Desejos Primitivos
8 Encontrado na neve
Notas iniciais

Caja foi acordado por umas ligeiras, mas firmes, sacudidelas no seu ombro. O seu cérebro sonolento ouvia o seu nome ser chamado por uma voz bem distante. Enroscou mais o seu corpo, transformando-o quase numa bola humana, puxou o macio cobertor de pelos para cobrir mais o seu corpo, suspirou confortavelmente esperando regressar para as profundezas do sono.
A voz chamou mais uma vez o seu nome com uma risada, o irritante chocalhar no seu ombro retornou, fazendo Caja finalmente abrir os seus olhos. A primeira coisa que notou foi que ainda estava bem escuro lá fora, fazendo-o choramingar.
— Vamos, acorda Caja! — Kain tentava fazer a flor dorminhoca despertar, nunca pensara que fosse uma tarefa complicada. Quase ficou com pena dele, quase. Não poderiam se dar ao capricho de perderem tempo, precisariam de partir imediatamente, a viagem ainda era um pouco longa.
As preparações para a temporada fria e hostil, que se aproximava, precisavam ser feitas antecipadamente. Os vegetais secos que aguentariam armazenados por muito tempo, estavam prontos para serem colhidos. A água era guardada em grandes depósitos de barro em pontos estratégicos da aldeia, quando o gelo e a neve caíssem transformaria todas os lagos de água fresca em barreiras sólidas de gelo, impossível para os homens perfurarem.
Grandes quantidades de ervas e plantas medicinais eram colhidos para os curandeiros e para a Xamã. Durante essa época as pessoas tendiam a ter frequentemente febres e outras maleitas, por isso uma grande reserva era preciso ser feita.
Havia uma certa flor com grande poder medicinal, indispensável para os humanos, chamada de Suspiro de Mutu.
Segundo a lenda, Lwena — Espírito da Terra — oferecera uma flor pela amizade que possuía com Mutu — Espírito do Vento —, para evitar que a flor morresse, Lwena plantou-a no desfiladeiro preferido de Mutu — onde a neve perpetuava-se e grandes correntes de ar atravessavam o desfiladeiro. O vento assobiava tão alto que parecia que Mutu estava sussurrando —, ficando o nome da flor Suspiro de Mutu.
A missão de trazer Suspiros de Mutu para abastecer a aldeia coube a Kain, e mais três guerreiros, contando com Caja sendo arrastado também, para grande desagrado do jovem guerreiro.
A viagem até ao desfiladeiro de Mutu não era muito longa, mas em compensação era muito perigosa devido à neve e ventos fortes. Todavia contrariar uma ordem do líder era perda de tempo, ele nunca mudava de ideias. Por isso ali estava Kain acordando o garoto-flor na manhã seguinte aos beijos…
Espreguiçando-se e sentando-se na cama, Caja deu-se por vencido e esfregou o sono dos olhos. — Já estou acordado… — Dissera encarando Kain com o olhar embaciado.
Sorrindo, o guerreiro colocou as roupas que ele deveria vestir, no colo dele. — Veste isso, lava o rosto e desperta de vez. Precisamos ir embora antes do sol nascer.
Caja segurou nas roupas e olhou para o guerreiro, vendo que ele estava vestido dos pés à cabeça com roupas de frio. As calças de couro castanho colavam-se às coxas musculadas, uma túnica com mangas compridas de peles cobria a parte superior do corpo dele.
Kain estava muito… diferente. Um diferente muito bom, o calor que se acumulava nas suas bochechas estava desconfortável, os beijos da noite passada encontravam-se tão frescos na sua mente, não estava ajudando muito.
— Aonde vamos? — Caja aclarou a garganta, para fugir ao embaraço colocou-se em pé e começou a vestir-se. Todas as peças de roupa consistiam em pedaços de couro e peles unidos por costuras com ráfia fina.
A parte mais incómoda eram as calças, apertavam e amassavam a sua masculinidade, muito desconfortavelmente. Grande parte do tempo usando tangas e túnicas davam-lhe uma boa liberdade, por isso quando chegava à altura de usar calças era uma tortura.
Vendo que o outro não respondera à sua pergunta o garoto levantou o rosto para olha-lo, arqueando as sobrancelhas por vê-lo olhando intensamente para ele. — Kain acorda! — Inevitavelmente o olhar do garoto foi se abaixando, até reparar que o volume das calças de Kain parecia querer rasgar o tecido. Impressionante ver o quanto tudo estava tão marcado naquela zona.
O guerreiro pigarreou parando de encarar o garoto-flor vestindo-se, recordando-se que ele tinha feito uma pergunta. — Vamos buscar o Suspiro de Mutu. — Ele virou as costas para o garoto, e guardou mais algumas coisas necessárias numa grande bolsa para a viagem.
— Hm, um pouco perigoso… — Caja murmurou e terminou de vestir a túnica e colocar uma túnica de peles quentes por cima. Sentou-se de novo na cama para calçar as botas. Enfiou os pés dentro dos canos de pelo fofo até ao joelho, amarrados por cordas, as solas feitas de madeira colada com resina e forradas com couro e pelo, as botas tornavam-se muito confortáveis de usar com todo aquele pelo.
Lavou o rosto na bacia de água e estava pronto para a aventura.
O moreno entregou-lhe duas capas grossas de pelo para usa-los quando chegassem ao desfiladeiro. Caja rapidamente colocou-os dentro da grande bolsa que o outro lhe dera também. Saíram da cabana com tudo necessário às costas, para irem encontrar-se com o líder.
Theon esperava-os com os três guerreiros que fariam parte da comitiva que os acompanhariam. Entregou as armas para os dois, precaução nunca seria demais. Não se encontrava muito seguro em relação a Caja fazer parte de uma missão arriscada, mas estava confiante que poderia trazer alguma experiência significativa para o garoto.
Se algo acontecesse com ele, o céu cairia e Rhea apenas teria mais uma razão para o odiar mais, e mata-lo no mínimo.
O filho do líder prendeu a sua espada de pedra laminada, dois punhais, prendeu-os na cintura das calças, a lança de madeira com cume afiado colocou-a presa na lateral da bolsa que carregava nas costas, onde um arco e flechas já estavam acomodados. Um caçador desprevenido virava presa facilmente no mundo onde viviam.
O garoto dos cabelos brancos colocara os seus dois punhais presos na cintura, e o arco e flechas na bolsa, como Kain fizera.
— Dron, Hijot e Sorin sabem todos os trilhos que vos levarão até ao desfiladeiro, como a palma da mão deles. — Theon olhou penetrantemente para o seu filho. Kain devia interpretar as suas palavras, não deveria tomar outros caminhos ou atalhos de forma alguma.
Para ouvir sempre os outros guerreiros que tinham mais conhecimento do terreno, e mais experiência. — Não fiquem descuidados nem distraídos pensando que não vão encontrar perigos, apenas por não verem carnívoros.
O líder terminou o seu discurso abraçando fortemente o seu varão, sussurrando na orelha dele. — Mata sem dó nem piedade qualquer Vleed que aparecer no vosso caminho.
— Sim, líder. — Kain retribuiu o abraço. Não entendia o porquê do homem fazer questão de despedir-se com tanta intensidade, não era como se ele fosse deixar o ninho para sempre.
E sinceramente para quê que ele sempre lhe avisava para não fazer nada inconsequente? Por favor, já deviam dar-lhe seriamente um crédito, não era como se ele fosse mordido pelo bicho da raiva e saísse fazendo merda, colocando a ele e aos outros em perigo.
Theon deixou o filho para virar-se para Caja, deu-lhe igualmente um abraço e um sussurro. — Rhea vai ficar muito orgulhoso de ti. — Sorriu ao sentir o corpo dele ficar tenso devido à menção do nome do pai. — As respostas virão depois Caja.
O garoto olhou boquiaberto para o líder, com inúmeras perguntas saltitando na sua cabeça, queria respostas ali e agora, mas viu que Theon estava sendo sincero, as respostas viriam quando regressasse. Resignado, murmurou um agradecimento. — Obrigado, isso significa muito.
— Boa viagem e vemo-nos daqui a dois ou três dias. Que Mutu os leve e os traga nas suas correntes em segurança. — Theon viu a pequena comitiva a afastar-se, respirou fundo e fez as suas preces aos espíritos pela segurança de todos eles.
Estava tão concentrado nos seus pensamentos que o seu coração quase saiu do peito, quando viu Saxon ao seu lado. Jurava que o seu garoto mais novo movia-se como uma brisa, silencioso demais, nem uma pessoa com uma audição apurada como ele conseguia ouvia-lo. — Saxon, o que fazes acordado?
— Quando é que eu poderei fazer missões? — Saxon quis saber, o seu olhar nunca deixando o grupo que se afastava, os seus olhos não deixavam de seguir uma pessoa em particular.
— Assim que começares com o treinamento. — Quando os rapazes chegassem aos treze anos e entrassem no treinamento para ser guerreiro, seriam considerados quase adultos.
Entendia a ansiedade dele por tornar-se independente, as habilidades de Saxon deixariam um adulto com vergonha. Permitir a entrada no treinamento aos treze anos era somente uma tradição, a maioria dos filhos dos guerreiros começavam a treinar desde que começavam a andar.
Theon colocou o braço em cima os ombros do filho, levou-o de volta para a cabana. Nala muito em breve teria outro filho independente para se preocupar.
ººº
O grupo de viajantes recolhia e arrumava tudo o que utilizaram para preparar a primeira refeição do dia. Somente pararam pela primeira vez quando o Nsiki estava no seu auge no centro do céu. A refeição fora rápida, não poderiam demorar muito tempo num local desprotegido como a floresta.
Dron, o guerreiro mais velho, sabia exatamente quais os sítios mais resguardados para fazerem as paragens, devido aos seus anos de experiência em buscar o Suspiro de Mutu. Como estavam viajando com pouca carga, estavam relativamente leves, logo moviam-se mais rapidamente e percorreriam uma maior distância.
Kain observava os companheiros de viagem, intrigado. Não conhecia pessoalmente os três, não eram guerreiros muito ativos no seu círculo de caçadores, ou seja eram guerreiros de posição baixa. Um deles era mais velho que o seu pai por pouco, o outro vira uma ou outra vez fazendo parte da patrulha da muralha, conhecia o mais novo dos três por ter feito parte do mesmo treinamento, apesar do outro ser dois invernos mais velho que Kain.
No entanto a preocupação de Kain não estava nos três guerreiros, e sim no garoto-flor. Apesar de ele não reclamar ou expressar desagrado, era notório no rosto dele que estava esforçando-se para acompanhar o ritmo, contudo o pior ainda estaria para vir.
Assim que terminaram de colocar tudo dentro das bolsas, recomeçaram a marcha até chegarem ao limite da floresta.
O súbito som de vegetação mexendo, fez o grupo parar abruptamente e retirarem as armas dos seus suportes, preparando-se para o ataque.
— Caja, fica atrás de mim. — O guerreiro colocou-se na frente do outro, bloqueando-o da ameaça.
— Eu não preciso que me protejas, se for para morrer, morro com dignidade. — Caja saiu de trás do outro recolocou-se ao lado dele. Pegou no seu arco e flecha, apontou para o alvo, esperando que ele aparecesse. Se não conseguisse acertar o animal, pelo menos serviria como diversão…
Kain estava pronto para argumentar quando o animal saiu da vegetação, um certo tigre dentes de sabre. Esse tigre com olhar de tédio encarava os humanos, desnecessário seria dizer que Xanxon fizera demasiado barulho para um felino. Provocador…
Se alguém dissesse que o tigre fizera de propósito para os assustar, ele concordariam sem hesitar. O alívio foi unanime e toda a gente guardou as armas de novo.
Os risos por terem sido enganados pelo animal duraram alguns instantes. A floresta ficou para trás enquanto à frente deles estava um vale arenoso, seria a única coisa que veriam até chegarem à encosta do desfiladeiro.
Boa parte da viagem foi feita sem grandes conversas, apenas algumas perguntas de orientação que o filho do líder fazia ao guerreiro mais velho. Durante a travessia do vale arenoso encontraram manadas de herbívoros na sua marcha lenta até aos rios e lagos, e pequenos carnívoros que pouco mais chegavam à altura da coxa, que tinham mais barriga que cérebro, tentando atacar os humanos.
Caja não queria recorrer à força bruta, mas não teve outra opção se não pegar na sua lança, e bater em dois pequenos carnívoros. Os seres irritantes estavam tentando morder as suas pernas.
Podia ouvir as risadas de Kain, que recusou-se a lhe ajudar. Depois de ter pontapeado um dos animais — que saiu voando —, os outros não se aproximavam do guerreiro. O instinto de sobrevivência dos animais não permitia chegasse perto de outro animal mais agressivo que eles.
Atravessar vales desérticos usando roupas de frios sob o sol alto significaria muito calor e muita sede. A água dos cantis desapareceria em pouco tempo.
Dron liderou o grupo para uma pequena nascente de água doce, escondida por rochas, para encherem os cantis até à próxima paragem. Caja ficou tão agradecido pela água, que a sua tentação de jogar-se para dentro do riacho era enorme.
O calor estava insuportável com tanta roupa de couro e pelos vestida, o garoto retirou a parte de cima expondo o peito, ficou agradecido pela mínima brisa que sentiu na pele. Amarrou as mangas da túnica no pescoço para proteger as costas do sol quente. Quando terminou de lavar o rosto e peito levantou-se, encontrando os seus companheiros de viagem olhando para ele.
— O que foi? — Caja perguntou, ficando sem jeito quando ele tornava-se o centro das atenções.
Os três guerreiros apenas sorriram e desviaram o olhar, só Kain respondeu-lhe.
— A tua resistência a climas adversos é uma merda.
O garoto revirou os olhos com o comentário simpático do outro. Sim, a mesma boca que roubara-lhe o primeiro beijo, o segundo e terceiro era capaz de dizer coisas tão estúpidas e ofender-lhe com mestria. — Por esta altura eu achava que tu já serias imune à minha falta das graciosas habilidades de guerreiro. — Caja guardou os seus cantis e passou por Kain, batendo na parte de trás da cabeça dele com a mão.
— Ei! — Kain grunhiu. Esperava seriamente que Caja batendo-lhe não se tornasse um hábito.
ººº
As tendas foram montadas no sopé do desfiladeiro ao cair da noite. Os ventos agressivos ameaçavam as tendas sustentadas por troncos de árvores encontrados no chão, e por duas camadas de peles grossas.
Kain e Caja compartilhavam uma tenda, enquanto os guerreiros compartilhavam outra. O vento gelado e cortante castigava os abrigos temporários. O acampamento não possuía fogueiras, porque ao contrário das crenças isso não afastaria os animais, a luz apenas atrairia animais curiosos até ao ponto de luz. Ter um Tiranossauro fuçando por ali a meio da noite não era uma maneira muito boa de acordar.
O garoto-flor estava escondido por debaixo do cobertor tentando dormir, mas era tremendamente impossível. O nome do desfiladeiro devia ser algo como ‘’Uivos de Mutu’’, porque o vento estava gritando lá fora.
Após uma discussão silenciosa entre Xanxon e Kain, Xanxon conseguira permissão para permanecer no interior da tenda, mais propriamente do lado de Caja, aquecendo-o.
Mesmo assim ele não conseguia dormir, estava demasiado consciente de tudo ao seu redor. Principalmente consciente de ter o corpo de Kain tão perto do seu. Obviamente os dois estavam dividindo os cobertores, por isso evitou fazer qualquer movimento para não perturbar o sono dele.
Suspirou cansado, fechou os olhos outra vez na esperança de adormecer, porém a súbita proximidade do corpo do guerreiro, os braços dele envolvendo o seu corpo, fez sobressalta-lo de surpresa.
— Dorme Caja. — Kain sussurrou na orelha dele. A inquietação do garoto-flor estava perturbando o sono dele. Pensou que talvez fosse do frio, por isso abraçou-o, nada melhor que dividir o calor corporal.
Claramente ignorou de como o seu corpo estava enconchando perfeitamente Caja. Como parte do favor que estava fazendo a ele, puxou-o mais contra si, colando as costas ao seu peito. Prontamente não deu importância ao formigueiro que se alastrava pelo seu corpo, e o cheiro dele inundando o seu nariz. Afinal trocaram uns beijos, não precisariam de ter mais intimidade, certo?
Caja não respondeu, nem protestou contra a intimidade dos corpos, afinal estavam completamente vestidos, e todo o conforto era bem-vindo.
Por isso fez isso mesmo, fechou os olhos e adormeceu.
ººº
A noite correu sem problemas, inclusivo os primeiros raios do sol estavam despertando no horizonte enquanto os dois jovens ainda permaneciam dormindo. Foi preciso um dos guerreiros ir acorda-los, mais concretamente Sorin. O rapaz permaneceu perto da entrada da tenda, tentando acordar o filho do líder. — Zaire, acorde já amanheceu, precisamos levantar o acampamento o mais rápido possível!
Do lado de dentro só saiu um murmúrio sonolento.
— Zaire acorde por favor! — Sorin tentou mais uma vez, para seu desespero não sortiu efeito.
— Quando tentar acordar com palavras não é eficiente, é preciso outro método. — Dron explicou tendo pena do jovem, para demonstrar o que queria dizer, pegou no tronco central da tenda agitou-o, fazendo a tenda abanar violentamente. — Zaire! Estamos preparados para prosseguir marcha! — O divertimento do homem era evidente pelo sorriso sacana que tinha no rosto, a juventude era revigorante.
— Já estou acordado, seus desgraçados! — A voz de Kain rugiu mais que o vento.
Dron riu um pouco mais, Sorin desculpou-se, os dois voltaram para a fogueira que Hijot estava tendo dificuldade de manter acesa, por causa do vento incomodo.
O primeiro a sair da tenda foi Xanxon, o tigre espreguiçou-se e caminhou para perto da fogueira, esperando o seu alimento, pois nas proximidades a esperança de encontrar o seu alimento era nula.
Gemendo de frustração, não querendo sair do quentinho dos cobertores e deixar o corpo de Caja, Kain reuniu força suficiente para levantar-se, não antes de enterrar o seu rosto nos cabelos brancos e inspirar fundo. — Acorda Caja.
— Estou acordado… — O bocejo preguiçoso do garoto só demonstrava que não se importaria dormir mais. Quando abriu os olhos, só viu as costas de Kain saindo da tenda. Espreguiçou-se alongando os membros o mais que pôde antes de levantar-se.
A refeição foi leve, carne e peixe, pão e água quente aromatizada com ervas secas, para manter o corpo quente.
O acampamento fora levantado com rapidez, preparando-se para subirem o desfiladeiro. Kain ficou apreensivo por terem que escalar aquela altura, quando a rajada de ventos vinda de todas as direções fustigava-os. Um deslize e morriam.
— Dron, não haverá outra passagem mais segura? — Kain perguntou ao homem mais velho. Escalar o precipício não era a forma mais segura.
— Claro que há! É por esse caminho que iremos. — Dron liderou o grupo para um caminho mais estreito, onde uma passagem apenas para humanos estava cravada no desfiladeiro.
Os dois jovens ficaram surpreendidos, o que faria um caminho daqueles penetrando pelo interior do desfiladeiro? — Quem fez este caminho? — A curiosidade de Caja fez querer saber mais.
— Ninguém sabe ao certo, estas escadas sempre estiveram aqui desde da primeira vez que vim cá. — Dron explicou, começando a subir os degraus. — Há quem diga que foi Lwena, ela era muito amiga de Mutu como já devem saber, conta-se que esses dois eram inseparáveis, e que Lwena fizera estas escadas para ficar mais próxima de Mutu no topo do desfiladeiro.
O garoto achava fascinante as histórias sobres os Espíritos. A escada levava-os para o interior do desfiladeiro, cortando o interior, as paredes de terra e pedras expunham tudo o que elas engoliram ao longo dos tempos, pedras coloridas, ossos e madeiras entre outras coisas.
Aquelas coisas seriam os tesouros secretos do desfiladeiro. A luz dos archotes que carregavam para iluminar o caminho tornava o interior mais místico. Levado pela fascinação Caja parou para apreciar em particular uma pedra brilhante, o verde profundo relembrou-lhe algo muito bonito, os olhos de Kain.
— Não é hora para ficar olhando as pedras, Caja. — Kain repreendeu-o suavemente, incentivando-o a continuar. Pois o caminho era estreito, somente conseguiriam andar em fila, um de cada vez.
Caja não se incomodou com a repreensão, olhou para o guerreiro e sorriu. Normalmente o garoto-flor responderia ironicamente, mas um sorriso foi tudo o que conseguiu dar a Kain antes de recomeçar a andar.
Estranho, foi tudo o que Kain achou da reação pacifica do garoto-flor, normalmente recebia uns quantos ataques verbais, mas um sorriso foi muito para lá de estranho.
A chegada ao topo do desfiladeiro demorou metade do dia, precisaram retirar a camada grossa de neve que obstruía a passagem. Os ventos gelados e cortantes tinham a força para impedir um homem adulto de andar, dificultando a marcha. Os guerreiros cobriram as cabeças e metade dos rostos com peles enroladas, exceto os olhos, qualquer pedaço de pele exposta seria fustigada pelo vento.
O garoto de cabelos brancos já estava achando que ficaria atolado na neve, era impossível caminhar quando o peso do seu corpo puxava-o para baixo, enterrando-o até aos joelhos. Definitivamente aquela seria a parte que menos gostou da viagem.
Caja usou toda a sua força para conseguir retirar-se da neve, porém o seu esforço estava sendo em vão. Não ajudava que o oxigénio devido à altura em que estavam era limitado, fazendo as pessoas ficarem sem fôlego ao mínimo esforço.
Uma mão apareceu na frente dele, sem hesitar Caja pegou nela, a facilidade com que essa mão o puxara e fizera os seus pés sair da neve fora atordoador. Nada o preparou para ver os dedos de Kain entrelaçados com os seus, puxando-o atrás dele. Nenhum dos dois falou, pois era inútil já que os uivos do vento não permitiriam ouvir qualquer som.
Precisaram andar alguns metros até à beira do precipício, onde a flor permanecia com todo o seu esplendor, intocada pela neve ou vento. O lugar onde o Suspiro de Mutu encontrava-se verde, a grama verde rodeada por um manto branco era simplesmente surreal.
As flores eram completamente negras, tanto as pétalas arredondadas quanto o caule. A aparência dela não era uma das mais belas, mas continham grandes poderes medicinais, logo era uma flor associada à vida.
Os três guerreiros colhiam as flores com todo o cuidado para não danificarem-nas, e apenas recolhiam a quantidade necessária, não levariam em excesso por ganância. Mutu e Lwena estavam permitindo usarem-nas para fins benéficos, e os homens precisavam respeitar. Por cada flor colhida na próxima vez haveria o dobro no lugar das que foram retiradas. Era assim que o ciclo da vida funcionava, a natureza pedia respeito e em troca poderiam usar os recursos provindos dela.
Kain e Caja permaneceram observando os homens retirando as flores, colocando-as na bolsa. Se o garoto não estive com a sua mão presa na de Kain, certamente já teria sido levado pelas correntes fortes do vento. Os olhos de Caja estavam lacrimejando copiosamente, precisava estar constantemente a limpa-los para evitar que a humidade os congelasse.
Quando os guerreiros terminaram de recolher as flores todo o grupo dispôs-se prontamente a fazer o caminho de regresso. Durante o caminho a visão periférica de Caja captou algo por entres as árvores, caído na neve.
Semicerrou os olhos ajustando a sua visão para tentar perceber o que seria, uma coisa de cabelos pretos e o que parecia ser pele. A realização do que seria fez Caja retirar a sua mão de Kain, imediatamente correr para o local. Conseguia ouvir os gritos de Kain chamando pelo nome dele, mas não poderia parar. O choque ao ver o que era de perto fê-lo retirar uma das suas capas do corpo, e embrulhar a criança com ela.
O corpo ossudo do menino estava cheio de queimaduras do gelo, a pele muito pálida estava manchada de hematomas roxos-azulados e negros. Não conseguiu perceber o porquê de uma criança de que não deveria ter mais de dois ou três anos estar ali nua e sozinha.
Aconchegou o menino o melhor que pôde, cobrindo corpo e cabeça, deixando o rosto a descoberto para respirar. Caja não conseguiu perceber se a criança estava viva ou morta. A respiração era muito fraca quase inexistente, o corpo dele estava congelado, não teve a certeza se vira os olhos mexendo um pouco ou se fora a imaginação dele.
Antes que pudesse suspeitar de alguma coisa, o menino fora arrancando dos seus braços por um Kain raivoso. O aperto da mão do guerreiro no pescoço da criança fez todo o sangue do corpo de Caja parar de circular no corpo.
Levantou-se pronto para retirar a criança do aperto dele. Simplesmente era monstruoso. — O que é que estás fazendo? — Gritou, incapaz de conter as lágrimas.
As palavras do garoto-flor não incomodaram-no, ignorou-as. As suspeitas de Kain confirmaram-se quando abriu a boca da criança, e viu um conjunto de dentes um pouco mais afiados do que o normal, só restava verificar os olhos.
Empurrou a pálpebra de um dos olhos, vendo a cor vermelha, os seus dedos apertaram-se na garganta da criatura, que grunhiu de dor e contorcia-se como um filhote de animal. Só restava fazer uma coisa, Kain pegou no seu punhal pronto dar o golpe de misericórdia à criatura, já que estava meio moribundo mesmo, somente iria acabar com o sofrimento dele. Apesar de ser uma criança, era um Vleed.
A intenção de matar o Vleed foi interrompida por Caja agarrando no pulso em que segurava o punhal.
— Para! Enlouqueceste? — Caja hiperventilava em pânico. A criança contorcia-se e choramigava vê-lo ali suspenso pelo pescoço era agonizante. Como é que Kain seria capaz de matar uma criança indefesa…
Os olhos verdes olharam para o garoto-flor com desdém. Não se surpreendeu por Caja não saber a aparência de um Vleed, suspeitava que a tribo dele ficasse bem longe para ele saber qual era a aparência de um. — Esta criatura é um Vleed, um canibal que come a tua carne!
O garoto da Tribo da Floresta não recuou com a revelação, mas ficou impressionado, era a primeira vez que via um membro dessa infame tribo em carne e osso. Ainda assim era uma criança indefesa com a sua vida presa por um fio, ou melhor dizendo, com a vida dele estava suspensa pela mão de Kain. — Larga-o! Agora! É uma criança!
— Caja… — Kain rosnou o nome dele em aviso. Era incabível que o garoto-flor vivesse para confronta-lo, primeiro os dinossauros roendo a fortaleza, agora empenhava-se em salvar o maldito Vleed. — A criatura vai morrer.
A palavra morte vinda da boca do moreno fez disparar a reação de Caja. Pegou no seu próprio punhal, e colocou a lâmina afiada encostada na garganta de Kain, extraindo de imediato gotas de sangue. — Larga-o agora Kain!
Pelo canto do olho o guerreiro percebeu o movimento dos outros companheiros de viagem avançarem em direção a eles, prontos a intervir. — Fiquem quietos. — Não precisava de ajuda para lidar com Caja. Apesar que era considerado um grande ultraje apontar uma arma ameaçando o futuro líder da tribo.
Não poderia permitir que o garoto-flor se machucasse, seria ele próprio que faria isso se fosse preciso. — Perdeste o juízo? Esta criatura vai comer a tua carne, não vai mostrar-te misericórdia! Ele não vai ficar agradecido por teres salvado a sua vida!
— Por favor... — Caja suplicou, vendo que o menino debatia-se cada vez menos, e ficava mais silencioso, temia que ele tivesse morrido daquela maneira tão brutal.
Suplicou olhando diretamente para os olhos do guerreiro, apelando pela gentileza e compaixão que sabia que existiam dentro dele. Intimidou-se com o olhar tão irado de Kain, fazendo a sua mão que segurava o punhal no pescoço dele tremendo um pouco. A vontade de Caja era sair correndo quando o outro o olhava com tais olhos, mas manteve-se firme.
— Uma única mordida e criatura morre. — Kain largou o Vleed, que caiu no chão sem produzir algum som. Olhou ferozmente para o garoto-flor, era o seu couro que estava à mercê da tribo, levar um maldito canibal para a aldeia era a coisa mais louca que já fizera na vida.
Irritou-se mais por ter fraquejado e sucumbido à vontade de Caja, odiava o fato que sem querer o outro exercia esse tipo de poder sobre ele. — Esse maldito vai ser a tua morte. — O guerreiro virou as costas e deixou o garoto onde estava, mal se lembrando que o seu pescoço fora ligeiramente cortado.
Caja não perdeu tempo e pegou na capa de peles para embrulhar a criança outra vez. Embrulhou-o bem apertado com ela, aconchegou-o bem nos seus braços, com o rosto dele virado para o seu peito para o proteger do vento.
O corpo desnutrido dele ajudava a carrega-lo com mais facilidade. Apressou-se a seguir os outros, o caminho de regresso foi feito com grande tensão. Todos estavam sépticos quanto a terem um Vleed perto deles, mas Caja não se importava, afinal fizera o que estava mais correto, salvara uma criança.
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— Tira essa coisa de perto de mim! — Kain ordenou com desdém. A criatura não iria compartilhar o seu calor corporal, a tenda ficou apertada demais, ainda mais quando o garoto salvador dos animais indefesos colocara o Vleed no meio deles para dormir. Os seus dedos coçavam para pegar em alguma coisa cortante e degola-lo.
Entendendo muito bem o desagrado do guerreiro, Caja retirou o menino do meio da cama provisória e colocou-o do seu lado esquerdo. Xanxus parecia não importar-se em aquece-lo. Quando desceram do interior do desfiladeiro, voltaram para o mesmo lugar onde acamparam na noite anterior.
Assim que o acampamento fora montado pôde finalmente tratar e cuidar do menino, sem muitos recursos medicinais para tratar das queimaduras provocadas pelo gelo, apenas iria mante-lo quente e alimentado.
Um dos guerreiros, o mais novo e com tatuagens azuis no lábio inferior até ao queixo, dera-lhe uma pétala de Suspiro de Mutu para combater o congelamento interno do menino. Instruindo-lhe para esmagar a pétala até libertar os óleos e mistura-la com a água quente.
A única coisa que a criança conseguiu ingerir fora uma infusão bem quente, tentara dar-lhe uma porção de pão e fruta mas sem sucesso, ele recusava alimentos sólidos. O pequeno abria os olhos por breves momentos, tentando perceber o que se estava passando ao seu redor, mas preferia tê-los fechados a maioria do tempo, claramente sucumbindo à fadiga.
Caja nunca conhecera alguém com os olhos vermelhos, nem humanos nem animais. O pequeno parecia sentir-se confortável no colo dele, tremia e choramingava a cada vez que ouvia a voz de Kain. O garoto aconchegou-o mais perto do peito e tentou dormir, fingindo que o uivo do vento não lhe incomodava.
Não retaliou todas as vezes que Kain fazia algum comentário venenoso, ou aos olhares de repulsa e ódio que lançava ao menino, não havia necessidade. Afinal ele deixara o menino viver, Caja não poderia pedir mais do que isso.
ººº
À medida que aproximavam-se do território da aldeia, o estômago de Kain encontrava-se contorcido com nós. Olhou de soslaio para o garoto-flor, a criatura estava aninhada no peito dele como se fosse um maldito bebê. Como é que iria explicar para o seu pai? Qual seria a razão mais plausível para trazer um maldito Vleed para dentro da aldeia?
Quem realmente estava louco não era Caja, e sim ele por permitir que a criatura permanecesse ainda viva. O mais frustrante de tudo era vê-lo olhando e cuidado do Vleed com tanto carinho, que fez ele quer vomitar. O idiota passara todo o caminho verificando se a criatura estava respirando, com sede ou fome, como a porra de um pai.
Uma monstruosa dor de cabeça foi tudo o que sentiu, o pior era que a responsabilidade iria ser dele, Caja só tinha que ficar lá sendo bonito enquanto ele aguentaria o tranco.
O garoto de cabelos brancos precisou fazer uma espécie de bolsa com os tecidos que tinha, para transportar a criança. Atou uma grossa faixa de tecido da sua túnica lateralmente no seu ombro, o tecido não era o mais forte mas pelo peso esquelético do menino aquentaria bem.
Aconchegado ao seu peito, a única coisa visível era o tufo de cabelos negros, o garoto praticamente só dormia e deixava-se alimentar com poucas quantidades de comida.
Assim que entraram na floresta descartaram as capas de peles pesadas, o nervoso apenas aumentava a cada passo que estava mais perto da aldeia. Caja estaria levando um membro de uma infame tribo. Seria punido? Ou pior, matariam uma criança? Ele esperava que não.
O grupo fora saudado pelos guerreiros patrulheiros da fortaleza. Os outros três guerreiros não pareciam tão adversos ao Vleed quanto Kain estava, talvez por ser uma criança tivesse ajudado.
O caminho para o centro da aldeia foi feito em silêncio, assim como todo o percurso de regresso fora feito.
A algazarra que sempre acontecia cada vez que alguém regressava de uma missão alertou o líder e os anciões. Theon e mais quatro anciões de importância da tribo saíram da cabana do líder para ver os recém-chegados.
— Trouxemos os Suspiros de Mutu, líder. — Dron foi o primeiro a falar, preferindo ir direto ao assunto.
— Muito bem, podes ir entrega-las aos curandeiros. O resto está dispensado, exceto vocês os dois. — Theon viu o embrulho suspenso no peito de Caja com um mau presságio. A carranca tensa do seu filho estava gritando que algo havia acontecido.
Os guerreiros olharam com simpatia para Caja, desejando-lhe boa sorte silenciosamente. Os músculos de Kain tencionaram-se, pôde cheirar o receio vindo do garoto-flor.
— Caja, o que é isso que carregas? — O líder aproximou-se um pouco mais do garoto com os olhos lacrados na bolsa.
O garoto precisou ter auto controle para manter-se no lugar, ter Theon tão próximo com um rosto tão sério, era algo para recear. — E-Eu não podia deixa-lo morrer… — A criança escolhera esse preciso momento para choramingar e apanhar todos de surpresa.
Os olhos de Theon duplicaram de tamanho com o som. Aquilo era uma criança? — Deixa-lo morrer? — Puxou o tecido da bolsa para conseguir ver melhor, era de fato uma criança com uma cabeça cheia de cabelo preto caindo no rosto, a pele exibindo os ossos era extremamente pálida. Theon sentiu-se lívido. — Kain!
— É um maldito Vleed, eu sei! — Kain respondeu por entre dentes, cerrando os punhos. O que é que ele deveria ter feito? Espancar Caja e ter matado a criatura? Sinceramente isso devia ter sido o mais correto.
A comoção que se seguiu provocou o pânico dos anciões. O garoto dos cabelos brancos recuou um passo, saindo do alcance do líder, envolvendo e apertando os braços em volta da criança. — P-por favor! É só uma criança… — Os olhos azuis buscaram imediatamente Kain suplicando.
— Caja, essa raça é canibal. — A voz suave mas firme do líder sobrepôs-se às blasfémias dos anciões. Queria entender quais os motivos que o filho de Rhea tivera para salvar um Vleed.
Toda a situação precisava ser lidada com muita precaução. — Tens noção que a tribo dessa raça se alimenta da carne de homens? Não podem viver com outras pessoas normais?
— Eu sei, mas é que… — Caja balanceava a criança para conforta-la e fazer parar de choramingar, mas as vibrações negativas e hostis dirigidas a eles não estava contribuindo. — Eu não podia deixa-lo morrer daquela maneira tão cruel, é só uma criança! Talvez se for ensinada aos nossos costumes ele consiga viver entre nós.
O garoto tinha um ponto válido, talvez os hábitos não nascessem com os Vleeds, mas fossem adquiridos. A compaixão e altruísmo do garoto de Rhea era deveras para serem louvados, pessoas com um coração assim eram muito raras. Theon meditou nas palavras do mais novo, a sua decisão poderia permitir que o Vleed continuasse a respirar ou não. Seria preciso um coração muito frio e cruel para matar uma criança…
— Executa essa aberração Theon! — Um dos velhos anciões cuspira o seu veneno. — Se esse pirralho recursar-se a entregar a criatura, mata-o também! — Os outros anciões apoiaram as palavras.
O rosto do líder da Tribo do Lago mascarou-se com fúria, a personalidade serena transformou-se perigosamente, apenas uma pequena amostra da razão que ele era um líder para temer. — Mantenha-se no seu lugar, ancião. Eu não sou manipulável como o meu pai, relembrem-se quem é que tem o poder.
Os anciões ficaram receosos, mas não deixaram intimidar-se. — Guerreiros! Peguem o garoto de cabelos brancos e a criatura!
Kain que permanecera quieto e silencioso ficou com o sangue fervendo com a afronta que os velhos fizeram ao seu pai. Viu os guerreiros olhando extremamente confusos, não eram aos anciões que deviam lealdade, mas eles detinham algum poder. Os olhares recaíram sobre o líder, esperando pela palavra dele.
O desafio à sua autoridade nunca era levado brandamente, Theon aproximou-se dos anciões perfurando os rostos enrugados com o olhar impetuoso. — Vocês por acaso estão senis? Surdos? Ou já estão sofrendo de alguma doença que vos faça ter a insolência de ordenar alguma coisa na minha tribo? — O líder exibiu toda a sua estrutura física para reforçar o que dissera, ele não era um homem necessariamente baixo ou fraco.
O seu físico ainda impunha algum respeito. Um das coisas que não tolerava era desrespeito à sua autoridade. — Desapareçam antes que vos faça beijar o chão.
A coragem dos velhos sumira como uma folha levada pela brisa. Theon virou-se para Caja, as suas feições suavizaram-se para o encarar. Dar o benefício da dúvida e ver até onde os jovens poderiam surpreender. — Caja, eu espero que entendas a responsabilidade que tens nos braços.
Alívio transpirava do garoto, os músculos doíam-lhe de toda a tensão. Theon ficara do lado dele, não conseguiu encontrar as palavras certas por isso simplesmente agradeceu. — Muito obrigado, líder.
— Kain, estarás encarregado de vigia-los e evitar que algo aconteça. — O líder achou por bem dividir a responsabilidade com o seu varão, experiência nunca seria demais.
Transformar um Vleed em um ser humano normal, retirar o desejo dele pela carne humana devia ser a coisa mais interessante que iria presenciar na sua vida.
— O quê? Por que é que tem que ser sempre eu? Não tem mais ninguém nesta aldeia? — Kain indignou-se. A sua maldita sorte estava certamente contra ele, nem todos os beijos que pudesse ter com Caja valeria essa dor de cabeça.
— Faz o que eu te digo sem reclamar pelo menos uma vez na vida, rapaz! — Theon rosnou, e o assunto terminou por ali.
— Sim, líder. — Kain aceitou o seu destino e virou costas, indo para a sua cabana.
Sendo logo seguido pelo garoto-flor, as coisas iriam ser bastante estranhas e tensas...
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