Desejos Primitivos
2 Pé, Fruta e Risos
Notas iniciais

Recuperando a consciência, começou a sentir o seu corpo bastante dolorido. Caja abriu os olhos piscando lentamente para acostuma-los com a pouca visibilidade. A fogueira continuava acesa, mas o dia já se levantara, porém o conhecido som da chuva chocava lá fora, a densa chuva continuava.
Ganhando coragem para levantar-se, e assim que o fez uma dor fenomenal estalou nos seus ossos, era doloroso dormir no chão sem o aconchego da palha. Massageando o pescoço, o garoto notou algo um tanto pesado sobre o seu colo.
Os olhos claros desceram para o sítio e semicerraram-se, ao ver uma tanga de pele que não era sua e deu-se conta que estava nu. Alarmado, relembrou-se dos acontecimentos da noite anterior. Assustado olhou em redor à procura da sombra maciça que vira, não havia sinal daquela pessoa. Pegou no pedaço de pele com as pontas dos dedos, realmente era uma grande tanga, caberiam duas pessoas como ele ali dentro.
Sem subtileza Kain retornava à caverna pisando fortemente nas folhas secas do chão, a chuva torrencial não desaparecera como esperava que acontecesse. Foi procurar comida, deixou o garoto delicado dormindo, para uma pessoa desmaiada ele dormia bastante. Não querendo incomodar o sono dele ao retirar a sua tanga que cobria-o, Kain saíra nu, apenas levando a sua arma presa numa liana às suas costas. Conseguiu alguns frutos, lesmas bem gordas e plantas afuniladas com água fresca.
Os seus passos estancaram quando viram o garoto acordado. — Já acordou?
Ao ouvir a voz tão rouca e masculina, os pelos do corpo de Caja arrepiaram-se, os olhos dele deslizaram para a potente figura e corou violentamente. Estendeu a mão que segurava a tanga na direção do homem, tremendo. A gaguez juntou-se à imagem do completo idiota que ele era. — A s-s-sua… desculpe.
Kain colocou os alimentos perto da fogueira, pegou na sua tanga e colocou-a, sem despregar os olhos curiosos da criatura peculiar. Caja catou a sua túnica e vestiu-a, levantando-se de um salto, todavia o seu tornozelo picou-lhe de dor. Na noite anterior ele não dera por isso, não se lembrava que torcera o pé, encontrar abrigo era mais importante. Com um gemido desequilibrou-se só não caiu porque os braços largos do homem amparou-o.
— Calma, não podes ir a lado nenhuma com o pé machucado e ainda mais com a chuva. – Kain repreendo-lhe, tentando forçar o corpo dele a sentar-se de novo, mas um odor fez com que os seus sentidos alvoraçassem. Inspirou pesadamente o odor do garoto, o seu cérebro identificou flores e terra seca pelo sol. Sem permissão, afundou o nariz na curva do pescoço fungando forte até ao ombro, como um animal fazia à sua fêmea.
Paralisado, Caja sentiu-se como um inseto amedrontado naqueles braços, a sua apreensão disparou quando libertinamente o homem começou a cheira-lo. Sentir o roçar do seu nariz na sua pele, a respiração quente dele, não era necessariamente isso que o incomodava. — P-pare com isso! Não sou uma fêmea!
O menor tentando libertar-se, embateu o seu cotovelo contra a parede de músculos do abdômen do homem. Mas infelizmente somente ele se magoou, o outro continuava como se nada fosse, o nariz inspirando a sua pele com deleite.
Nada incomodado com a cotovelada que o garoto lhe dera, já sentira picada de insetos mais fortes que aquilo, continuou a explorar a pele absurdamente clara, num transe incomum. Ele podia dizer que não era uma fêmea, mas cheirava como uma.
O estado de Kain fora quebrado, quando sentiu o pequeno corpo tremendo como se tivessem atirado o corpo dele à água mais fria do planalto. Recuperando a racionalidade da sua cabeça, o guerreiro largou o corpo magro de jeito bruto, buscando em toda a sua mente como devia prosseguir. A sua mãe ficava louca com a maneira selvagem e desprovida de sensatez na maneira como tratava os outros.
— Desculpa…? — Esse pedido de desculpa não tinha muita sinceridade, porque ele não estava arrependido, mas achou que deveria reforçar quando o coitado desequilibrou-se e caiu com a bunda no chão. — Peço muita desculpa…?
Agora não era somente o seu tornozelo que doía-lhe, a sua bunda fora beijada pelas pedras e pedrinhas mais aguçadas que havia na caverna. Não se envergonhou de fazer uma careta de dor e encher os seus olhos de lágrimas. Caja amaldiçoou o dia em que nascera e toda a infelicidade que vivera durante os seus dezasseis invernos. Faltavam apenas dois invernos para completar a maioridade, e se o seu pai desejar, assumir a liderança da tribo, mas com sorte ele morreria bem antes dessa tragédia acontecer.
Franzindo a testa morena, Kain não entendia o por quê dele estar chorando, simplesmente tinha caído no chão, cair no chão não era nada demais. O rosto do outro estava tão miserável que fez o interior insensível de Kain compadecer-se dele.
— Esses pedidos de desculpa são péssimos, desaparece. — O garoto tentava limpar as lágrimas grossas que teimosamente tentavam sair dos olhos azuis. Caja acostumado a remoer a raiva interiormente, deixou sair essas palavras sem pensar. Não era costume seu responder ou levantar a voz, o comportamento dele era de submissão e passividade doentia. Podia sentir que as lágrimas já não eram somente pela queda, agora a razão do seu vazamento era o mesmo de sempre, a sua inutilidade, mais uma vez se metera numa situação vergonhosa.
Pensou no seu pai, na ira contida que o líder parecia que quereria extravasar cada vez que cometia erros, Caja não se preocupava com a ira ou raiva, até a punição não assustava-lhe. Porém a preocupação do seu pai para consigo era paternal ao mais alto nível. O garoto não suportava causar dor ao seu pai, que fazia-se de surdo aos rumores sobre o seu filho, nunca colocando dúvidas quanto à sucessão de líder. Caja era o sucessor não importasse quantas enrascadas ou presas que ele se metia ou perdia. Chorar por ter o estigma de ser um peso morto para o seu povo, e lamentar-se sobre a sua existência, era muito mais doloroso do que rasgar a sua própria carne.
Kain agachou-se ao nível do garoto e segurou o rosto dele, as mãos de pele calejada e rugosa limparam as lágrimas sem ter muito tato ou delicadeza, os olhos verdes continuavam interrogativos. — Homens não choram. — Depois de fazer Caja acordar do seu choro, pegou na perna com o tornozelo magoado, outro ato sem muita gentileza. O jovem analisou o tornozelo, também franzino demais para um homem, e verificou o pequeno inchaço e vermelhidão na parte do osso. Ensinado na arte de saber fazer pequenas curandices, para aqueles males físicos que todos os guerreiros sofriam. Kain achou que tinha visto as plantas que precisava perto do lago onde fora buscar a água.
— Fica quieto enquanto eu vou buscar as plantas para o teu pé. Trouxe comida por isso coma. — Kain ordenou, recolocou a sua arma de pedra nas costas e saiu para o temporal em busca das plantas.
‘’Homens não choram… Sinto muito por me teres conhecido.’’ Caja massageava as suas bochechas depois do homem ter limpando o seu rosto, a sensação para ele era que tinha levado socos em vez de ter a suas lágrimas enxugadas. Deixou a sua cabeça afundar-se no espaço entre os seus joelhos fletidos, o garoto não fez o que o outro ordenou-lhe, não tocou na comida que fora trazida com custo por ele.
A visibilidade era bastante reduzida, pela chuva e pela velocidade a que as pernas de Kain permitiam-no atingir. Sem as trovoadas e raios para amedrontar os dinossauros eles regressaram à sua rotina. Principalmente os comedouros de plantas, na sua marcha lenta devoravam as copas das árvores, ruminando-as e deixando pedaços de troncos cair no solo. Um Velociraptor achando que Kain estava querendo competir, impulsionou-se numa corrida louca lado a lado com o humano.
Obviamente Kain foi deixado para trás comendo a lama que o animal levantava com as patas. Sabendo dos limites da natureza o jovem não ficou aborrecido por ter perdido para um ser vivo ser mais rápido que ele, chegou ao lago em pouco tempo. Vasculhou a vegetação à beira do lago, procurando a planta de folhas alongadas com pequenas flores purpura.
Os cabelos molhados colando ao rosto dificultavam a sua visão. Em dias de chuva a sua visão e audição teriam que ficar mais aguçadas e atentas, ataques surpresa aconteciam muito naquele clima, dando vantagem para os dinossauros carnívoros e desvantagem para os humanos.
Um vislumbre de cor purpura foi capturado pela visão periférica de Kain, desbravou as plantas abrindo caminho até à planta desejada. Arrancou folhas suficientes para a confeção do remédio para colocar na entorse do garoto. Pegou em algumas folhas de plátano e lianas para enfaixar o machucado, colocou tudo na bolsa de pele que trazia na cintura.
Fez o caminho de regresso com a mesma velocidade, desviando-se de árvores e por vezes passando por baixo dos animais gigantescos, os seus pés enterravam-se no solo enlameado o que dificultava bastante a locomoção. Nem isso o fez abrandar, só parou quando encontrou-se na entrada da caverna.
A mão áspera limpou a água do rosto, passou os dedos pelo cabelo castanho e sacudiu-os, salpicando as gotas por todo o lado. Por mais que o seu corpo estivesse treinado para enfrentar as adversidades, a força da natureza ganhava sempre. A frieza da água da chuva estava entranhando no seu corpo, junto com o suor da corrida, qualquer maleita que entrasse nos ossos, esse humano estaria condenado.
Kain andou até ao centro da caverna, onde o estranho garoto permanecia no mesmo sítio, com a cabeça baixa. ‘’Estará a chorar outra vez?’’ Um sentimento quase de repulsa dominou-o. Atirou a sua arma para o chão, desamarrou a bolsa da sua cintura e ajoelhou-se na frente dele, sem proferir nada. Pegou em algumas folhas verdes e colocou-as na boca, mastigando-as bem até formar a consistência precisa.
Kain detestava colocar qualquer espécie de ervas na boca, todas as destinadas a remédios eram penosamente amargas. Enquanto triturava as folhas, o jovem preparava as folhas grossas para enfaixar o tornozelo dele.
Permanecendo imóvel, Caja enrijeceu os ombros. Não atrevendo-se a espreitar para ver o que ele estaria fazendo. Apenas sentia os movimentos, mesmo não estando olhando diretamente para o homem, Caja podia sentir a aura dominadora, emanada pela presença que aquele corpo imenso transmitia. O garoto do cabelo branco engoliu em seco.
— Eu disse para comeres. — Kain reparara na comida e água intocada quando chegara. Os olhos verdes analisaram o corpo do garoto, os braços dele tinham a mesma grossura de uma criança de dez primaveras. Os garotos da sua tribo começam a aprender a desenvolver as habilidades de caçadores e guerreiros por essa altura. Realmente, Kain estava surpreso como é que ele tinha chegado à caverna sem um arranhão ou sequer chegado, seria um petisco ideal e fácil. Mas o que o surpreendeu é que ele tinha o colar indicando que era filho de um líder. Juntando as peças na sua cabeça, o jovem deduziu que ele tivesse fugido do seu clã.
Parando de encher a sua cabeça com coisas que não lhe diziam respeito, colocou uma folha na frente da sua boca e cuspiu as folhas transformadas em pasta. Fazendo um careta, a sua língua estava dormente e ácida as propriedades anestesiantes estavam ativadas. A seguir pegou no pé do garoto com brusquidão, torcendo a perna dele para facilitar a colocação da pasta.
Esse movimento fez Caja desequilibrar-se um pouco, levando as mãos ao chão a tempo de evitar chocar com as costas no chão. Claramente ignorou o que ele falara, não ia permitir que um estranho mandasse nele, não podia mostrar-se mais débil e fraco do que já era. Os olhos do garoto seguiam os movimentos dos dedos grossos tocando no seu pé. A habilidade tosca daquelas mãos grandes fazer um curativo, que requeria gentileza era hilária, nunca havia pensado que um guerreiro com aquele tipo de mãos conseguisse fazer algum gesto de gentileza, isso era impensável.
Mesmo assim uma certa fascinação pelo estranho cresceu dentro de Caja, certamente, ele tinha uma grande admiração por qualquer tipo de homem que fosse o contrário dele, forte e capaz. Os olhos dele desciam pelo corpo do moreno com certa inveja, cada cicatriz cravada na pele dele era como um marco de grande vitória. Caja imaginou quantas vezes aquele homem lutara pela vida e sobrevivera. Ao contrário de si, que ficava a maior parte da sua vida fechado no cerco da sua tribo, muito ocasionalmente saía com o grupo de caça, e em todas as vezes ele fazia algo e a caça do dia era perdida.
Mesmo dentro da tribo da floresta, as coisas não eram mais facilitadas, carregar os grandes cestos com legumes e fruta era um fardo para ele. Por isso, as mulheres da tribo compadecendo-se por ele e deram-lhe a tarefa de artesão, fabricar as roupas e utensílios de variado tipo. Caja ouvia constantemente as alfinetadas dos outros jovens, mais fortes que ele e recém-feitos guerreiros, debochando do seu trabalho simplista de mulher. Isso afetá-lo-ia mais se o que fizesse com as suas mãos fosse lixo, mas não era, Caja era bastante habilidoso em transformar matérias-primas em roupas e objetos bonitos.
O mesmo martírio sobre a pouca utilização que o filho do líder tinha, era quando chegava a época de acasalamento. Caja nunca participara em um dos rituais de desvirginamento, que outros da sua idade já faziam. Portando o futuro líder era virgem.
O que ele não notava, por frequentemente andar de cabeça baixa e olhos no chão, eram os olhares de cobiça de certos guerreiros, que na maioria das mentes deles pagariam com uma carcaça do maior dinossauro que existisse, só para poderem desfrutar do corpo intocado. Sem saber que o seu corpo valeria o peso de um dinossauro, Caja sentia-se muito feio, sem graça e indesejado. Por mais que ele não sentia-se atraído por mulheres, não sabia o que era ter desejo carnal, simplesmente conhecia a grande admiração que tinha pelos homens guerreiros e brutos.
— O meu nome é Kain. — Havia terminado o curativo, quando encontrou o garoto imerso dentro do seu espirito. Colocou o pé dele no chão e virou-se finalmente para a comida que estava perto da fogueira. Pegou em dois galhos afiados e enfiou duas grandes, gordas e suculentas lesmas em cada uma, e colocou-as no fogo.
Caja demorou a processar o que o outro dissera, recompondo-se, apressou-se a responder, porém em voz baixa. — Caja. — De repente fitar a bainha da sua túnica era muito mais interessante que o seu nome.
— Caja?! Os teus pais devem odiar-te mesmo, nome de flor em um homem? — Kain arrematou enquanto revirava os galhos nas mãos, a fim de evitar que as lesmas ficassem torradas.
As palavras de Kain perfuraram o cérebro de Caja como milhares de espigões. Não era como se não tivesse um fundo de verdade naquele que ele dissera. Tinha vezes, que agradecia aos deuses da morte por ter levado a sua mãe, assim ela não sofreria ao ver o fraco que era, quanto ao seu pai poderia ver a desilusão nos azuis, os mesmos olhos que ele herdara. O rosto de Caja ficou imutável, aquele estranho teve a coragem de dizer-lhe na cara o que muita gente remoía por dentro, mas a possibilidade de seu pai odia-lo acrescentava um peso bastante sofrível no seu peito.
Alheio ao terror mental do garoto branco, Kain estendeu-lhe um dos galhos com as lesmas assadas, fez isso de tal modo que por pouco não enfiou o galho no rosto de Caja. Este sobressaltado torceu o nariz para a lesma, mesmo assada e seca o bicho parecia-lhe ainda viscoso, não iria comer aquilo, dava-lhe náuseas. — Podes come-las, eu não me importo. Vou comer isto. — Caja pegou numa das frutas sem realmente estar vendo a sua escolha, por sorte ele reconhecia a fruta que tinha na mão, disso ele gostava.
Muito pouco incomodado pela recusa do outro, significava mais para si, Kain sentou-se no chão cruzando as pernas musculadas e atacou as lesmas sem fazer grande cerimônia. Uma única dentada arrancou a lesma completa do galho, mastigando com deleite. Outra coisa estranha que notara no garoto branco, ele também era esquisito com a comida, além de chorar tinha frescura com a comida. Os olhos verdes do guerreiro repousaram no colar do garoto, imaginando de qual tribo ele viria, não ia perguntar isso, não precisava. Naquele momento os dois eram companheiros necessitados de um abrigo, e não inimigos.
Kain somente abrira quatro vezes a boca, uma por cada lesma, não completamente satisfeito atacou as frutas que restavam, deixando apenas uma idêntica ao que Caja estava comendo, caso ele quisesse outra. Mais tarde teria que sair para caçar o jantar, carne seria uma boa opção para dormir bem e com o estomago aconchegado.
Pasmo, Caja viu o apetite animal do moreno, triturando e engolindo toda a comida. Ele próprio ainda estava na metade da sua fruta, como era algo grande, sumarenta e polpuda, demorava imenso tempo a come-la, e precisava de um cuidado extra para retirar os espinhos roxos da casca. Resumindo estava todo sujo com o suco roxo e ainda estava na metade, os seus maxilares não eram tão velozes e destruidores como o de Kain. Por isso dedicou-se a ser invisível como sempre e terminar a sua fruta.
— Qual é a tua idade? — Kain perguntou distraído, estar no silêncio enquanto tinha companhia era tedioso. Esticou as suas pernas e cruzou-as uma sobre a outra, limpou a boca no seu braço e acariciando o seu estomago meio cheio. Esperaria até amanhã para a chuva passar, caso contrário iria na mesma, não era bom angustiar a sua mãe, a mulher era mais brava que dois triceratops chocando os chifres por uma fêmea.
Caja limpou o canto dos lábios com o braço antes de responder. — Dezasseis invernos.
Arqueando as sobrancelhas, Kain olhou para o garoto achando que estaria brincando com ele. — Falta apenas dois invernos para a maioridade e contínuas igual a uma garotinha indefesa?
Virando o rosto na direção de Kain, Caja piscou diversas vezes pensando que a boca dele não era capaz de conter nada lá dentro. O garoto nunca se sentira tão humilhado com palavras, ele precisava ir embora dali urgentemente. — Nem todos poderemos ser como você, e com a sua destreza de quarenta estações não precisa humilhar os mais fracos. — Caja arrematou usou um tom dirigível aos mais velhos.
— Quarenta estações? Só tenho dezasseis verões. Não te estou humilhando, só disse o que estou vendo. — Kain riu, nunca parou para pensar muito no seu aspeto, mas devia parecer muito mais velho do que era na realidade. O ar bobo de Caja acentuou-se, o seu rosto parecia querer cair no chão com o espanto, aquele homem era da sua idade. O complexo de inferioridade acentuou-se mais no íntimo do garoto.
A natureza chamou Kain, não poderia ser contida. Levantou-se e andou até à parede contrária onde estava, com uma mão afastou a tanga enquanto com a outra segurou no seu pênis apontando para a parede da gruta aliviando-se. A sensação de alívio foi imediata.
— Urgh! Faz isso lá fora! — Caja torceu o nariz. Não era lógico urinar no sítio onde eles dormiam. Realmente todos os guerreiros tinham a qualidade ‘higiene’ no nível nulo, escasseavam desse aspeto básico. Mas não havia problema com isso, os verdadeiros machos tinham as mulheres para cuidarem dessas tarefas corriqueiras de higiene entre outras. Nisso, Caja tinha orgulho, ninguém faria as coisas pela vez dele.
— Não tenho vontade de me molhar só para mijar. — Kain foi até Caja estava e colocou um dedo da mão que usara para segurar o seu pênis, na ponta do nariz dele e pressionou-o, provocando. — Eu espero que tu não estejas te segurando para não ir mijar. — O sorriso de Kain foi petulante.
O ato de ter a ponta do nariz pressionada fez Caja ficar com uma expressão cômica, para depois dar um tapa na mão do moreno. — Seu porco. — Pensando no quanto ele era fácil de ler, estava exatamente assim como Kain dissera.
A gargalhada grave de Kain encheu as paredes da caverna, ele riu até as lágrimas se formarem nos seus olhos. A situação em si, nada tinha de engraçada, mas aquele garoto parecia tornar as situações mais estranhas em cômicas. O jovem guerreiro encostou-se na parede rochosa, Caja realmente era um ser estranho.
Perdendo o apetite, Caja colocou a sua fruta inacabada a meio em cima do amontoado de folhas, e fez o mesmo que Kain, escorou-se na parede. Todavia andar com o seu pé machucado era árduo, imitou a posição do moreno, sentado de pernas fletidas e abertas, braços pendendo em cima dos joelhos.
Kain olhou para ele e recomeçou a rir em troça dele, aquilo definitivamente não combinaria com ele. O guerreiro já apercebera-se que Caja não se encaixava entre os homens nem entre mulheres, seria metade dos dois, sendo até raro. Grosseiro, Kain puxou o pé machucado dele para descansar no seu colo, não ligando muito para Caja ter sido arrastado e caído no chão. Um pouco de dor tornaria o corpo somente mais forte.
''Como posso ir embora amanhã e deixa-lo aqui…'' Kain matutou enquanto observava se as folhas enfaixadas estavam no lugar. A perna pálida e torneada não passaram despercebidos aos olhos verdes, se fosse a perna de uma mulher Kain não tinha problema em lambe-la. — Vamos para a minha tribo amanhã. Eu te levo para lá, depois estás por tua conta e ir embora se quiser.
Caja franziu a sua testa, não sabendo se era certo ele levar um estranho para a sua tribo. A ideia era tentadora, conhecer novas pessoas e lugares. Voltar para o confinamento da sua tribo não era muito apelativo. Pessoa pobre em espirito de aventura, Caja tomou uma decisão radical que antes fá-lo-ia tremer. — Tudo bem. Eu vou, com a condição de eu poder ficar o tempo que quiser.
— Claro, flor. — Rindo, Kain deu um tapa estalado na perna do garoto. Iria regressar a casa não com um animal morto, mas com outro bicho estranho. A sensação que teria que vigia-lo durante dia e noite predominava dentro dele.
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