Desejos
2 The Addicted
Notas iniciais
[WILLIAM]
– Calem a boca! Estou tentando estudar! – gritei do quarto, porém não me escutaram.
Toda a noite era a mesma coisa, minha mãe sempre brigava com meu padrasto e ele com mamãe. Os escândalos já tinham se tornados banais para mim. Levantei da cama e fui ao quarto de Luíza, que já se encontrava dormindo, peguei-a no colo e voltei a meu quarto.
Bati a porta com objetivo de não escutar a discussão, mas não obtive sucesso, eles aumentaram o volume.
Coloquei minha irmã mais nova na minha cama e peguei meu iPod e os fone de ouvido, ouvia One Direction no volume máximo e retomei os estudos.
Alessandra separou-se de meu pai há sete anos enquanto ainda estava grávida e depois ela se casou novamente só que dessa vez com Carlos.
Estudei muito, a matéria estava bastante difícil e a prova seria a algumas horas, já era madrugada.
Quando o silêncio reinou, andei até o quarto de meus pais e Alessandra dormia profundamente com uma garrafa de uísque vazia em sua mão esquerda, peguei-a e joguei fora, mamãe fedia a álcool. Na sala, Carlos dormia nu no sofá de camurça, resmunguei em meus pensamentos, bebi um copo d’água.
Como minha irmã poderia crescer em uma casa como aquela?, pensei, nossa mãe é uma alcoólatra e nosso padrasto é um exibicionista que raramente veste roupas quando está em casa.
Acordei atrasado para a prova escrita e oral em inglês que eu teria que fazer para conseguir ser transferido para a faculdade em Londres. Tomei banho e vesti-me rapidamente, meu estômago estava vazio, mas cheio de borboletas.
Saí de casa e todos ainda estavam dormindo, era quase dez horas, por isso resolvi pegar um táxi.
A pesar de o exame estar difícil, obtivi pontos necessários para a transferência, excitei-me por dentro, agora só restava esperar pelas aulas que só irão começar na segunda semana de fevereiro do ano que vem e ainda é dezembro, quase janeiro.
Entrei em casa com o coração apertado só de pensar que deixaria minha irmã aqui e com os lábios cerrados.
– Oi, filho! – Alessandra cumprimentou-me como se nada tivesse acontecido de madrugada.
Permaneci calado durante todo o curto percurso da porta da entrada a meu quarto, Luíza acordou quando pisei no chão do cômodo e fitou-me com os olhos entreabertos e um sorriso largo em seu rosto de porcelana.
Abracei-a contra meu peio, ela era mais que uma irmã para mim, tratava como se fosse minha filha, afinal nossa mãe era uma irresponsável, e eu não queria magoar seu coração tenro ao dizer que teria que ir a Londres. Tentei esquecer um pouco disso por um tempo, a Europa ainda estava um pouco distante.
– Vamos tomar um banho? – disse a ela que ainda estava sonolento em meu colo. Guiei-a ao banheiro.
Saí do banheiro e fui reclamar com Carlos que assistia ao futebol.
– Vista-se!
– O que foi?
– Vista alguma roupa, uma bermuda pelo menos. Minha irmã não é obrigada a ver você nu andando pela casa, ela é uma menina.
Os olhos de Alessandra e seu marido dirigiram-se a mim confusos.
– Ande logo. Vista-se! Se minha mãe não manda você a por roupas, eu irei ordenar.
– Ora, eu não aceito receber ordens de um moleque como você. – levantou-se do sofá, ele era mais alto e mais robusto do que eu, mas não me senti intimidado.
– Carlos, faça o que William está mandando. – ele me metralhou com seu olhar e foi para o quarto.
– Mãe, você precisa fazer alguma coisa…
– Mas eu não vejo nenhum problema nisso. – dei uma leve risada irônica
– Assim como você não vê nenhum problema em ficar bêbada quase todas as noites, voltar tarde da rua e discutir com Carlos quase todos os dias?
Alessandra não tinha o que falar, fui até o banheiro e deixei meu padrasto reclamando sobre como eu era mimado. Tirei Luíza do banho, ela demorou muito.
Almocei com ela na rua porque não tinha nada para comer em casa e minha irmã deveria estar morta de fome assim como eu. Assistimos a uma peça infantil e só voltei à noite para casa com Luíza dormindo em meu colo, estava precisando relaxar um pouco e esquecer os problemas e ela, se divertir.
– Mãe, precisamos conversar sobre suas atitudes. – sentamo-nos à mesa. – Eu te amo muito e me preocupo demais com você, então, por favor, eu lhe imploro, pare de beber.
– William, o que é isso? Você fala como se eu fosse uma doente, uma viciada em álcool.
– Prometa-me que não vai mais beber durante um ano? Apenas um ano e depois poderá voltar a beber só que com menos frequência.
– Claro, meu filho, se isso fizer você feliz eu prometo.
Alessandra abraçou-me e beijou minha bochecha, depois a contei sobre o resultado da prova de hoje de manhã, ela ficou orgulhosa de mim, choramos um pouco por causa da saudade que iríamos sentir um do outro, mas mesmo sim ficamos felizes.
Dezembro seguiu cheio de esperança e alegria. O Natal foi engraçado e eu testemunhei algo que há muito tempo não acontecia ali, a família toda, com exceção de meu pai, estava reunida no apartamento de minha tia. No Ano Novo, passamos na residência de uma amiga de mamãe na Lagoa, a queima de fogos foi bela e inenarrável, o céu negro foi pintado por diversas cores umas fortes e outras fracas.
Janeiro voou, queria poder petrificar o tempo, congelar os momentos bons e esquecer os ruins, viver apenas na alegria da vida, mas isso é para mim uma realidade longínqua. Na última semana de janeiro, quando tudo parecia estar indo bem, uma bomba explode em minha casa, peguei à queima-roupa Alessandra apreciando uma garrafa de vodca que estava quase no fim. Ela pegava outras escondidas atrás dos vários pacotes de arroz
– Você mentiu para mim. – poças formavam-se aos poucos nos meus olhos – Você nunca parou de beber.
– Will – assustou-se, uma garrafa caiu de suas mãos e se quebrou ao entrar em contato com o chão áspero. – Não é bem assim…
– Quanto tempo você ficou sem beber?
– Hoje foi minha recaída. – respondeu-me com um sorriso amarelo em seu rosto.
– Diga a verdade pelo menos uma vez! – chorava as poças de meus olhos gota a gota.
– Eu só consegui ficar uma semana e alguns dias não bebi, outros, só um pouco.
– Eu confiei em você – as gotas transformaram-se em finos rios de lágrimas que marcavam meu rosto. – Mas como fui um idiota em acreditar que você poderia ser capaz de cumprir suas promessas, sempre menti para mim, durante toda a minha vida.
– Will, perdoe-me – começou a chorar desesperada – Perdoe sua pobre mãe. – jogou-se no chão. Alessandra sempre foi muito teatral, porém dessa vez eu não iria ser benevolente.
Retirei-me da cozinha e voltei para o quarto, fiquei sem sono depois disso tudo e resolvi arrumar minha mala.
– Filho, podemos conversar? – mamãe abria a porta de meu quarto vagarosamente.
– Para quê? Para você arranjar desculpas e fazer promessas que não poderá cumprir – sussurrei, não queria acordar minha irmã.
– Dê-me apenas uma chance, só mais uma chance.
– Não. Não darei mais chances, cansei de ser enganado o tempo todo, cansei de sempre lhe dar chances. — pausei, minha mala já estava toda arrumada. No armário havia apenas umas roupas velhas que era para eu ficar em casa. – Semana que vem irei à Inglaterra e eu levarei Luíza para morar na casa de sua irmã, não há mais condições para ela viver nessa… Nunca houve.
As palavras doíam mais em mim no que nela, doíam física e emocionalmente.
– Não judie de mim. – lancei-lhe um olhar de reprovação.
– Deixe-me sozinho.
O quarto tornou-se frio, meu corpo enfraqueceu, deitei ao lado de minha irmã, pensei na vida. Chorei um choro que vinha do fundo de meu âmago. Relutei contra o sono que surgia gradativamente, mas ele foi mais forte do que eu, não resisti à tentação de dormir.
O dia da viagem chegou, os diálogos com minha mãe eram poucos e eu me sentia mal por isso. Despedi-me de Carlos e Alessandra. Levei Luíza para a casa de minha tia que a acolheu sorridente.
Explique todo que estava acontecendo para minha e que eu teria que ir a Londres, ela chorou rios de lágrima.
– Eu prometo que quando eu acabar os estudados e comprar uma casa lá, eu voltarei ao Brasil para te buscar. – abraçou-me de modo apertado, ela não queria me largar e eu também não gostaria de fazê-lo. – Preciso ir agora, te amo. – beijei seu rosto e ela finalmente tinha me soltada, os olhos estava inchados e seu rosto brilhava por causa do muco.
Acenei. Foi um adeus doloroso e melancólico.
Acabei de comer a porção de batatas fritas com queijo cheddar depois de explicar toda minha história, ou parte dela.
– E por que você está indo para Londres com uma semana de antecedência? – elaperguntou-me antes de tragar um gole firme do suco de laranja que desapareceu do copo.
– Não consegui resistir à ansiedade. – rimos – Você ainda não me disse seu nome?
– Ah, desculpa. Sou Juliana! – descansou seu cabelo castanho sobre o ombro direito.
Paguei a conta e voltamos à zona de embarque, logo entraríamos no avião. Virei o rosto e vi, ao longe, meu amigo caminhando em minha direção, finalmente chegou.
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