Desejo Noturno
13 Escolha o Seu Lado
Notas iniciais

“Uma guerra está prestes a começar. Decida de uma vez do lado de quem irá ficar”.
Victor Forbes
Eu não aguentava mais aquela agonia. Já se passavam dois dias desde que Julliet havia sido atingida pela bala de verbena e ainda não tinha acordado uma vez sequer e, além disso não tínhamos recebido nenhuma notícia sobre Caroline.
Eu havia ordenado que a procurassem por toda cidade, mas mesmo assim não encontraram absolutamente. Eles a levaram para fora da cidade.
Eu caminhava de um lado para o outro na sala, a ira me dominava cada vez mais. Como isso é possível? Como os caçadores chegaram até nós? Dúvidas e mais dúvidas surgiam em minha mente a cada segundo. Estava prestes a sair eu mesmo por ai caçando um a um desses malditos caçadores. A porta se abriu e Enzo juntamente com Alice e Daniel entraram.
—Vocês a encontraram? — indaguei esperançoso de alguma notícia.
—Não. Ela não está aqui, provavelmente os caçadores que a pegaram a tiraram da cidade. — suspirou Enzo, cruzando os braços.
—Eu e minha família iremos sair hoje e procurá-la fora da cidade. — informou Daniel, em seu rosto estava estampado sua aflição. Eu sempre fui contra o casamento entre lobisomens e vampiros, mas mesmo assim ele a amava.
—Mas porque levaram a Caroline? Ela é a mais discreta, na verdade é praticamente impossível descobrirem que ela é uma vampira. Parece tanto com uma humana. — disse Alice. Ela tinha razão, Caroline era muito diferente de nós mas idêntica aos humanos em absolutamente tudo. Não havia como alguém descobrir sobre ela.
—A Alice tem razão. Se descobriram sobre Caroline foi porque alguém a entregou. — Assim que pronunciei minhas palavras Enzo teve uma estranha reação. Ele se tonou imóvel e tinha uma expressão de choque.
—Essa não! — exclamou ele, levando as mãos à cabeça irritado consigo mesmo.
—O que foi? — indagou Daniel, assim como nós o olhando sem entender absolutamente nada.
—Foi a Julliet, foi ela que entregou a Caroline. — respondeu ele.
—Não pode acusar a sua irmã desta maneira. — o repreendi. Não podia ser, minha filha não era uma traidora. Ela e Caroline nunca se deram bem, mas entregar sua própria irmã era algo abominável demais.
—É verdade. A Julliet estava morrendo de ódio da Caroline, ela queria se vingar. — afirmou ele, novamente sustentando a ideia de Julliet ser a responsável.
—Por que a Julliet estava com ódio da Caroline? — perguntou Alice.
—Por causa do humano. — Ouvir aquilo acendeu novamente a minha ira, um humano entre as duas. —A Caroline não fez o que você pediu, ela não apagou a memória do Dean e a Julliet ficou furiosa quando a viu mentir para você. Ela queria que ele odiasse a Caroline, por isso eu sei que foi ela. — Ela tinha mentindo descaradamente para mim, então as duas não passavam de mentirosas. Quando eu pensei que já havia escutado tudo, ele continuou. — E eu também acho que a Julliet está apaixonada pelo Winchester.
—Malditas! — vociferei irado. — As duas me traíram. Por mim eu deixaria que uma morresse nas mãos dos caçadores e a outra que nunca mais acordasse. — Além de mim os outros dois pareciam furiosos com a revelação, principalmente Daniel. Ambas apaixonadas pelo mesmo homem, Dean Winchester. Espere. Winchester. — O amado de suas irmãs é um caçador. — gritei para Enzo que ficou ainda mais petrificado com minhas palavras.
—A Julliet acordou. — informou minha esposa entrando sorridente na sala.
—Eu vou matá-la. — disse saindo as presas em direção ao quarto dela. Todos me seguiam e Enzo caminhava ao meu lado tentando me convencer do contrário.
—Pai, eu sei que ela errou mas não pode fazer isso. — insistia ele.
—Quem diria que você se tornaria o melhor filho. Era Caroline que costumava me dizer essas coisas. O que elas fizeram é imperdoável, preferiram um humano a sua própria família. — eu estava irremediável, entrei no quarto quase destruindo a porta. Julliet estava em pé e por sua expressão já havia escutado a discussão.
—Pai, eu... — antes que ela pudesse continuar a segurei pelo pescoço, ansioso para matá-la.
—Por favor, Victor, não faça isso. — implorou Leonor já aos prantos.
—Pai, pare. Está cometendo um erro. — gritou Enzo. Cada vez mais eu apertava o pescoço de Julliet, seus olhos suplicavam por piedade. Mas em todo o meu ser não havia uma gota sequer de misericórdia.
Enquanto eu estava ali, prestes a matar minha própria filha algo veio à minha mente. Daniel e Alice sempre foram próximos de Julliet, mas naquele momento não disseram uma palavra sequer para que eu poupasse sua vida. Com a revelação da traição de Caroline eles obviamente se viraram contra nós, não éramos mais todos uma família e sim vampiros e lobisomens. Assim que encontrássemos Caroline, Daniel a mataria e se eu matasse Julliet agora, seriam duas poderosas vampiras a menos para nossa espécie. Eu a odiava. Mas precisávamos dela, a soltei e ela caiu ofegante no chão.
—Enzo vá até a casa de Ellen. — ordenei a Enzo que de imediato assentiu.
—O que quer que ela faça, pai? — perguntou ele.
— Mande-a encontrar Caroline.
✵
Caroline Forbes
Eu não aguentava mais. Sentia a todo momento que estava prestes a morrer, eu calculava que haviam se passado dois dias. Nunca pensei que poderia sentir tanta dor de uma só vez. A verbena queimava, o único sangue que corria em minhas veias era o de homem morto, que me mantinha fraca e além disso haviam as inúmeras facas que atravessavam meu corpo diariamente.
Porém o pior de tudo era o sol, eu perdi as contas de quantas vezes por dia ele abria aquela janela e deixava que a luz invadisse queimando minha pela, aquela sem dúvida alguma era uma dor insuportável. Mas eu ainda acreditava que poderia sobreviver a tudo aquilo.
O que realmente me destruía e me fazia querer morrer, era vê-lo daquele jeito. Como era possível, o homem tão gentil e divertido por quem eu me apaixonei ter se tonado um monstro, eu costumava pensar que vampiros e lobisomens eram maus mas isso foi antes. Antes de conhecer a maldade dos humanos.
Dean andava tranquilamente na minha frente, ele mergulhava uma faca em um pote com água de verbena. Entre uma tortura e outra ele me contou que esteve no inferno e havia se tornado um torturador das almas condenadas. Era isso o que eu havia me tornado para ele, uma alma condena que ele teria o prazer de torturar dia após dia. Seu olhar frio e cruel foi levado até mim, antes mesmo que eu pudesse olhá-lo ele cravou a faca em meu peito. A dor era terrível, a lâmina me cortava enquanto a verbena me queimava. Mas eu não estava mais disposta a ser fraca diante dele, eu sofria em silêncio, sem nunca gritar.
—Não precisa bancar a durona, Caroline. Nós dois sabemos o quão fraca você é, senão não teria dito os nomes com tanta facilidade. — disse ele sorrindo enquanto se sentava diante de mim.
—Você deveria ter continuado no inferno. — balbuciei sentindo a dor diminuir. Assim como o amor dele diminuía cada vez mais por mim o mesmo acontecia com o meu amor por ele. Eu começava a odiá-lo.
—Não deveria ser tão malcriada. — murmurou ele, cravando ainda mais a faca em meu peito. Eu me segurei ao máximo para não gritar. —Ops! É mesmo, eu duvido que tendo pais vampiros você tenha sido bem criada. — zombou ele, mas eu ainda me esforçava para me manter tão indiferente quanto ele.
—E por acaso os seus pais são melhores do que os meus? — indaguei ciente de que o irritaria mas não ao ponto em que ele ficou. Ele me lançou um olhar sanguinário, como se tivesse cometido o maior erro da minha vida ao dizer aquelas palavras.
—Quando eu tinha quatro anos a minha mãe morreu, na verdade ela foi assassinada. Queimada no teto. — murmurou ele apertando os olhos, com certeza era uma lembrança muito dolorosa. —O meu pai ficou louco com isso, ele queria encontrar o responsável pela morte dela. Por isso se tornou um caçador e levou eu e o meu irmão para essa vida.
—Irmão? — perguntei, completamente surpresa. Eu nunca soube que ele tinha um irmão, ele jamais o mencionou.
—Sim, o nome dele é Sam. Quando você desapareceu eu decidi me tornar caçador e depois de um tempo o Sam decidiu o mesmo. O meu pai desapareceu por um ano inteiro e nós o procuramos e quando finalmente o encontramos, sofremos um acidente e eu estava prestes a morrer, mas ele salvou a minha vida, ele deu a alma dele para que eu vivesse. — sua voz era baixa e falha, pela primeira vez um poderoso sentimento parecia me dominar. Eu suspeitava que fosse tristeza, eu nunca pensei que ele tivesse passado por isso, ele suspirou e continuou. —E um ano depois a história se repetiu, o meu irmão, Sam. Ele era um tipo de escolhido pelos demônios para abrir os portões do inferno. Eu passei dois dias inteiros procurando por ele e quando finalmente o encontrei ele levou uma facada nas costas e morreu. — ele fechou os olhos e algumas lágrimas passaram a escorrer por seu rosto e apesar de tudo o que ele havia me feito eu estava sofrendo por ele. — Assim como o meu pai eu fiz um pacto para salvá-lo, mas aquela maldita demônio me enganou e o deixou morrer e em um ano depois eu fui arrastado para o inferno.
Ele se levantou encerrando sua trágica história, Dean ficou de costas para mim mas eu podia vê-lo secar suas lágrimas. Depois de tudo o que ele havia sofrido com sua família, de ter sido preso no inferno e condenado a uma vida solitária de caçador eu o tinha enganado, por quinze anos ele amou uma Caroline que não existia. Eu fui cruel a ponto de mentir para ele, eu o fiz sofrer mas agora ele também me fazia sofrer. Finalmente eu entendi, nunca poderá existir amor entre um humano e uma vampira.
De repente a porta se abriu e três pessoas entraram: uma jovem moça de cabelos loiros segurando uma arma, um homem mais velho vestido como um caminhoneiro e o outro também era mais velho, de pele negra e com um bigode, ele parecia bravo.
—Finalmente te encontramos. — suspirou a moça.
—Jo, Bobby e Rufus, o que estão fazendo aqui? — indagou Dean, imagino que ele não esperava pela visita deles. Em poucos segundos constatei que eles também eram caçadores.
—Viemos te buscar, seu idiota. Que ideia imbecil foi essa de sequestrar a princesa vampira? — disse um dos homens, acho que era o tal Bobby.
—Olha Bobby, é uma longa história. — disse Dean, provavelmente tentando fazê-los ir embora. —Mas eu não vou sair daqui.
—Você vai sim. O Bobby me obrigou a vir para cá, dizendo que você corria risco de vida e precisa da minha ajuda. Então não tem discussão vamos logo para que eu possa voltar para a minha casa. Detesto ficar em cidades sobrenaturais. — resmungou o Rufus, ele me olhava desconfiado.
—Eu já disse que não vou. — gritou Dean já exasperado com a insistência de seus amigos.
—Dean, há dois dias atrás um dos nosso tentou atirar em Victor Forbes mas acabou acertando a filha dele, Julliet. Hoje ela acordou e soubemos que foi ela quem te contou a verdade, deve ter te hipnotizado para esquecer. Mas o que importa é que tem vampiros e lobisomens vindo para cá, agora. — informou a moça. Eu apenas ouvia atentamente, com certeza meu pai já sabia que eu menti para ele e que Dean é um caçador.
—Está bem, eu vou. — murmurou Dean, finalmente aceitando ir. Ele apanhou uma mochila onde guardou todas as suas armas, os outros três saiam enquanto ele se virou para mim, por um breve momento não vi ódio em seus olhos mas sim tristeza. Ele se virou e saiu do quarto me deixando completamente sozinha.
✵
Como havia sido dito pela moça os vampiros chegaram. Eram muitos, provavelmente meu pai tinha reunido todos para me procurarem. Daniel foi o primeiro a entrar, assim que me viu correu até mim, me soltando. Ele parecia diferente um pouco mais distante, mas ainda sim muito preocupado comigo.
—Você está bem? — indagou ele, acariciando brevemente meu rosto.
—Estou. — respondi dando um rápido sorriso.
—É verdade o que disseram sobre você e o humano?
—Sim. — ao ouvir minha resposta, seu olhar mudou. Era frio e indiferente, ele se virou e saiu da sala antes que eu pudesse dizer algo.
—Problemas no paraíso? — perguntou Enzo entrando sendo acompanhado por meu pai, minha mãe e Julliet.
—Oi mãe. — sorri ao receber o abraço de minha mãe. Ao me dela separar levei o olhar ao rosto furioso de meu pai. — Pai, eu... — antes que eu pudesse continuar recebi um violento tapa no rosto.
—Não ouse me chamar de pai. — vociferou ele, sua voz era repleta de ódio. — Vocês duas não são mais minhas filhas, são apenas vampiras e eu sou o líder de vocês.
—Sim, senhor. — eu e Julliet assentimos. Ele jamais falou daquela maneira comigo, eu nunca quis ganhar o ódio do meu pai mas agora eu havia ganhado o ódio de todos.
—Uma guerra está prestes a começar. Decida de uma vez do lado de quem irá ficar. — disse ele com desprezo, voltando os olhos para mim. — Da próxima vez que eu ver o Winchester eu irei matá-lo na sua frente. — ameaçou ele saindo da sala.
Dean Winchester
Havíamos retornado para o esconderijo dos caçadores, eu não conseguia ficar com eles como se nada tivesse acontecido. Três deles morreram por minha culpa, preferi ficar do lado de fora observando o céu e brigando comigo mesmo. Desde que eu descobri a verdade não estava mais sendo eu mesmo. A cada dia eu me tornava mais frio e cruel, era dominado pela raiva e o ódio. Durante toda a minha vida só aconteceram coisas ruins, uma pior do que a outra. Caroline sempre foi minha lembrança boa em meio a toda essa merda que eu chamo de vida, tudo podia ser uma mentira, todos podiam ser ruins mas ela era a única que se salvava em tudo isso. Ela era a melhor. Que triste engano, ela era sem dúvida o pior que já me aconteceu. Eu amo uma vampira.
—Tudo bem, garoto? — perguntou Bobby se aproximando de mim.
—Tudo ótimo. — respondi num irônico, deixando evidente o quanto achei essa pergunta idiota.
—Ok. Talvez essa não tenha sido uma boa pergunta, mas não pode fazer isso. Você acabou de descobrir que a garota que ama é uma vampira, precisa conversar com alguém sobre isso. — disse ele. Eu estava com um humor péssimo e sinceramente eu detestava ouvir conselhos que eu não tinha intenção alguma de seguir.
—Então, você quer que eu abra o meu coração pra você e te conte o quanto eu estou triste, magoado e arrasado pela Caroline ter me enganado e que ela partiu o meu frágil coração em mil pedaços. E depois de muito chorar a gente se abraça e esquece de todo o sofrimento. — Eu não consegui guardar a minha revolta apenas para mim e descontei nele com toda a ironia que há em mim. Ele apenas revirou os olhos ignorando tudo o que eu disse.
—Você pode mentir o quanto quiser mas essa garota quebrou o seu coração. — murmurou ele, em seguida retornando a casa.
—Eu não tenho coração há muito tempo. — sussurrei a mim mesmo.
—Que pena saber disso, eu estava ansioso para arrancá-lo do seu peito. — ao ouvir a voz virei imediatamente, me deparando com Daniel e pelo seu olhar ele estava ansioso para me matar.
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