Notas iniciais
[Narrado por Juliana]

[Juliana]

O céu nublado, ora plúmbeo, ora argênteo, impedia os raios solares de tocarem o fino tapete de neve que se formava no Green Park.

A Família Real, o chá, o Palácio de Buckingham, o Big Ben, o Green Park, London Eye… formavam e marcavam a história da capital Inglesa.

Era tudo tão perfeito, tão bonito, tão agradável e harmonioso, para mim Londres é apenas um sonho, uma utopia real e distante.

Cheguei ao ápice da adolescência, cheguei ao início da fase adulta, era o meu aniversário, era o dia da minha liberdade e dependência. Liberdade de meu pai, dependência do trabalho.

Até os dezoito anos nunca tinha trabalho, meu pai sempre me deu tudo, tudo que ele julgava necessário, conservador demais, religioso mais ainda.

Começarei a faculdade, cujo curso não importa, daqui a alguns dias. É janeiro, o calor aqui me castiga, lá o frio os acolhem.

Meu desejo de morar em Londres é inteligível para meu pai, ufanista e militar. Atualmente, habito a Urca, sempre foi sonho de meu pai assistir perto do trabalho e eu estudo no mesmo bairro, a faculdade encontra-se há poucos metros de casa.


Voltei da aula exaurida, o Sol já se pusera e a Lua ainda estava escondida na triste escuridão que é o céu à noite. Atravessei a porta de casa amuada, pensava no dai seguinte, nas aulas, na correria e no emprego que eu deveria procurar.

– Filha, preciso falar com você. – Márcio se levantou do sofá, Juliana fitou seus olhos cor de marfim.

– Pai, vamos deixar essa conversa para depois. – pausei, minhas pálpebras impediam as lágrimas de cair. – A faculdade hoje foi exaustiva.

– É sobre o seu presente que quero falar. – resolvi dar-lhe atenção. – Desde que você era uma criança eu tenho juntado dinheiro em uma conta poupança e quando você fizesse dezoito anos, o que foi há seis dias, presentear-lhe-ia com a quantia de cem mil reais para ajudá-la a comprar um apartamento, um carro… Ajudar a começar uma vida nova.

Senti a emoção em suas palavras lhanas e seus olhos ensopados, abraçamo-nos e eu o agradeci. Jantamos ali perto e a noite seguiu serena.


Pensei no que eu iria fazer com o dinheiro, ir a Londres. Márcio, obviamente, não aceitaria a minha escolha, resolvi que sacaria tudo que tinha na minha conta, antes que meu pai pudesse fazer algo. Fui ao banco.

Os dias tornaram-se cruéis comigo, eu sabia que ir à Europa não era uma tarefa fácil, enfrentarei meu pai pela primeira vez, abandonarei a faculdade que eu estudei muito para conseguir entrar. Arrumei minhas malas com a minha consciência abalada, aquilo era mesmo necessário?

Resolvi conversar com meu pai, seria o momento da despedida e eu não queria magoar meu pai, mas se eu não o magoasse eu que iria continuar vivendo infeliz. Comprei a passagem de avião, agendei o quarto no hotel para ter coragem de ir falar com Márcio.

– Pai, eu não sei como vou falar isso. – o nervosismo preencheu-me, minhas mãos estavam trêmulas e minhas pernas, bambas.

– Pode falar. – Márcio não desviava seus olhos do jornal, ignorou-me, como ele podia ser tão cruel com sua própria filha? Encorajei-me.

– Você me ama?

– Claro, Juliana! – fitou-me incrédulo.

– Você ainda me amaria se eu fosse contra uma ordem sua?

Demorou a responder, eu sabia que a resposta seria não, mas ele permaneceu calado e eu não insisti.

– Pai… — respirei fundo – Eu vou morar em Londres – as palavras escaparam de minha boca.

Márcio ficou de pé, seus olhos iníquos não me deixaram amedrontada.

– Você sairá da faculdade para seguir um sonho bobo! – gritou.

– Não fui eu quem escolhi essa faculdade, nunca foi meu sonho fazer direito. – retruquei no mesmo tom.

– Fale baixo! Eu sou seu pai – ordenou, seus olhos saltavam de seu rosto.

– Você não é meu pai. Você é um déspota. – parei de gritar, sabia que não havia necessidade.

Márcio ficou enfurecido, arqueou uma de suas sobrancelhas e eu resisti à dor que seus dedos causaram-me ao tocar meu rosto.

– Foi por isso que mamãe te deixou, você pensa que nós pertencemos a você e que não temos direito a escolher o que achamos melhor. – peguei as malas e dei a última facada antes de cruzar a porta – Adeus… Márcio!


Sentei na areia fofa da Praia Vermelha e observei o mar e o céu, parei de olhá-los quando os dois se misturaram, não consegui separar a água das nuvens. Sequei as lágrimas que contornavam as maças do meu rosto.

A pesar de estar de madrugada, a praia encontrava-se relativamente movimentada, havia muita agitação, conversas, bebidas… Os ponteiros corriam no relógio e eu nem percebi que já deveria estar no aeroporto.

Andei até a Avenida Pasteur para pegar um táxi, minhas malas bateram em várias pessoas que reclamavam sem saber quem foi.

– Boa noite, qual o destino? – o taxista olhou para mim pelo retrovisor, os olhos eram azulados, a cabeça, calva, seu rosto, marcado pela idade e suas pálpebras inferiores estavam manchadas pelo trabalho árduo até tarde.

– Aeroporto Tom Jobim.

O fluxo dos carros impressionou-me, não havia engarrafamento, o trânsito permaneceu sem congestionamento desde a Zona Sul ao aeroporto. Agradeci em silêncio a Deus.

Dei ao motorista uma gorjeta de cinco reais, entrei no aeroporto e fiz o check-in, saquei da bolsa um livro para esperar o momento de embarcar. O voo atrasou.

Levantei do banco desconfortável e andei até uma fila que se formava ao redor da porta de embarque. Fiquei incrédula e perguntei o motivo de tamanha confusão a um rapaz branco que aparentava ter a mesma idade que eu.

– Dizem que o voo será cancelado.

– Por quê? – franzi minha testa sem acreditar no que meus ouvidos ouviam.

– Não sei ao certo, acho que por causa do tempo ou a aeronave está com problemas técnicos.

– Senhores, por favor, mantenham a calma! – uma voz feminina finalizou o alvoroço que se formava ao redor. – Em dentro de uma hora os problemas já devem estar resolvidos e o voo não será cancelado, só é necessário um pouco de paciência. – finalizou, a gritaria retornou em forma de protesto.

– Não, isso não pode estar acontecendo. – virei-me para o rapaz. – Se o voo for cancelado eu não terei onde pernoitar, não posso voltar para casa depois de ter brigado com meu pai. – solucei – Desculpa! Nós mal nos conhecemos e já estou eu reclamando de minha vida e sendo completamente chata.

– Prazer, sou William. Você não está sendo chata, entendo que está nervosa e preocupada.

– Ah, Obrigada.

– Vamos comer alguma coisa? Assim podemos conversar e nos conhecer melhor. – seus olhos castanhos claros miraram os meus e um sorriso largo estampou-se em seu rosto.

– Claro!