálida e tanga de pelo branco decerto não seriam uma boa combinação, mas Lila dera a sua sentença que não estava tão mal assim. Inevitavelmente corou, Caja não era muito a fim de que o mordessem.
Todos se riram da garota até alguém chamar o líder dizendo que estava tudo pronto para o ritual. As pessoas estavam todas vestidas a preceito, estavam todas sentadas em círculo em redor das três fogueiras, deixando um bom espaço para a dança dos guerreiros.
Caja encontrava-se tão nervoso e ansioso para ver Kain, imaginando qual seria a aparência dele, mas nada do que imaginara o preparara para o que estava vendo com os próprios olhos.
ººº
Vinte guerreiros devidamente decorados com pinturas tribais, pulseiras e colares avançavam para o meio rodeando as fogueiras, cada guerreiro tinha uma lança de madeira com a ponta feita de osso ou pedra esculpidas, idênticas às que levariam para perfurarem e cortarem o couro e a carne mais duras dos animais.
A Xamã deu inicio ao ritual com uma breve prece os Espíritos. Tambores, flautas de madeira e osso e cânticos honrando os Espíritos.
Os guerreiros disperçaram-se no círculo e colocaram-se estrategicamente nos seus lugares, dividindo-se em duas fileiras à esquerda e direita, onde permaneceram estáticos dando passagem para o guerreiro líder. Kain ocupou o seu lugar no meio das três fogueiras. Os membros da tribo ficaram espantadas, não contiveram os sussurros de surpresa por verem como o filho do líder ficava muito bem com os trajes do ritual.
A lança de Kain era igual ao dos outros guerreiros, só pela pequena excepção de ter contas azuis e pretas enroladas na ponta.
No centro das três fogueiras o garoto deixou de ser quem era, para ser o Zaire — o filho do líder—, para ser o futuro líder da tribo.
Na sua frente estavam as pessoas que mais queria impressionar, a sua família.Os pais dele sorriam-lhe encorajadoramente, sentado ao lado deles estava Caja. As pinturas corporais dele eram simplesmente de cortar o fôlego, os traços moldavam-se perfeitamente ao corpo delgado de Caja, seguindo os contornos. Pela falta de adjetivos, Kain pensou que o brilho do outro fosse igual à lua, bonito.
Acordando do seu transe, percebeu que estava na hora de dançar, já não dava para voltar atrás seria agora ou nunca. O Zaire deu início a uma série de movimentos com o corpo habilidosos, o seu punho apertando firmemente a lança da liderança. Os saltos mortais, piruetas e viravoltas simulando uma luta ao ritmo dos tambores, e das ovações dos guerreiros.
A luta simulada estava exigindo tanto como se fosse real, os olhos Zaire visualizavam a presa na sua frente, a lança acompanhava e adaptava-se aos movimentos do corpo dele sem nunca atrapalhar os movimentos.
Precisava calcular bem o espaço que tinha por entre as três fogueiras para não correr o risco de se queimar. O corpo do Zaire entrara em sintonia com Maza e Mutu, tornando-o leve, ágil e fluido, os saltos e todos os movimentos foram executados com facilidade e rapidez, como se o corpo dele estivesse desprovido de peso.
Os guerreiros em redor dele faziam uma serie de movimentos sincronizados para complementar a dança do líder, cada um dos vinte guerreiros era um reforço e força preciosa para o sucesso da caçada. Velozes, ágeis e brutais, tudo o que os guerreiros deveriam ser.
A imagem do animal caçado presente na mente do Zaire desapareceu, o ritual terminou quando ele enterrou a sua lança no chão e ergueu o seu punho fechado para o céu, em sinal de vitória. Tanto os guerreiros como toda a tribo ovacionou entusiasticamente o Zaire.
Os gritos e urros mais acentuados vieram da sua família, obviamente. Os olhos marejados de emoção da sua mãe contrastavam com o largo sorriso orgulhoso do seu pai. Os gritos e aplausos histéricos dos seus irmãos fizeram Kain sorrir, estufando o peito de orgulho.
A adrenalina que corria no corpo dele chegou-lhe aos olhos em forma de humidade, agradeceu por ter a máscara de ossos no rosto, para poupar à humilhação de o verem naquele estado.
Os olhos de Kain encontraram caminho para Caja, que aplaudia entusiasticamente com um grande sorriso plantado no rosto. O guerreiro desviou o olhar, um pouco sem jeito, pelo menos o ritual tinha sido um sucesso, e ele não fizera figura de idiota na frende dele...
Caja não conseguia desviar os olhos do guerreiro, a dança fora simplesmente perfeita, o corpo dele mexera-se de uma forma que nunca havia visto antes. Os movimentos precisos, as acrobacias no ar… Não havia palavras para ele descrever o que os seus olhos viam.
O futuro de Kain como guerreiro e líder estavam garantidos, ele iria sair-se muito bem. O suor escorrendo, fez parcialmente as pinturas ficarem num borrão, Caja achava que isso deixara-o com um aspeto melhor…
O garoto de cabelos brancos viu com avidez como a família embrenhava Kain entre abraços de comemoração, afastou-se um pouco para dar espaço para eles, não queria intrometer-se em algo do qual ele não fazia parte. Felicitaria Kain mais tarde, embora ele não merecesse mas mesmo assim faria.
Após o ritual da dança dos guerreiros Maza, toda a tribo aproximou-se das fogueiras para lançar ao fogo as suas oferendas. Uma mãe sorriu, ao ver o seu filho de quatro verões jogar um punhado de grãos de cereais para o fogo, e correr de volta para trás das pernas dela.
Caja lançara na fogueira uns colares de contas e penas que fizera, não era a sua tribo mas queria que os Espíritos bafejassem aquela tribo com prosperidade.
Assim que dera a sua oferenda, o seu braço foi puxado fazendo-o quase perder o equilíbrio. — Ei! Kain!
O guerreiro não parou, continuou andando até ficarem um pouco afastados da confusão do centro da aldeia. Kain não sabia o que o se apossou dele, apenas que teria que fazer alguma coisa depois de ver a maneira como Caja olhara para ele, o rosto iluminado com um sorriso especialmente dirigido a ele. Fora a gota de água para fazer algo louco.
Quando ficou satisfeito com a distância o guerreiro colocou Caja na sua frente. Livrou-se da máscara de osso, deixando-a cair no chão, e segurou o rosto do garoto-flor com as duas mãos.
— O que é que estás fazendo? — A voz do garoto não era mais do que um sussurro. Percebeu imediatamente que algo estava diferente, o olhar verde penetrante ficou mais misterioso e predatório à luz dos archotes. A respiração arfante fazia o peito do jovem guerreiro subir e descer rapidamente com ansiedade.
— Shhh, não digas nada. — Kain parou de pensar, aproximou demasiado o seu rosto ao de Caja. A sua mão direita saiu do rosto para segurar a nuca, a esquerda deslizou para o quadril — mas não permaneceu aí —, a mão subiu para o fundo das costas, acariciando a pele morna.
O nariz dele captou o estranho aroma do garoto-flor, sem segurar o seu impulso deixou o seu rosto cair no pescoço dele, inspirando profundamente no lugar onde o pescoço e ombro se conectavam. O perfume natural de Caja penetrando nas suas narinas resultou num gemido fraco, esfregou suavemente a ponta do nariz na pele dele.
A carícia fez o garoto-flor arrepiar-se, aparentemente uma das suas fraquezas fora descoberta. Os lábios de Kain dispararam convictos para o seu alvo, os lábios rosados do garoto-flor.
O espanto ruídoso de Caja fez querer afastar o seu corpo das mãos do guerreiro, a boca de Kain estava beijando-o. Queria libertar-se, mas as mãos segurando o seu corpo tinham um aperto firme, não conseguia sair do toque de Kain com a sua força.
Delicadeza fluiu dos lábios do guerreiro rude, tomou o seu tempo lambendo-os até a necessidade de querer mais tornar-se insuportável. Passando de delicado para impulsivo, a língua do guerreiro adentrou a boca da flor. O braço de Kain enlaçou-se na cintura da flor, trazendo o corpo dele para colar-se ao seu, a sua mão segurando a nuca empurrou mais o rosto dele para fazê-lo ficar à sua altura e conseguir devora-lo completamente. Os gemidos abafados dos dois fracamente expressavam o que realmente estavam sentindo com o beijo.
O beijo desleixado, salivado e apressado deixou os dois sem ar depressa demais. Relutantemente separaram-se para recuperarem o fôlego. Olharam um para o outro como se quisessem dizer algo, mas as palavras não saíam.
Caja entrou no estado de dormência, o beijo que acabara de acontecer era uma ilusão, uma coisa irreal, um fruto da sua imaginação fértil. Todavia os seus lábios formigavam, a sua língua estava saboreando o gosto de Kain. O seu primeiro beijo fora com um idiota que ele julgava odiar.
O guerreiro lambeu os seus lábios, sorvendo a saliva do garoto-flor, o beijo destruíra qualquer ideia que tivesse sobre como seria abominável beija-lo, esperara que fosse repugnante, mas não. O interior de Caja era tão doce e quente, esperava um hálito de carne podre, mas não, uma mistura de frutas maduras e doces foi o que provara.
O aspeto avermelhado e molhado dos lábios dele tornava-os mais eróticos, incapaz de conter-se, Kain lançou-se em outro beijo, apossando-se de todo o interior do garoto-flor, a pouca resistência dele fez a sua dominância de guerreiro disparar, gostava da submissão dele.
O segundo beijo foi tão voraz que terminou pouco depois, como o primeiro. O peito de Caja arfava desreguladamente, precisou de procurar apoio para as suas pernas tremulas, apesar dos braços de Kain estarem suportando o seu corpo, precisou de segurar-se com as suas mãos. Enlaçou os seus braços no pescoço dele.
— Kain… — O garoto reencontrou a sua voz, a primeira palavra seria obviamente o nome do outro, porém fora cortado imediatamente suspendendo qualquer futura pergunta.
— A resposta é: eu não sei. — Sabia qual seria a primeira coisa que o outro iria perguntar, qual é o significado disto? Sabia a pergunta, mas não sabia o que responder, beijara-o por instinto? Por vontade? Sim, ele fizera isso, mas com qual motivo? Não fazia a mínima ideia. Em certas situações, palavras e explicações eram desnecessárias.
— Tudo bem… — Caja não pressionou o assunto. Quando o guerreiro não mostrou intenção de querer conversar, tirou os seus braços do pescoço dele, e tomou a liberdade de abraça-lo pela cintura, colocando o rosto no peito dele. Só seguindo os instintos.
O abraço foi inesperado para o guerreiro, instintivamente apertou os seus abraços no corpo de Caja, o corpo menor encaixava-se perfeitamente nos seus braços. O contato entre as peles dos peitos nus de ambos parecia especial.
A irrealidade do abraço e dos beijos continuou por mais um pouco, naquela noite do ritual de boa sorte e prosperidade algo mais floriu.
ººº
O ritual de caça da Tribo da Floresta sempre fora uma ocasião soberba de comemoração. O escolhido para representar o guerreiro líder foi Yvell, filho do guerreiro mais forte da tribo, Targus.
Rhea estava de certa forma agradecido por Caja estar ausente, sabia o quanto esse ritual poderia ser assustador, a ausência do seu filho evitou que fosse humilhado, porque seria obrigado a participar pelo menos uma vez na vida. Quando chegavam à idade toda a gente, homens e mulheres, teriam que participar sem excepções.
Na realidade Caja não possuía um osso agressivo ou dominante no corpo, raramente afastava-se da aldeia, e quando o fez perdera-se. Graças aos Espíritos e aos ancestrais fora encontrado e mantido são e salvo, mesmo que estivesse na tribo de Theon.
Amava o seu filho do mesmo jeito, bem lá no fundo agradecia por Caja não ser um guerreiro, não precisava de partir para caçar nem enfrentar situações perigosas, o seu coração de pai agradecia esse fato.
Rhea terminou de arrumar-se, vestira uma tanga feita de pelo branco puro que nunca vira — um presente de Targus —, pulseiras e colares de contas caíam no pescoço e membros dele. Os desenhos tribais verdes e brancos foram feitos no corpo do líder por Targus, e vice-versa.
Entrançar os longos cabelos brancos decorados com penas e contas coloridas, deu para o líder ficar distraído pensando no seu filho. Era a primeira vez que ele não participaria do ritual, e a primeira vez que Caja estava longe de casa. Um triste suspiro saiu dos lábios do líder, alertando Targus.
O guerreiro mais velho entregou os brincos do amante para ele colocar. — Já está na hora de me dizeres onde está o Caja. — Notou o rosto do amante escurecer-se com a sombra de algo que não soube muito bem definir. O sumiço do garoto estava incomodando-lhe bastante, mas a obstinação de Rhea sobrepunha-se a qualquer coisa.
O líder colocou os brincos de penas brancas esverdeadas, antes de finalmente decidir falar algo. — Caja está… — respirou fundo — Na Tribo do Lago.
Targus franziu a testa em confusão. — Tribo do Lago? Rhea, o que é que realmente aconteceu? — O homem cruzou os braços sobre o peito, esperando pacientemente a explicação do amante.
— Ele perdeu-se e foi encontrado por alguém dessa tribo. — Disfarçando o desconforto Rhea fingiu que ajeitava a sua trança.
— Caja perdeu-se e agora está na tribo inimiga? — Targus teve que repetir em voz alta para a informação fazer sentido. — Como é que sabes isso? O que é que nos impede de ir busca-lo? — Algo não estava se encaixado muito bem.
— A Tribo do Lago não é nossa inimiga! — O líder levantou a voz mostrando o seu descontentamento por um falso rumor que o seu pai implantara, e a tribo acreditava. A Tribo do Lago definitivamente não era o inimigo.
Targus arqueou as sobrancelhas em resposta ao tom indignado do líder, não pôde conter mais a sua aspereza. — Não, só nos roubaram uma boa caça no inverno passado! — O guerreiro relembrou-se com raiva do momento em que os ladrões da Tribo do Lago apoderam-se de um Sauropode, um alimento de sete metros que alimentaria as duas aldeias, mas perderam-no para a Tribo do Lago.
Os desgraçados apareceram do nada e aproveitaram-se do cansaço do dinossauro, que já estava pronto para cair no chão, graças ao esforço dos guerreiros da Tribo da Floresta que fizeram de tudo para cansa-lo. Os outros passaram na frente, atacando como animais desprovidos de mente humana.
No fim precisaram recuar, apanhados de surpresa não estavam em posição de revidar o ataque, a fadiga era demasiada para um confronto. Desde desse dia que Targus cuspia ao pronunciar o nome da tribo, nunca pensara que fossem tão baixos e mesquinhos para roubarem a caçada de outros. — Aquela gente não tem moral nenhuma! Guerreiros assim só mostram o reflexo do líder deles!
Rhea entendia muito bem a revolta do guerreiro, sentira uma raiva extrema quando soubera do sucedido, os seus guerreiros trouxeram uma pequena caça em vez de um animal grande, como fora o planejado. — The… — A boca do líder fechou-se antes de dizer algo que levantasse mais suspeitas.
‘’Theon não era capaz de fazer algo assim, ele não tem culpa dos atos mesquinhos dos outros!’’ Rhea fechou os olhos, passava grande parte do tempo a odiar e recriminar Theon para subitamente querer o defender.
Targus passou a mão no seu rosto, suspirando exasperado, não era do seu feitio perder a calma. — Como é que é tu sabes que ele está na Tribo do Lago? — Precisava de respostas concretas, tanto mistério e enigmas davam volta à cabeça de qualquer pessoa, ele preferia fatos diretos e coerentes, coisa que Rhea não oferecia.
O líder não queria falar mais no assunto, nada de bom viria se ele continuasse com aquele assunto. — Eu não quero falar mais sobre isso. — Afirmou calmamente.
— Tudo bem. — Targus não poderia fazer nada se ele não quisesse falar. Já estava habituado a que Rhea fosse esquivo a alguns assuntos. Estendeu a sua mão para ele. — Vem, já devem estar à nossa espera para o ritual.
Rhea deu um pequeno sorriso e aceitou a mão, depositando um beijo na bochecha dele murmurando um agradecimento. — Obrigado Targus, sem ti eu estaria perdido.
Poderia haver outro homem que ficasse tão bem ao seu lado como Targus ficava? Rhea tinha a certeza que não.
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