Notas iniciais
[Narrado por Leo]

[LEO]

Corremos para o avião, o último chamado para embarcar já tinha sido dado. Quase perdemos o voo.

– Ah, William, quase me esqueci de lhe entregar o que havia me pedido. – estendi a mão com um envelope branco não muito pequeno que passava por entre meus dedos.

– Está certo! – exclamou após checar o que tinha ali dentro – Obrigado, Leo. – agradeceu e dava para sentir o contentamento em suas palavras.

Os olhos oblíquos de Juliana observavam o papel, tentavam adivinhar o que estava contido no envelope, mas eles só conseguiam especular e isso a estressou, mas foi um estressa interno, consegui notar isso em suas pupilas.

Sentei no assento do corredor e William estava ao meu lado. Juliana sentou relativamente longe de nós. Recostei minha cabeça no travesseiro que o comissário de bordo havia entregado, cerrei meus olhos e perdi-me em meus sonhos.


Voltava ao apartamento de meus pais em Ipanema, o Sol já estava a pino, minhas mãos seguravam um pen drive que armazenava minha ida a Londres. Gritei de felicidade em meus pensamentos.

Quando já tinha chegado a minha residência, pluguei o pen drive na televisão e a desliguei. Eu estava eufórico e sozinho, apenas eu e o hostil negrume que ocupava a casa por completo.

Eu tinha um plano em mente que se mesclava com meu desejo de ir à Inglaterra e eu não iria desistir de nenhum deles.

Minha mãe cruzou a porta e um sorriso amarelo pôs-me em meu rosto.

– Oi, mãe! Demorou a chegar em casa, se o papai soubesse por onde você esteve… — balancei a cabeça em sinal de reprovação.

– Não sei do que você está falando. – minha mãe soou convincente enquanto vasculhava sua grande bolsa.

– Não sabe? Então ligue a televisão. – pausei e entreguei-a o controle – Vamos, pegue!

Ela o fez. Irritou-se, suas mãos, suas pernas, seu corpo em geral gelaram, mamãe parecia estar petrificada.

No visor da televisão passava um filme erótico caseiro.

– Leo! – soluçou, seus olhos saltavam de suas órbitas. – Co-como você consegui isso? — gaguejava, aquele nervosismo fez-me alegre, começava a sentir-me realizado.

– Agora que você e meu pai cancelaram a minha mesada, eu preciso de dinheiro para ir a Londres. – levantei meu corpo do sofá de camurça. – Cinquenta mil reais.

– O quê?! – revirou os olhos em minha direção. – Você está me chantageando?

– Cem mil libras é melhor? O que você acha?

– Não lhe darei dinheiro! – gritou.

– Que pena que papai precisa saber da traição, será tão triste ver vocês divorciados.

– Não. Não faça isso! Eu lhe darei essa quantia, mas suma desse país. – pegou um talão de cheques que acabava de encontrar na bolsa. – E tudo o que lhe ensinei?

– Tudo que você me ensinou? – ri em ironia. – Tudo que estou fazendo agora eu aprendi observando as façanhas de meus queridos pais.

Peguei o cheque e o pen drive. Retirei-me de casa e fui direto ao banco. Era tal satisfação, uma felicidade tão intensa que se misturava com as minhas emoções mais sombrias.

Antes de ir ao aeroporto passei em casa, peguei minha mala e me despedi de Amanda, a amante de meu pai e uma amiga minha. A vida de minha família era repleta de mentiras e armações, veem-nos como a família perfeita e ideal, mas isso é apenas fachada, não é sentimento verdadeiro e honestidade. Arrependo-me pelo que fiz, mas foi necessário e então o arrependimento foi-se de mim. Eles não são dignos de pena.

- Vou para Londres, mas antes tenho que passar no escritório de meu pai. Sentirei falta das nossas noites. – beijei-a, desci o elevador e trocamos o último olhar.

Cem mil libras não iria ser o suficiente para mim, então resolvi que passaria no escritório de meu pai a fim de fazer uma visita de negócios.

Entrei em sua sala, a mesa larga e longa de vidro que eu já conhecera faz tempo surgia no cômodo ao abrir a porta, ao seu lado havia uma estante não muito alta e um quadro de Monet cujo nome não me recordo.

Atrás daquela pintura impressionista encontrava-se um cofre, Henrique possuía dois, um em casa e outro no escritório, mas em nossa residência não sabia o local nem a senha da caixa de metal.

Cerrei a porta cuidadosamente e fui interrompido por passos largos no corredor quando tentava abrir o cofre.

Corri para debaixo da mesa, a maçaneta girava lentamente, era meu pai que entrava no escrito, era Henrique. Gelei, escondi-me atrás de uma mesa de vidro, apenas a cadeira preta que tornava difícil encontrar-me.

Caminhava de um lado para o outro e discutia com alguém no celular, apertei meus joelhos contra meu estômago, queria levantar, sair dali, mas não podia, o sacrifício valeria a pena.

Ele saiu do cômodo, saí debaixo da mesa com cautela e abri o cofre, retirei uma quantia significativa em dólares. Fugi do escritório e segui para o aeroporto, já estava atrasado. William deveria estar me esperando.


Acordei assustado, pulei do banco do avião.

- Está tudo bem, Leo? – perguntou William apreensivo.

- Sim. – respondi ainda confuso – Foi só um pesadelo.

Não tinha sido um sonho nem um pesadelo, mas uma lembrança de como ele tinha consegui o dinheiro para viajar.

O avião estava pronto para pousar, o piloto ordenou a todos que apertassem o cinto e Londres surgia ao longe.